Não escrevi uma carta pra ninguém. Não coloquei no correio. Não fui comprar o pão. Não paguei a conta. Não andei de bicicleta. Não aceitei aquele trabalho. Não casei. Não tive filhos. Não parei de fumar. Não fui feliz… nem infeliz. Viver não dói, pelo menos não depois de tantos analgésicos por aí. Todo dia é possível se entorpecer de nada. Viver sentado em frente a alguma tela, viver em pé frente a qualquer vitrine, viver caído em qualquer calçada, de braços erguidos em qualquer templo. Colocar em prática o grande projeto de amputação voluntária do ser humano.
Retirado o incômodo órgão que causa a sede, só resta viver em meio aos saciados, ansiando por algo que se quer mas não é mais possível. O vazio do inesperado se foi, o conforto do que se colocou no lugar, o esmagamento do que agora é insignificante. Assim, e só assim, é possível prosseguir.
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