Da escrita…
Passei algumas tardes das últimas duas semanas corrigindo trabalhos da graduação – tarefa integrante do estágio docente que estou fazendo nesse semestre. Isso fortaleceu meu respeito pelos professores que corrigem e comentam os trabalhos de seus alunos de maneira cuidadosa. Tentei fazer isso na medida do possível e gastei próximo de 30 horas lendo tudo e discutindo alguns pontos com a minha orientadora, que é a professora da disciplina.
E o que mais me chamou a atenção foi a questão da escrita. Em alguns trabalhos os alunos foram mais desleixados e mal passaram um corretor ortográfico do editor de texto. Os erros presentes incomodaram bastante durante a leitura e tornaram maior o esforço de ver a qualidade do trabalho como um todo. Alguns trabalhos, por mais breves que fossem, tinham uma fluidez sensacional que fazia a leitura muito agradável e interessante. Outros tinham um teor meio “travado”, onde era possível perceber a dificuldade do grupo em colocar no papel as idéias e experiências vividas – as tarefas dessa disciplina exigem uma investigação de campo.
Quando eu cursei essa disciplina essa também foi uma dificuldade minha. Como eu sempre digo, escrever é a coisa mais difícil do mundo. É uma espécie de domesticação de si mesmo que nunca tem fim. Se eu leio as coisas que escrevi há três ou quatro anos atrás, acho mal escritas e ponto. O pior é quando eu me deparo com o que escrevi na semana passada.
Alguns dizem que isso faz parte do processo todo, que a mudança de estilo sempre faz com que você ache o que fez antes pior do que o de hoje. Tenho minhas dúvidas a respeito disso, acho que a insatisfação é parte de uma dificuldade perene em expressar coisas cada vez mais complexas – pelo menos na escrita dentro da academia.
Na etnografia, onde a escrita tem que expressar (ou dar conta de um experiência) isso é flagrante. Meus primeiros trabalhos de campo eram, sem qualquer medo de falar, bem ingênuos. Eu percebia poucas sutilezas do assunto que ia pesquisar e costumava a ter visões objetivistas de tudo, o que obviamente viciava minha análise.
Nem por isso o texto era melhor, até porque eu não escrevia nada bem naqueles tempos. Hoje, de alguma maneira, sinto que consigo pensar o campo, e dentro do campo, de um modo que me satisfaz mais – ou pelo menos fica mais próximo do que eu idealizo como uma pesquisa etnográfica. No entanto, a escrita ainda parece muito travada, como se uma espécie de medo de me expressar de forma equivocada causasse justamente esse equívoco. Um ciclo vicioso daqueles mais angustiantes.
Para isso não há outra solução a não ser escrever. Lapidar a escrita mal-acabada, cheia de repetições e frases desconexas em alguma coisa palpável e fluida. Já percebi, dentro do óbvio ululante, que é impossível revisar o próprio texto logo após escrevê-lo. Um texto bom necessita de um tempo diferenciado, de ser escrito e reescrito, trabalhado frase a frase.
Logo, além de exercitar a escrita, também se faz necessária a disciplina. Só assim para dar conta dos equívocos, do medo, do ciclo vicioso.

