Mil Pedras

Finalmente assisti Der Baader-Meinhof Komplex. Como afirmei minha obsessão pela RAF nesse outro post, onde também fiz um resumo do contexto e da história do grupo terrorista, vou me limitar a comentar um pouco das minhas impressões sobre o filme – e o que nele se envolve.
O filme de Uli Edel, baseado num livro de Stefan Aust, é a produção mais cara do cinema alemão, e também conta com performance dos melhores e mais célebres atores de lá. Der Baader-Meinhof Komplex (referido à partir daqui como DBMK) recria muito bem o climão das décadas de 60 e 70, tanto na parte técnica quanto nos dilemas. Muito da história foca na tensão entre o ideal socialista romântico e as implicações mais severas de todas as tentativas de se “fazer a revolução” – fossem elas contradições internas ou a repressão, muitas vezes brutal.

Ulrike Meinhof (Martina Gedeck)
Nesse contexto de violência e mudança, Ulrike Meinhof (Martina Gedeck) é uma jornalista de esquerda que vivencia um conflito entre a teoria e prática de suas idéias. Divorciada e mãe de duas filhas, ela é seduzida pela visceralidade de Andreas Baader (Moritz Bleibtreu) e Gudrun Ensslin (Johanna Wokalek), dois beatniks extremistas condenados por atear fogo a uma loja de departamentos em prostesto contra a Guerra do Vietnã, Ulrike acaba envolvida com a instauração de um movimento de guerrilha urbana na Alemanha Ocidental.
Recrutando seus membros entre simpatizantes de esquerda, estudantes e ex-internos em reformatórios, a RAF segue em sua campanha de assaltos a banco e atentados a alvos militares. O filme se concentra nos três personagens, considerados os líderes e fundadores da Facção Exército Vermelho – o que é um problema. Quem tem algum conhecimento dessa história sabe que, entre membros e partidários, a RAF tinha algumas boas dezenas de integrantes. DBMK deixa isso no vácuo, inserindo muitos dos personagens na história sem a contextualização necessária – o que causa alguma confusão.

Andreas Baader (Moritz Bleibtreu) e Gudrun Ensslin (Johanna Wokalek)
O ponto positivo é que o trio Baader, Ensslin e Meinhof teve um tratamento à altura de sua estranha história. Baader é mostrado como dono de uma personalidade explosiva, machista e pouco brilhante. Sua capacidade de liderar o grupo reside no seu carisma controverso e no apoio incondicional que recebe de Ensslin – sua companheira – retratada como uma revolucionária apaixonada e, muitas vezes, irredutível. Meinhof, por outro lado, é quem tem alguma ponderação, fato pelo qual os outros dois líderes a consideram fraca. A relação de conflito entre os três e os diálogos daí decorrentes foram muito bem produzidos, tendo como com base nos escritos deixados por eles e nos depoimentos de ex-membros do grupo.
Outro ponto forte é maneira como ficou retratada a escalada de violência entre o Estado alemão e a RAF. À medida que membros do grupo e policiais iam morrendo, cada lado do conflito se tornava disposto a fazer pior. A tortura e a neglicência por parte algumas autoridades que resultou na morte de guerrilheiros da RAF é contraposta pela figura do chefe da polícia, Horst Herold (Bruno Ganz). Mesmo com a missão de desarticular a RAF e prender seus membros, Herold se recusa a acreditar que há respostas simples para o fenômeno colocado diante dele. A cena em que ele conversa com seus associados e é acusado de simpatizar com os terroristas a cada vez que, em voz alta, tenta desvendar seus motivos é emblemática.
Na minha reles opinião, é na sinergia entre o pensamento de Herold e as ações lideradas por Brigitte Mohnhaupt (Nadja Uhl) que estão alguns dos momentos mais densos do filme. Mohnhaupt é que cooderna os assassinatos mais brutais da RAF, a maioria feitos em retaliação ao que ocorre em Stammheim – a prisão de segurança máxima feita exclusivamente para abrigar e julgar membros do grupo e outros guerrilheiros urbanos. E Herold, que prefere refletir antes de agir cada vez que recebe a notícia de um atentado, parece ser privilegiado em entender o que se passa.

Chacina durante o seqüestro de Hanns Martin Schleyer.
A cena do assassinato de Siegfried Buback (Gerald Alexander Held) é emblemática nesse sentido. Mohnhaupt leva a cabo a vingança pela morte de membros da RAF em Stammheim, fuzilando todos que estavam dentro do carro de Buback. Diante do comunicado do atentado, o assistende Herold pergunta “O que leva novas unidades terroristas a ser formar? O que os motiva?”, e ele responde “Um mito”.
E é sobre esse mito que DBMK versa. O mito de que do outro lado da Cortina de Ferro não havia opressão, o mito de que a luta armada era a única forma de contrapor a violência do Estado, o mito de que martírio e revolução andam de mãos dadas. E como toda mitologia, aquela que cercava os membros da RAF pode estar datada, o que não exclui seu poder – e nem sua razão de ser.
Em um texto, Ulrike Meinhof escreveu: “Jogue uma pedra e é um crime. Jogue mil pedras e trata-se de uma ação política”. As mil pedras da RAF não foram jogadas em seus atentados – já que nem de longe eles foram o grupo terrorista mais eficiente na Alemanha daquele tempo. Seu triunfo residiu em seu espetáculo de violência, em sua capacidade de mobilizar a mídia para suas figuras, no fato de que saíram da história para entrar na cultura pop.
E isso não é tudo.


[...] Atualizado 21/04/2009: assisti o filme e escrevi uma resenha/comentário. Posted by Barba Filed in cinema, política, pop as fuck Tags: Baader, Baader-Meinhof, Der Baader-Meinhof Komplex, Terrorismo, trailer 7 Comments » [...]
Der Baader-Meinhof Komplex « Savoir-Faire
abril 22, 2009 em 0:38
Onde posso ver o filme Barba, cinema,DVD, net ?
Outra coisa andas sumido demais. Perdeu uma bela festa no último sabado.
Abços.
carlos
maio 1, 2009 em 19:06
Eu esperei mil anos para sair por aqui. E, quando não saiu, eu catei uma cópia pelo Bittorrent.
Ah cara, nem me fala sobre o sumiço. Fiquei fazendo projeto da FAPEMIG ao invés de ir me divertir. Abraço!
Barba
maio 4, 2009 em 21:52
Valeu Barba.
Essa nossa concentração de salas nas mãos de poucos distribuidores é foda…vários bons filmes nem estreiam no Brasil. Vou procurar esse, pois seus posts me fizeram interessar bastante, pois antes para mim o Baader Meinhof era apenas o título de uma bela música do Renato Russo e da Legião…
Abços e espero que o projeto seja aprovado na Fapemig.
carlos
maio 7, 2009 em 11:37
Bom começo de resenha. Quando entrou na descrição das cenas eu parei eheh. Ainda vou assistir =]
Abraaa
Marcelo Reis
setembro 25, 2009 em 13:43