(in)Veja
“Que coisa formidável! Estamos diante da defesa de uma nova forma de apartheid. Para os antropólogos da maldade, os morros e as periferias são civilizações independentes” escreveu Reinaldo Azevedo em um artigo para a revista Veja dessa semana.
Parece impossível comentar isso. Me lembra a matéria dizendo que a UFMG faz doutrinação comunista porque treina professores de movimentos sem-terra – ensinar matemática, geografia, português e história pra o pessoal da Bancada Ruralista seria promover uma doutrinação direitista, imagino.
Qual o problema com esses colunistas? O que poderia justificar sua atitude anal-retentiva a qualquer coisa que passe longe do cosmopolitismo de Ipanema, da Avenida Paulista ou dos cafés europeus que freqüentam? Quem sabe seus filhos dançam funk carioca no churrasco da faculdade, usam camisas do Che Guevara ou freqüentam show de rap. Eles, a pleno mau-humor com a “barbárie” que se espalha pelo mundo, chegam em casa e cospem a quantidade absurda de desinformação em formato de matéria.
A separação entre uma cultura erudita e uma cultura popular não é nova, não foi inventada pela Regina Casé nem é apoiada pelos “antropólogos” – desde o início da histeria anti-quilombola viramos uma espécie de ameaça terrorista. Eu não concordo com essa distinção, até porque o que é tido como erudito hoje já foi considerado bárbaro por “senhores de família” (samba era música de malandro, não?). O popular ganha espaço no meio erudito e vice-versa (alguém realmente acredita que os “antropólogos” são contra inclusão digital, bibliotecas ou ensino formal?) o que Regina Casé e outros querem promover é um diálogo entre meios aparentemente separados. Ninguém acha que não há nada a ser ensinado para as populações das periferias, só parece pretensioso e infantil acreditar que elas não têm nada a dizer para o mundo.
Obviamente o que Reinaldo Azevedo faz é repetir a boa e velha ladainha que celebra o Ocidente Moderno como o ápice, como a grande realização do ser humano, e seria blasfêmia dizer que existe algo que sua ciência não saiba ou formas de expressão que se equivalham às suas artes.
Se a cosmologia do Ocidente Moderno se constrói nesses termos, inexiste o espaço para o diálogo. Resta aos guardiães de seu estandarte imaculado promoverem uma resistência cega a qualquer tentativa de celebrar um debate em termos iguais com aqueles que consideram inferiores. Esse pensamento binário e tacanho é uma indicação que “atraso” e “barbárie” têm muitas faces.


a única “antropóloga da maldade” que eu conheço é a Ana Lúcia Modesto. hehe.
Rogério
dezembro 5, 2007 em 16:22
Oi Barba,
Ótimo texto. Acho que blogueiros devem se manifestar, através de seu jornalismo livre, contra esse jornalismo institucionalizado que tenta veicular a voz da verdade. E tudo isso com o título de “formadores de opinião”.
Abraços
Adriano Senkevics
dezembro 6, 2007 em 20:49
cara, se não fosse a pedra fundamental da constituição do estado moderno além do monopólio da violência, que é o da moeda, a favela já seria essa civilização independente que ele diz aí há muito tempo. mas aí quem lavaria a roupa do neném que escreve na veja!?!?
com essa onda de bancos comunitários ligados à economia solidária já andaram até prendendo uns aí que ousaram criar seu próprio meio de troca… e aí eles fazem os caras entrarem no esquema (garantir conversão pro real sem limitações) pra ganharem autorização do banco central – já ouviu falar do banco do bem em vitória e do banco palmas em fortaleza?
felipe
dezembro 8, 2007 em 1:18
[...] antropologia. Mas nesse caso ele admite… se é que isso é algum [...]
O Rei « Savoir-Faire
fevereiro 22, 2008 em 14:57