O conto do jornalista

Janeiro 30, 2008

Dessa vez a revista IstoÉ cede à histeria anti-quilombola e, como em muitos outros casos de reportagens sobre o tema, desvirtua dados e espalha desinformação. Na reportagem O conto dos quilombos, de autoria do jornalista Sérgio Pardellas, é afirmado que as populações quilombolas revindicam área maior que o Estado de São Paulo.

O mapa de onde esse suposto dado se apresenta foi feito com base em outro produzido pelo professor Rafael Sanzio, da Universidade de Brasília. No mapa de Sanzio, as àreas destacadas correspondem às de municípios onde há registros de comunidades quilombolas. A revista Istoé apresentou o mesmo sob o título de “Áreas revindicadas como quilombolas”:


(Clique pra ampliar)

Não bastando esse “mal entendido” – prefiro acreditar que não se trata de uma manipulação de dados – o jornalista repete o bordão do movimento Paz no Campo, ligado a setores de extrema direita, de que o município de São Mateus terá 80% de sua área desapropriada para regularização fundiária de terras de quilombo. E claro, o autor ainda inventa a categoria de “pirataria antropológica”. Os antropólogos, como sempre, é que fabricam essas populações, elas nunca tiveram suas reivindicações e problemas.

A palavra “quilombo” significa “habitação” na língua banto. Durante os tempos do Império Ultramarino Português foi usada para designar, na legislação, lugares onde se escondiam dois ou mais escravos fugidos. Esse sentido de quilombo é o mais popular e presente na historiografia, especialmente devido ao caso de Palmares, mas nunca foi o único. Muitas comunidades de negros, inclusive perto de grandes centros urbanos como o Rio de Janeiro, também eram referidas como quilombos. Em Minas Gerais, persistem inúmeras comunidades rurais habitadas principalmente por negros chamadas desde de tempos antigos simplesmente de “Quilombo”.

Grande parte das populações hoje chamadas de quilombolas são compostas por grupos que sustentam um modo de vida tradicional ligado à exploração da terra, caça e pesca. São remanescentes de locais onde se abrigaram escravos fugidos, herdeiros das chamadas Terras de Preto e Terras de Santo, populações de escravos e/ou libertos que moraram em terras adquiridas e herdadas regularmente.

Todos esses grupos tiveram seu acesso à terra comprometido, em grande parte devido à falta de acesso à justiça, grilagens e compras fraudulentas. Hoje a regularização fundiária das terras de quilombo representa a chance de reparar injustiças cometidas contra essas populações.

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