Savoir-Faire

R$1,99

Amores Brutos #14

com 2 comentários

Depois de 9 anos de casamento qualquer um poderia não é? Então eu saí de casa, disse que ia beber com os amigos e fui pra lá. “Scotch Bar”, eufemismo de puteiro. Um leão de chácara na entrada, um ponto de ônibus vazio, um estacionamento 24 horas. Do outro lado de tudo, uma igreja evangélica, um carrinho de cachorro-quente.

Subo as escada e realmente tem um barzinho arrumado lá em cima, espero que o uísque não seja paraguaio. A cafetina me recebe, jovem e bonita, dizendo que as meninas dela são as melhores da região. Espero que sejam, porque nem a entrada foi barata.

Algumas delas estão soltas pelo lugar, onde todos os freqüentadores parecem ter mais de 40 anos, e parecem ótimas apesar das roupas vulgares, maquiagem pesada e perfume exagerado. Uma de pele morena e percebe que eu estou olhando e se aproxima. Camille, seu nome carnal, me conduz pra longe, pra um quarto.

Tudo acontece rápido e violentamente e de repente sou eu quem a conduz. Um ou dois tapas, xingamentos e humilhações. A sensação de poder. Acaba e nos recompomos, daquele jeito tímido, estranho. Seus olhos brilham, ela diz ter gostado da pegada firme. Não falo nada, distante quilômetros dali. Ela se veste e pergunta se pode sair.

Pergunto se tem filhos e ela se senta de novo na cama. Dois, pequenos. O pai? Encarcerado por tráfico, foge e volta pra cadeia todo ano. Ela quer saber de mim. Não falo nada mas sou gentil. Ela se retira, mais leve.

Tomo um White Horse na saída. Assuncíon nunca fez nada tão gostoso. Gorjeta para o porteiro, para o vigia do estacionamento onde convivem carros de bons cristãos e de bons pecadores.

Em casa, ela olha pra mim por cima dos óculos, concentrada na tela do laptop. Pergunta se posso buscar as crianças amanhã. Digo que sim, mas tenho outra entrevista marcada na quarta. Ela assente e continua seu processo. A distância entre nós, como um estreito, pequena e difícil de percorrer.

Escrito por Barba

novembro 18, 2007 às 22:21

Publicado em amores brutos, contos

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2 Respostas

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  1. 1,99
    eu já trabalhei numa lojinha de 1,99. passava o dia ouvindo rádio e morrendo de calor, mas não lembro. sei que havia paridade dólar-real.

    é um preço pouco – veja que o dólar tem estado baixo. as coisas aqui são boas mesmo. se eu tiver grana, viro freguesa. seria bom um carnê tipo Casas Bahia.

    fico feliz de ter notícias de Camille… às vezes lembrar dela é a única coisa que eu fico esquecendo. tiração de secções do meu estômago. vi tudo. obrigada.

    ps: daí o lance da merdona não faz o menor sentido mas o alinhamento da galáxia pra mandar um texto na piauí é crucial. vou manter a minha merda privada.

    prill

    novembro 19, 2007 em 20:35

  2. 1,99 é cabalístico, mas se virar freguesa ainda arrumo um desconto.

    Quanto à piauí, acho que só tento de novo no dia em que eu for gente grande.

    Barba

    novembro 19, 2007 em 22:23


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