Escasso #1
Meu avô sempre dizia que se você quer uma vida estável você deve procurar um emprego público. Se você quer ficar rico tem que abrir uma casa de apostas, um puteiro, um bingo, um motel ou todos os quatro juntos. E claro, cê sempre tem que servir bebida nesses lugares porque, não importa se o mundo está na crise ou na boa, as pessoas sempre vão querer trepar, beber e jogar – não nessa mesma ordem.
O velho era uma espécie de sábio, no sentido antigo da palavra. Foi ele quem me ensinou todo o desprezo pelos estudos, a vida acadêmica, essa merda toda. Viveu a vida inteira como um rei, fumando seus charutos enquanto lia as notícias de esportes. E, claro, trabalhava 6 horas por dia em algum dos buracos regados a café que são as repartições públicas.
Também nunca parou de jogar: sinuca, truco, pif, vinte-e-um… era um maldito que confiava na sorte. Às vezes ela sorria pra ele, outras vezes deixava o velho na mão. Mas, a questão é que ele sabia como jogar e, acima de tudo, como apostar. Sempre me descolava uns trocados, mas não me deixava gastar com qualquer coisa. “Antes do dispêndio, vem o acúmulo” dizia. Acho que os cuzões economistas deviam ter escrito um livro baseado na sabedoria dele.
No fim, ele acabou sendo meu maior exemplo de como um homem deve viver. Sim, porque o meu pai, esse era uma espécie de moralista patético e deprimente. Um contador almofadinha que mal sabia amarrar os próprios sapatos ou mijar dentro da privada. Nunca estava em casa e tampouco conseguiu me ensinar algo que prestasse. Vivia sempre esbravejando coisas a respeito do valor do trabalho, da honestidade e essa merda toda. Um filho da puta irritante.
Eu não concordava com ele, claro. Se tem alguma coisa que aprendi dentro de desse mundo escroto, é que você tem que foder com os outros antes que eles acabem com você. Na escola, por exemplo, quando vem um cuzão e toma seu lanche ou suas figurinhas você só vai se ferrar se reclamar com a professora. Vão te dizer que você é um merda que cagueta seus colegas e ninguém vai querer falar com você. Mas se você pegar esse cuzão desprevenido e acertar ele nas bolas seus coleguinhas vão te respeitar. Então eu acertei o cuzão nas bolas. Só que voltei pra casa com o olho roxo e as gengivas sangrando. No outro dia, o carinha me chamou pra jogar futebol com ele, mesmo sabendo que eu era ruim pra caralho.
Essa lição foi aprendida, assim, com esmero. E também levei a porra da escola a sério, na medida do possível. O velho me dizia “Você não precisa ser um cientista imbecil, mas também não vá virar um ignorante”. Ele tinha estudado num desses internatos assustadores onde um monte de moleques dormem em alojamentos, são educados por padres pedófilos e ficam ser ver mulheres durante grande parte da adolescência. Então eu aprendi algumas coisas na escola.
Foi estudando que eu entendi que a minha teoria a respeito de “quem fode quem” se aplicava ao mundo moderno, graças aos professores marxistas que infestam as instituições de ensino, conspiradores comunistas do caralho. Descobri que vivia num país cafetinado pelos gringos, tipo aquelas putinhas tristes e abusadas que circulam de mão em mão em Ipanema. Isso era deprimente, ou algo próximo disso.
A questão é: eu devo me preocupar com isso quando a porra do mundo todo vai pelo ralo? Porque, quando você assiste um noticiário idiota qualquer, ou lê essas revistas que querem falar de política mas sempre acham uma brecha pra contar alguma coisa sobre a vida de quem faz a novela das oito, dá pra ver que o nosso tempo aqui já era. Guerras, epidemias, desastres, psicopatas, estupradores, mafiosos e todos os outros filhos da puta, incluindo os políticos, que acham que vivem numa bosta dum parquinho de diversões.
Todo dia nascem milhares, milhões de bebês. Esses otários vão crescer sem qualquer noção de como devem viver, com a cabeça a mil e cheia de perguntas. Alguns vão ter grana e tal, outros vão viver na merda. A maioria deles vai ter pais estressados e neuróticos, que pararam de fumar, beber e trepar e começaram a tomar fluoxetina, que trabalham 10 horas por dia e nos fins de semana se largam na frente da televisão pra assistir a merda do Domingo Legal. Alguns vão ter pais psicóticos, que descerão o braço neles toda vez que falarem “cu” ou “buceta” ou derramarem Nescau no chão. O resultado é que, se não tiverem uma porra de um exemplo de vida melhor eles vão ser só mais alguns dos viados patéticos que você vê dentro do ônibus voltando do trabalho. E isso se conseguirem um emprego.
Emprego. Taí, no momento eu preciso é de uma merda de um emprego. O velho sempre dizia que se você quer estabilidade você tem que ser um funcionário público e tal, mas eu nem curto essa idéia. Foda-se a estabilidade. Eu quero mesmo é curtir. Trepar, beber e jogar. Além dar uns tiros no nariz se sobrar um troquinho. Já que o mundo está indo pelo ralo, eu vou com ele. Só que vou tomar tudo o que eu conseguir no caminho.
(Foto por Danielle Lima)



Rafa… dá pra achar algum caminho entre os dois extremos. Pelo menos eu to procurando e várias vezes, já vi que era possível.
Ana_Carol
maio 31, 2006 em 11:28
Carol, ISSO É UM CONTO!!! Achei que você fosse perceber, duh :P
Barba
maio 31, 2006 em 17:44
Droga, já tava te ligando prá te chamar prá dar un tiros…
magoei. chuif. );
Vinícius - Lela
maio 31, 2006 em 19:35
hehehehe :)
Barba
junho 1, 2006 em 1:15
Obrigada por reforçar minha lerdeza! Sim sou boba mesmo! :)
Ana_Carol
junho 1, 2006 em 16:50
nem esquenta =)
Barba
junho 1, 2006 em 16:57
é, mas acho doido
rub
junho 15, 2006 em 18:44