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Antropologia e o Avesso

com 7 comentários

Para vocês dois, meus companheiros mais antigos e mais fiéis nessa empreitada esquisita que é a Antropologia – com A maiúsculo porque a fulana é uma espécie de entidade, de vadia (quase com V maiúsculo) que às vezes nos dá tesão e outras vezes nos faz chorar, espernear, socar a parede e cortar os braços.

O que falo aqui não é uma espécie de mea culpa, de “lamentália” estúpida, mas uma constatação sincera – e também um manifesto de admiração daqueles que você não deve conter, pelo menos não por muito tempo.

O fato é que, outro dia eu me surpreendi com o ato de estar fazendo mestrado, estudando etnologia, coisas que eu vislumbrava pouco e desejava nada até bem recentemente. Me lembrei da minha graduação rebelde, da falta de interesse nas aulas, do pouco que dediquei à leitura das coisas, do quanto desprezava coisas que hoje gosto tanto – como aquele “velho filho-da-puta”, o tal Lévi-Strauss. Por essas e outras, sempre tenho a sensação de que sou, afinal, o fruto de um amontoado de coincidências felizes e infelizes, ou de uma inércia incomodada.

Vocês dois, por outro lado, sempre me pareceram muito mais audazes, capazes de se movimentar e desejar. F. lia muito, pensava em questões teóricas as quais eu nem sonhava – talvez intuía – e devorava noções de filosofia. L.  sempre atento ao que ia acontecer, freqüentando as palestras das quais eu tinha preguiça – lembrando, a primeira vez  em que fui ver  o Viveiros de Castro foi por insistência sua.

O que eu queria dizer com isso é que se eu estou onde eu estou agora – que não é um lugar muito diferente de onde vocês estão, mas é muito importante para mim – eu devo aos dois. Pela confiança depositada, pelo conhecimento e pelo delírio compartilhados. E o que isso implica de mais importante é: não desistam da Antropologia, ainda que tenham a impressão de que ela desistiu de vocês.

Nem sempre as coisas vão ser desenhadas numa estrada de tijolos amarelos, levando à Oz, tudo lindo e claro. Sabemos, nós três mais do que ninguém, que os caminhos são tortuosos mesmo. Que não tivemos bolsa pra sentar numa cadeirinha do quarto andar e ler “O Pensamento Selvagem”, mas isso não importa! Cada vez mais eu tendo a valorizar a experiência, a vivência e a loucura tão típica de quem precisou penar para fazer e escrever o trabalho de madrugada, a monografia na última hora, o projeto de mestrado em quatro dias… se algumas vezes o produto não é o melhor, as coisas pelas quais ele foi trocado podem ser infinitamente belas.

Isso não significa que não haja tempo para aprender qualquer coisa que não sabemos, e tem sido assim comigo. Se sei alguma antropologia ou antropologia alguma, devo a esses últimos dois anos – não exatamente ao mestrado, mas ao fato de finalmente poder sentar e estudar, e querer fazer isso. Não se intimidem com nada.  As limitações, as paixões, as competências e incompetências não importam: elas podem ser beijadas, abraçadas, fodidas ou superadas.

De maneira confusa, desajeitada, digo que é isso.

Escrito por Barba

junho 6, 2009 às 8:00

Publicado em antropologia, ego

7 Respostas

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  1. achei lindo isso aqui, até engasguei de tão bonito.

    lulu

    junho 7, 2009 em 18:37

  2. sorriso de canto de boca e de encanto.

    Dani

    junho 8, 2009 em 12:04

  3. agora li direito. e achei bonito de doer. =]

    julia

    junho 9, 2009 em 22:38

  4. me orgulho o tempo todo: de segundo em segundo. de primeira! há sete, oito anos! um abraço forte, amigo!

    rizoplan

    junho 15, 2009 em 6:24

  5. Será que esse desinteresse por aulas e faculdade pode ser o reflexo de uma geração ou varia de pessoa para pessoa?

    Paula

    junho 22, 2009 em 13:59

    • Paula,

      No meu caso era decorrência de uma dificuldade em conseguir me adaptar ao curso e às questões que ele colocava. Eu passei quase dois anos sem entender bem o que eu estava fazendo, desmotivado e com vontade de desistir. Demorou até que eu conseguisse colocar sentido no curso e pudesse aproveitar o que aproveitei dele.

      Esse texto é um agradecimento humilde a dois colegas muito próximos, sem os quais eu poderia estar desorientado até então.

      Barba

      junho 22, 2009 em 19:39

  6. duas risadas brancas e quentinhas abobadas que só.

    samara.

    junho 26, 2009 em 1:02


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