Escasso #2
Virei a rua e caí naquela pracinha fudida pra caralho. Onde devia ter grama, tem terra, onde devia ter uns bancos de madeira só sobraram uns blocos de concreto. Eu lembro que tinha uma fonte com uns peixes antigamente mas agora só sobrou um buraco cheio de tags e camisinhas usadas Lar, doce lar. Eu cresci nessa vizinhança ridícula, um monte de casas de conjunto habitacional que, graças às economias e progressos de seus honoráveis habitantes acabou se tornando um bairrinho da classe média empobrecida. Hoje todos são uns velhos paranóicos e reumáticos que se escondem atrás de cercas elétricas dedicando inúmeras horas à TV a cabo.
Aqui também tem a casa do Cica, meu chegado, e é pra lá que eu estou indo. Dou uma parada pra ver a merda que a tal pracinha se tornou. Eu costumava vir andar de bicicleta aqui com a galera, hoje em dia parece que não tem mais de dez pessoas com menos de sessenta anos num raio de um quilômetro dessa praça. As únicas pessoas vêm aqui são os alunos de um colégio municipal próximo, que curtem fumar e dar umas trepadas no horário noturno. Não tem crianças, não tem bebês, não tem mães, não tem porra nenhuma. Eram outros tempos aqueles.
Mas foda-se esse saudosismo. Quando eu escutava meus pais falando eu achava uma idiotice sem tamanho. Tipo, minha mãe sempre dizia que ninguém mais joga amarelinha, brinca de pique-esconde e essas coisas. Não mãe, a galera tá é travando fumo, andando de skate, pixando e jogando video-game. A coisa é outra.
Na porta da casa do Cica eu vejo um velho lendo um livro, Machado de Assis e tal. Putamerda, eu não ia ler isso nem se me colocasse uma arma na cabeça. Dou bom dia pra ele, mas o desgraçado me ignora ou é um surdo decrépito. Toco a campainha.
O Cica sai de lá de dentro, com aquela camiseta abarrotada dele vestindo uma bermuda florida estilão de boyzinho. Ele tá cada vez mais gordo. Ele vem chegando perto, com uma cara de quem acabou de acordar e, porra, já são quase onze horas.
“Fala sangue” – o cara me vem com aquele papo mole - “Passa pra dentro.”
A gente dá um toque e eu vou entrando. Tipo, a casa do Cica tá até arrumadinha e tal, o cara anda investindo na propriedade. A sala tá com tudo do melhor: televisão tela-plana, aparelho de DVD, e o caralho a quatro. O cara arrumou até um sofá maneiro e vou me ajeitando nele.
“Cê tá com a bola, hein? – vou disparando.
“Pois é cara, tipo que eu vou casar e tal” – o viado me fala.
“Hã? Como assim? Cê nem namora!”
“Pois é, saca aquela mina da Austrália, aquela da Internet?” – ele vai meio que se defendendo.
Mas a real é que eu fico meio estático, tentando entender onde é que essa loucura toda faz algum sentido.
“Cê tá de brincadeira… duvido que vai ter coragem pra casar com uma mina que nem conhece.”
“Porra Diogo, tô te contando cara, achei que você fosse meu amigo e tal” – o Cica começa a se encolher.
“Sem drama parceiro, na boa. Mas tipo, como é que você vai trazer uma mulher aqui pra dentro cara? Ela tá ligada na sua atividade e tal?” – esse papo começa a me incomodar, porque se alguma coisa der errado minha galinha dos ovos de ouro vai pro buraco.
“Claro cara, eu troco idéia com ela tem uns dois anos. A gente meio que…” - mas não deixo o puto falar.
“Tá me dizendo que você contou pra uma puta italiana os movimentos que rolam aqui nessa casa?” – vou berrando pra cima dele.
“Caralho, não grita porra!” – o Cica vai ficando murcho, acho que tô magoando o viado. – A mina é australiana caralho, australiana. Cê nem tem noção de quem ela é tal, então pára de gritar e me escuta cara.”
“Só…”
“Tipo que ela já deu uns rolé na Holanda, não é nenhuma caretona e quer vir pra cá e tal, pra gente viver junto.” – posso até ver o brilho nos olhinhos do porco.
“Só… Então, meio que você acha que essa mina aí…”
“Dana.” – o gordo me interrompe.
“A Dana. Então você acha que ela é sua alma gêmea ou alguma viadagem do tipo?”
“Você precisa conhecer ela Diogo, tô te falando ela…” – ele começa a usar as mãos pra falar, o putinho sempre costumava gesticular quando falava de alguma mina que tinha curtido de verdade. As que ele nunca comia.
“Cica, nem você conhece ela cara…” – vou cortando essa onda bizarra dele. Na hora fico pensando que eu tenho que levar ele num puteiro cinco estrelas pro cara dar uma trepada gostosa e esquecer essa gringa vadia.
“Te falei cara, troco idéia com ela tem uns dez anos. A gente se fala, se vê e tal. Tudo pela net. Ela nem é muito gata, mas acho que é mina que eu quero pra viver aqui comigo. Cê tá ligado que eu tô muito sozinho depois que a mãe morreu.”
O Cica sempre foi o gordo da jogada. Na escola a galera tirava muita onda com ele, chama o cara de “rolha de poço”, “baleia”, “barriga de sete leitoas” e outras coisas tão legais quanto isso. Na verdade demorou pra ele ficar nosso amigo, porque até a gente pegava no pé dele. Mesmo assim ele era sempre o último a ser escolhido no futebol, o primeiro a cansar quando a gente andava de bicicleta, o gordo da galera. A única coisa que o filho da puta sabia fazer era zerar uns joguinhos de Master System. Quando a gente começou ficar com as meninas, ele sempre sobrava. E, além disso, ele ainda era o garotinho da mamãe.
Ou seja: se algum de nós ia arranjar uma noiva pela Internet com certeza ia ser o Cica. Fico imaginando como a tal mina deve ser. Provavelmente uma nerd maconheira que nem ele, que só conseguiu arrumar um pau no Brasil. Ela deve estar desesperada demais por pica pra querer casar com o Cica. Ou é uma ninfeta moderninha com anfetamina escorrendo pelo cu que descobriu que pode vir explorar um imbecil que nem ele.
Daí eu percebo que estou sendo um escroto. O Cica é um cara legal, que entende de altas coisas, e que com certeza pode agradar uma putinha carente da Austrália, onde só existem aborígines e cangurus.
“Tá certo cara, cê já tá pra fazer vinte e sete, tá mesmo na hora de encontrar uma mulher pra você. Foi mal a fritação cara, mas é que cê nunca tinha me falado nada da mina… hã, da Dana.” – vou amansando.
“Ah, tô ligado que cê ia contar pros outros e que os caras iam me zoar demais e tal. Foi mal parceiro, mas achei que seria melhor ficar com isso só pra mim” – Putamerda, o desgraçado me conhece mesmo, sabe que acho que namoro pela Internet é coisa pra retardado mental.
Aí a gente meio que faz as pazes e o viadinho vai me mostrando a reforma que ele deu na casa. Putz, fez tudo de uma vez, no mês que eu passei no Rio. Arrumou o banheiro, montou uma cozinha de bacana, com copa e tudo mais, quarto de casal e um monte de outras coisas. Me lembro de que tô devendo uma grana pro cara.
“Ta aí Cica, seus quinhentos pilas.” – vou entregando as notinhas pra ele.
“Como é que foram as coisas lá no Rio?”
“Só mulher fina. É o melhor lugar do mundo. Mas então, vim buscar o do mês cara.” – já vou adiantando o assunto.
“Chega mais.” – ele vai abrindo a porta para o paraíso.
Além de jogar Master System o Cica tinha uma outra especialidade. Eu sempre curti pó antes de tudo, mas o cara era o campeão na hora de travar uma ponta. Acho que ele engordou ainda mais de tanta larica. No início, como o bebê chorão que ele era, nem queria fumar com a gente. Dois meses depois ele fumava o dia inteiro. Aí, como nerd nóia que ele era foi aprendendo tudo sobre maconha, virou a porra dum especialista.
Quando a mãe dele morreu e ele ficou sozinho, não demorou muito pra montar uma estufa no quarto dele. Primeiro ele plantava e dividia com a galera, mas depois fui dando idéia pra ele me passar que eu ia começar a vender. O negócio deu tão certo que ele agora ele tem uma porrada de estufas que ocupam o quarto inteirinho. E o bagulho dele é dos bons, sementinha geneticamente modificada direto da Holanda. Alto grau de THC, sem amônia nem veneno pra rato e barata. Esse é o Cica.
Cato um tijolo e mando pra dentro da mochila. Desejo tudo de bom pro filho da puta, rezando pra que essa vadia, a tal de Dana, não estrague os nossos lances. Vou pra rua e vejo que o velho continua lendo o Machado de Assis. Só os velhos conseguem ler Machado de Assis sem dormir ou morrer de tédio. Acho que tenho que respeitar o cara por isso.
Pego o caminho de casa. Lá vou repartir o tijolo, embalar um monte de trouxinhas e depois vender tudo pra uns hippies punheteiros da faculdade de filosofia. Lógico que eles vão me pagar o olho da cara, já que a seca anda brava. E sempre rolavam uns otários falando que eu nunca ia fazer dinheiro com fumo.
(Texto ficcional e não revisado.)


Ah não… texto ficcional?? Nem vem Barbi… O Cica vc não é, só pode ser o amigo explorador… hehehehe
Vinicius - Lela
junho 14, 2006 em 15:42
ei o cara não é explorador não, ele divide os lucros com o amigo ué…
Barba
junho 14, 2006 em 17:19
Amei! O melhor. Muito parecido com aquele filme e aquele livro… Isso é bom!
Ana_Carol
junho 15, 2006 em 18:30