Resto e descuido
Dezembro 5, 2007

Assisti Estamira hoje de manhã e no fim de tudo bateu uma melancolia estranha, feita de desesperança e chorume das águas daquele aterro sanitário. Ano passado, alguém me contou que as pessoas riam no cinema toda vez que Estamira falava algo – talvez pudessem ser até coisas engraçadas em algum outro contexto.
A mulher mal tratada, abandonada, estuprada e enlouquecida que eu vejo no filme me deixa perplexo. O lixão não é propriamente uma novidade, estive perto de um certa vez e ele fedia mesmo a meio quilômetro de distância, mas nunca pensei em quem seriam aqueles catadores. Por algum motivo pensei que com a diversificação e ampliação da coleta seletiva eles não precisassem mais comer do lixo. Besteira. Pra se estar ali, pra se dispor àquilo, é necessário se abrir mão de muita coisa.
Ao contrário de outros filmes, Estamira não é feito pra chocar, mas o faz. O que parece terrível não é a constatação de que aquelas pessoas e aquela situação existem mas o fato de que o farão pra sempre.



Dezembro 6, 2007 at 1:07 am
Não vi o filme ainda. Imagino o sofrimento. No inicio desse ano eu e Julia conversamos muito com os catadores da ASMARE e de outras associações de coleta seletiva da região metropolitana. E é uma vida muito pesada, muito sofrida, mesmo. E o que é louco é que como pequenos signo de respeito vale tanto para esses catadores, que é algo que aparece com a organização e tal. Mas uma coisa me assustou muito, foi quando disseram que no lixão os catadores tiravam mais dinheiro, do que na coleta, e por isso muitos resistiam a idéia de fazer aterro e tal. Mas é um mundo louco, que perpassa ecologias, estado (lembrar a nmáfia lá de ribeirão preto é do povo do lixo), mercado totalmente obscuro, e o mais foda, muitas vidas. É papel higienico com merda sendo separado no meio do material, sem eufemismo. Por isso achava tão importante quando os catadores falavam da miséria, pq tem muita gente q se contenta com os ideiais da organização popular, e presta pouca atenção no trabalho cotidiano e nas dificuldades.
abraço!
Dezembro 6, 2007 at 12:33 pm
já viu “Boca de Lixo” do Coutinho? É melhor.
Dezembro 6, 2007 at 4:12 pm
Prós,
Eu imagino que tiram mais no lixão mesmo porque não precisam andar quilômetros pra catar. Depois a gente tem que tomar uma cerveja pra você me contar isso direito.
Rogério,
Valeu pela sugestão : )
Dezembro 9, 2007 at 9:48 pm
Estamira é daqueles filmes completos, que faz chorar e rir, algumas vezes ao mesmo tempo. Mas, principalmente, faz pensar. Não há como ver um filme tão denso e não questionar a si e ao mundo sobre um monte de (in)certezas. Se é bom ou ruim, se esse ou aquele é melhor que ele, se vê-lo “faz bem” ou se “faz mal”, se choram ou se riem, não sei, mas ninguém fica impassível durante e um bom tempo depois de ter contato com Estamira.
Dezembro 12, 2007 at 6:04 pm
mas boca do lixo é muito diferente de estamira! nem melhor, nem pior. de qualquer forma, se posso dizer, diria que prefiro boca do lixo.
Dezembro 12, 2007 at 6:08 pm
tem um outro filme, muito foda… nem tem a ver com lixo da Avenida Brasil (sem metáforas): “Uma Avenida Chamada Brasil” de Otávio Bezerra! muito foda!
Dezembro 12, 2007 at 9:19 pm
ah meu velho esse aí da avenida é insano.