Savoir-Faire

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Vendido #8

com 2 comentários

MXrXX se levava a sério demais. Não conseguia relaxar nem quando eu olhava ela pelas costas, indo voltando lentamente, com o cabelo transbordando sobre a pele branca. Não gemia, resmungava como se tivesse dentro de si uma senhora de 50 anos, solteira e malcomida, trabalhando numa repartição burocrática desde os 18.

E no entanto, ela não era nada disso. Talvez uma antítese. Magra, jovem, bonita e na pré-puberdade do sucesso.  Antes dos 30 ela já ganhava quase duas vezes o meu salário. Ativa, não era exatamente a pessoa para se imaginar refletindo apodrecendo aquelas duas horas  redentoras no sofá enquanto Luciana Gimenez entrevista alguma atriz pornográfica pela terceira vez no ano.

A questão é que MXrXX tinha nascido adulta. E agora, ao invés de ser uma jovenzinha feliz da vida, ela realmente tinha a velha amargurada dentro de si. Nessas três semanas ela tinha rido duas vezes, e uma delas foi quando eu disse que nunca tinha ido à Europa porque não tinha dinheiro.

Uma das minhas paixões mais secretas sempre sempre foi o devaneio pós-sexo. A capacidade de ficar em silêncio junto do outro, ou de falar a primeira coisa que viesse à cabeça – e por isso é tão difícil guardar um segredo de alguém com quem você dorme.

Mas MXrXX desconhecia isso,  essa própria idéia da inércia. Se ela tinha gostado, suspirava uma ou duas vezes e ia tomar uma ducha. Do contrário ela ia tomar uma ducha. Me perguntava onde íamos comer, se eu tinha algum plano para a noite e, dependendo da resposta, me deixava ou acompanhava.

Seu aparente desprezo por mim só me incomodou até eu perceber que ela desprezava tudo. Minha relação com MXrXX era patológica, um reflexo tardio que eu tinha vivido com XnX LXXsX, minha ex-mulher. XnX me colocava no pior dos lugares porque ela mesma não tinha idéia de onde queria estar. Eu, como um bom cristão, insistia em achar que carregava comigo a culpa. E me esforçava, e tentava de tudo para ser aceito por uma  que, a rigor, havia jurado estar comigo.

Com MXrXX isso não acontecia. O desprezo dela era o meu desprezo, só agíamos de maneira diversa. Ela empinava o nariz toda vez que me pensava inadequado, e logo queria se abrir em mim. Eu mentia para fazê-la ir embora mais rápido quando ela me incomodava, e me despedia com um beijo cálido. O desprezo dela era o que fazia moça trabalhar, tanto e tão bem.  O meu era o que me jogava desmontado, destronado, seminu em cima da cama.

MXrXX foi para Paris pela terceira vez. Eu preferi ficar por aqui.

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Escrito por Barba

fevereiro 17, 2009 às 21:24

Publicado em contos

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2 Respostas

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  1. [...] Vendido #8 Posted by Barba Filed in contos No Comments » [...]

  2. [...] Vendido #8 [...]

    Vendido #11 « Savoir-Faire

    dezembro 7, 2009 em 21:23


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