Calafate

Outubro 20, 2009

23:51

Outubro 20, 2009

Nos meus sonhos o sol sempre está encoberto, seja por nuvens ou pela noite.  Pensei que isso fosse comum a todo e qualquer sonho, dada sua natureza nebulosa, mas descobri que é uma peculiaridade dos  meus. Neles abundam paisagens distorcidas, prédios velhos, viadutos, locais em construção, poeira, fumaça.  São um espelho ainda mais decadente desse mundo, uma projeção do irreversível.

L’Afrique Fantôme

Outubro 15, 2009

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NIGERIA

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“Me and the Devil”

Outubro 7, 2009

Cérebro de Lagarto

Outubro 5, 2009

Zine com os quadrinhos pós-surrealistas do Perna e outros. Disponível para download aqui.

Brazzzil

Outubro 2, 2009

“zzz…”

Fiquei incomodado com a escolha do Rio de Janeiro para Sede das Olimpíadas de 2016. Nada contra o Rio em si, até gosto bastante, tudo contra a canalha que finge que administra a cidade. Que deu as mãos com o crime organizado e terceirizou boa parte das vilas e favelas na mão dos comandos. Aí tem aquela de que o tráfico é culpa do usuário, do playboy da PUC, e só o Capitão Nascimento pode nos salvar. Preguiça… um problema monumental como o tráfico de drogas e a violência que dele decorre só pode ser culpa de todo mundo, ou não ter culpado. A última fronteira do cinismo está nessa de que problemas estruturais são única e exclusivamente culpa das pessoas. O Rio é uma cidade turística com Bangladesh e Suécia no mesmo município. As autoridades são conhecidas por suas empreitadas faraônicas – alguém se lembra do Guggenheim? – e não parecem muito preocupadas com o resto. “O Rio é lindo” e isso basta. Aparentemente Minas anda seguindo a mesma onda, com a Brasília do Aécio e as denúncias envolvendo Inhotim. Em tempo de faraó (pós)moderno a pirâmide é bilionária.

Mas não é sobre isso que eu quero falar. Eu estava online enquanto o COI votava, ocasionalmente prestando atenção ao Twitter – essa fantástica ferramenta de reclamação em tempo real. Logo após a divulgação do resultado alguns usuários começaram a comemorar e outros nem tanto. Em meio a isso o Zander escreveu “temos uma capacidade infinita de auto-depreciação e de subserviência. eterna colônia, nunca achamos que auto-afirmação é bom“. Admito que num certo sentido eu concordo com ele. Mas é disso que se trata o incômodo? É disso que se tratam as reclamações? Também, mas não só. Pelo menos no meu caso não tem nada a ver com isso.

Começando do começo: ufanismo enche o saco, vira desculpa para tudo passar. Somos o país do Carnaval lalalalá. Somos o país das Olimpíadas lalalalá. Tenho a impressão que a maioria dos brasileiros que se dizem orgulhosos de viver aqui não conhecem meio dedo além de onde vivem. Saem da cidade em que moram para passar férias em algum lugar “turístico” e não fazem qualquer questão de saber sobre o que existe adiante. Abusam da desinformação e da ignorância quando vão opinar sobre qualquer assunto. Gosta de soluções fáceis para tudo. Odeiam “gente pobre” – categoria que curiosamente inclui qualquer um que seja oriundo de certos lugares “longínquos”.  Agora, na hora da porra da Copa do Mundo eles saem com suas cornetas e bandeiras, chorando de orgulho de serem brasileiros e etc. Quando o Brasil perde o jogo e você continua na sua, eles berram na sua cara “caralho, você não é brasileiro não?”. Não estou exagerando, já aconteceu comigo.

É o ufanismo Galvão Bueno. Nacionalismo, enquanto louvor à pátria, é o que há de pior. Se quiser ter algum orgulho do que você é, mantenha-o longe das franjas do Estado – e da televisão. Gosto dessa ficção chamada Brasil, e gosto muito, só não entendo o que é “esse orgulho de ser brasileiro”… deve ser uma invenção dos publicitários.

Fogo de Telha

Setembro 29, 2009

01:26

Setembro 28, 2009

A constatação da própria insignificância é um momento de brutalidade e doçura. Saber que você é mais um, ou menos um, na multidão. Que não é especial, que não é especialmente querido, que não é referência para ninguém. Que é só aquele um pouco chegado de todos e muito distante de tudo. Há um instante de pânico sublime, de vulnerabilidade total, quando se pensa que a qualquer momento é possível deixar de existir. E não digo morrer, mas sumir da memória das pessoas. Desaparecer sem deixar rastro ou legado. Perceber que sua vida é só um emaranhado desprovido de sentido, motivação ou direção. Esforço ou mérito caem diante da coincidência. O lugar certo, a hora certa. E então um meio sorriso cria a chave, o mapa, o traçado, as cores de tudo. E nada brilha tanto quanto parece. Todos os ídolos têm pés de barro. Os anjos já caíram e as amantes são rameiras. Arte é para afetados e a música para os desgraçados. As pessoas estão em seus pequenos universos desinteressantes… vivendo a utopia do dinheiro, das drogas, de Jesus. Alienação é a palavra mais usada num contexto de soberba – seria uma palavra de alienados? Não importa. Tudo segue fora de escala, fora de foco, fora de esquadro.

Vendido #10

Setembro 25, 2009

Esperar nunca foi meu forte. A idéia de ter que ficar inerte quando algo importante está em jogo me causa tremores, náusea. Os médicos dizem que é um ataque de ansiedade e me recomendam remédios que não tomo. Nunca.  E acima de tudo esperar cansa, arrebata em desânimo, destrói um pouco a todo minuto. A espera é uma espécie de combustível da paralisia, esse câncer incurável.

E é por isso que eu tremia enquanto esperava XdrXXnX. Ela estava uns vinte minutos atrasada e não atendia o celular. Eu sabia que não fazia qualquer sentido ficar naquele estado. Mas a sensação de impotência era meio absurda. Onde é que ela estava? O que estava fazendo? Ela morava tão perto dali…

Uma amiga costumava dizer que isso era ciúme. Que eu, inconscientemente, sempre imaginava minhas mulheres me traindo nessas situações. Mentira, eu nunca fui ciumento. O que se passava em mim era algo bem pior… imaginava que ela podia ter sido seqüestrada ou que tinha desaparecido como uma dessas pessoas dos cartazes na rua. Não era ciúme, era um delírio paranóico.

E eu sabia disso. E eu nunca conseguia fazer parar.

Às vezes eu começava a relembrar de algumas coisas pelo começo. Filmes, por exemplo. Pegava a primeira cena de “O Poderoso Chefão” e tentava ir reconstituindo o resto do filme na minha cabeça. Às vezes eu chegava a lembrar de uma fala ou outra. Outras vezes eu tentava listar o nome de todas as pessoas que eu conheço, estabelecendo certos círculos de relações. A letra de uma música dos Rolling Stones, o nome daquela atriz de um seriado obscuro que passava na Bandeirantes, a marca de cigarros mais vendida no Paquistão, a lista dos presidentes do Brasil, o tempo que gasto me deslocando do trabalho para casa por semana, o que comi nos últimos 20 dias, etc.

E não, eu nunca fui obsessivo. Conheci pessoas com transtornos pesados: necessidade de apagar e acender luzes em determinada ordem, ações arbitrárias tomadas por causa de vozes… Nos casos de espera eu ficava esperando pela minha camisa de força. Os braços doíam, o estômago revirava e eu andava sem parar, erraticamente.

A toda hora XdrXXnX parecia despontar na esquina, na janela do ônibus, num carro, no horizonte. Uma vez eu abracei uma estranha achando que fosse minha ex-esposa. Ela riu, me olhou por inteiro e, enquanto eu pedia mil desculpas, ofereceu seu telefone. Deslizou pra longe de mim e eu percebi que ela nem se parecia com XnX LXXsX. Mais que me turvar a visão, a ansiedade fazia de mim um tipo de idiota.

XdrXXnX demorou e demorou. Minha ansiedade chegava a um ponto crítico. Não sei porque, resolvi ligar para XmXndX, a moça que eu havia abraçado por engano dois anos antes.

“Alô?”

“Oi.”

“Quem é?”

“Isso é meio estranho.”

“Quem é?!”

“Te abracei por engano há uns dois anos, perto da Praça XX XXXXXXXXX.

“Ah! Não acredito! GXbrXXL!”

“Pois é…”

“E porque é que você está me ligando tão de repente?”

“É que eu lembrei de você hoje.”

“Por quê?”

“Ah, estou perto daquele lugar esperando de novo.”

“Hahaha. Sua esposa não presta, não é?”

“Não mesmo. Faz um ano que separei dela.”

“Sério?”

“E você me deu seu telefone mesmo sabendo que eu era casado…”

“Ah, não sou ciumenta. Mas agora você está solteiro e me ligando, olha só.”

“Hahaha.”

“Então, quem você está esperando hoje?”

“A moça com quem ando saindo.”

“Anda saindo … sei.”

“Juro.”

“Não é sua namorada?”

“Nada… ninguém gosta dessa palavra hoje em dia.”

“E então, quanto tempo faz que você está aí?”

“Agora completou uma hora e 6 minutos.”

“Nossa, suas mulheres realmente gostam de te fazer esperar.”

“E você é pontual?”

“Não exatamente. Mas de 30 minutos em diante já é dar bolo.”

“Concordo.”

“Acha que ela vai aparecer?”

“Não sei. Ela não atende o celular.”

“Que escrota.”

“Fico com medo de ter acontecido algo grave. Sei lá.”

“Como o quê?”

“Ah, ela ter sido seqüestrada, atropelada, etc.”

“Sei. Te digo que só minha mãe se preocupa assim comigo. E ela é uma senhorinha de cabelos brancos que mora bem longe daqui, na roça.”

“É, posso estar exagerando mesmo.”

“Com certeza. Então, hoje é sábado e eu tô de bobeira. Se ela não aparecer você pode vir tomar uma cerveja comigo, hein?”

“…”

“E então?”

“É uma boa mesmo.”

“Pois então, eu moro na XXX XXX XX XXXXXXX, número XXX, apartamento XXXX.”

“É perto de onde eu moro.”

“Jura?”

“Sim.”

“E como eu nunca te vi por lá?”

“Não faço idéia.”

“Então, espera mais um pouquinho aí e me liga. Mas não demora muito porque eu não vou te esperar.”

“Ok. Um beijo.”

“Outro!”

“Com quem você estava falando?” Era XdrXXnX do meu lado. A ansiedade tinha passado, a obsessão também. Olhei pra ela, meio sem saber o que dizer. Nem queria perguntar onde é que ela esteve e porque tinha demorado tanto. “Ah, era uma amiga antiga de colégio” foi tudo o que eu pude dizer.

Ela me beijou no rosto. “Desculpa pelo atraso. Encontrei a NXcX e o marido dela no caminho, a barriga dela tá enorme. Falei tanto com ela que perdi a hora. Só agora eu vi que você me ligou umas vinte vezes.”

“Não tem problema não. Aqui, você acha que lá vai até mais tarde? Queria chegar cedo em casa para adiantar algumas coisas de trabalho”. Eu não podia acreditar no que estava fazendo, mas fazia assim mesmo.

“São os meus amigos. Se você quiser ficar só um pouco lá e ir pra casa não tem problema.”  Me tomou pelo braço e fomos caminhando. Eu, já estava em outra direção.

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Vendido #0

Vendido #1

Vendido #2

Vendido #3

Vendido #4

Vendido #5

Vendido #6

Vendido #7

Vendido #8

Vendido #9

Antes do almoço

Setembro 25, 2009

Setembro 25, 2009

Quando um governador anuncia que um determinado ministro é “veado e fuma maconha” já se configura uma grosseria sem limites. Afirmar então que pretende “correr atrás e estuprar” o tal ministro caso ele apareça em sua cidade é o absurdo em sua forma pura. Recentemente o governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, dirigiu essas doces palavras a Carlos Minc, Ministro do Meio Ambiente. Não gosto do Minc, não acho que ele tem metade da força e da coerência que Marina Silva tinha no cargo. Também não quero escrever sobre política ambiental.

O que me incomoda é o fato de Puccinelli ter feito uma declaração mais escabrosa do que o “estupra mas não mata” de Maluf e isso ter passado batido. A fala dele não só têm um teor homofóbico no mais alto grau como também me parece uma espécie de apologia ao estupro. Fora a réplica do ministro – que basicamente disse que o governador devia sair do armário – não houve qualquer reação negativa. Porra, o cara disse que ia ESTUPRAR o outro e não havia qualquer metáfora envolvida. Alguém aí conhece alguém que foi estuprado? Tem noção de que tipo de violência o ato envolve? Das conseqüências para a vítima?

Pois.

Agora além de ladrões e assassinos, temos estupradores em potencial na política do Brazzzil.