Vendido #6

setembro 16, 2008

Nunca gostei de gatos, desde quando era bem pequeno. Que tipo de afeição é possível ter por esses bichos que estão sempre à espreita, que não atendem a qualquer chamado? Alguma, é certo, do contrário os gatos não estariam há tanto tempo à nossa volta. Roubando carne posta para descongelar, urinando nos sofás, arranhando cortinas, defecando em caixinhas de areia.

Mas qualquer coisa que falte aos gatos é compensada com graça, e é justamente por isso que não quero os gatos próximos de mim: a graça torna qualquer ser traiçoeiro e egoísta ainda pior. Podem tudo do mais errado e ainda assim ganham o perdão, sob quaisquer circunstâncias. Alguns gatos eu nunca perdoei, outros torturei. Coisa de criança.

E agora, nesse momento, eu divido a cama com um felino – de outra espécie, não um gato. Talvez uma gata, embora eu ache essa a gíria mais cafona do mundo. E, mesmo que tudo o que eu disse sobre os gatos se aplique, eu deixo que ela roube a minha carne, arranhe as minhas costas.

O cabelo solto, o nariz levemente empinado, a pele lisa cheirando a loção hidratante e suor. Ninguém tem poder pra resistir a isso, mesmo sabendo que tudo fatalmente dará errado. Um dia. A vida é assim mesmo: mesmo quando sabe que caminha pro buraco, você continua andando se o caminho for agradável. Se for um deleite então é possível correr e pular de ponta.

É isso que eu estou fazendo aqui, na minha cama. Acordado, observando cada detalhe, sentido alguma coisa mexer na altura do estômago, pulando de ponta. Tudo intriga, convida. A tatuagem no braço tem algo escrito em francês e não faço idéia é, algumas cicatrizes na perna, a marca de biquíni (bem fraca) nas costas…

Há quanto tempo estamos aqui? Mais que um dia inteiro, a manhã diz que já é domingo, grita que já é hora de fazer alguma outra coisa além de fornicar mas não sinto qualquer vontade de sair do meu lugar. O quarto todo é uma inércia, as roupas espalhadas também teimam em não mexer.

Deslizo o dedo pelas costas dela, quase involuntariamente. Ela arrepia, vira para me olhar. Olhos grandes, de um formato exótico, que inspira mistério. É um felino gracioso, oh sim, e vai fazer muito do que não deve. Eu, já na terceira noite, tenho certeza que vou perdoar, aceitar, tratar bem.

É uma bela encrenca.

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