Der Baader-Meinhof Komplex
outubro 18, 2008
Minha obsessão pelo Baader-Meinhof sempre foi confessa. Desde o final de 2002, quando li o livreto Televisionários em poucas horas na casa do Rocha, tentei saber mais sobre a vida e err… obra do grupo terrorista cuja marca distintiva era um misto de charme e crueza sem limites.
Baader-Meinhof era o nome “popular” da Facção Exército Vermelho (Rote Armee Fraktion ou RAF) um grupo radical surgido na Alemanha Ocidental na década de 1960. A RAF foi formada num contexto muito particular, onde um movimento estudantil de orientação comunista se consolidava frente a alguns tópicos delicados naquela Alemanha pós-guerra. O primeiro deles se referia à manuntenção de muitos ex-membros do Partido Nazista em posições de poder, ilegalidade do Partido Comunista, além da ascenção dos conservadores ao poder – que alguns anos mais tarde culminou no expurgo de muitos funcionários públicos com idéias “radicais”. O segundo se referia ao controle da OTAN sobre a Alemanha e uma oposição ferrenha à Guerra do Vietnã.
O embate entre os estudantes e o Estado chegou a ponto sem retorno quando, em 1967, um estudante é morto em um protesto contra o Xá do Irã, Mohammad Reza Pahlavi. Benno Ohnesorg foi morto com um tiro na cabeça e o policial responsável pelo disparo absolvido em um julgamento posterior. A ação desproporcional se tornou um marco e causou reações intensas na esquerda alemã. Muitos questionavam o monopólio da violência pelo Estado e afirmavam que o governo da Alemanha Ocidental não havia rompido com o fascismo.
É nesse contexto que o a RAF surge com um projeto político radical, com uma clara orientação maoísta. Seus membros eram estudantes e profissionais envolvidos com movimentos de esquerda, alguns com um certo renome como a jornalista Ulrike Meinhof. Inspirada pelo Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano de Carlos Marighella a RAF inverteu a noção maoísta do campesinato revolucionário defendendo a guerrilha urbana. Após uma temporada de treinamento na Palestina, o grupo começou sua campanha de atentados, assaltos e manifestos em 1970.
A RAF podia ser um grupo terrorista qualquer, defendendo o maoísmo ou qualquer outro “ismo” e derramando algum sangue pra mostrar que ninguém estava ali brincando. Mas algo os tornou celebridades nacionais. As perseguições policiais, fugas, trocas de tiros e outras ações da RAF eram ousadas. A presença e importância das mulheres no grupo era um diferencial, e o charme beatnik dos membros chamava atenção. Usando a violência de uma maneira, literalmente, espetacular a RAF entrou para o rol dos bandidos-heróis.

Cena do filme Der Baader-Meinhof Komplex. Se eu for atingido, que seja por uma moça nesse modelito...
Com o lançamento de Der Baader-Meinhof Komplex (Alemanha, 2008) a história do grupo deve voltar a ter alguma evidência. O filme, baseado no premiado livro de mesmo nome escrito por Stefan Aust, já vem causando alguma polêmica. Parentes de vítimas da RAF se dividem sobre o teor do roteiro, alguns afirmam que a história desrespeita as vítimas e que seria uma espécie de Bony e Clyde moderninho. Outros, como o filho de Hanns-Martin Schleyer, entenderam que o filme mostra a RAF como ela realmente era “um bando de assassinos impiedosos e insensíveis”.
Enquanto o filme não chega por aqui é possível assistir a trailer sem legenda e pensar se, afinal de contas o projeto da RAF não teria sido bem sucedido. O livreto Televisionários, de Tom Vague, tem esse título por causa de uma teoria de que os membros da RAF se guiavam pela imagem deles que era projetada na mídia – daí seriam (tele)visionários. Julgando pelo trailer abaixo e pelo efeito que esse filme terá na representação da RAF durante os próximos anos talvez eles não estivessem nada errados.
Atualizado 21/04/2009: assisti o filme e escrevi uma resenha/comentário.



outubro 18, 2008 at 8:20 pm
Preciso ver o filme para ter uma opinião, mas já vou alertando que ainda está para nascer um filme desse gênero que seja tão neutro e respeitoso quanto “A Batalha da Argélia”. No final do filme você não sabe quem é mocinho e quem é bandido, fica apenas com um grande sentimento de pena dos dois lados envolvidos na batalha.
É difícil para nós, hoje, compreender a violência dos atos terroristas dos anos 1960 e 1970. Mas a gente não estava lá para saber. Pode ser que tempos radicais exijam reações radicais.
outubro 19, 2008 at 11:28 am
lembro de ter visto você falar sobre a R.A.F. naquele Carnaval Revolução no hotel no centro.
É bizarro como essas coisas são sedutoras mesmo pr’a gente, mesmo que achemos ridiculo o Movimento Estudantil Rebelião, estudantes bárbaras e tudo mais. Afinal de contas, não é como se os problemas contra os quais eles lutassem nos anos 70 tivessem melhorado muito de lá pra cá.
novembro 18, 2008 at 7:01 pm
Oi cara, estou em paris e acabei de ver esse filme.. Queria saber mais sobre a história e achei seu blog.. Acho que você vai gostar muito do filme pois retrata exatamente isso que você escreveu.
Abraços
novembro 19, 2008 at 11:44 am
Bom saber!
Abraço
novembro 29, 2008 at 1:08 am
o terrorismo não me fascina…o terrorismo contra o terrorismo também não…não me agrada nenhuma forma de violência…mas há momentos na história(ao decorrer de toda a história)que os caminhos convergem à violêcia…eis o impasse…nada muda sem revolta…nada acontece por acaso nas sociedades humanas…as políticas(como tudo na vida) são oportunismos cínicos e selvagens de sempre…depor armas? nem chegar a empunhá-las? qual a solução? ficar e não lutar? indagar por indagar sem ações? o que fazer? objetivar uma cultura de eternos alienados? saber o que há muito sabemos:o homem é o lobo do homem! e nada mais a ser feito? ser ou não ser mais um idiota nascido a cada minuto nas desigualdades e desavenças do mundo?
dezembro 18, 2008 at 6:46 pm
Gostei do artigo..
Até porque o meu sobrenome esta envolvido nele..
Agora deu pra entender um pouco mais da história.. Valeu!
abril 21, 2009 at 11:35 pm
[...] assisti Der Baader-Meinhof Komplex. Como afirmei minha obsessão pela RAF nesse outro post, onde também fiz um resumo do contexto e da história do grupo terrorista, vou me limitar a [...]
junho 22, 2009 at 9:40 pm
Para más allá de la pelicula ser genial,ahora sumada al libro do Tom Vague las dos obras desmistifican y quitan un tanto da la carga sucia que la prensa puso la RAF