Vendido #9
Felicidade incontida, derramando pelos poros. Ando sozinho, desacompanhado, e talvez por isso mesmo as coisas parecem mais simples. Acordo de manhã e não há ninguém ao lado, chego bêbado em casa e não há ninguém me esperando.
A padaria do primeiro andar me dá o prazer de fumar enquanto tomo um café e leio o jornal – colocaram mesas nas calçadas, o dono se recusa a seguir o nazismo anti-tabagista que parece ter enlouquecido o mundo.
Meu salário diminuiu algo em torno de 15%, tudo subiu, não vou poder viajar para a Europa como queria. Mas nada importa, aliás, nada importa que vá me chatear tanto assim. Como um monge isolado numa câmara escura em alguma planície deserta do Tibet, eu me sinto a caminho de algo grandioso e simples.
Outro dia a nova estagiária da empresa leu em voz alta uma matéria falando sobre como cada vez mais pessoas preferem ser solteiros a se casar. Isso é uma bobagem, uma inversão dos termos anteriores. Para estar feliz era preciso se estar casado, agora é preciso se estar sozinho, disponível, pronto para todas as possibilidades? Isso me parece uma extrapolação da pequena fábula “você é especial”.
Felicidade, se é que existe, não é uma conquista, é uma condição. Ou melhor, é uma efemeridade. Um bocado de nada que te faz bem em algumas horas da vida. O que mais precisa ser?
Duvido que alguém consiga imaginar uma pessoa que está sempre feliz e, ao mesmo tempo, não tême-la. Talvez pela falsidade que os felizes inspiram, talvez porque todos sabem que felicidade demais cega, embriaga.
E por isso mesmo é hora de ficar sóbrio.
__


[...] Vendido #9 [...]
Vendido #11 « Savoir-Faire
dezembro 7, 2009 em 21:23