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Old School #3 : MUDs!

com 11 comentários

Los Juegos

Outro dia me lembrei que a indústria dos jogos eletrônicos passou por pouco o faturamento do cinema no ano passado. Para quem aprendeu a jogar River Raid aos 4 anos isso é uma notícia e tanto. Desde 98, ano em que foi lançado Metal Gear Solid para Playstation, venho observando que um “hit” da indústria de jogos se tornou tão complexo (e custoso) de se produzir quanto um longa-metragem. Games desse tipo costumam ter roteiros elaborados, cutscenes extensas, dublagem feita por bons profissionais. Talvez seja justamente o formato cinematográfico a razão de tanto sucesso.

Felizmente os gamedesigners não vivem só de imitar o formato do cinema, e muitos jogos buscam colocar vários jogadores simultâneamente em situações de confronto e cooperação. Daí vêm a idéia dos jogos multiplayer. Tudo bem, é justo falar que PONG ou Tennis for Two eram voltados para mais de um jogador e, logo, que os primeiros video-games tinham essa lógica – que tornava a manufatura mais simples já que nenhuma IA era necessária.

Mas e jogos com mais de dois jogadores? Alguns arcades e consoles tinham títulos onde isso era permitido, mas a verdadeira revolução do multiplayer veio com os chamados massive games. Os MMO (Massively Multiplayer Online) costumam ser mais viciantes que crack – quem tem um amigo ou conhecido que joga sabe do que eu estou falando. World of Warcraft, Lineage e Ragnarok são exemplos de massivos bem sucedidos. Mas os MMO não vieram dos arcade nem dos consoles, sua história é um pouco mais diversa.

Os Massively Online de outrora

Mais precisamente em meados da década de 70, alguns programadores do PLATO System – plataforma que deveria ser usada exclusivamente para desenvolver aplicativos educacionais – criaram vários jogos. Estes eram completamente baseados em texto, no melhor estilo do Zork, e jogados através das redes locais das universidades européias.

Estavam criado os primeiros MUDs (Multi-User Dungeons) e, até onde eu sei, foram os primeiros jogos com modo multiplayer remoto da história. Muitas versões de MUDs seriam desenvolvidas, alguns usando a logomarca Dungeons & Dragons sem permissão, e eventualmente levadas para o DOS.

Com o advento dos computadores baratos (no 1o Mundo, claro) e conexões BBS via modem os MUDs se tornaram variados e numerosos. E chegaram até a década de 90 como uma das mais interessantes e acessíveis formas de entretenimento online.

Mas como funciona um MUD?

Diferente de um jogo com uma plataforma gráfica, onde qualquer ação ou evento é ilustrada na tela, o MUD anuncia e descreve essas ações em bases textuais. Quando o personagem entra em uma “sala”, como é chamada uma unidade de espaço imaginário do MUD, surge um pequeno texto no terminal descrevendo o lugar, listando objetos e personagens que se encontram ali. Quando uma ação é desempenhada, ela também é descrita por texto.

Segue um pequeno exemplo, com uma “sala” e objetos descritos:

A caverna é pouco iluminada mas morcegos podem ser vistos voando ocasionalmente por todas as direções. Muitos ossos estão depositado à esquerda, em uma pilha grande e volumosa. O lugar cheira a guano e pedra fria, com uma umidade que impregna o ar. Água pode ser ouvida gotejando em algum lugar. Há uma velha espada enferrujada no chão.
Objetos: Uma espada enferrujada.
Saídas: Norte, Fora.

A descrição de uma “sala” inclui uma noção geral do que está contido nela além das direções para onde é possível andar – “fora” no caso seria para sair da caverna. Alguns objetos são listados de forma óbvia, como a espada enferrujada, e outros podem aparecer apenas no corpo da descrição, como a pilha de ossos. Se jogador digitar “examinar ossos” ou coisa do tipo ele terá uma descrição do que são esses ossos, se há algo embaixo da pilha, etc.

Se outro personagem – digamos, uma mulher – entrar na “sala”, examinar a pilha de ossos e seguir para o norte o terminal mostrará algo como os seguintes textos:

Uma mulher entra na sala.
Uma mulher examina a pilha de ossos.
Uma mulher sai pelo norte.

Em alguns MUDs ao invés de uma descrição genérica como “uma mulher” pode aparecer o nome do personagem. Em outros o nome só aparecerá para os jogadores que conheçam aquele personagem de alguma situação prévia.

MUDs

Minha primeira experiência com esses jogos se deu em 1997, quando eu tinha acabado de entrar no Colégio Técnico da UFMG. Como o caipira que era, eu nunca tinha usado a internet até por os pés no laboratório de informática de lá. Um colega me falou de um jogo, que parecia uma sala de chat, e deixava ele acordado à noite inteira. Era um tal de Avalon.

Entrei no site, li um pouco do que se tratava o jogo e fiquei bem empolgado. Tentei jogar o Avalon umas 200 vezes, mas a lentidão da conexão fazia tudo ficar sofrível. Nunca consegui fazer mais do que andar por algumas salas e ter uma vaga noção do que seria a interatividade proporcionada pelo jogo.

Em uma outra oportunidade, dois anos mais tarde, eu estava vagando por alguns sites com ilustrações e textos a respeito de O Senhor dos Anéis. Acabei achando na parte de links o endereço de um tal de The Two Towers, um MUD ambientado na Terra Média. Algum tempo depois eu comprei o meu primeiro computador e pude jogar o T2T, como ele era chamado.

The Two Towers

O T2T não era um MUD muito sofisticado em se tratando do sistema de jogo. A mecânica era simples, os personagens tinham poucos poderes e, caso pertencessem à mesma classe, eram muito parecidos uns com os outros. A vantagem era o cenário.

Embora não fosse 100% fiel aos elementos estéticos e aos conceitos da Terra Média de Tolkien, o Two Towers tinha em jogo quase todas as regiões descritas em O Senhor dos Anéis Isso mantinha viva aquela sensação de vagar por lugares ermos e descobrir ruínas, cavernas, esconderijos de bandidos, tumbas amaldiçoadas. Explorar o cenário de T2T era grande parte da diversão.

Na época, o MUD costumava a ter 300 jogadores conectados o dia todo. Esse número pode parecer ínfimo quando comparado com a legião de jogadores que povoam os servidores de MMORPGs mas num MUD isso significa sala lotada. As áreas (virtuais) geralmente não são tão grandes e muitos jogadores online pode significar uma disputa acirrada por recursos.

Como toda comunidade virtual, os MUDs também têm sua micropolítica e no T2T as coisas não eram diferentes. Uma teia de guildas, clãs, grupos, alianças era tecida o tempo todo mas cum um diferencial: a prática do PK (playerkilling) era julgada e condenada por outros jogadores – que também mantinham a lei para todos os outros aspectos. Aliar-se a outros jogadores era não apenas desejável como necessário, já que não era possível combater inimigos ou juntar recursos sem a ajuda ocasional de alguém.

Joguei T2T com regularidade durante 1 ano. Minha conexão discada horrível não me permitiu ir muito longe no jogo. Meu personagem chegou a ter alguns aliados importantes, mas acabei meio insatisfeito com a administração sobre como a parte de PK estava sendo conduzida já que alguns personagens mais experientes estava “assassinando” novatos indiscriminadamente e a administração se recusava a encarar o problema. Mais tarde acabaram mudando isso, mas eu já estava jogando outros MUDs e estava com preguiça de voltar ao T2T. Na época em que saí eu já conhecia uns dez brasileiros que também jogavam.

Outros

Joguei outros MUDs além de ter testado pelo menos uns trinta. Como muitos MUDs são jogos sem fins lucrativos organizados por fãs eles têm licença para usar temas de outras mídias. MUDs baseados em filmes, livros e até mesmo outros jogos são comuns, o que dá ao jogador opções interessantes. Além do T2T recomendo os seguintes:

SWMUD: MUD temático de Star Wars. Tem um ótimo sistema, é bem adequado ao universo e dá uma grande liberdade na criação de personagens. Garante horas e horas de diversão mas não possui uma ativa como se esperaria de uma comunidade virtual. Os jogadores interagem pouco entre si e não há intriga nem rivalidade apesar de todos estarem distribuídos entre o Império e os Rebeldes. o SWMUD vale à pena ser jogado como um excelente jogo de texto com alguma interação ocasional.

Achaea: A jóia dos MUDs. Desprezando a parte gráfica, Achaea pode ser considerado o jogo online mais complexo e bem estruturado já construído. Ele tem um universo fantástico próprio, com suas lendas, deuses e organizações – muito baseado em mitologia grega e nórdica. Mas seu grande atrativo é ser completamente orientado para os jogadores e seus personagens. Ao contrário dos outros MUDs onde as ações dos personagens influem pouco ou nada no cenário, a história de Achaea é construída com base no que fazem os jogadores. São eles quem controlam o comércio, que treinam outros personagens, que mandam nas cidades e reinos do jogo. O jogo também tem uma ênfase bacana na interpretação de papéis – você tem mesmo que “entrar” no personagem – e muitos eventos, como guerras e surgimento de reinos, acontecem no mundo por influência de grupos de jogadores. O tempo passa em jogo, fazendo com que objetos se desgastem e personagens envelheçam. Achaea é de graça, mas jogadores que quiserem podem comprar pacotes especiais – com dólares – com itens que ajudam seus personagens. Só há um pequeno problema: Achaea só pode ser jogado por desempregados, aposentados e pessoas de férias porque é absurdamente viciante.

O fim de uma Era

Infelizmente muitos MUDs estão vazios nesses tempos de jogos online com gráficos estonteantes. Hoje grande parte dos MUDs concentra poucas dezenas de jogadores veteranos, o que desencoraja mesmo um novato muito interessado.

Acho isso uma pena, primeiro porque os MUDs são comunidades mantidas por fãs de um determinado tema ou aficionados por jogos e programação. Nem por isso deixam de ser divertidos e bem organizados, bons lugares para aprender inglês, trocar experiências com outras pessoas do mundo todo e começar a digitar sem “catar milho” no teclado (sim, eu aprendi jogando).

Além disso, se posso dizer algo sobre os MUDs é que eles ainda estão anos-luz à frente de muitos outros jogos online em termos de possibilidades e experiência de usuário. Seria bom se as grandes empresas do ramo de MMORPGs pudessem aprender algo com isso e fazer jogos onde a única possibilidade de interação não é matar monstros, acumular tesouros e avançar de nível.

Para ir além

Alguns links úteis.

Mushclient: Melhor programa que já usei para jogar MUD.

The Mud Connector: Diretório com centenas de MUDs listados e descritos de acordo com critérios específicos – se possuem ênfase na interpretação de papéis dos personagens, para qual temática estão orientados, qual sistema de jogo usam, o tamanho do “universo virtual”, etc.

Valinor: Único MUD inteiramente em português que conheço. Como o T2T, o Valinor também é ambientado na Terra Média e parece organizado por um pessoal muito sério. Infelizmente só tomei conhecimento dele muitos anos depois de ter largado os MUDs de vez.

Leia também:

Os verdadeiros MMORPGs: post do Rocha no Área Cinza, também sobre a “Era Dourada” dos MUDs.
Old School #1 : Cadillacs & Dinosaurs
Old School #2 : Akira
Fighting Fantasy

Escrito por Barba

outubro 21, 2008 às 23:12

Publicado em nerdice, old school, tecnofagia

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11 Respostas

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  1. Nossa!! A loirinha acabou de morrer no filme do tubarão!! uhaauhaa…

    Entre os jogos single player e os MMOs, existem os multiplayers, Quake, CS, StarCraft… que também fizeram muito sucesso.

    MUD era bom, a experiência visual torna muito mais atrativo, e exige menos do jogador… difícil competir.

    Lela

    outubro 21, 2008 em 23:48

  2. Que tempo bom que não volta nunca mais…

    Queria voltar a jogar SWMUD com meu Merc 20/Pilot 19/Jedi qualquer coisa…

    areacinza

    outubro 22, 2008 em 7:19

  3. [...] pouquinho para postar sobre o segundo, e extremamente bom, artigo da Dragon sobre os gladiadores. Enquanto isso vou comentar um post do Savoir-Faire, o blog do meu grande amigo Barbi. Aviso: este é um post com referências [...]

  4. Culpa do Google Reader. Vai lá brigar com ele.
    hehehe Já arrumei o erro.

    Esse seu post me deu vontade de escrever sobre o Ron Gilbert e a linguagem SCUMM dos primeiros adventures da Lucas Arts.
    Vou ali ativar o lado mais geek do meu cerebro.

    Claudio Silvano

    outubro 22, 2008 em 18:35

  5. Tranquilo. Só fiquei “ofendido” porque tô linkando o Anorak desde os primórdios blogspoteísticos : )

    SCUMM? Um dos posts que eu prometo escrever pra Old School é sobre isso – mas se seguir o mesmo ritmo que esse dos MUDs vou gastar dois anos pra terminar. Escreve lá!

    Barba

    outubro 22, 2008 em 19:53

  6. Só pra constar Barbie, os MUDs fizeram aniversário de 30 anos nessa semana mesmo, na segunda! Uma data especial para toda a indústria de games – e a maior parte das pessoas faz questão de contar também como 30 anos dos MMOs. E um extra: os MUDs são tão primordiais para a internet dos dias de hoje que tive que escrever quase um capitulo sobre eles no meu tcc.
    E mais um extra: a Bioware anunciou um MMORPG de Star Wars ontem :D. De kotor pra ser mais exato!

    Marcelão

    outubro 23, 2008 em 1:59

  7. Marcelão

    outubro 23, 2008 em 10:10

  8. Cara, eu comecei a escrever em post em novembro de 2006 e parei. Resolvi terminá-lo porque estava na linha de rascunhos há muito tempo e eis que calha com o aniversário de 30 anos dos MUDs : )

    Barba

    outubro 23, 2008 em 10:35

  9. quem era vc no t2t? jogo faz um bom tempo ;)

    Lobo

    janeiro 5, 2009 em 14:46

  10. [...] pouquinho para postar sobre o segundo, e extremamente bom, artigo da Dragon sobre os gladiadores. Enquanto isso vou comentar um post do Savoir-Faire, o blog do meu grande amigo [...]

  11. I think alot of the better games are the older ones. I especially prefer text based games.

    Jack

    janeiro 11, 2012 em 14:44


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