Teoria do Egoísmo
Junho 9, 2006
A perspectiva de Stirner clama que o mundo moderno reproduziu, ao invés de abolir, os modos religiosos de pensamento. Partindo desse ponto ele ataca muitos de seus contemporâneos da esquerda hegeliana, em particular Ludwig Feuerbach, por falharem em superar a subordinação do indivíduo ao espírito.
Stirner é julgado por niilista, devido a sua rejeição explícita pela moralidade. Moral, na sua concepção, envolve o estabelecimento de obrigações para se comportar de determinadas maneiras. Dessa forma, Stirner rejeita a moralidade como incompatível com o egoísmo propriamente entendido. Todavia sua rejeição da moralidade não é suportada pela rejeição de valores em si, mas pela afirmação do que ele chama de “bens não-morais”.[1] Stirner entende que há ações e desejos, ainda que não morais em senso (por não envolverem obrigações para com terceiros) seriam positivos, certos tipos de indivíduos e ações deveriam ser valorizados acima de todos. Sua concepção de moralidade é, a esse respeito, muito estreita, e sua rejeição da legitimidade da moral não deve ser confundida com a extinção de todo julgamento normativo. Uma ambigüidade se presentifica em Stirner, quando ele faz um uso explícito de um vocabulário valorativo, como, por exemplo, quando ele glorifica o egoísta por ter a coragem de mentir, ou condena a fraqueza de um indivíduo que sucumbe a uma pressão de sua família.[2]
Dois pontos do pensamento de Stirner emergem como fundamentais. Primeiro ele valoriza a “propriedade de si” não como a melhor de todas as beneces, mas como a única benesse possível. Segundo, ele adota a noção de self-mastery que é incompatível com a existência de quaisquer deveres legítimos para com terceiros, até aqueles que um indivíduo voluntariamente acolheu.
Seria o egoísta de Stirner um senhor de Nietzsche? Certamente não, mas não podemos deixar de perceber que ambos interagem de forma bastante similar. O senhor em Nietzsche é um indivíduo centrado em si, ao passo que o escravo faz de outro o centro de suas atenções – o escravo não é o ponto de referência do senhor, o senhor é diferente unicamente por sua singularidade – também dotado de um pathos distanciamento. O senhor de Nietzsche é um ser grato pela vida, ativo, ascendente, movido pelo prazer. Mas seria o senhor um desviante? Presente em um mundo permeado pela moral escrava, criador de uma nominação própria. Quem viverá de acordo com o que o senhor criou? Tanto quanto o egoísta de Stirner, o senhor de Nietzsche preza por uma afirmação de si, por uma escolha da vida.
A perspectiva de que os fracos se apoderaram da linguagem e assumiram o ponto de vista da fraqueza (i.e. cristianismo, igualdade) trás a idéia de um mundo dominado pelos espíritos submetidos.
A idéia nietzscheana união como uma atitude essencialmente escrava marca um ponto de polêmica entre os pensadores. Stirner acredita que uma sociedade dos egoístas consistiria não apenas por indivíduos isolados, mas também de relações de “união”, ou seja, conexões impermanentes entre os indivíduos – estes permaneceriam independentes e auto-determinantes. A idéia centra de uma união de egoístas é que ela jamais envolverá a subordinação dos indivíduos. A união é tida por Stirner como uma colaboradora da autonomia, pois seria capaz de unir os homens sem que fosse necessário “juramento a uma bandeira”. Seria essa união temporária considerada por Nietzsche como um sinal do gregarismo típico a uma moral escrava? Talvez seu caráter de impermanência e insubordinação salvasse essa idéia da implacável espada de Nietzsche.
(O velho Nietzsche ainda é o meu preferido. O texto integral pode ser conferido aqui.)
[1] A filosofia nietzschiana, igualmente acusada de niilista, não prega o abandono dos valores – na verdade sua pretensão é a de criar valores.
[2]Claro, o egoísmo celebrado por Stirner nada tem a ver com uma busca pessoal por riqueza. Antes disso, é na verdade uma espécie de autonomia radical, de auto-governo. O que ele define como a “propriedade de si” (na falta de uma tradução melhor para o termo owness) é um tipo de autonomia incompatível com qualquer suspensão, voluntária ou forçada, do julgamento individualista. Como ele mesmo proclama I am my own, only when I am master of myself, instead of being mastered… by anything else.



