Apocalypto
Julho 14, 2007
Depois de filmar o snuff de Jesus, Mel Gibson entrou pra história como um diretor sanguinário, fanático e anti-semita. Mas ninguém pode negar que ele também foi ousado ao fazer o filme em aramaico. E não deixemos de reconhecer que, mesmo sendo católico raivoso, ele também protagonizou Mad Max, a trilogia mais divertida do cinema.Agora misture Mad Max, adicionando alguns clichês dignos de Rambo II: A Missão, com a violência sangrenta de A Paixão de Cristo, mas ao invés de fariseus malignos, sacerdotes nativos. É desse caldo que se ergue a última obra do (ahn…) grande mestre Gibson: Apocalypto (2006, 139 min., EUA).
A trama tem início quando Pata de Jaguar (Rudy Yongblood) e sua tribo são capturados por mercadores de escravos maias, em meio a todos os tipos de atrocidades possíveis cometidas sem distinção. A jornada iniciada para a capital maia, chamada por alguns de “o lugar em que a terra sangra”, se faz por um trajeto que mostra a pestilência e devastação. Uma vez na cidade, Pata de Jaguar se defronta com uma violenta celebração religiosa, para qual ele e seus companheiros foram capturados para serem imolados. Salvo do altar de sacrifícios por eclipse, o ponto alto da festa, ele precisa tentar escapar dali e voltar para a mulher grávida e filho que escondeu em um poço durante o ataque.
Turbilhão de anacronismos, Apocalypto pode até ser um filme de ação divertido mas é historicamente equivocado em quase tudo. A começar pela estética da tribo de Pata de Jaguar, que mistura simultaneamente elementos ameríndios, africanos e polinésios. Apesar do filme ser falado no idioma maia da península de Yucatán, o que certamente é um rico recurso pra aclimatar o espectador na história, os modos e costumes da tribo de Pata de Jaguar são retratados de maneira completamente estereotipada, quando não ocidentalizada.
Outro ponto é o abuso da idéia de que a religião maia se pautava em torno da violência espetacularizada. Na cena dos sacrifícios no topo pirâmide, multidão se extasia enquanto cabeças rolam escada abaixo, como se estivessem no Coliseu romano ou de um enforcamento público. Sacrifícios obviamente não eram assim, não se oferece qualquer um para os deuses dessa maneira. As vítimas eram preparadas física e mentalmente, e muitas vezes eram oferecidas ao invés de capturadas – ou se voluntariavam. O sacrifício deve possuir algum valor para ser aceito como oferenda divina.
O figurino do clero e dos habitantes da cidade parece bem representado, muito fiel à iconografia encontrada nas esculturas e nas paredes das construções maias. A riqueza material que convive lado a lado com a decadência da civilização parece ser usado como uma rasa crítica social no filme.
Durante a fuga de Pata de Jaguar, as cenas de ação são exageradas e hollywoodianas até não poder mais. Ele corre de uma pantera, salta de uma cachoeira, e não para por dois dias mesmo depois de ter sido alvejado por uma flecha na barriga – é mais fodão que Mad Max, Jesus Cristo e William Wallace juntos!
Ao final, pra fechar o festival de imprecisões históricas, podemos ver a chegada dos espanhóis – claro, trazendo uma cruz bem visível. Peraí? O auge dos maias foi entre os séculos VII e X e os espanhóis só chegaram a Yucatán 600 anos depois!
Pra Mel Gibson isso pouco importa. Mais uma vez com a desculpa de mostrar sangue em prol de “retratar a história” ele cria um retrato distorcido de uma cultura. Houve quem achasse perturbador mas, pelo menos pra mim, é quase trash. Divertido, Apocalypto é cinema pra assistir em casa, no sofá, logo depois de ver um Bradock ou Armaggedon da vida…
Editado (21/04/2008): para quem acha que Apocalypto é historicamente correto, vale à pena ler esses dois bons artigos sobre o filme.






Julho 14, 2007 at 4:33 pm
fiquei decepcionado com esse filme tambem.
Julho 14, 2007 at 9:01 pm
Não vi porque não gosto de assistir a filme com sangue a baldes. Confesso que vi o “Jesus” do Mel Gibson, preparada com um Rivotril® e foi fogo. Uma amiga me havia convidado, fui.
Este filme é bem feito e gostei muito dele. Como Apocalypto, ele tem um rabalho primoroso de vestuário, elenco, foi bom.
O filme do Wallace foi uma sangueira danada e não estava torcendo pra ele nos Oscars.
Prefiro os filmes policiais do Mel mas agora ele precisa mesmo de uma visitinha ao Rio: analista e Pitanguy.
Julho 16, 2007 at 10:53 am
Ahhhhhhhhhhhh!!! Esse filme é escroto!
Julho 16, 2007 at 11:54 pm
Mano, fomos vendo esse filmaço de novo no caminho pra Natal. Tio Mel é tão genial que ele insere um avatar de si mesmo no filme pra mandar o maior spoiler da história do cinema. Nada mais nada menos do que akela menininha pestilenta que o “grupo de captura” maia encontra enquanto levava Patinha e seus chegados pro “altar da felicidade”. A mina conta, em forma de “profecia”, tudo o que vai rolar no filme dakele ponto em diante… quase achei q um maia genérico ia sentar um pescotapa ou dropkick na guria e gritar “SPOILER!”. Não preciso nem dizer que tava morrendo de rir. Vale lembrar tb das lendas genéricas sobre como o ser humano aprendeu com a natureza e vai acabar esgotando os recursos da terra.
Mais uma vez Tio Mel nos mostra que, como diretor, é um ótimo lingüista.
PS.: Assistimos só pérolas nessa viagem, a trilogia do Rambo, em seqüência, inclusa heheh.
Julho 17, 2007 at 2:28 am
Pois bem, nada combina mais com Apocalypto que Rambo!
Julho 26, 2007 at 9:27 pm
Sempre que eu escuto esse nome eu acho que é um sabor particularmente forte de Halls… Menta-Lypto, Cereja-Lypto, Apocalypto.
Julho 26, 2007 at 9:56 pm
“Apocalyptos” isso daria um bom nome pra um drops ultra forte. Se eu fosse você registrava :)
Agosto 4, 2007 at 1:11 am
Eh pá, cada um tem direito à opinião, até um gajo parvo como tu.
Qual foi o último filme que fizeste?
Ah, já sei, nem novelas, né?
Tanso.
Agosto 4, 2007 at 8:58 pm
Quer dizer que pra dar opinião sobre um filme tem que ser cineasta?
Se quer exaltar o filme, não precisa me ofender, só dizer porque gostou, escrever seu próprio texto.
Ah, e na próxima vida, pede pra nascer gente porque nessa veio como porco.
Agosto 4, 2007 at 10:05 pm
Não, meu caro, para opinar sobre filmes basta ser inteligente;
o que não basta é presumir de sábio e arrotar uma série de barbaridades.
Mas ao menos fizeste-me rir, especialmente com a tua visão dos sacrifícios.
Estuda história, se quiseres dou-te uns links sobre os o assunto.
Ah, e porco é a mamãe, “vice”?
Agosto 4, 2007 at 10:36 pm
Não me presumo de sábio, falei o que sei no texto. Ou você acha que Apocalypto é historicamente correto?
Primeiro, alguns padres espanhóis fizeram estimativas completamente absurdas sobre o número de pessoas sacrificadas em Yucatán nesses rituais. Mel Gibson escolheu fazer um filme sobre os maias e não os astecas por causa disso – disse em entrevista que queria uma sociedade mais violenta.
De fato os maias eram uma sociedade considerada violenta para os nossos padrões. Eu estudei algumas disciplinas e textos de antropologia da religião na faculdade. Sacrifícios não são realizados com a aquele ímpeto cinematográfico e espetacularizado – é um exercício de cinema, fazer show com crueldade.
Em todas as sociedades ameríndias existem sacrifícios ou algo de natureza similar, como o canibalismo. Em TODOS os casos as vítimas/oferendas passam por uma espécie de preparação – mesmo que tenham sido capturadas. A idéia do sacrifício é oferecer algo e tem que ser algo de valor. O sangue de um simples inimigo que foi torturado e viajou dias até ali não é um sacrifício… precisa haver algo mais. Um hebreu ou muçulmano sacrifica sua melhor ovelha ou a mais doente?
A instituição do sacrifício pressupõe valor, não sangue por sangue.
Um ritual muito recorrente entre os maias era o do sacrifício da realeza. Nele rei e a rainha se torturavam – de maneiras chocantes – para oferecer o sangue aos deuses. Qual a explicação pra isso? Porque não matar apenas os escravos capturados então?
Essa visão dos sacrifícios pode fazer você rir, mas são conceitos da antropologia, não do senso comum.
Quero ver os links que vai me propor, mas tenho alguns livros e documentários sobre história maia aqui. Sempre fui interessado no assunto.
Agora, entenda, eu GOSTO de Apocalypto. Acho um filme de ação muito divertido e bem feito, só que é historicamente incorreto. Os espanhóis não chegaram a Yucatan no auge da civilzação maia, os sacrifícios não eram daquela maneira, os adornos da tribo do Pata de Jaguar misturam muitos elementos que não existiam no México naquela época.
Isso faz do filme um filme ruim? Não. Mas acho completamente absurdo Mel Gibson dizer que pesquisou para fazê-lo e que é algo historicamente correto. Ele pode ter pesquisado sim, mas só reteve o que achou que ficaria bem no filme.
E, sobre a ofensa.
“Eh pá, cada um tem direito à opinião, até um gajo parvo como tu.”
Não consigo ver como alguém que começa um comentário com uma ofensa possa ser chamado de outra maneira.
Agosto 4, 2007 at 11:15 pm
“E, sobre a ofensa.
“Eh pá, cada um tem direito à opinião, até um gajo parvo como tu.””
Desde já, peace, se ainda for a tempo. Entrei mesmo muito a matar, por isso as minhas desculpas.
Foi um erro de avaliação da minha parte, pois julguei ter encontrado alguém colhido na onda de dizer mal do Mel e, como tal, de visão pequena.
Enganei-me, a elegância da sua resposta provou-me errado e visão pequena tive-a eu: vivendo e aprendendo.
Tem razão quanto ao valor do sacrifício, mas acho que está a passar ou a não ver algo que é bastante importante:
A civilização retratada no filme não está no auge, está em declínio. A doença e a falta de alimentos assola a terra (eles próprios o dizem) e nessa altura, infelizmente o sangue começou a jorrar de forma indescriminada; tudo isto para que o povo se virasse para os deuses, e não contra os seus líderes.
Historiadores espanhóis narram massacres de até 80 mil pessoas (embora haja um consenso de que era um exagero e o número terá rondado os 10 mil).
Quem conta um conto, acrescenta um ponto, é verdade; mas o exagero não é tanto como acredita.
Um grande bem haja.
Agosto 4, 2007 at 11:35 pm
Desculpas aceitas : )
Aí você tocou em um ponto interessante: o declínio. É verdade que quando a doença se espalhou e as colheitas pioraram, a cultura maia baseada no sacrifício caiu por terra. Pois é, e mesmo com todo sacrifício não deu certo, e os maias abandonaram as cidades e a realeza perdeu o crédito.
Eu não tinha enxergado por esse ponto, é um argumento muito bom mesmo. Isso explica não só a captura violenta de muitos escravos ao mesmo tempo quanto o descuido com os cadáveres – mostrado na cena em Pata de Jaguar começa a fugir – já que os sacrificados eram enterrados com respeito.
Eu nunca li um texto que colocasse um número mais razoável do que o dos padres espanhóis. Dez mil ainda é muita gente!
Abraço
Agosto 4, 2007 at 11:59 pm
Olá,
muito obrigado, mesmo, pela sua resposta e por me ter dado uma oportunidade de redenção.
Cá para nós, aconselho-o a ver o filme novamente. Não me interprete mal, digo isto porque vi-o 2 vezes seguidas; quis assimilar melhor toda aquela informação ao mesmo tempo.
De resto, de pouco valerá, mas ganhou um leitor
que não voltará a deixar comentários idiotas e destrutivos.
:)
Um Abraço para si também
Agosto 5, 2007 at 11:35 am
Sem problema
Eu gosto de discutir, mas sem agressividade hehe
E vou assitir o filme de novo, com certeza. : )
Setembro 19, 2007 at 3:14 pm
I see…
Maio 10, 2009 at 8:32 am
Tenho por hábito me afastar de tudo que nao presta, nao consumo porcarias, por isso não assisti ao Apocalypto e nem vou assistir nem tenho inveja de quem viu a coisa.
Pra mim, uma maneira imbecil de vender pornografia e violência.
Isso vai virar moda. Vão escarafunchar o cafundó do Juda em busca de detalhes que “a história nao mostra”. Temo que a visão de cineastas irresponsáveis seja tida como a verdade no futuro. Temo que os estudantes de história daqui a cem anos se embasem nesse tipo de obra em suas pesquisas.
Naõ é exagero. A preguiça de pensar ronda o meio acadêmico a muitas eras.
Bão, nao conheço nada dos mayas… os comentários de voces tão ótimos e instrutivos (isso que me fez ler tudo aqui).
Até a leve ofensa ficou humorística, creio que sem a intenção de ofender drásticamente.
Recentemente, uma professora, em busca de intertextualidade, levou os estudantes a comparar os valores que norteiam o Jaguar Paw e o índio do Poema Juca Pirama de Gonçalves Dias.
Por isso que to aqui na net pesquisando opiniões sobre o dito cujo do filme. Só isso que quero.
Não assistirei jamais um troço desse.
Mais uma vez, grato pela demonstração de pesquisa e opinião nas palavras de voces.