Redes e Blogs

Novembro 11, 2007

Repensando algumas coisas nesse fim de semana completamente misantropo. Acabei não saindo pra canto nenhum e fiquei em casa escrevendo e lendo algumas coisas – deu pra produzir uma mixaria, mas o tempo foi bom pra colocar a cabeça em ordem.

Uma das coisas que vêm me martelando é o quanto eu me exponho blogando e como isso poderia ser bom ou ruim. Meu blog é pouco lido, mas escrever aqui não é uma questão de colocar minhas idéias na mesa pra milhares ou muitas milhares de pessoas lerem. Fora ocasionais visitas do Google, acho que tenho uns 2o ou 30 leitores – sendo otimista.

O problema real é outro. Como eu já disse antes, o Savoir-Faire é misteriosamente bem classificado no Google. Digitar meu nome e apertar o botão “Estou com sorte” traz qualquer um diretamente pra cá. Um eventual professor, colega de trabalho, amigo, empregador ou namorada sempre vai ter acesso a tudo o que foi escrito aqui. Basicamente, eu uso esse espaço pra discorrer sobre algumas coisas que eu penso, exercitar uma veia literária porca e, muito de vez em quando, fazer comentários pessoais – e mesmo assim procuro não me expôr tanto.

A diferença entre escrever sobre o que se pensa e escrever o que se pensa é enorme. Desde quando comecei a escrever blogar, em 2002, vi muitos blogs conseguirem audiência promovendo um strip-tease da vida pessoal dos autores. Estes praticamente publicavam os próprios diários para todo mundo ler – e não era raro ver posts sendo deletados por conta disso ou os autores fazendo meta-análises como essa e se arrependendo de terem escrito algumas coisas. Hoje, com a introdução do microblogging, é possível enviar mensagens via celular e falar sobre o que estiver fazendo a qualquer hora. Ok, mas quem se interessa por isso? Quem vai ler esse tipo de coisa?

Quando os blogs viraram febre muita gente se perguntava sobre isso também. Ninguém achava que seria útil ler sobre o que outros pensavam ou mesmo acompanhar um “querido diário” eletrônico. Essa previsão de pouco interesse nos blogs se mostrou equivocada e em pouco tempo eles se tornaram a mais difundida forma de publicação pessoal na internet – seu formato foi incorporado a muitos sites.

O que estava por trás disso era uma idéia de publicação rápida e acessível. Enquanto num website você tinha que elaborar o texto e depois se desdobrar na frente de um editor de html, no blog a ferramenta de edição de texto já era incorporada e facilitava muito a vida de quem não queria gastar tempo editando páginas e fazendo uploads. Como todos sabem, os blogs foram os grandes responsáveis por democratizar a publicação na internet.

Apesar de seu uso por profissionais e a instituição dos pro-bloggers ter dado um ar de seriedade aos blogs como ferramentas de circulação de informações, eu penso que existe um pontecial nos blogs pessoais que parece pouco explorado. O que vejo hoje é a possibilidade deles como reforço de redes sociais já existentes ou criação de novas redes. Pessoas que se conhecem (de perto ou virtualmente) e se interessam mutuamente pelo pelo conteúdo que produzem, fabricando um novo espaço para o debate do que quer que seja.

Essas redes, de alcance limitado mas potencialmente amplo, não têm porque ganhar uma grande audiência. Seu objetivo primário seria a troca de idéias pura e simplesmente. Como inteligências coletivas, de indivíduos autônomos, elas são fluídas e seus membros podem pertencer simultaneamente a várias delas. Seu poder de intercomunicação perpassa a simples publicação e leitura, inserindo a figura do comentário, da repetição, do questionamento de um leitor em seu próprio espaço – outro blog.

Assim é possível ter um outro modo de articulação e diálogo entre pessoas que se encontram todos os dias ou que não se conhecem – mas possuem quaisquer interesses em comum. Sem se expor, ainda que em níveis mínimos, tudo isso seria impossível. Mais do que conseguir uma simples audiência, os blogs são uma possibilidade de encontrar colaboradores, parceiros, amigos, de construir idéias em conjunto.

Então, com a cabeça menos pesada, mantenho o Savoir-Faire até quando puder.

13 Responses to “Redes e Blogs”


  1. Tem eu! Também acredito no texto enquanto comunicador de blogs. Gosto de visitar o teu blog porque há textos completos e não pequenas janelas de idéias com medo de espantar o leitor. Google ama o blog com densidade de texto. O meu tem poucas visitas, menos agora que não visito com freqüência, mas tá lá, primeirão.
    Já expus mais da minha vida pessoal. Não deleto nada. Teu blog sempre tem textos de reflexão. Eu é que sou preguiçosa com o del.icio.us. Há que haver mais blogs de texto e aí a gente se junta numa passeata cibernética, que tal?

  2. Carlos Says:

    Barbi, para variar um grande texto.Aqui a partir de seu texto fiz algumas reminiscências em meu blog. O seu texto me fez questionar algumas coisas, em relação a idéia de liberdade de opinião. Valeu.

  3. Barba Says:

    Tina,

    É uma idéia ótima :)

    Carlos,

    Bacana! Valeu demais! Vou comentar lá.

  4. Julia Says:

    Pois é. Eu já tive muita experiência com exposição na net e afins. =P Mas ao mesmo tempo a internet me trouxe amizades, virtuais e reais, muito boas. Mas preciso transformar meu blog num espaço mais útil. O pior é que eu já tentei isso mil vezes, talvez não com muita vontade.

  5. Barba Says:

    Julia,

    Você não PRECISA transformar o blog num espaço útil. Isso sempre é legal – como naquele tutorial de cores bacana que você fez – mas sem pressão. Demora até você conseguir focar num perfil de texto, no que quer escrever, no que seus leitores vão se interessar – eu mesmo não faço idéia – mas um dia chega : )

  6. Dora Says:

    Bacana o texto, Barba. Já me perguntaram algumas vezes se eu não gostaria de “monetizar” meu blog, mas eu não sei se esse é o caminho. Pelo menos não por hora. O valor que enxergo no meu blog é outro que não dá pra ser contado em cifras de reais.

    Cara… Esse assunto dá muito pano pra manga.

    E bem como você, eu também acho que o meu blog não é mto visitado e desacretido nas estatísticas. Mas vou deixando. Se as pessoas voltam, é por que gostam.. rs

    Abraço.

  7. Barba Says:

    É engraçado, tem gente que entope o blog de anúncios antes de qualquer coisa interessante pra postar – e, só porque “monetizou” já ganha um status diferenciado.

    Como eu falei o meu é pouco visitado e cresce muito lentamente – mas só têm crescido desde quando começou – então o bacana acaba sendo justamente essa coisa do debate, das idéias: uma relação mais estrita com cada leitor.

  8. Prós Says:

    Putz achei foda essa parte aqui:
    “existe um pontecial nos blogs pessoais que parece pouco explorado. O que vejo hoje é a possibilidade deles como reforço de redes sociais já existentes ou criação de novas redes. Pessoas que se conhecem (de perto ou virtualmente) e se interessam mutuamente pelo conteúdo que produzem, fabricando um novo espaço para o debate do que quer que seja.”
    Acho que sem dúvida os blogs, que na verdade, são tantos de formas e jeitos diferentes dependendo das possibilidades efetivadas pela Sra Internet, assim como pela multiplicidade de leitores, recriam espaços de comunicação e diálogo, que envolve ao mesmo tempo reflexão individual com a possibilidade de coletivizar e por as coisas na mesa. A questão, penso, é qual será a força dessa comunicação na vida aí do dia-a-dia, outside net..? Exemplo interessante foi os blogs acompanhando a ocupação da USP. A mídia oficiosa, batia todo dia na mesma tecla, repetia a mesma baboseira, aí vc ia ler no blog dos caras, e via um monte de coisa interessante, mas e ai qual o impacto disso tudo?
    De qualquer forma é bacana pensar que a maioria dos jornalistas sérios desse país tem um blog e participa ativamente desse meio…

  9. prill Says:

    ótimo tudo. à contento tudo.
    volto quando estiver sóbria

  10. Barba Says:

    Prós,

    Questão, penso, é qual será a força dessa comunicação na vida aí do dia-a-dia, outside net..?

    Não sei, mas já a algum tempo ando pensando se essa dicotomia entre real e virtual pode ser reificada. Porque essa de que existe um “cyberespaço” ou uma “blogosfera” é limitar o alcance do que é publicado da internet.

    Sobre essa ocupação da USP, por exemplo, eu fritei demais com a quantidade de clichês “comuna do DCE” que se lia mesmo nos blogs deles. A USP está meio mal das pernas há algum tempo e se as ações desses grupos não se prestassem a isso, talvez conseguissem mobilizar os estudantes de fato e não meia dúzia de “ativistas”. De qualquer forma é bom ver os malucos quebrando o marasmo e o blog dos caras certamente foi um veículo citado e poderoso.

    Não dá pra comparar com o poder de um jornal, de uma emissora de rádio ou televisão, mas é a chance de uma voz pra quem quiser ouvir – com um alcance muito maior do que um folhetim ou fanzine.

    Prill,

    Obrigado. Volta mesmo!


  11. muito bom o texto, coração…
    este blog tem sido, cada vez mais, um de meus espaços de reflexão/inveja criativa preferidos…

  12. Barba Says:

    Obrigado, fico lisonjeado!
    Você tá demorando é pra escrever um livro, hein? :)


  13. [...] Por outro lado é interessante perceber que fora dessa esfera dos blogs com muita audiência estão aqueles que se propõem a ser simplesmente um bastião da opinião do autor. Essa última, por menos relevante que pareça, tem uma outra dimensão quando pensada em uma esfera mais restrita. [...]


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