Primeiro Contato
Numa sexta-feira qualquer fui ao Cine Humberto Mauro para assistir First Contact (1983, 54 min., Papua-Nova Guiné) dos documentários da Mostra Melanésia exibido durante o forumdoc.2008.
First Contact é, basicamente, um documentário construído em torno das imagens colhidas pelos irmãos Leahy em suas jornadas pelo interior da Papua-Nova Guiné, durante a década de 1930. Buscando ouro em terras inexploradas pelos colonizadores, os os Leahy são os primeiros “brancos” a serem avistados por vários povos nativos.
A sinopse do filme fazia um paralelo entre esse encontro e o de Colombo com os “índios” ao chegar no Novo Mundo. De fato, não há uma outra comparação melhor que essa. O encontro dos irmãos Leahy e seus empregados com os nativos das Terras Altas da Papua-Nova Guiné é, citando um clichê, um “encontro de dois mundos”.
Os Leahy em busca do ouro, os nativos em busca de uma maneira de situar aqueles outros entre si. A câmera daqueles tempos é testemunha de um clash cosmológico e de toda uma série de traduções e traições produzidas durante a efetivação de uma relação que nada possui de harmoniosa ou simétrica.
As imagens feitas pelos Leahy são intercaladas com outras, de trinta anos depois, onde aqueles que testemunharam o encontro vêem a si mesmos e falam a respeito de como foi o contato.
Na sessão em que eu estava o documentário causou reações diversas. Algumas situações do primeiro contato muitas vezes eram revistas pelos nativos com um toque de humor, outras acabaram em mortes, no caminho para a exploração sistemática que faria dos Leahy homens ricos.
Tive um incômodo parecido com o de um colega que assistiu Estamira no cinema. Nada relativo ao filme, mas à platéia: em alguns momentos as pessoas gargalhavam. Politicamente incorreto? Nada disso. No inferno do lixão ou nas chagas do contato da Papua-Nova Guiné uma certa insensibilidade é compartilhada.


