Levantamento englobando 1.400 pesquisadores de 60 países foi feito pela revista ‘Nature’. Necessidade de melhorar concentração é citado como principal razão do ‘doping’.

A era do doping científico pode ter começado, a julgar pelos resultados de um levantamento feito pela revista especializada britânica “Nature”. Um em cada cinco pesquisadores que responderam um questionário on-line da publicação admitiram o uso de drogas para melhorar seu desempenho intelectual. São medicamentos normalmente empregados contra doenças do sono, hiperatividade e problemas cardíacos, que agora estão sendo colocados a serviço da mente dos cientistas sem prescrição médica.

A “Nature” havia colocado o questionário em seu site no começo deste ano, estimulada por um artigo especulativo de neurocientistas da Universidade de Cambridge. Barbara Sahakian e Sharon Morein-Zamir haviam feito uma enquete de pequena escala com seus colegas a respeito do uso desse tipo de droga e perguntado se estariam dispostos a usar tais substâncias para melhorar seu desempenho. As reações do público da “Nature” foram tão fortes que a revista se viu motivada a realizar sua própria pesquisa.

O questionário foi respondido por 1.400 pessoas de 60 países. Além de perguntas mais genéricas sobre as opiniões pessoais dos cientistas a respeito do uso de “doping”, a revista decidiu enfocar um trio de substâncias já conhecidas por seu uso entre estudantes desesperados.

A tríade abrange o Ritalin (princípio ativo: metilfenidato), normalmente usado para tratar hiperatividade ou distúrbio do déficit de atenção e empregado informalmente; o Provigil (modafinil), que atua contra problemas de sono mas também combate o cansaço e a desregulação do relógio biólogico; e os chamados betabloqueadores, que os médicos recomendam contra arritmia cardíaca, embora tais drogas também possam atuar contra a ansiedade.”

No admirável mundo da “gonzociência” o júri do Prêmio Nobel deveria ter uma política anti-dopping. Obviamente se a pesquisa tivesse contado o uso de álcool, cafeína e nicotina os números seriam outros. Assim que ingressei na faculdade um amigo comentou que deveria ter uma espécie de bolsa que teria o fim específico de abastecer os cientistas de café e cigarro. Haveriam maquininhas espalhadas pelos campi e cada pesquisador teria um cartão para extarir delas um expresso ou maço de Marlboro – o DCE ia reclamar do financiamento pela iniciativa privada, mas até os colegas comunistas iam ambicionar o cartãozinho.

Essa notícia evidencia alguns fatos interessantes. O que mais me chamou a atenção foi o uso de remédios contra a ansiedade – mais um dos “pequenos” males da modernidade – tão comum em que qualquer um que se dispõe a pesquisar. Os resultados precisam aparecer mais cedo ou mais tarde e não necessariamente saem de acordo com o esforço empregado. O outro é o fato de que são cientistas, sujeitos pensados pelo senso comum como “esclarecidos”, aqueles que estão fazendo o uso de drogas sem muito critério ou prescrição médica.

Mas o que eu gosto mesmo mesmo nesse tipo de estudo é que ele escancara uma questão que ainda é muito mistificada socialmente: a do uso de drogas. Pessoalmente, não acho que seja seguro tomar anfetaminas e traqülizantes como forma de compensar demandas difíceis ou problemas causados pelo excesso de trabalho. Mas isso acontece e aparentemente é bem comum. Já ouvi de pessoas que trabalham em redações e agências que é comum tomarem um “rebite” quando uma deadline está próxima – algumas vezes por orientação da própria chefia.

Se pensarmos nos nossos índices de automedicação para fins não-terapêuticos- recreativos, estéticos, arbortivos, etc – é fácil ver que a boa parte da “droga” que se consome vem das farmácias e não dos morros. Que tipo de postura a Sociedade Civil e o Estado deveriam sustentar para tratar disso? Talvez uma que se baseasse mais em fatos e estatísticas analisados por esses mesmos cientistas (”drogados”) que em demagogia produzida para levantar votos dos defensores da moral.

PS: Esse não é exatamente o tipo de texto que eu gostaria de escrever comentando uma notícia tão interessante. Ando irritado com a minha dificuldade em concluir alguns argumentos mas decidi que escrever é a melhor maneira de resolver isso. Pensei ontem que é válido manter as notícias comentadas porque elas sempre dão idéias de pautas interessantes.

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