Savoir-Faire

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E santo tolera ofensa?

Não, não. Nem sei. Foi há tempo demais, não dá pra lhe precisar o ano. Deve ser coisa de antes da tal guerra, aquela lá na Itália. Segunda Guerra? Essa mesma. Tinha um velho pros lados do Corgo Limpo que foi pra lá, sabia? Lutou, foi soldado. Ele morava numa casinha assim, sozinho. Moça nenhuma lavava roupa pra riba de lá com medo desse aí. Se vi ele falar foi pra comprar na venda, ainda assim muito pouco. Apontava quase sempre, deixava lá o dinheiro da pensão. Bebia nada! Tinha era mania de atirar em lata. Às vezes gente escutava cada pipoco, estrondo, quem nem trovão, mas era ele. Devia ser o jeito de passar o tempo. Tinha dia que ficava inteiro lá na venda, só assuntando. Em silêncio completo, bebendo café. Davam-lhe bom dia, boa tarde e ele balançava a cabeça. Vê isso!

Mas não sei dizer quando foi que aconteceu. Meu avô me contou, quando eu era novo, mas nunca disse o ano precisado. O senhor anote aí desse jeito, é o que dá pra precisar. Também não lembro da história toda, cabeça da gente falha demais nessa idade, mas vou lhe contar como ouvi.

Naquele tempo sei que tinha a Folia do Mato Seco. Contam que foi a família de Seu Rubim que fundou ela, pra modo de pagar promessa. A promessa? Aí já não sei. Cada um fala uma coisa: foi pra salvar colheita, vida de filho, sarar doença… vai saber. Mas todo dia 24 do dezembro, depois da meia noite, ele juntava os companheiro e saía fazendo a Folia.

Noutra partezinha aí, pro lado do Corgo Fino, tinha outra gente que cantava Folia. Desses não sei muito, já não estão mais por aí. Os velhos falam que o chefe dela era meio amargo, gente meio bruta. Senhor vê, Corgo Fino não tinha igreja, nem capela, mal estrada – a gente de lá era capiau mesmo. Nome dele era Julião, queria ajuntar esmola pra erguer uma capelinha pro São Sebastião.

E naquele tempo não tinha isso de tocar ali pertinho não, os folião comiam chão de instrumento em punho. Iam longe. Era cantoria em cada casa que chegavam. Vinham versando esmola, o senhor sabe, pro Santo Reis. Gente pobre dava o que podia, tostâo, vintém, mantimento até. Mas sempre tinha um doutor ou fazendeiro que recebia o folião em casa, davam esmola gorda, abrigo, cachaça boa, cozinhavam um macarrão com frango – iguaria fina!

Eis que afora, Dia de Reis, quando as duas Folias já tinham rodado meio mundo, dão cara no alto do morro ali, onde tem aquele cruzeiro. Quando isso acontecia o encontro desandava em uma demanda: as Folias iam tocando uma pra outra, respondendo verso e tudo, até uma desistir. Folião vencido entregava instrumento, bandeira, oratório e oferta…

Vai que as duas nunca paravam, quem perdesse ia dar ao outro ofertório cheinho. Sol alto e sol baixo e lá ia sanfona e viola comendo o dia. Até ajuntou gente a ver, redondeza toda daqui.

Daí, como feito pra destino, desabou um toró no fim da tarde, daqueles que não dá pra ver um palmo adiante. Todo mundo correu pra abrigar embaixo dum pezão de joá ali perto. E lá, mesmo com a chuva toda caindo, começou a discussão pra ver quem tinha parado primeiro. Veja o senhor como os antigos não deixavam nada por conta!

Meu avô já era moço feito, tava embaixo desse pé assistindo aquela loucura. Tentou apartar e quase levou um tapão na altura da orelha. Julião disse que nunca ia dar por vencido, do contrário o São Sebastião ia ficar sem capela. Seu Rubim, já velho idoso, protegido por filharada e sobrinhos falava que nunca, nunca ia entregar esmola que ele tinha suado de sanfona na cacunda pra conseguir.

As gentes que lá suplicavam, rezavam até pra resolver aquilo rápido. Brigar em Dia de Reis perto do cruzeiro e carregando bandeira de santo era pecado grande, se não era? Diantou nadinha… Julião, muito forte e belicoso, saiu de viola na cabeça duns pobres lá.

Foi que foi, se bateram demais. Um tal de Vercim até perdeu um bocado de dente. Negócio feio, feio mesmo, coisa que o senhor nem queria ver. Os antigos eram meio ignorante: num dava pra resolver um empate? Que coisa!

Mas tem pior, ah se tem. Quando já tinham arrebentado instrumento e cara de tudo quanto é folião, deram por conta que os ofertório tinham se ido no meio daquela desordem toda. Dá-lhe acusação, uns querendo voltar em casa pra buscar garrucha, facão, foice… Povo segurou eles. Procuraram no arredor todo, olharam com pessoal, ameaçaram até. Nada.

Aí o Julião pôs os joelho em terra e pediu perdão pro Santo Reis. Disse que era castigo imposto pelo feito ruim, chorou até. Empate dado, por brutalidade, as duas tinham perdido os instrumentos e dias de esmola. Punição de santo não é pouca! Seu Rubim entrou em acordo e se uniu a ele em reza. Todo mundo seguiu.

Mas contar pro senhor, tanta confusão de briga desse jeito, dia anoitecendo e tudo. Qualquer um podia ter roubado e corrido, pois não? Nunca se soube, e quem ia acusar em falso? Erro era deles. Foi essa a história. Mas lhe digo que meu avô, por mistério do mundo, ergueu casa aqui. Casou logo depois. Nunca lhe faltou nada. Ah…

Escrito por Barba

março 8, 2008 às 18:34

Publicado em contos

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2 Respostas

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  1. vi falar do encanto! dos anos quarenta, aos quarenta. um ferreiro noir, um ex-combatente laminado. dia desses ergueu seus punhos e deixou a faca no teclado. o som era bruto, conciso. de história dos antigos. de crônica própria – arte seca. lembra da chuva? eram riscos, traços na tela cinza, escura. incorporado, seu teclado não reage, rege a letra “A”, por exemplo, que de tão sensível, basta olhar de perto, respirar que a série se apresenta. a série? aproxime-se!

    rizoplan

    março 10, 2008 em 1:09

  2. [...] Demanda [...]

    Danação « Savoir-Faire

    janeiro 5, 2010 em 17:21


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