Glória
Junho 22, 2008
O salário do pecado é a morte?
Na estrada lá de de baixo vai passar o homem. Doutor advogado, é da raça de político de respeito. Gente querida, que é do povo. Deve ter vindo cá pra esses lados daqui fazer a média com a coronelagem, promessinha, pegar menino preto no colo. Vinha num automóvel, essa coisa que ninguém vê, pra ajuntar mais gente em volto ainda, mas nem estrada há.
Cá ninguém anda só. Dizem que é lugar onde muito espreita: catitu, gato do mato, bicho-homem. No cemitério da Fazenda da Vargem contam que se enterrou uma cafusa que coitou com o Cão. A mulher tinha um fogo que mal se apagava. Tombava homem. Mas se desvairou e consumiu. Na paróquia escutei que tinha parido um leitão, rubrinho, de sete patas.
E onde já se viu que mulher alguma ia parir porco? De certo a cafusa encontrou um bruto que lhe tirou o de digno, endoideceu e de tanto berrar lhe pensaram por possessa. Pedi pra ver o tal leitão, mas cadê que me falava onde andava? Ela morreu depois de pouco. Morte é coisa mais de Deus do que do resto.
E medo é de quê? De quem? Meu padrasto adiantava que medo é o que faz a miséria do homem. Que é que medo trás de bom? Já nem sei. Adiantei a vida sem nem pensar nisso. No seminário aprendi o temor de Deus: mas é o medo que anda com Deus ou Deus que anda com medo? Vai saber…
Eu não. Perdi a esperança de encontrar com o Alto. O Altíssimo. Reza nenhuma salva o que eu fiz. Nem novena rezada só com mulher casta. Nada adianta, não senhor. Pra Inferno ainda não vou, é preciso mais desgraça, talvez. Alma penada, esquecida no Limbo até o Dia do Juízo. É o que faz meu dizer andar na hora de rezar uma missa que seja: há que no Juízo o Cristo deixa eu morar na beirinha do Paraíso.
Doutor advogado urge fazer média na Casa de Deus, mas pernoita em teto de compadre antes de seguir. É do povo de Seu Maurício do Pinhal. Contaram que moça suspira de ver que é uma beleza, mal tem trinta. Fala complicado. Quer ser presidente.
Seu Maurício é que ia de candidato, quinta vez, mas o coração não seguiu. Caiu de cara na sopa… tristeza que só. O povo até chorou, fez fila no velório. Esse velório teve foi bom. Rezei missa daquelas de levar, cheia de renda. A viúva me chamou para a cozinha provar do assado, privilégio de padre. Moça mais nova, casada depois que a outra esposa morreu. Queixo a Deus pra que vire beata, já que não fica bonito ela se unir a outro em respeito à memória de tão estimada figura. Mas se quiser deixar o casarão da Fazenda do Pinhal pra confessar seus poucos pecados que padre não lhe prestaria um favor do consolo?
O confessionário é o leito do pecado. Ano após ano os pecados se deitam e rolam entre as línguas. Para quem muito fez o Mal o caminho é a penitência. A reza só traz ali a rememória do feito: Deus é Verbo mas não habita palavra, sim? Por penitência foi que escolhi o sacerdócio. Vida de pároco é sacrifício mesmo quando não é. A vocação, garanto, o homem só tem para a coisa que não se faz: todo o resto é suor.
Quando ainda moço segui a vocação e coisa ruim se deu. Larguei a roça do padrasto, rodei em casa de luz vermelha, joguei, bebi. Me ajuntei em bandidagem, roubei, matei pai de família. Carecia do recurso pra manter os vícios da carne. Dia sim, dia não, vagando com sol e lua na cacunda. Haveria de morrer cedo? Se não…
Mal conto o que me trouxe de volta à razão. Foi castigo, malefício, desgraça, coisa que marca um qualquer e condena. Aproveitei, ainda era jovem e mal procurado, fui bater em porta de igreja, demonstrar minha ladinagem como esforço do ofício. O padrasto era devoto, pagador de promessa, me contava dos versos do Rei Davi, vidas de santo, pragas de Moisés. De aceito e feito Ele me tornou pároco. Achei mais justo carregar as Escrituras na ponta da língua. No meu coração onde ia se caber isso? Só o medo é que alarga suas portas. Tive nenhum.
Como nunca tive de muita coisa. Se não tenho muito temor de Deus, vou temer é gente? O homem pode ser ruim, mas é mortal. A figura pode ser o que mais pode nesse mundo, mas um tiro bem dado lhe põe bem no lugarzinho. Temor algum nessa bruma da manhãzinha, como nem nunca. Carabina de cano retinho, bala de soldado. Dá pra acertar até borboleta.
Seu Maurício, tão querido político, fazendeiro. Homem bom. Do outro lado do rio há quem não ache. Seu Otaviano Fonseca vêm doando do bom e do melhor para a paróquia… se eleito diz de dobrar os esforços para agradar o Senhor. Pra quê vou deixar esse moço, doutor, ocupar a Pinhal? Engraçar com a viúva, desmercer a memória de Seu Marício? Não senhor.
Deus escreve tão certo por linhas tão tortas que é possível entortar o quanto aprouver, não? Amém, aleluia. Pecado não deita fora do confessionário: corre solto, baba e morde. Pecado é o que move o mundo, que faz o dia e a noite. Glória sem delito é coisa pouca, conversinha do Divino. Alguém já viu guerra sem culpado? Rei sem fardo? Vinho sem delírio?
Tem não. Tem nada disso… Quem vence carrega a serpente enrolada no pescoço. Quem perde vai ao encontro do Criador. O devir do pecado, o que é? Morte? Nãnão. É o sentir mal, a vertigem. Morte é concessão do Altíssimo aos seus filhos. Pra quê o medo num mundo assim?
Lá vem, lá vem a passar o doutor. Montado em cavalo de raça. Garboso, de paletó branquinho. Sol nascendo, nem tem jeito de errar, o doutor brilha que nem vaga-lume no meio da comitiva. Não quero o outro dia sem a satisfação desse. Mais cinco vêm junto, ninguém anda sozinho por aqui. Muito se espreita por essas bandas de cá mas não há quem possa imaginar o pároco e sua carabina no alto da colina. Não quem desconfie, quem possa acusar.
Esse uso maligno da santidade me colocaria lado a lado com os sodomitas e blasfemadores. Mas aposto que esses ai arrependeriam bem em frentezinha ao Esquerdo. Eu não, carrego nada de culpa comigo. Acredito sem receio e sem covardia, pois não? Daqui o tiro é certo. O puxar do gatilho é meu, entre ele e a morte do doutor está a vontade de Deus.



