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Sentada naquela poltrona de estofado vermelho, Estela até parecia uma jovem normal. Talvez um pouco discrepante do fenótipo predominante naquele salão, com seu vestido curto, o esmalte das unhas descascando, um olhar meio blasé, de quem definitivamente não estava interessada no discurso inflamado e repetitivo que estava sendo transmitido. Na primeira fileira, ela ansiava pelo fim do culto, notando os olhares dos Obreiros para suas pernas.

O Pastor esbravejava alguma coisa sobre “os últimos dias”, “a volta de Jesus”, “o reinado do Anticristo”, o suor marcando sua camisa e fazendo companhia a inúmeros perdigotos esvoaçantes. O que diria o Messias de um lugar como aquele? O ar fedendo a perfume barato, uma atmosfera de culpa seguida de uma certa tensão sexual que seria percebida até mesmo por uma Madre Superiora frígida. Misturados, mulheres de cabelos grandes e mal cuidados, homens de barrigas salientes e camisas amarrotadas, ex-gays, ex-drogados, ex-traficantes, ex-advogados, ex-aidéticos e todo o restante de uma multidão de arrependidos fazendo as vezes de Noiva do Senhor: a Igreja.

O Pastor agora dizia que precisavam levantar 10.000 dólares para ajudar na construção de um templo em Miami, e que pelo menos 2.000 reais sairiam dali naquela noite. Ao olhar para Estela ele sorriu, ela sorriu de volta com um aceno de mão. Após alguns longos minutos e orações fervorosas, súplicas e berros, o Pastor concluiu que um demônio estava se manifestando ali, pois havia poucos doadores. Seguiu-se um espetáculo de exorcismo, cuidadosamente filmado e transmitido para um canal de TV local. Estela se divertiu com isso, ela havia lido a Bíblia quando criança, talvez o suficiente pra entender que queimar dinheiro em Israel não era lá algo muito são.

Depois de expulsos os “espíritos de enfermidade”, “espíritos de vício”, “espíritos de perversão” e, claro, também os “espíritos de egoísmo” a Igreja finalmente conseguiu seu dinheiro. O Pastor e os Obreiros ficaram perto do palco para receberem cumprimentos, pedidos desesperados de ajuda e agradecimentos. Estela se levantou, pegou o casaco e a bolsa, para juntar-se à fila que estava surgindo em frente ao Pastor Dario. Por toda parte ela ouvia casos de “endemoniados”, “amarrados” e “emacumbados”. Culpa de vizinhos ruins, exus, despachos de calçada. Apenas o Pastor podia terminar essas atribulações terríveis.

Algum tempo depois era a vez de Estela ver o ter sua vez com Pastor. Ele não havia mudado nos últimos oito anos, talvez tivesse passado por uma ou duas cirurgias plásticas, mas parecia o mesmo.

Escrito por Barba

fevereiro 11, 2005 às 2:08

Publicado em contos

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