Expiação

Se nasce torto…
Pra lhe dizer a verdade eu não entendo muito dessas coisas. Quando eu era moço, logo que surgia um sujeito ruim por aqui diziam que era maconheiro. Era que nem falar que era filho do Cão! Sabia que homem era uma moléstia só. Desgraça! Nem em São Paulo mexi com nada disso, pergunte à minha mulher.
Teve uns dois aí que foram comigo, novinhos, pra trabalhar de aprendiz de carpinteiro. Cadê que voltaram? Se perderam. O senhor volte lá e procure, devem estar no chão preto cheirando cola de sapateiro. Ah, mas meu irmão nunca foi que nem eu – que nem nós da família. Se o senhor perguntar aí vai saber: nem avô, nem tio, nem pai meu foi de confusão. Veja só. O temperamento de minha família é o de trabalho, viver em paz, na comunhão com Deus. E ele queria saber disso? Ah… que nada. Nasceu teimoso, bugre… De novo, não aceitava que lhe pusessem roupa. Nosso avô dizia que era o sangue índio, que mãe dele tinha sido pega a cachorro. Era nada. Tem coisa que é feita assim da própria pessoa mesmo, né não? Sujeito veve, veve e não muda.
Adiante, eu fui jornaleiro em São Paulo. Depois pedreiro. Depois pintor. Nesse último serviço eu já morava como gente. Casinha feita, um quarto pra eu e a véia e outro pros meninos. Banheiro azulejado, privada de louça. Naquele tempo nem era coisa que se via assim, pra todo lado. Era luxo rico.
O nosso pai morreu naquele tempo. Foi coisa da cabeça, segundo dizia o doutor. Meu irmão era novo, nem tinha casado ainda. Fiquei com pena, ele que tinha ficado pra trás ajudando o pai na roça. Falei pra ele vir, morar comigo. Eu arranjava um trabalho fichado, dava chance dele fazer a vidinha.
Mal chegou lá e já foi encostando perto de mau elemento. Trabalhava de dia, bebia cachaça e jogava carta de noite. Como não faltava um dia de serviço, deixei. Mas mal de calado é o pior, não é não? Mês depois ele apareceu em casa de barriga furada: carteado e bebedeira é porta de inferno certeira.
Aí disse pra ele se ajuizar, buscar retidão. Adiantou? Como disse ao senhor, a pessoa nunca muda. Até rezar eu rezei. De tanto eu pedir ele foi dar jeito de se ajeitar noutro canto. Um barraquinho sujo, parede de madeira e lata, até rato tinha. Povo vinha dizer que ele tinha virado maconheiro.


Puxa vida! Faz muito tempo que não leio contos típicos brasileiros. Valeu a pena. O personagem vendido ao “diabo” lembra-me de personagens aqui do sul dos EUA.
Parabéns.
tina oiticica harris
abril 1, 2008 em 16:14
[...] Expiação [...]
Danação « Savoir-Faire
janeiro 5, 2010 em 17:21
Hello i really like thoose pictures kindly upload more of them ?
tubeladyboy
julho 16, 2010 em 16:30