Savoir-Faire

R$1,99

Vendido #10

com 6 comentários

Esperar nunca foi meu forte. A idéia de ter que ficar inerte quando algo importante está em jogo me causa tremores, náusea. Os médicos dizem que é um ataque de ansiedade e me recomendam remédios que não tomo. Nunca.  E acima de tudo esperar cansa, arrebata em desânimo, destrói um pouco a todo minuto. A espera é uma espécie de combustível da paralisia, esse câncer incurável.

E é por isso que eu tremia enquanto esperava XdrXXnX. Ela estava uns vinte minutos atrasada e não atendia o celular. Eu sabia que não fazia qualquer sentido ficar naquele estado. Mas a sensação de impotência era meio absurda. Onde é que ela estava? O que estava fazendo? Ela morava tão perto dali…

Uma amiga costumava dizer que isso era ciúme. Que eu, inconscientemente, sempre imaginava minhas mulheres me traindo nessas situações. Mentira, eu nunca fui ciumento. O que se passava em mim era algo bem pior… imaginava que ela podia ter sido seqüestrada ou que tinha desaparecido como uma dessas pessoas dos cartazes na rua. Não era ciúme, era um delírio paranóico.

E eu sabia disso. E eu nunca conseguia fazer parar.

Às vezes eu começava a relembrar de algumas coisas pelo começo. Filmes, por exemplo. Pegava a primeira cena de “O Poderoso Chefão” e tentava ir reconstituindo o resto do filme na minha cabeça. Às vezes eu chegava a lembrar de uma fala ou outra. Outras vezes eu tentava listar o nome de todas as pessoas que eu conheço, estabelecendo certos círculos de relações. A letra de uma música dos Rolling Stones, o nome daquela atriz de um seriado obscuro que passava na Bandeirantes, a marca de cigarros mais vendida no Paquistão, a lista dos presidentes do Brasil, o tempo que gasto me deslocando do trabalho para casa por semana, o que comi nos últimos 20 dias, etc.

E não, eu nunca fui obsessivo. Conheci pessoas com transtornos pesados: necessidade de apagar e acender luzes em determinada ordem, ações arbitrárias tomadas por causa de vozes… Nos casos de espera eu ficava esperando pela minha camisa de força. Os braços doíam, o estômago revirava e eu andava sem parar, erraticamente.

A toda hora XdrXXnX parecia despontar na esquina, na janela do ônibus, num carro, no horizonte. Uma vez eu abracei uma estranha achando que fosse minha ex-esposa. Ela riu, me olhou por inteiro e, enquanto eu pedia mil desculpas, ofereceu seu telefone. Deslizou pra longe de mim e eu percebi que ela nem se parecia com XnX LXXsX. Mais que me turvar a visão, a ansiedade fazia de mim um tipo de idiota.

XdrXXnX demorou e demorou. Minha ansiedade chegava a um ponto crítico. Não sei porque, resolvi ligar para XmXndX, a moça que eu havia abraçado por engano dois anos antes.

“Alô?”

“Oi.”

“Quem é?”

“Isso é meio estranho.”

“Quem é?!”

“Te abracei por engano há uns dois anos, perto da Praça XX XXXXXXXXX.

“Ah! Não acredito! GXbrXXL!”

“Pois é…”

“E porque é que você está me ligando tão de repente?”

“É que eu lembrei de você hoje.”

“Por quê?”

“Ah, estou perto daquele lugar esperando de novo.”

“Hahaha. Sua esposa não presta, não é?”

“Não mesmo. Faz um ano que separei dela.”

“Sério?”

“E você me deu seu telefone mesmo sabendo que eu era casado…”

“Ah, não sou ciumenta. Mas agora você está solteiro e me ligando, olha só.”

“Hahaha.”

“Então, quem você está esperando hoje?”

“A moça com quem ando saindo.”

“Anda saindo … sei.”

“Juro.”

“Não é sua namorada?”

“Nada… ninguém gosta dessa palavra hoje em dia.”

“E então, quanto tempo faz que você está aí?”

“Agora completou uma hora e 6 minutos.”

“Nossa, suas mulheres realmente gostam de te fazer esperar.”

“E você é pontual?”

“Não exatamente. Mas de 30 minutos em diante já é dar bolo.”

“Concordo.”

“Acha que ela vai aparecer?”

“Não sei. Ela não atende o celular.”

“Que escrota.”

“Fico com medo de ter acontecido algo grave. Sei lá.”

“Como o quê?”

“Ah, ela ter sido seqüestrada, atropelada, etc.”

“Sei. Te digo que só minha mãe se preocupa assim comigo. E ela é uma senhorinha de cabelos brancos que mora bem longe daqui, na roça.”

“É, posso estar exagerando mesmo.”

“Com certeza. Então, hoje é sábado e eu tô de bobeira. Se ela não aparecer você pode vir tomar uma cerveja comigo, hein?”

“…”

“E então?”

“É uma boa mesmo.”

“Pois então, eu moro na XXX XXX XX XXXXXXX, número XXX, apartamento XXXX.”

“É perto de onde eu moro.”

“Jura?”

“Sim.”

“E como eu nunca te vi por lá?”

“Não faço idéia.”

“Então, espera mais um pouquinho aí e me liga. Mas não demora muito porque eu não vou te esperar.”

“Ok. Um beijo.”

“Outro!”

“Com quem você estava falando?” Era XdrXXnX do meu lado. A ansiedade tinha passado, a obsessão também. Olhei pra ela, meio sem saber o que dizer. Nem queria perguntar onde é que ela esteve e porque tinha demorado tanto. “Ah, era uma amiga antiga de colégio” foi tudo o que eu pude dizer.

Ela me beijou no rosto. “Desculpa pelo atraso. Encontrei a NXcX e o marido dela no caminho, a barriga dela tá enorme. Falei tanto com ela que perdi a hora. Só agora eu vi que você me ligou umas vinte vezes.”

“Não tem problema não. Aqui, você acha que lá vai até mais tarde? Queria chegar cedo em casa para adiantar algumas coisas de trabalho”. Eu não podia acreditar no que estava fazendo, mas fazia assim mesmo.

“São os meus amigos. Se você quiser ficar só um pouco lá e ir pra casa não tem problema.”  Me tomou pelo braço e fomos caminhando. Eu, já estava em outra direção.

__

Vendido #0

Vendido #1

Vendido #2

Vendido #3

Vendido #4

Vendido #5

Vendido #6

Vendido #7

Vendido #8

Vendido #9

Escrito por Barba

setembro 25, 2009 às 17:40

Publicado em contos

Etiquetado com ,

6 Respostas

Assinar os comentários com RSS.

  1. realmente, você é ansioso demais. rs

    graciete

    setembro 26, 2009 em 11:53

    • Meus contos andam tão ruins que todo mundo acha que são pedaços de diário hahaha

      Barba

      setembro 26, 2009 em 17:30

  2. ow
    não leve tão à sério os comments (:

    graciete

    setembro 28, 2009 em 10:57

  3. Não sei se voce deve interpretar a confusão de seus contos com o seu diário como algo negativo, pelo contrário. Talvez isso seja fruto da propriedade com que seus personagens falam sobre si mesmos ou sobre as situações onde estão inseridos. E isso é um bom sinal, ao menos pra mim.

    Ou talvez tenha você demais nos seus personagens hehe. Também não vejo mal nenhum nisso.

    PS: Você bem podia ter ido na festa hein viado!

    Fred

    setembro 29, 2009 em 23:11

    • Olha só, vou te indicar pra crítico literário Fred! Eu penso na direção do que você disse – o pensamento de um personagem precisa ter naturalidade para ficar coerente. Mas é que tenho visto tanta ficção “egotrip” que me dá um pouco de aflição.

      E eu não fui na festa porque sou vacilão, pqp. Fiquei mexendo na dissertação aqui e nem tchum…

      Barba

      setembro 30, 2009 em 22:22

  4. [...] Vendido #10 Posted by Barba Filed in contos Leave a Comment » [...]

    Vendido #11 « Savoir-Faire

    dezembro 7, 2009 em 21:23


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Gravatar
WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.