Savoir-Faire

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Expiação

com 3 comentários

penitência
Se nasce torto…

Pra lhe dizer a verdade eu não entendo muito dessas coisas. Quando eu era moço, logo que surgia um sujeito ruim por aqui diziam que era maconheiro. Era que nem falar que era filho do Cão! Sabia que homem era uma moléstia só. Desgraça! Nem em São Paulo mexi com nada disso, pergunte à minha mulher.

Teve uns dois aí que foram comigo, novinhos, pra trabalhar de aprendiz de carpinteiro. Cadê que voltaram? Se perderam. O senhor volte lá e procure, devem estar no chão preto cheirando cola de sapateiro. Ah, mas meu irmão nunca foi que nem eu – que nem nós da família. Se o senhor perguntar aí vai saber: nem avô, nem tio, nem pai meu foi de confusão. Veja só. O temperamento de minha família é o de trabalho, viver em paz, na comunhão com Deus. E ele queria saber disso? Ah… que nada. Nasceu teimoso, bugre… De novo, não aceitava que lhe pusessem roupa. Nosso avô dizia que era o sangue índio, que mãe dele tinha sido pega a cachorro. Era nada. Tem coisa que é feita assim da própria pessoa mesmo, né não? Sujeito veve, veve e não muda.

Adiante, eu fui jornaleiro em São Paulo. Depois pedreiro. Depois pintor. Nesse último serviço eu já morava como gente. Casinha feita, um quarto pra eu e a véia e outro pros meninos. Banheiro azulejado, privada de louça. Naquele tempo nem era coisa que se via assim, pra todo lado. Era luxo rico.

O nosso pai morreu naquele tempo. Foi coisa da cabeça, segundo dizia o doutor. Meu irmão era novo, nem tinha casado ainda. Fiquei com pena, ele que tinha ficado pra trás ajudando o pai na roça. Falei pra ele vir, morar comigo. Eu arranjava um trabalho fichado, dava chance dele fazer a vidinha.

Mal chegou lá e já foi encostando perto de mau elemento. Trabalhava de dia, bebia cachaça e jogava carta de noite. Como não faltava um dia de serviço, deixei. Mas mal de calado é o pior, não é não? Mês depois ele apareceu em casa de barriga furada: carteado e bebedeira é porta de inferno certeira.

Aí disse pra ele se ajuizar, buscar retidão. Adiantou? Como disse ao senhor, a pessoa nunca muda. Até rezar eu rezei. De tanto eu pedir ele foi dar jeito de se ajeitar noutro canto. Um barraquinho sujo, parede de madeira e lata, até rato tinha. Povo vinha dizer que ele tinha virado maconheiro.

Passei tempos sem ver, tempos grandes mesmo, só lamentando a desgraça. Num dia fui comprar um quilo de farinha, farinha boa, na casa do Candelário – ele sempre trazia dessas de casa. Topei com meu irmão na rua, magro que só osso, olho vidrado. Passou por mim feito fantasma.
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Coisa horrível, digo pro senhor, é ver sofrer alguém que a gente gosta. Quando eu era rapaz um cavalo meu quebrou a pata, até chorei com pena do bicho, pranto mesmo. Como não tinha remédio chamei meu pai, que veio de espingarda carregada pra aliviar o sofrimento. Coisa justa isso.
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Mas meu irmão não era bicho, vê-lá se eu ia fazer isso com ele. Deus livra! Havia de aproximar. De vez em quando eu fazia uma marmitinha do jeito que ele gostava – torresmo, feijão, angu e abóbora – e entregava no barraco. Às vezes ele nem abria a porta, às vezes comia até com a mão.
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Coisa foi, coisa foi e ele sumiu de novo. Pensei que tinha morrido, mandei rezar missa até. Daí quase ano depois ele me volta, terno branco, Bíblia garrada debaixo do braço. Tava feito missionário pelo sangue de Jesus. Disse que tinha largado dos tóchico todo, até cigarro. Por vista de longe achavam ele diferente, feito novo. Eu sabia, que nunca tinha mudado. A pessoa não muda.
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Esperto era de quem sabia escutar o sermão dele, suor e grito. Nem Deus, nem camisa e gravata alinhada, nem Bíblia. Isso tudo só cobria a pele, aquela que levava ele pra vida rasgada. Se ainda sofria não sei, mas continuava feito bicho, feito arisco.
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Escrito por Barba

abril 1, 2008 às 14:07

Publicado em contos

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3 Respostas

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  1. Puxa vida! Faz muito tempo que não leio contos típicos brasileiros. Valeu a pena. O personagem vendido ao “diabo” lembra-me de personagens aqui do sul dos EUA.

    Parabéns.

    tina oiticica harris

    abril 1, 2008 em 16:14

  2. [...] Expiação [...]

    Danação « Savoir-Faire

    janeiro 5, 2010 em 17:21

  3. Hello i really like thoose pictures kindly upload more of them ?

    tubeladyboy

    julho 16, 2010 em 16:30


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