Savoir-Faire

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Danação

com 2 comentários

Danação

Só cura o que arde.

…aquilo que te torce por dentro, sabe como é meu filho? As tripas ficam com um buraco, as veias saltam, as carnes tremem e os olhos lumeiam feito lanterna em caça. Duas tochas brilhando noite adentro, fogo regado de cachaça. No rumo do olho tava ela, mulher que nem nunca tinha visto. Descalça e suja, jeito de menina moça, andando enrolada nos panos… pedindo ajuda a qualquer cristão.

Naquele tempo eu viajava até a capital pra tratar de um mal na perna. Coisa que contraí em mal serviço, acidente. Mancava, doía, pesava. Chegava num ônibus, num caminhão, e caminhava arrastado, até o dia amanhecer e a boa vontade do médico permitir consulta. Tinha vez que atrasava, passava dois, três, quatro dias esperando. Eu vagava por tudo quanto é lugar, sinuca, abrigo, bebida, marquise, praça, cantos onde Deus está e onde ele não alcança.

Dormi em garagem de gente decente, em cama de devassidão. Comi o que tinha de comer e bebi o que podia pagar. Lá naquelas ruas debaixo, vi um homem perder a carteira. Outro levar garrafa na cara, todo cortado de vidro. Eu só queria passar até o dia que fosse.

Num desses lugares tortos foi que vi aquela, já meio com a cabeça pesada. Cabelo liso, pele escura, olho bem pequeno. Dei a ela todas as moedas que tinha, pus a mão no bolso pra caçar uma nota de 10 cruzeiros. Aquela menina não entendia nada.

“Deixe aí o que for, carece não moço. Obrigado.”

Ela ia saindo e eu lhe segurei o braço, dum jeito meio bruto, cheio da urgência. Peguei aquela nota amassada, abri a mão dela e coloquei lá. Num instantezinho, olhei ela no olho. Bateu uma tonteira, coração saltava que ia pular fora. Não largava o braço dela nem apertava… ela apertou ‘queles olhos ainda mais e deu um sorrisinho de um bocado de dentes brancos e bonitos.

Entende o que é isso? Já teve uma benquerença desse tamanho? É quando o mundo se desfaz em coisa pequena. É quando o Diabo atiça sem Deus que lhe proteja. Um homem simples feito eu, sei muito dessas coisas não. Meu pai dizia que mulher que se quer é mulher que se deixa. Amor é feito ferida: coça e mata.

“A moça não devia tá na rua a essa hora.” Falei, pra não dizer outras coisas. E ela não disse nada, me pegou pela mão, me arrastou pra fora de lá. Começou a chover, trovão rompeu. Água descia, ela me puxava e eu mancava, dor cortada na base do copo.

Numa esquina, ruas cheias d’água, ela debaixo da luz dum poste. Abaixou a cabeça, encabulada e me tomou com os braços. Minha boca encontrou a dela e fiquei lá, sem tempo, sem água, sem noite, sem nada. Só a moça.

Carro cortou, buzinando. Olhei pra ela e ia falar qualquer coisinha, mas nunca falei. A moça me largou, caminhou pro outro lado da rua, passo lento. Quase manquei atrás, seduzido, pescado no beijo, cheio de calores.

No outro lado, um rapaz tomou a moça pela mão. Parei tomado em confusão, no meio da rua, sem saber o pra onde ir. Ela me olhou, acenou e sumiram deibaixo da sobra de uma marquise.Não se engane o senhor que voltei a beber com a mesma cara: gente simples também sofre amor.

Aquela moça, tanto engano, tudo escorria. Meus bolsos, revirados,  não havia dinheiro lá. Era roubo, era paixão?

Só Deus sabe, é tudo o mesmo.

—-

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Escrito por Barba

janeiro 5, 2010 às 17:21

Publicado em contos

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2 Respostas

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  1. pqp muito bom. “Era roubo, era paixão? Só Deus sabe, é tudo o mesmo.”

    graciete ram

    janeiro 5, 2010 em 22:08

    • Pensei nisso no ônibus. Ainda bem que não tenho carro.

      Barba

      janeiro 6, 2010 em 0:05


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