12:48
janeiro 9, 2010
Num mundo onde tudo apita, o foco é privilégio de poucos. Como permanecer num esforço contínuo quando tudo parece arrastá-lo para longe de si. Mensagem, foto, elo, ligação, vídeo, cores e formas para desfocar. Cada dia parece menor, transbordando informação pelas bordas. Em 10 anos essa plenitude fragmentária do mundo será ainda mais intensa, até lá espero ter aprendido a lidar com ela.
Lá e Cá
janeiro 8, 2010
De São João das Missões a Bocaiúva.
Sem Photoshop, sem foco, sem frescura.
“Break your heart. Shake your blood.”
janeiro 7, 2010
Azul
janeiro 6, 2010
Danação
janeiro 5, 2010
Só cura o que arde.
…aquilo que te torce por dentro, sabe como é meu filho? As tripas ficam com um buraco, as veias saltam, as carnes tremem e os olhos lumeiam feito lanterna em caça. Duas tochas brilhando noite adentro, fogo regado de cachaça. No rumo do olho tava ela, mulher que nem nunca tinha visto. Descalça e suja, jeito de menina moça, andando enrolada nos panos… pedindo ajuda a qualquer cristão.
Naquele tempo eu viajava até a capital pra tratar de um mal na perna. Coisa que contraí em mal serviço, acidente. Mancava, doía, pesava. Chegava num ônibus, num caminhão, e caminhava arrastado, até o dia amanhecer e a boa vontade do médico permitir consulta. Tinha vez que atrasava, passava dois, três, quatro dias esperando. Eu vagava por tudo quanto é lugar, sinuca, abrigo, bebida, marquise, praça, cantos onde Deus está e onde ele não alcança.
Dormi em garagem de gente decente, em cama de devassidão. Comi o que tinha de comer e bebi o que podia pagar. Lá naquelas ruas debaixo, vi um homem perder a carteira. Outro levar garrafa na cara, todo cortado de vidro. Eu só queria passar até o dia que fosse.
Num desses lugares tortos foi que vi aquela, já meio com a cabeça pesada. Cabelo liso, pele escura, olho bem pequeno. Dei a ela todas as moedas que tinha, pus a mão no bolso pra caçar uma nota de 10 cruzeiros. Aquela menina não entendia nada.
“Deixe aí o que for, carece não moço. Obrigado.”
Ela ia saindo e eu lhe segurei o braço, dum jeito meio bruto, cheio da urgência. Peguei aquela nota amassada, abri a mão dela e coloquei lá. Num instantezinho, olhei ela no olho. Bateu uma tonteira, coração saltava que ia pular fora. Não largava o braço dela nem apertava… ela apertou ‘queles olhos ainda mais e deu um sorrisinho de um bocado de dentes brancos e bonitos.
Entende o que é isso? Já teve uma benquerença desse tamanho? É quando o mundo se desfaz em coisa pequena. É quando o Diabo atiça sem Deus que lhe proteja. Um homem simples feito eu, sei muito dessas coisas não. Meu pai dizia que mulher que se quer é mulher que se deixa. Amor é feito ferida: coça e mata.
“A moça não devia tá na rua a essa hora.” Falei, pra não dizer outras coisas. E ela não disse nada, me pegou pela mão, me arrastou pra fora de lá. Começou a chover, trovão rompeu. Água descia, ela me puxava e eu mancava, dor cortada na base do copo.
Numa esquina, ruas cheias d’água, ela debaixo da luz dum poste. Abaixou a cabeça, encabulada e me tomou com os braços. Minha boca encontrou a dela e fiquei lá, sem tempo, sem água, sem noite, sem nada. Só a moça.
Carro cortou, buzinando. Olhei pra ela e ia falar qualquer coisinha, mas nunca falei. A moça me largou, caminhou pro outro lado da rua, passo lento. Quase manquei atrás, seduzido, pescado no beijo, cheio de calores.
No outro lado, um rapaz tomou a moça pela mão. Parei tomado em confusão, no meio da rua, sem saber o pra onde ir. Ela me olhou, acenou e sumiram deibaixo da sobra de uma marquise.Não se engane o senhor que voltei a beber com a mesma cara: gente simples também sofre amor.
Aquela moça, tanto engano, tudo escorria. Meus bolsos, revirados, não havia dinheiro lá. Era roubo, era paixão?
Só Deus sabe, é tudo o mesmo.
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Mais:
Deus não é pai, não é brasileiro, não é um piadista. Não curte minissaias, não gosta de drinks, não anda de bicicleta. Deus não é elegante, não é asseado, não é onívoro. Não gosta de preliminares, não faz exercícios, não leu o livro. Deus, se existe, é uma espécie de aliciador de menores em algum fliperama gerenciado por um casal de taiwaneses alcoólatras e coniventes. Porque ele paga algumas fichas, deixa você se divertir e, quando menos você espera, ele quer colocar seu rabo. E Deus não tem senso de humor algum. Essa parte de conseguir levar as coisas mais absurdas e inesperadas e rir de tudo, isso fica inteiramente por nossa conta.
Vendido #11
dezembro 7, 2009
Quem está mais errado: aquele que nunca se move, que não é afetado por nada, ou aquele que é sensível, suscetível demais, sempre pronto a se atirar num precipício? Nenhuma dessas pessoas existe, são figuras, metáforas de estados de espírito que podem afligir qualquer fulano ou fulana. Todo mundo passa por um momento de frieza absoluta, todo mundo se desespera algum dia.
O engraçado na história toda é que sentir é tipo se drogar. Explico: a viagem pode ser boa ou ruim e, no fim das contas, ainda sobra a ressaca. Ou pior, a seqüela.
XsXdXrX me disse que eu era frio. “Você nunca diz que ama”… e não disse mesmo. XlXcX me disse que eu era dependente “Você sempre diz que ama” … e era o que eu fazia. Não entendo porque nunca disse nada do tipo a XsXdXrX, talvez por um medo diferente daquele que me fazia dizer isso o tempo todo a XlXcX. Com a última eu tinha um tipo de urgência afirmativa… vai saber se eu sentia aquilo mesmo.
Com XmXndX tudo é diferente. Dizer qualquer coisa parece patético, não dizer também. Como descrever alguém para quem essas coisas não têm a mínima importância? Ela não treme, não hesita e, Deus sabe como, parece não ter inseguranças. Lidar com ela têm sido fácil desde o primeiro dia, não por uma questão de submissão ou docilidade: é certeza.
Acordei ao lado dela numa sexta-feira, fedendo a álcool e sexo. XmXndX se levantou, fez um café pra nós dois e disse, como se não fosse nada de mais, que havia gostado de mim. “Vamos sair mais. Se a gente se acertar, podemos namorar.” Eu engasguei. Quem é que diz algo assim nos dias de hoje? Eu tinha pensado a mesma coisa, sentido a mesma coisa, mas porque diabos eu diria isso a ela? Não, eu ia deixar aquele apartamento e ligar pra ela de novo em alguns dias, ia chamá-la para sair caso se mostrasse disposta.
Mas não… XmXndX tem um tipo de honestidade inédita pra mim. Quem é que fala esse tipo de coisa? Achei que ela fosse ingênua ou carente mas o fato era outro. XmXndX não tinha medo de sofrer, não tinha medo da ressaca nem da seqüela, não era fria nem suscetível.
E por isso tudo me sentia muito pequeno perto daquela mulher.
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Calafate
outubro 20, 2009
23:51
outubro 20, 2009
Nos meus sonhos o sol sempre está encoberto, seja por nuvens ou pela noite. Pensei que isso fosse comum a todo e qualquer sonho, dada sua natureza nebulosa, mas descobri que é uma peculiaridade dos meus. Neles abundam paisagens distorcidas, prédios velhos, viadutos, locais em construção, poeira, fumaça. São um espelho ainda mais decadente desse mundo, uma projeção do irreversível.

































































