Qualquer lugar
Dois dedos de uísque, era o que o doutor tomava toda noite, sentado na varanda da casa, escutando um disco de samba, qualquer um. Gostava daquilo, lembrava dos tempos de faculdade na capital, das praias, das mulheres fáceis, do suor e do cheiro. Lá estava entre seus iguais, havia encontrado cada um deles… gente com boa vaidade, cuja soberba não se fazia ver. Desprovidos daquele torpor que tanto vira no interior: gente que pouco era e se achava no direito de fazer dos outros menos que eles. As donas, indo à feira dominical seguidas por suas empregadas negras e pobres, irritadas frente a qualquer evidência de que havia algo em comum entre elas e aquelas mulheres fortes que vinham logo atrás. Na capital não… todos pareciam cientes de que havia alguém maior que eles – senão ali, em outro lugar. Qualquer lugar.
O doutor gostava de se lembrar daquilo, mesmo agora que estava de volta àquela cidade pequena. O dinheiro era farto, o respeito também, mas ele provocava estranheza ao não querer se casar. Era o último dos Palhares de Souza, nome forte de família decadente, cujo gado e posses foram desaparecendo à medida em que a sorte lhes faltava no carteado e na roleta. Comércio, carvoaria, dois automóveis, um caminhão e até mesmo um pequeno posto de combustíveis faziam eco com as antigas plantações de café e algodão, a casa sempre cercada de agregados e ex-escravos. O bisavô sabia traçar sua ascendência até os velhos bandeirantes. A boa família… o doutor sabia que se tratava de uma ilusão. Seus antepassados haviam sido homens cruéis, capazes de matar irmãos, estuprar serviçais e prostituir afilhadas. “Um bom nome se compra com muito ouro, nos dentes e no bolso” ele escutara. As pessoas de respeito naquela cidade eram todas assim… não estariam salvas nem se a paróquia vendesse indulgências, nem por intervenção do Santo Padre ou pelo súbito bom-humor do Criador.
Dois cigarros era o que doutor fumava junto com seu uísque. Os cigarros o lembravam dos velhos fornos de carvão, dos corpos pretos e do dinheiro roxo, dos fardos e cestos tropeados de cá a lá. Na capital, até o suor dos outros parecia mais justo, merecido e banhado em honestidade, vá saber. E o casamento, este lhe soava o pior dos males. Um engôdo, diriam, uma prisão. Senão para ele, para ela. Era como contruir a própria jaula, ou prender numa gaiola um pássaro bonito. O doutor não gostava de gaiolas, lhe causavam tristeza infinita. O matrimônio exigia alguma submissão, a saber se curvar ante a lei do Cristo ou dos homens, ante à esposa… ou fazê-la se curvar diante dele. Deixe que voem, ele pensava.
Quando corriam boatos de que ele seria um pederasta, logo havia alguém para dizer que ele era amante uma ou outra viúva da região. Um homem solteiro é um homem infeliz, diziam-lhe os poucos amigos. As amantes que mantinha em cidades vizinhas, prostitutas ou não, lhe falavam a mesma coisa, algumas eram esperançosas de que ele, um exêntrico, pudesse desposá-las. Mas o doutor, se não era feliz, parecia satisfeito. Seus pais jaziam num mausoléu, junto todo o resto do clã, e agora ele estava livre de quaisquer pressões e julgamentos daquela gente. A vida, finalmente, era só sua.


Concordo com esse doutor. Amor não precisa de jaula. Gostei do texto. :)
Fernanda Tralala
março 29, 2010 em 1:27