Cachorrão
Nos últimos anos tem sido difícil comer bem nos interiores da vida. Cidades que possuem ótimos pratos típicos e regiões com uma culinária fantástica já não são qualquer garantia de uma boa refeição. Por todo lado têm se servido a mesma coisa: cachorro quente, hamburger e pizza.
Por ocasião da Festa de São João das Missões em 2005 e 2007 havia algumas duas barracas que serviam peixe frito, tropeiro e receitas com ingredientes da região. As outras se limitavam vender a versão tupiniquim da culinária gringa. Em Jequitinhonha tentei sair pra comer um petisco de boteco, umas iscas de peixe ou algo assim, não havia nada do tipo fora do hotel onde eu estava hospedado. Novamente, embora nem fosse dia de festa, abundavam trailers e lanchonetes onde era possível se entupir de junk-food por R$ 5.
Sempre me pego imaginando porque as pessoas abandonam uma culinária tão rica e gostosa pra comer receitas que levam apenas ingredientes industrializados. Como é que o McDonald’s existe na Itália, na China ou aqui? Fora algumas raras exceções, a comida deles é bem ruim se comparada a um bom PF de botequim. Fui a um McDonald’s pela primeira vez quando tinha 8 anos, na ocasião me disseram que era chique. No mesmo dia descobri que era alérgico a alguma coisa que eles usam no sanduíche, e nunca consegui comer um sem passar mal.
O fato é que, as grandes redes de lanchonetes (ainda) não chegaram nos interiores que eu visito a trabalho, mas o que elas servem já está lá. As pessoas não comem pizza ou cachorro-quente no dia-dia, é um tipo de comida com algum status. Virou refeição de dia de festa, de exposição agropecuária, de carnaval, de sexta à noite. É como se tivesse um poder qualquer de inserir aqueles lugares e pessoas no mundo: de repente, no meio do sertão bravo, você está comendo a mesma coisa que alguém em NY. A comida do mocinho no filme da Sessão da Tarde.
Prato típico só em lugar pra turista, e a preço alto.



Ao mesmo tempo é possível encontrar um Pão de Queijo em NY… e é ainda mais chique que o hamburgão com ovo e cheddar do trailler. \o/
Lela
agosto 29, 2007 em 15:11
Yeah, mesma coisa quando fui pro Simpósio em Natal mês passado. Coisas típicas? Só pra turista ver e custando o olho da cara. Foi treta achar os esquemas locais a preço “popular”. Muito mais fácil achar um “Cachorrão” do que um buteco ou loja com esquemas típicos (que não sejam pra turístas), infelizmente.
O mais engraçado é que lá tem até praia com cara de cidade cenográfica (tão produzida e tão pra turista que parece até maquete) e MUITA prostituição.
Urfarah
agosto 29, 2007 em 15:15
Lela
Pão-de-queijo só tem em NY porque a cidade é cosmopolita e o prato é “exótico” :)
Barba
agosto 29, 2007 em 17:55
“Coisas típicas? Só pra turista ver e custando o olho da cara.”
exatamente. no interior aí não tem pq não tem turista pra pagar. mas a galera continua comendo, quieta dentro de casa, pode saber. até aqui em bh eu acho que rola isso, não se tem dinheiro pra ficar comendo fora e daí os restaurantes são coisas “cosmopolitas” (dona lucinha é só pra paulista e pra gringo!!! que dia que eu vou sair de casa pra comer um tropeiro num restaurante!? só se for no mineirão, muito melhor do que o de lá!)
felipe
agosto 30, 2007 em 18:36
Justamente, mas é engraçado ver um prato tão “ordinário” quanto o cachorro-quente virar comida de festa. Mas mesmo dentro de casa rola aquela mudança, como me falaram uma vez “Bolsa Família é pro cara parar de criar galinha e comer salsicha em lata!” Nada contra, mas é engraçado o cara comprar comida industrializada e ruim quando ali mesmo tem coisas nutritivas e saborosas a preço de banana – porque se comprar comida pronta pode ser caro, ir num mercado de interior e fazer uma feira sai absurdamente em conta!
Barba
agosto 30, 2007 em 21:20
a mais pura verdade. =P mas pelo menos sanduba de trailer de interior é melhor que McD.
Julia
agosto 30, 2007 em 23:26