Deus não é pai, não é brasileiro, não é um piadista. Não curte minissaias, não gosta de drinks, não anda de bicicleta. Deus não é elegante, não é asseado, não é onívoro. Não gosta de preliminares, não faz exercícios, não leu o livro. Deus, se existe, é uma espécie de aliciador de menores em algum fliperama gerenciado por um casal de taiwaneses alcoólatras e coniventes. Porque ele paga algumas fichas, deixa você se divertir e, quando menos você espera, ele quer colocar seu rabo. E Deus não tem senso de humor algum. Essa parte de conseguir levar as coisas mais absurdas e inesperadas e rir de tudo, isso fica inteiramente por nossa conta.
Vendido #11
Dezembro 7, 2009
Quem está mais errado: aquele que nunca se move, que não é afetado por nada, ou aquele que é sensível, suscetível demais, sempre pronto a se atirar num precipício? Nenhuma dessas pessoas existe, são figuras, metáforas de estados de espírito que podem afligir qualquer fulano ou fulana. Todo mundo passa por um momento de frieza absoluta, todo mundo se desespera algum dia.
O engraçado na história toda é que sentir é tipo se drogar. Explico: a viagem pode ser boa ou ruim e, no fim das contas, ainda sobra a ressaca. Ou pior, a seqüela.
XsXdXrX me disse que eu era frio. “Você nunca diz que ama”… e não disse mesmo. XlXcX me disse que eu era dependente “Você sempre diz que ama” … e era o que eu fazia. Não entendo porque nunca disse nada do tipo a XsXdXrX, talvez por um medo diferente daquele que me fazia dizer isso o tempo todo a XlXcX. Com a última eu tinha um tipo de urgência afirmativa… vai saber se eu sentia aquilo mesmo.
Com XmXndX tudo é diferente. Dizer qualquer coisa parece patético, não dizer também. Como descrever alguém para quem essas coisas não têm a mínima importância? Ela não treme, não hesita e, Deus sabe como, parece não ter inseguranças. Lidar com ela têm sido fácil desde o primeiro dia, não por uma questão de submissão ou docilidade: é certeza.
Acordei ao lado dela numa sexta-feira, fedendo a álcool e sexo. XmXndX se levantou, fez um café pra nós dois e disse, como se não fosse nada de mais, que havia gostado de mim. “Vamos sair mais. Se a gente se acertar, podemos namorar.” Eu engasguei. Quem é que diz algo assim nos dias de hoje? Eu tinha pensado a mesma coisa, sentido a mesma coisa, mas porque diabos eu diria isso a ela? Não, eu ia deixar aquele apartamento e ligar pra ela de novo em alguns dias, ia chamá-la para sair caso se mostrasse disposta.
Mas não… XmXndX tem um tipo de honestidade inédita pra mim. Quem é que fala esse tipo de coisa? Achei que ela fosse ingênua ou carente mas o fato era outro. XmXndX não tinha medo de sofrer, não tinha medo da ressaca nem da seqüela, não era fria nem suscetível.
E por isso tudo me sentia muito pequeno perto daquela mulher.
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Calafate
Outubro 20, 2009
23:51
Outubro 20, 2009
Nos meus sonhos o sol sempre está encoberto, seja por nuvens ou pela noite. Pensei que isso fosse comum a todo e qualquer sonho, dada sua natureza nebulosa, mas descobri que é uma peculiaridade dos meus. Neles abundam paisagens distorcidas, prédios velhos, viadutos, locais em construção, poeira, fumaça. São um espelho ainda mais decadente desse mundo, uma projeção do irreversível.
L’Afrique Fantôme
Outubro 15, 2009






“Me and the Devil”
Outubro 7, 2009
Brazzzil
Outubro 2, 2009
“zzz…”
Fiquei incomodado com a escolha do Rio de Janeiro para Sede das Olimpíadas de 2016. Nada contra o Rio em si, até gosto bastante, tudo contra a canalha que finge que administra a cidade. Que deu as mãos com o crime organizado e terceirizou boa parte das vilas e favelas na mão dos comandos. Aí tem aquela de que o tráfico é culpa do usuário, do playboy da PUC, e só o Capitão Nascimento pode nos salvar. Preguiça… um problema monumental como o tráfico de drogas e a violência que dele decorre só pode ser culpa de todo mundo, ou não ter culpado. A última fronteira do cinismo está nessa de que problemas estruturais são única e exclusivamente culpa das pessoas. O Rio é uma cidade turística com Bangladesh e Suécia no mesmo município. As autoridades são conhecidas por suas empreitadas faraônicas – alguém se lembra do Guggenheim? – e não parecem muito preocupadas com o resto. “O Rio é lindo” e isso basta. Aparentemente Minas anda seguindo a mesma onda, com a Brasília do Aécio e as denúncias envolvendo Inhotim. Em tempo de faraó (pós)moderno a pirâmide é bilionária.
Mas não é sobre isso que eu quero falar. Eu estava online enquanto o COI votava, ocasionalmente prestando atenção ao Twitter – essa fantástica ferramenta de reclamação em tempo real. Logo após a divulgação do resultado alguns usuários começaram a comemorar e outros nem tanto. Em meio a isso o Zander escreveu “temos uma capacidade infinita de auto-depreciação e de subserviência. eterna colônia, nunca achamos que auto-afirmação é bom“. Admito que num certo sentido eu concordo com ele. Mas é disso que se trata o incômodo? É disso que se tratam as reclamações? Também, mas não só. Pelo menos no meu caso não tem nada a ver com isso.
Começando do começo: ufanismo enche o saco, vira desculpa para tudo passar. Somos o país do Carnaval lalalalá. Somos o país das Olimpíadas lalalalá. Tenho a impressão que a maioria dos brasileiros que se dizem orgulhosos de viver aqui não conhecem meio dedo além de onde vivem. Saem da cidade em que moram para passar férias em algum lugar “turístico” e não fazem qualquer questão de saber sobre o que existe adiante. Abusam da desinformação e da ignorância quando vão opinar sobre qualquer assunto. Gosta de soluções fáceis para tudo. Odeiam “gente pobre” – categoria que curiosamente inclui qualquer um que seja oriundo de certos lugares “longínquos”. Agora, na hora da porra da Copa do Mundo eles saem com suas cornetas e bandeiras, chorando de orgulho de serem brasileiros e etc. Quando o Brasil perde o jogo e você continua na sua, eles berram na sua cara “caralho, você não é brasileiro não?”. Não estou exagerando, já aconteceu comigo.
É o ufanismo Galvão Bueno. Nacionalismo, enquanto louvor à pátria, é o que há de pior. Se quiser ter algum orgulho do que você é, mantenha-o longe das franjas do Estado – e da televisão. Gosto dessa ficção chamada Brasil, e gosto muito, só não entendo o que é “esse orgulho de ser brasileiro”… deve ser uma invenção dos publicitários.
Fogo de Telha
Setembro 29, 2009
01:26
Setembro 28, 2009
A constatação da própria insignificância é um momento de brutalidade e doçura. Saber que você é mais um, ou menos um, na multidão. Que não é especial, que não é especialmente querido, que não é referência para ninguém. Que é só aquele um pouco chegado de todos e muito distante de tudo. Há um instante de pânico sublime, de vulnerabilidade total, quando se pensa que a qualquer momento é possível deixar de existir. E não digo morrer, mas sumir da memória das pessoas. Desaparecer sem deixar rastro ou legado. Perceber que sua vida é só um emaranhado desprovido de sentido, motivação ou direção. Esforço ou mérito caem diante da coincidência. O lugar certo, a hora certa. E então um meio sorriso cria a chave, o mapa, o traçado, as cores de tudo. E nada brilha tanto quanto parece. Todos os ídolos têm pés de barro. Os anjos já caíram e as amantes são rameiras. Arte é para afetados e a música para os desgraçados. As pessoas estão em seus pequenos universos desinteressantes… vivendo a utopia do dinheiro, das drogas, de Jesus. Alienação é a palavra mais usada num contexto de soberba – seria uma palavra de alienados? Não importa. Tudo segue fora de escala, fora de foco, fora de esquadro.







