Assistência é o caralho
Agosto 20, 2006
Quem estuda na UFMG está acostumado a ouvir falar da FUMP, a tal Fundação Universitária Mendes Pimentel. Trata-se de uma entidade que presta serviços de assistência aos alunos carentes sob a forma de moradia, desconto no restaurante universitário, cuidados médicos gratuitos além da isenção da taxa de matrícula – cujo dinheiro é quase que integralmente revertido para a própria FUMP.Como aluno da Federal desde 97 (primeiro como vagabundo do Colégio Técnico e mais tarde como aspirante a intelectual e maconheiro da FAFICH) sempre escutei todo tipo de opinião a respeito do trabalho da FUMP, quase sempre negativa já que ninguém curte pagar uma taxa de matrícula de quase um salário mínimo. Os comunistas do DCE quase sempre traçavam a teoria marxista da UFMG colocando a FUMP no lugar da burguesia e nós, estudantes, no lugar o proletariado. Até o dia em que a FUMP ameaçou privatizar o Restaurante Universitário (também conhecido como bandejão), alegando que não estava conseguindo mantê-lo (!), eu não levei meus colegas revolucionários a sério. Na verdade, olhando mais de perto o que foi constatado é que o RU era administrado de forma mais precária que o boteco da esquina.
O problema foi resolvido por uma comissão e a privatização não ocorreu. Então, eu passei a me lembrar da FUMP apenas quando o maldito boleto deles chegava na minha casa, sempre contando com a minha “contribuição ao fundo de bolsas” (o engraçado é que no mesmo boleto em que se escreve “contribuição” diz que se você não pagar não se matricula). Vá lá, durante a maior parte do meu curso meus pais ficaram felizes em me mandar dinheiro pra pagar uma semestralidade, coisa bem melhor do que bancar o absurdo da faculdade particular.
Mas o tempo passou, eu atrasei meu curso bastante e (pra piorar) meu pai faliu – não uma falidinha em que você fecha a casa e tenta outro negócio mas uma falência total, com direito a dívidas monumentais. Sendo assim sobrou pro garotão aqui, com uma fantástica bolsa de 300 reais e mais uns trocados de freelas, pagar a “contribuição” para a FUMP. Claro que eu não ia torrar o meu dinheiro, que eu ganho e uso pra me manter já que não recebo nenhuma ajuda de custo ou mesada há muitos anos, pra pagar essa taxa.
Entrei com uma ação coletiva que o DCE promove todos os anos e esperei. Mas, meus colegas vermelhos se enganaram quanto ao dia da minha matrícula, mais cedo porque incluía monografia, e o meu requerimento acabou não entrando na data prevista. Sem dinheiro e sem esperança de conseguir algum milagrosamente, resolvi visitar a Fundação Universitária Mendes Pimentel.
E a Fundação está instalada cordialmente em dois dos muitos andares do Edifício Acaiaca, prédio histórico do centro de Belo Horizonte. Chegando lá o porteiro, com ares de segurança, pergunta o que eu desejo. Digo que vim pleitear uma isenção da taxa de matrícula. Ele franze a testa e diz para que eu pegue uma senha e aguarde na sala ao lado, onde vários atendentes trabalham frente a computadores.
Logo chega a minha vez. Quando explico o que vim fazer ali, o atendente pergunta se já tenho cadastro na FUMP. Aí me lembro que, quando fiquei sem bolsa no ano passado, fiz um cadastro pra ver se conseguia pelo menos um desconto no bandejão. Mas foi rejeitado, disseram que eu não fazia parte do perfil do aluno carente que a FUMP tem como padrão. Explico a ele essa situação e ele me diz que não pode fazer nada. Insisto e ele olha o meu cadastro. “Aqui diz que seus pais têm curso superior, não é?” “É, mas meu pai faliu e está desempregado…”. “Olha, sinto muito mas nesses casos a FUMP não pode fazer nada. O prazo para revisão dos cadastros já passou. Se você queria a isenção da taxa de matrícula tinha que ter vindo aqui há alguns meses atrás”.
Nessa hora o meu sangue ferve. É engraçado, eles me tratam como seu eu fosse uma espécie de pedinte ou de ladrão que veio atrás do sagrado dinheirinho deles. Ótimo. Berro dizendo que não saio dali sem conversar com alguém, que eu preciso explicar a minha situação. Aí, ele diz que vai me encaminhar para uma assistente social.
Chego em outra sala e aguardo. Mas ao invés de assistente social eles me mandam pra uma chefe de setor – cujo nome acho melhor nem citar aqui. Explico a ela tudo de novo. Ela diz que infelizmente não pode fazer nada. Digo que paguei a “contribuição” da FUMP durante muitos anos, tudo o que eu quero agora é não pagar UMA vez… Mas não adianta, é o maldito espírito burocrata tomando conta até mesmo da assistência estudantil. No final da conversa, na qual eu fico extremamente nervoso, recebo uma carta dizendo que o meu caso está em avaliação na FUMP. Ela diz que eu posso parcelar a minha “contribuição” em 3 parcelas pra 30, 60 e 90. Será que a mulher é surda? Será que ela acha que eu tirar o dinheiro que eu ganho pra pagar a contribuição para uma fundação que já acumula 3 milhões em caixa? (SIM! Os espertos tem 3 milhões sobrando e arrecadam 8 milhões por ano!)
Chego com a carta pra fazer a matrícula. A funcionária do colegiado diz que isso não é suficiente e que ela não vai fazer a matrícula sem a autorização do DRCA (o órgão que gerencia as matrículas na UFMG). A chefe do DRCA me diz que essa carta não serve pra nada e ainda xinga a funcionária do colegiado no telefone. Ao que tudo indica a senhora da FUMP fez algo parecido com mentir… ou talvez tivesse a melhor das intenções mas nenhuma idéia melhor que isso.
Desisto de tudo e vou trabalhar. No final do dia penso que o melhor é dar um cheque pré-datado e deixar que o processo do DCE chegue à sua conclusão. O problema é que, no final do dia, quando eu vou tirar o cheque, descubro que desde quando troquei a minha conta do BB de Conta Salário pra Universitário O TALÃO DE CHEQUES FOI BLOQUEADO. Sim, tudo o que pode dar errado dará. Não, garante a funcionária do Banco do Brasil, não dá pra desbloquear por telefone. Chega a noite e não consigo ninguém que dê o pré-datado pra mim, exceto um tio que apesar de toda a boa vontade está mal financeiramente e torra uma penca de dinheiro pagando o plano de saúde dos meus avós. Ele vem até minha casa e deixa o cheque, mas acabo decidindo não usá-lo, porque se eu perder o processo do DCE o cheque vai ser descontado e ele pode se ferrar, já que tá ficando no vermelho.
Já 50% puto e 50% desesperado, decido ligar pra minha namorada e contar a história. Prontamente a mãe dela, que está bem financeiramente se oferece pra pagar a “contribuição” e diz que é melhor que eu não me preocupe, porque posso ir pagando do jeito que eu conseguir. Fico pensando que não tem outra saída, já que a matrícula é no outro dia e acabo aceitando essa proposta, pra ver se tiro isso da cabeça.
Me matriculo em monografia pela 2ª vez. A FUMP embolsa mais R$ 179,02, que vão sair do meu bolso afinal. Viva a assistência estudantil!



Agosto 21, 2006 at 1:54 am
Na Universidade de Viçosa, paga-se menos de 100 reais e TODOS os alunos tem direito a médico e psicólogo pela Fundação de lá. Que fazer pra salvar a FUMP?
Agosto 21, 2006 at 12:33 pm
Não faço idéia. Mas a moça que me atendeu disse que agora dificultaram a concessão de benefícios como uma nova política da fundação, sabia?
Agosto 21, 2006 at 5:22 pm
Credo… não sabia que era tão dificil assim deixar de pagar a Fump…
Aki, eu tenhos uns 50Kg de C4 estocados, tá afim de usar?? hehehehe… ((;
Setembro 2, 2006 at 5:53 pm
Pois é… o mais legal é que a galera de lá de trata como um meliante, um ladrão que vai tomar o dinheiro deles.
Dispenso o C4, se eu for fazer alguma coisa vai ser juntar uns advogados pra encher o saco eles ;)
Desconfio que esse regime de “contribuição” involuntária não está em conformidade com alguma lei, já que a UFMG é pública e a matrícula não deveria estar vinculada ao pagamento de qualquer taxa…
Julho 2, 2008 at 11:36 am
Caraca!!! Vcs tem uma ideia totalmente errada qto a FUMP. É uma fundação super séria e competente!
Já cansei de ver as assistentes sociais se desdobrando para ajudar os alunos! Acho que por um caso vcs estão generalizando e fazendo uma ideia errada qto a fundação.
Poxa levando em consideração que os pais do garoto tinham curso superior…
Poxa!!! Tem que ser bem definido e passar um pente fino mesmo no estudo desses alunos pqtem muita gente que tem condiçoes e nao querem pagar… Pô, a facu já e de graça! Vamos ser menos hipocritas neh galera?!
Julho 2, 2008 at 11:59 am
…
Então é um pente fino patético. Eu não fui pleitear assistência, eu fui pleitear ISENÇÃO em um ano onde nem eu, nem minha família, tínhamos dinheiro para pagar a taxa de matrícula. ISENÇÃO em um semestre de uma taxa que paguei durante mais de 4 anos.
A FUMP deveria então mudar esses critérios, porque olhando daqui estou vendo as coisas bem diferentes. Conheço mais de um caso onde a FUMP cancelou auxílios de estudantes sem condições para se sustentar por critérios completamente arbitrários (”Seu irmão agora ganha um salário mínimo e isso sobe a renda média da sua família”).
Eu paguei essa taxa durante anos e ainda pago agora na pós-graduação. Não tenho nada contra alunos ajudarem alunos, mas os critérios da Fundação me parecem completamente arbitrários. Todos pagam o mesmo tanto, independente da situação. É “1″ ou “0″, não existem exceções nem negociação possível.
Eu tive que pagar a taxa daquele semestre com dinheiro de um terceiro, que depois tive que tirar da minha bolsa de extensão – o único dinheiro que recebia na época. Justíssimo, não?
Também acho que a FUMP não é suficientemente transparente nas suas contas. A assistência que ela presta está cada vez menos abrangente para um maior montante de dinheiro.
Além disso sempre houveram muitas denúncias de enriquecimento ilícito através da aplicação do dinheiro dos alunos na bolsa de valores para fins privados…
Setembro 3, 2008 at 9:28 am
[...] As coisas têm andado relativamente sob controle por aqui no quesito financeiro, mas não foi sempre assim. E o fato de eu não poder contar com ajuda externa em momentos de penúria sempre tornou as coisas mais difíceis. Uma vez, numa dessas fases de absoluta falta de dinheiro, busquei a FUMP para tentar não pagar a tal “contribuição”. [...]
Setembro 3, 2008 at 2:02 pm
Concordo com Nalu….
Lá´é uma instituição muito séria.
Setembro 3, 2008 at 2:08 pm
pau no cu da FUMP!!!
seus pais tem curso superior? Se fode playboy!
Quem mandou eles serem professores de 1o grau!
Setembro 3, 2008 at 2:38 pm
LUDFSILVA
Não estou questionando a “seriedade” da FUMP, não é esse o mérito. Eu reconheço que o trabalho dela é importante tanto quanto é sua existência.
O que eu quero questionar é esse enrigecimento e burocratização que não permite arredar nada do lugar, que pode fazer um aluno [eu], que na época recebia bolsa de graduação, usar o pouco dinheiro que ganha pra se manter com a CFB.
Barroca,
É meio que isso, eles assumem que curso superior = dinheiro.