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A farra do jornalismo oportunista?

com 53 comentários

Nota: houve um equívoco na argumentação da primeira parte do texto, que foi corrigido em adendos publicados após a última parte. Ressalto que é importante lê-los para se entender a polêmica.

A revista Veja dessa semana publicou uma matéria intitulada “A farra da antropologia oportunista”. Aparentemente os jornalistas Leonardo Coutinho, Júlia de Medeiros e Igor Paulin desejavam denunciar o que seria uma espécie de “esquema” entre ONGs internacionais, antropólogos e o Governo Federal para extinguir a propriedade privada de imóveis rurais no Brasil através da demarcação de terras indígenas e terras de quilombo, além da criação de unidades de conservação.

Comento a matéria aqui sem entrar no mérito de outras questões mais profundas, abordando dois aspectos da reportagem que são absolutamente hediondos para os padrões de qualquer tipo de jornalismo.

A falácia

Os repórteres abrem a matéria com a seguinte afirmação:

Áreas de preservação ecológica, reservas indígenas e supostos antigos quilombos abarcam, hoje, 77,6% da extensão do Brasil.

Qualquer alma com dois dedos de bom senso questionaria essa afirmação, uma vez que as terras indígenas correspondem a 13% da área do país, sobretudo na região amazônica. Coloco aqui dados do Instituto Socioambiental acerca dessa extensão:

O Brasil tem uma extensão territorial de 851.196.500 hectares, ou seja, 8.511.965 km2. As terras indígenas (TIs) somam 653 áreas, ocupando uma extensão total de 110.500.556 hectares ( 1.105.006  km2). Assim, 13% das terras do país são reservados aos povos indígenas.

A maior parte das TIs concentra-se na Amazônia Legal: são 409 áreas, 108.720.018 hectares, representando 21.67% do território amazônico e 98.61% da extensão de todas as TIs do país. O restante, 1.39%, espalha-se pelas regiões Nordeste, Sudeste, Sul e estado do Mato Grosso do Sul.

Agora vejamos um mapa onde essas terras estão representadas:

Digamos então, que o restante dessa porcentagem absurda levantada pelos jornalistas, agora 64,6%, estivesse relacionado às terras de quilombo ou às unidades de conservação. Ainda assim os números parecem não bater, já que segundo o “Atlas da Questão Agrária Brasileira”, organizado pela UNESP, as áreas das unidades de conservação federais e estaduais em 2007

totalizavam 99,7 milhões de hectares, sendo 98 milhões referentes às unidades de conservação em ambientes terrestres. Dessas unidades, 310 (41,5 milhões de ha) são de proteção integral e 286 (58,2 milhões de ha) de uso sustentável. Entre 1997 e 2007 foram criadas 251 unidades de conservação e acrescidos 51,35 milhões de hectares de unidades em ambientes terrestres. A distribuição territorial das unidades de conservação é desigual e a maior parte está no bioma amazônico, que concentra 74,2 milhões de hectares – 75,7% do total.

Lembrando “o Brasil tem uma extensão territorial de 851.196.500 hectares”, os 98 milhões de hectares, já que estamos excluindo as unidades de conservação oceânicas, corresponderiam a aproximadamente 11,71% do território nacional. Boa parte dessas terras não é “improdutiva”, mas são as chamadas “áreas de uso sustentável” que seguem regras especiais para a exploração, como demonstra o mapa abaixo.

Então, temos 24,7 1% do Brasil dedicado a terras indígenas e unidades de conservação, correto? Não necessariamente. Se sobrepusermos os dois mapas é possível perceber que há sobreposição de áreas de unidades de conservação e terras indígenas em vários pontos do país, o que diminuiria esse percentual. Mas, vamos supor que há 24% do território nacional, sobretudo na Amazônia Legal, dedicado a unidades de conservação e terras indígenas.

Para chegar então aos 53,6% restantes (77,6% – 24%) seria necessário que as terras de quilombo abarcassem estrondosos 459 milhões de hectares… o que não é verdade. Segundo a Comissão Pró-Índio de São Paulo

Em setembro de 2008, os territórios quilombolas titulados somavam 1.171.213 hectares. Até essa data, o Pará continuava como o estado com a maior extensão titulada: 628.674,7 hectares, o que corresponde a cerca de 54% do total já regularizado.

[Para os mais interessados, aqui há uma tabela onde estão os nomes, localização, e área de todas as comunidades.]

Logo, temos 1.171.213 hectares em terras de quilombo tituladas, o que corresponde a, vejam só,  0,13% do território nacional. E as maiores terras também estão na área da Amazônia Legal – notem que novamente calculamos a porcentagem desconsiderando eventuais sobreposições  com unidades de conservação.

Com base nesses dados, a porcentagem de 77,6% alegada na reportagem da revista Veja não se sustenta sob qualquer argumento. Além disso, a matéria dá a entender que basta requerer a terra para se ter acesso a ela, ou mesmo que o governo em exercício estaria sendo uma espécie de “facilitador” do processo. Isso não se sustenta no caso das terras de quilombo e nem das terras indígenas, uma vez que o governo em exercício demarcou e homologou menos terras (em extensão e quantidade) do que o governo anterior!

A matemática esotérica dessa reportagem parece estar baseada numa alegação da Senadora Kátia Abreu, de que “90% do território brasileiro estaria congelado e inacessível ao ‘progresso’, como terras indígenas, quilombos, parques, cidades e infra-estrutura”. Ela disse ter encomendado uma pesquisa junto à Embrapa que provaria a veracidade dessa afirmação… espero que, diferente da Senadora, os pesquisadores em questão saibam soma, subtração e porcentagem.

A fraude

A reportagem é escrita como se fosse um conto, uma peça de ficção, parte de um panfleto, não havendo fonte citada para qualquer uma das informações presentes. Também parece-me estranho que uma reportagem com uma denúncia tão severa, que basicamente implica o fim da propriedade privada de imóveis rurais no Brasil, não conte com qualquer tipo de mobilização contrária por parte de geógrafos, agrônomos, professores ou políticos. Não haveriam centenas de pessoas se manifestando contra tamanha mudança na questão fundiária brasileira? Essas pessoas não dariam sua opinião à Veja? A ausência de opiniões contrárias parece justificada pela suposição da reportagem de que a demarcação de terras indígenas e terras de quilombo seria parte de um “esquema” do qual a população em geral e até setores do Estado não saberiam – uma “conspiração” absolutamente inverossímil.

A reportagem traz, no entanto, duas supostas afirmações de antropólogos conhecidos no Brasil. Uma seria de Eduardo Viveiros de Castro, professor do Museu Nacional, e outra de Mércio Pereira Gomes, ex-presidente da FUNAI e professor da Universidade Federal Fluminense. Ambos se manifestaram dizendo que não foram entrevistados pela revista, e que esta distorceu suas palavras.

Reproduzo as frases aqui:

- Frase atribuída a Mércio Gomes

Diante desse quadro, é preciso dar um basta imediato nos processos de demarcação“, como já advertiu há quatro anos o antropólogo Mércio Pereira Gomes, ex-presidente da Funai e professor da Universidade Federal Fluminense.

- Resposta de Mércio Gomes

Denego-lhe o falso direito jornalístico de atribuir a mim uma frase impronunciada e um sentido desvirtuante daquilo que penso sobre a questão indígena brasileira.

- Frase atribuída a Viveiros de Castro

Casos assim escandalizam até estudiosos benevolentes, que aceitam a tese dos “índios ressurgidos”. “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente de cultura indígena original“, diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

- Resposta de Eduardo Viveiros de Castro

Na matéria “A farra da antropologia oportunista” (Veja ano 43 nº 18, de 05/05/2010), seus autores colocam em minha boca a seguinte afirmação: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original”. Gostaria de saber quando e a quem eu disse isso, uma vez que (1) nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma. Na verdade, a frase a mim mentirosamente atribuída contradiz o espírito de todas declarações que já tive ocasião de fazer sobre o tema. Assim sendo, cabe perguntar o que mais existiria de “montado” ou de simplesmente inventado na matéria. A qual, se me permitem a opinião, achei repugnante.

- A Veja respondeu no dia 03/05/2010 afirmando

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro enviou a VEJA uma carta - divulgada amplamente na internet - sobre a reportagem “A farra antropológica oportunista” [sic], publicada nesta edição da revista. Na carta, Viveiros de Castro diz: “(1) nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma”.

Sua primeira afirmação não condiz com a verdade. No início de março, VEJA fez contato com Viveiros de Castro por intermédio da assessoria de imprensa do Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde ele trabalha. Por meio da assessoria, Viveiros de Castro recomendou a leitura de um artigo seu intitulado “No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é”, que expressaria sua opinião de forma sistematizada e autorizou VEJA a usar o texto na reportagem de uma maneira sintética.

Também não condiz com a verdade a afirmação feita por Viveiros de Castro no item (2) de sua carta. A frase publicada por VEJA espelha opinião escrita mais de uma vez em seu texto (“Não é qualquer um; e não basta achar ou dizer; só é índio, como eu disse, quem se garante” e “pode-se dizer que ser índio é como aquilo que Lacan dizia sobre ser louco: não o é quem quer. Nem quem simplesmente o diz. Pois só é índio quem se garante”).

O antropólogo Viveiros de Castro pode não corroborar integralmente o conteúdo da reportagem, mas concorda, sim, como está demonstrada em sua produção intelectual, que a autodeclaração não é critério suficiente para que uma pessoa seja considerada indígena.

O texto em questão se encontra disponível aqui e foi integralmente reproduzido pela revista Veja com algumas partes negritadas que supostamente corroborariam que o ponto de vista do pesquisador era condizente com o da publicação. Não entrando no mérito da interpretação do texto, é possível afirmar que houve, no mínimo, má fé por parte do trio de jornalistas responsáveis pela reportagem. Não sou jornalista e não sei nada acerca do código de ética da revista Veja, mas aspas são aspas! Se você não entrevistou alguém ou não está fazendo uma citação ipsis litteris de um conteúdo elas não valem. Não adianta dizer que a frase “espelha” a opinião do professor (ainda que ela assim o fizesse), isso não torna a suposta citação menos fraudulenta.

- E o professor Viveiros de Castro respondeu novamente:

Aos Editores da revista Veja:

Em resposta à mensagem que enviei à revista Veja no dia 01/05, denunciando a imputação fraudulenta de declarações que me é feita na matéria “A farra da antropologia oportunista”, o site Veja.com traz ontem uma resposta com o título “No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é”. Ali, os responsáveis pela revista, ou pela resposta, ou, pelo jeito, por coisa nenhuma, reincidem na manipulação e na mentira; pior, confessam cinicamente que fabricaram a declaração a mim atribuída.

Em minha carta de protesto inicial, sublinhei dois pontos: “(1) que nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) que não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma”.

Veja contesta estes pontos com os seguintes argumentos:

(1) “Sua primeira afirmação não condiz com a verdade. No início de março, VEJA fez contato com Viveiros de Castro por intermédio da assessoria de imprensa do Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde ele trabalha. Por meio da assessoria, Viveiros de Castro recomendou a leitura de um artigo seu intitulado “No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é”, que expressaria sua opinião de forma sistematizada e autorizou VEJA a usar o texto na reportagem de uma maneira sintética.”

Respondo: é falso. A Assessoria de Imprensa do Museu Nacional telefonou-me, talvez no início de março (não acredito mais em nada do que a Veja afirma), perguntando se receberia repórteres da mal-conceituada revista, a propósito de uma matéria que estariam preparando sobre a situação dos índios no Brasil. Respondi que não pretendia sofrer qualquer espécie de contato com esses profissionais, visto que tenho a revista em baixíssima estima e péssima consideração. Esclareci à Assessoria do Museu que eu tinha diversos textos publicados sobre o assunto, cuja consulta e citação é, portanto, livre, e que assim os repórteres, com o perdão da expressão, que se virassem. Não “recomendei a leitura” de nada em particular; e mesmo que o tivesse feito, não poderia ter “autorizado Veja” a usar o texto, simplesmente porque um autor não tem tal poder sobre trabalhos seus já publicados. Quanto à curiosa noção de que eu autorizei a revista, em particular, a “usar de maneira sintética” esse texto, observo que, além de isso “não condizer com a verdade”, certamente não é o caso que esse poder de síntese de que a Veja se acha imbuída inclua a atribuição de sentenças que não só se encontram no texto em questão, como são, ao contrário e justamente, contraditas cabalmente por ele. A matéria de Veja cita, entre aspas, duas frases que formam um argumento único, o qual jamais foi enunciado por mim. Cito, para memória, a atribuição imaginária: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original” . Com isso, a revista induz maliciosamente o leitor a pensar que (1) a declaração foi dada de viva voz aos repórteres; (2) ela reproduz literalmente algo que disse. Duas grosseiras inverdades.

Veja contesta o segundo ponto com o argumento:

(2) “Também não condiz com a verdade a afirmação feita por Viveiros de Castro no item (2) de sua carta. A frase publicada por VEJA espelha opinião escrita mais de uma vez em seu texto (“Não é qualquer um; e não basta achar ou dizer; só é índio, como eu disse, quem se garante” e “pode-se dizer que ser índio é como aquilo que Lacan dizia sobre ser louco: não o é quem quer. Nem quem simplesmente o diz. Pois só é índio quem se garante”).” Ato contínuo, a revista dá o texto na íntegra, repetindo que eu a autorizei a usar o texto “da forma que bem entendesse”.

(Veja o link para meu texto: http://pib.socioambiental.org/files/file/PIB_institucional/No_Brasil_todo_mundo_%C3%A9_%C3%ADndio.pdf).

Pela ordem. Em primeiro lugar, essa resposta da revista fez desaparecer, como num passe de mágica, a frase propriamente afirmativa de minha suposta declaração, a saber, a segunda (Só é índio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original”), visto que a primeira (Não basta dizer que é índio etc.) permanece uma mera obviedade, se não for completada por um raciocínio substantivo. Ora, o raciocínio substantivo exposto em meu texto está nas antípodas daquele que Veja falsamente me atribui. A afirmação de Veja de que eu a autorizara a “usar” o texto da forma que ela “bem entendesse” parece assim significar, para os responsáveis (ou não) pela revista, que ela poderia fabricar declarações absurdas e depois dizer que “sintetizavam” o texto. Esse arrogamente “da forma que bem entendesse” não pode incluir um fazer-se de desentendido da parte da Veja.

Reitero que a revista fabricou descaradamente a declaração “Só é indio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original”. Se o leitor tiver o trabalho de ler na íntegra a entrevista reproduzida em Veja.com, verá que eu digo exatamente o contrário, a saber, que é impossível de um ponto de vista antropológico (ou qualquer outro) determinar condições necessárias para alguém (uma pessoa ou uma coletividade) “ser índio”. A frase falsa de Veja põe em minha boca precisamente uma condição necessária, e, ademais, absurda. Em meu texto sustento, ao contrário e positivamente, que é perfeitamente possível especificar diversas condições suficientes para se assumir uma identidade indígena. Talvez os responsáveis pela matéria não conheçam a diferença entre condições necessárias e condições suficientes. Que voltem aos bancos da escola.

A afirmação “só é índio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original” é, repito, grotesca. Nenhum antropólogo que se respeite a pronunciaria. Primeiro, porque ela enuncia uma condição impossível (o contrário de uma condição necessária, portanto!) no mundo humano atual; impossível, na verdade, desde que o mundo é mundo. Não existem “ambientes culturais originais”; as culturas estão constantemente em transformação interna e em comunicação externa, e os dois processos são, via de regra, intimamente correlacionados. Não existe instrumento científico capaz de detectar quando uma cultura deixa de ser “original”, nem quando um povo deixa de ser indígena. (E quando será que uma cultura começa a ser original? E quando é que um povo começa a ser indígena?). Ninguém vive no ambiente cultural onde nasceu. Em segundo lugar, o “ambiente cultural original” dos índios, admitindo-se que tal entidade exista, foi destruído meticulosamente durante cinco séculos, por epidemias, massacres, escravização, catequese e destruição ambiental. A seguirmos essa linha de raciocínio, não haveria mais índios no Brasil. Talvez seja isso que Veja queria dizer. Em terceiro lugar, a revista parte do pressuposto inteiramente injustificado de que “ser índio” é algo que remete ao passado; algo que só se pode ou continuar (a duras penas) a ser, ou deixar de ser. A idéia de que uma coletividade possa voltar a ser índia é propriamente impensável pelos autores da matéria e seus mentores intelectuais. Mas como eu lembro em minha entrevista original deturpada por Veja, os bárbaros europeus da Idade Média voltaram a ser romanos e gregos ali pelo século XIV — só que isso se chamou “Renascimento” e não “farra de antropólogos oportunistas”. Como diz Marshall Sahlins, o antropólogo de onde tirei a analogia, alguns povos têm toda a sorte do mundo.

E o Brasil, será que temos toda a sorte do mundo? Será que o Brasil algum dia vai se tornar mesmo um grande Estados Unidos, como quer a Veja ? Será que teremos de viver em um ambiente cultural que não é aquele onde nascemos e crescemos? (Eu cresci durante a ditadura; Deus me livre desse ambiente cultural). Será que vamos deixar de ser brasileiros? Aliás, qual era mesmo nosso ambiente cultural original?

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Além disso, a reportagem dá a entender que a elaboração de relatórios técnicos de delimitação e identificação seria “lucrativa” para os antropólogos. Prezados, as contas são abertas, podem verificar a modesta quantia que é paga aos profissionais e depois se informem sobre o montante absurdo de trabalho em que consiste uma empreitada dessas.

Pior, faz parecer que os morosos processos de demarcação e homologação de terras, com centenas de entraves burocráticos e judiciários seriam algo quase instantâneo, bastando que a comunidade que pleiteia o território se “autodeclare” . Os processos de homologação ou titulação dessas terras são justamente isso: processos. São passíveis de contraditório, anulação e etc. Em tempo: quem  tem a palavra final  acerca da titulação/homologação de terras é o judiciário, não os antropólogos.  O trabalho dos antropólogos é descrever como o grupo se relaciona com a terra que pleiteia e criar uma peça técnica onde reúne informações que vão desde redes de parentesco até dados sobre produção agrícola e aspectos religiosos. Esses dados compõe um documento maior, que inclui o levantamento das cadeias dominiais das terras pleiteadas e sua situação fundiária – donde se pode conhecer muito sobre a história da propriedade rural no Brasil…

Enfim, a mentira tem perna curta.

Updates

04/05/2010 Os dados que apresentei acerca da extensão das terras de quilombo e unidades de conservação não são desse ano. Usei deles porque não creio que houve qualquer mudança significativa no total dessas áreas. De qualquer forma, a presidência não decretou metade do Brasil em terras de quilombo e UCs de 2007 para cá, logo os dados apresentados na Veja continuam inválidos.

05/05/2010 O Núcleo de Análises em Políticas Públicas da UFFRJ publicou uma espécie de dossiê reunindo todas as opiniões, análises e manifestações acerca da controversa matéria da revista Veja. O dossiê tem sindo atualizado à medida que novas opiniões surgem e pode ser acessado aqui.

05/05/2010 Há de fato uma polêmica acerca área disponível para plantio no Brasil, como aponta essa nota da Folha. A Empraba afirma que há 29% da terra disponível para agricultura e o Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) questionou o relatório da Empraba afirmando que o percentual é de 36%. Os Ruralistas desejavam utilizar o estudo para propor uma revisão do Código Florestal, mas o  jornalista Marcelo Leite afirma que mesmo que reste apenas a porcentagem afirmada pela Embrapa, é possível triplicar a safra nesse espaço – em torno de 2,46 milhões de km2. Não é pouco espaço se consideramos que os EUA, um dos países com a maior superfície plantada do mundo, usa 3,73 milhões de km2 de sua área para produção agrícola.

06/05/2010: O Edmar postou um email de Coutinho acerca da matéria lá nos comentários, o qual reproduzido aqui:

Os dados apresentados na reportagem estão corretos. O estudo da Embrapa utilizado como fonte para elaboração do mapa mediu não só as chamadas Unidades de Conservação. Ele considera as áreas de reserva legal (que de acordo com a região do país variam de 20% a 80% das propriedades) e as Áreas de Preservação Permanente. São essas categorias juntas que chamamos de “áreas de preservação ecológica”.

Espero ter esclarecido e coloco-me à disposição.

Atenciosamente,

Leonardo Coutinho
Revista VEJA
Salvador (BA) Brasil

Então, o jornalista quer dizer que, tirados os 24,7% de TQs, TIs e UCs ainda temos mais de 50% do país sob reserva legal? Acho improvável.

Os dados apresentados pelo jornalista Marcelo Leite numa reportagem da Folha (reproduzida nesse blog) são bastante distintos do resultado dos cálculos de Coutinho, destacando-se o fato de que o relatório da Embrapa tem sido motivo de controvérsia. Cito um trecho:

A bancada ruralista no Congresso, empenhada em rever o Código Florestal, adorou o estudo, mas usou-o para dar o bote só em 29 de abril. A senadora Kátia Abreu (DEM-TO), que preside a CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil), conseguiu realizar nesse dia uma reunião conjunta das 11 comissões permanentes do Senado sobre a legislação ambiental.

Na pauta se destacava o estudo da unidade da Embrapa sediada em Campinas (SP), apresentado pelo autor principal e chefe da unidade, Evaristo Eduardo de Miranda. Deveria ser o golpe de misericórdia, “científico”, nas leis que supostamente engessam o agronegócio. De certo modo, o tiro saiu pela culatra.

O trabalho teve sua honestidade questionada pelo Greenpeace. Seus números foram corrigidos para cima por outra ONG, o Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia): ao menos 36% do Brasil, ou até 43%, permanecia disponível para atividades agropecuárias.

Quem está com a razão? Não é fácil responder, e talvez nem seja necessário. Mesmo que restem apenas os 2,46 milhões de km2 apontados por Miranda, na pior das hipóteses, já seria muito. Toda a produção de grãos do país cabe em 767 mil km2. Dá para triplicar a safra nesse espaço, e isso sem aumentar a produtividade. Coisa impensável, porque o aumento da eficiência -e não só a ampliação da área cultivada- é que tem garantido a competitividade do agronegócio brasileiro no mercado internacional.

07/05/2010: Para além da questão da matemática, sugiro a leitura dessa descrição da Área de Proteção Ambiental Sul da Região metropolitana de Belo Horizonte. Acho que ajuda entender como uma APA – que é diferente de uma área de preservação permanente – pode ser explorada e habitada. Em tempo: a principal atividade econômica exercida na APA Sul da RMBH é a mineração de ferro e ouro:

O ferro, com valor de produção de R$ 1,3 bilhão, e o ouro, com valor de R$ 142 milhões, são responsáveis por 99% do valor informado para a mineração nos municípios integrantes da APA SUL RMBH [...]. Vale salientar que a região abrange 13 municípios, que participam com produção de 15 bens minerais e representam 32,3% do valor da produção mineral do Estado de Minas Gerais, e 11,1% do valor da produção brasileira. Os investimentos realizados no ano de 2000 tiveram uma participação de 23% e 7%, respectivamente a níveis estadual e federal.

Ou seja, o simples cálculo de “áreas de preservação ecológica” continua sendo inútil ao se discutir economia, ocupação e questões fundiárias.

10/05/2010:  O professor João Pacheco de Oliveira Filho, coordenador da Comissão de Assuntos Indígenas  da Associação de Antropologia brasileira, publicou uma nota na semana passada onde aborda o tom preconceituoso da reportagem. Além disso, destacou que um dos autores da matéria é responsável por ataques sistemáticos aos povos indígenas nas páginas do semanário.

10/05/2010: Marcelo Leite escreveu de novo sobre assunto, abordando a controvérsia do relatório da Embrapa e a manipulação dos números pela Veja. Segue um post de seu blog na íntegra.

Preconceitos, estridência, falácias, invenções e estatísticas (…) transformam todo o debate público numa bacia amazônica de turbidez. Não é privilégio da questão indígena. Tome a usina hidrelétrica de Belo Monte. Ou o tema explosivo da disponibilidade de terras para o agronegócio, epicentro [de uma] reportagem da revista “Veja”. “Áreas de preservação ecológica, reservas indígenas e supostos antigos quilombos abarcam, hoje, 77,6% da extensão do Brasil”, afirmam seus autores, sem citar a fonte. “Se a conta incluir também os assentamentos de reforma agrária, as cidades, os portos, as estradas e outras obras de infraestrutura, o total alcança 90,6% do território nacional.”

É provável que a origem omitida seja o estudo “Alcance Territorial da Legislação Ambiental e Indigenista”, encomendado à Embrapa Monitoramento por Satélite pela Presidência da República (…). A estimativa terminou bombardeada por vários especialistas, inclusive do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Nesta semana veio à luz, graças às repórteres Afra Balazina e Andrea Vialli, mais um levantamento que contradiz a projeção alarmante. O novo estudo foi realizado por Gerd Sparovek, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), em colaboração com a Universidade de Chalmers (Suécia).

Para Miranda, se toda a legislação ambiental, fundiária e indigenista fosse cumprida à risca, faltariam 334 mil km2 -4% do território do Brasil- para satisfazer todas as suas exigências. O valor dá quase um Mato Grosso do Sul de deficit.

Para Sparovek, mesmo que houvesse completa obediência ao Código Florestal ora sob bombardeio de ruralistas, sobraria ainda 1 milhão de km2, além de 600 mil km2 de pastagens poucos produtivas usadas para pecuária extensiva (um boi por hectare). Dá 4,5 Mato Grosso do Sul de superavit.

A disparidade abissal entre as cifras deveria bastar para ensopar as barbas de quem acredita em neutralidade científica, ou a reivindica. Premissas, interpretações da lei e fontes de dados diversas decerto explicam o hiato.

Mas quem as examina a fundo, entrando no mérito e extraindo conclusões úteis para o esclarecimento do público e a tomada de decisão? Faltam pessoas e instituições, no Brasil, com autoridade para decantar espuma e detritos, clarificando as águas para que se possa enxergar o fundo. De blogueiros e bucaneiros já estamos cheios.

11/05/2010: O jornalista Felipe Milanez, editor da National Geographic, foi demitido por criticar duramente a Veja em sua conta no Twitter. Milanez se revoltou contra o tratamento dado à questão indígena nas matérias “A Farra da Antropologia Oportunista” e “A Farsa da Nação Indígena”.

11/05/2010:  O GT Quilombos da Associação Brasileira de Antropologia publicou uma nota onde comenta a reportagem.  A nota destaca que a revista “apresenta [um] texto: 1) irresponsável na apresentação de seus dados; 2) insultuos[o] com os Antropólogos; e,  3) que divulga conteúdo racista”.

12/05/2010: A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência repudia a reportagem da Veja.

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Rafael Barbi – Mestrando em Antropologia pelo PPGAN/UFMG

53 Respostas

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  1. clap clap clap clap clap clap… bravo!

    Guaracy

    maio 4, 2010 em 19:31

  2. SALVE Barbi! Enfim um texto – com “desenho”, incluive!- para um público não-acadêmico.

    fernanda

    maio 4, 2010 em 22:26

  3. belo destrinchamento de uma fraude do mais baixo nível.
    isso sim é uma matéria jornalística de peso.

    denise bottmann

    maio 4, 2010 em 23:21

  4. Novamente a revista Veja e suas matérias fantasiosas, vide o recente caso Bancoop. Felizmente existem pessoas dispostas a desmascará-la com argumentos sólidos e inquestionáveis, tão necessários para a construção de qualquer boa matéria jornalística mas que infelizmente são deixados de lado pelos membros da PIG. Parabéns pelo excelente texto!

    Eu

    maio 4, 2010 em 23:33

  5. Não me faça chorar chamando mapa de desenho pra público não acadêmico, nem com aspas, nem de brincadeira.

    Boa matéria mano, vou até colocar seu link no facebook, pra galera que não tá na discussão.

    Aguirre

    maio 4, 2010 em 23:37

  6. Só espero que todas as pessoas que foram “citadas” pela Veja processem a mesma e consigam alguma coisa. Essa palhaçada já foi longe demais. Essa revista precisa de um reboot urgente.

    Daniel Werneck

    maio 5, 2010 em 2:05

  7. Reiterando o que todo mundo disse, que otima a sua iniciativa de evidenciar a fraude veiculada pela Veja. Vou repassar tb, em todo tipo de rede-social e afins :)

    Martha

    maio 5, 2010 em 5:05

  8. Rafa, querido, você esqueceu de contabilizar os assentamentos…
    Será que o Governo Lula destinou 50% da superfície do país à reforma agrária e ninguém ficou sabendo???!!! ;)
    No mais, parabéns pelo texto.

    Ana Flávia

    maio 5, 2010 em 9:31

  9. Parabéns pela ótima e definitiva réplica ao hediondo artigo de Veja.

    carlos durigan

    maio 5, 2010 em 9:41

  10. Caro,

    No artigo que vc produziu não tem seu nome completo, apenas o nick. Podes passar? Acho interessante circularmos nas nossas redes de contatos…

    carlos durigan

    maio 5, 2010 em 9:49

  11. parabéns pelo trabalho.
    é lamentável que as pessoas sigam lendo fraudes descaradas como essa como o tal “jornalismo”. vamos divulgar. abraço. harley.

    harley

    maio 5, 2010 em 9:58

  12. Muito bom o conjunto de argumentações e contra-provas apresentadas. Um grande artigo, incluvise.
    Somente sabe como a “imprensa” distorce fatos e ideias, quem já teve relação com alguma matéria. Aliás, como diria Luis Fernando Veríssimo, em um jornal (extendo para revista) somente é possível acreditar na data.
    parabéns.

    Ivonaldo

    maio 5, 2010 em 10:15

  13. Rafael, otima materia. Eu espero que você ou o Eduardo nem so publiquem seus artigos na prensa nacional mas também na prensa estrangeira. Um artigo no Monde Diplômatique Francês o no Guardian da Inglaterra seríam muito importantes. Achou que o respeito que o nome de Eduardo tem no mundo acadêmico international poderíam ser chaves nem só para aclarar o caso da mentira da revista Veja mas para denunciar o caso indignante da prisão da liderança Tupinambá Babal e seu irmão Gil, e em gêral a criminalização dos movimentos indígenas e kilombolas no Brasil e na Amazônia toda. Eu sou peruana e coisas muito semelhantes estão acontescendo lá. Também tenho a sorte de ter conduzido pesquissa com os Tupinambá da Serra do Padeiro e posso lhe asegurar que a familia do Babal é totalmente extraordinaria, sim, mas pela força, carinho e capacidade de agrupar as pessoas que eles tem. Jamais vi uma cozinha tão cheia de ajudantes, hommens e mulheres, e de pratos diversos feitos com mandioca quanto a cozinha da casa de dona Maria, mãe de Babal. Saludos cordiales, Luisa

    luisa elvira belaunde

    maio 5, 2010 em 10:21

  14. Parabéns pelo texto! Resposta coerente à fantasia da imprensa marrom.

    Carlo

    maio 5, 2010 em 10:47

  15. É uma bela resposta, pois os nº são alucinados ou eu hibernei uns 20 anos. Seu trabalho foi muito bem feito.Parabéns.

    A mania que a Veja tem de elaborar reportagens dessa forma geram resultados absurdos e desonestos. Essa reportagem foi uma escrotidão.

    Por outro lado, a fraude dos nº e das entrevistas não muda o recado dado. Há máfia nessa estória, como há injutiçados se valendo da máfia para tentar perder de pouco.

    Continuo tentando entender o significado de “se garante”, firmado por EVC , pois me parece a chave para toda a questão da demarcação de terras, visto que é aí que a mafia se garante (epa!).

    Ah, sim. O fato de que este governo fez menos nas demarcações só aponta para uma realidade: ele fez menos em quase tudo.

    MAM

    marcos moraes

    maio 5, 2010 em 11:09

  16. Grande resposta Barbi. Sobre a Veja, infelizmente, não me surpreende…

    Daniel Martins

    maio 5, 2010 em 11:16

  17. Está bom mas está prolixo. Deve-se tentar algo para atingir o leitor mediano de VEJA. E aí então buscar espaço na GRADE MIDIA que é onde VEJA navega. Textos para os “iniciados” são como desabafos, nunca reparam o mal já perpetrado.

    Valeriano

    Valeriano

    maio 5, 2010 em 11:31

  18. Parabéns. Raramente conseguimos ler na Internet uma réplica tão bem-feita e estruturada como a sua.a

    Há braços!

    alexmendes

    maio 5, 2010 em 11:36

  19. “Não haveriam centenas” pegou mal. Será que é tão difícil aprender a conjugar o verbo “haver” corretamente?

    Filipe

    maio 5, 2010 em 12:42

  20. muito bom seu texto, dá uma geral desse caso além de mostrar dados – o que faltou ou foi distorcido demais pela tal revista.

    jaqueline gomes

    maio 5, 2010 em 13:37

  21. Belo trabaho. Vou publicar no meu site comunitário “pro bonno” : http://www.torres-rs.tv Só não sei a quem dar o crédito. Fica em aberto. Aguardo.
    Parabéns pela oportunidade e pela qualidade.
    Paulo Timm – Professor UnB

    PAULO TIMM

    maio 5, 2010 em 13:49

  22. [...] o Barba fez um belo post sobre os dados de ocupação territorial. Permanece minha curiosidade sobre como os caras chegaram [...]

  23. Olá,

    Sou jornalista e achei excelente o texto que foi elaborado para contrapor a fraude promovida não apenas pelo trio de jornalistas envolvidos, mas também pelos editores e responsáveis pela “revista” Veja.

    O que a Veja promove hoje é um antijornalismo em sentido estrito, literal. Não é que falta “ética” à referida revista e sim que esta deliberadamente abandonou os princípios jornalísticos ainda na ditadura militar, quando da “saída” de Mino Carta, e desde então age, cada dia mais, como um Departamento Ideológico da Divisão de Imprensa da CIA. Ironia à parte, esta não é descabida. O que a Veja promove é uma ideologia não apenas conservadora, mas reacionária, que defende explicitamente os interesses capitalistas (seja financeiros, industriais, agronegócio, etc) e de uma burguesia decadente, que vê até mesmo um retorno da “ditabranda” militar com bons olhos.

    Os trabalhadores, o povo brasileiro, deve se organizar para contrapor semanalmente, ou se for possível, diariamente, a ideologia desta revista. Os interesses desta revista são os mesmos interesses que empresas como Abril, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, Globo, etc.: A manutenção do processo de pilhagem do Brasil por parte das multinacionais. Para isto eles até convocariam um golpe.

    Meus parabéns pelo excelente serviço de crítica.

    Saudações socialistas e libertárias,

    Lucas Morais

    Lucas Morais

    maio 5, 2010 em 15:00

  24. Sem querer ser grosseiro, a muito tempo a VEJA é a revista mais parcial que existe, em diversos aspectos e assunto, ler VEJA é coisa de idiota, salvam-se poucos escritores e algumas reportagens.

    Edu

    maio 5, 2010 em 15:06

  25. fico feliz que coisas como essa (diga-se,a Veja) causem indignação geral e mobilizem não apenas aquelas pessoas que foram nominalmente citadas.
    essa revista é uma fraude perniciosa e deveria ser banida.
    parabéns pelo seu texto.

    carmen

    maio 5, 2010 em 16:29

  26. Muito bom dissecamento!
    Agora, a Veja só convence os convertidos. Não há jornalismo neutro. Os veículos são sempre vinculados a interesses de grupos, pessoas, classes, instituições… sejam eles de esquerda, direita, centro, sul, norte.
    Seu blog já está nos favoritos!

    Malva Mauvais

    maio 5, 2010 em 16:59

  27. Vindo da Revista Veja, não me supreendende, eis que esse tipo de “notícia” é comum em suas páginas. Lamentável…

    um boi qlqr

    maio 6, 2010 em 9:27

  28. [...] · Deixe um comentário Originalmente publicado em Faire-Savoir em [...]

  29. Por isso não leio Veja!!!!!! Cada vez mais a impressa brasileira só nos faz passar vergonha!! O pior é que tem gnte que continua lendo e acreditando em td q a Veja diz!

    Ale

    maio 6, 2010 em 10:49

  30. VEJA, mais uma vez eles querem acabar com nós povos indígenas… nos dias de hoje usando outros meios… não vamos nos entregar a esses capangas do capitalismo…

    Edgar Corrêa – Xakriabá

    Edgar Corrêa Kanaykõ

    maio 6, 2010 em 11:23

  31. Fiz uma consulta a Veja sobre os dados e eles me responderam o seguinte:


    Os dados apresentados na reportagem estão corretos. O estudo da Embrapa utilizado como fonte para elaboração do mapa mediu não só as chamadas Unidades de Conservação. Ele considera as áreas de reserva legal (que de acordo com a região do país variam de 20% a 80% das propriedades) e as Áreas de Preservação Permanente. São essas categorias juntas que chamamos de “áreas de preservação ecológica”.

    Espero ter esclarecido e coloco-me à disposição.

    Atenciosamente,

    Leonardo Coutinho

    Revista VEJA

    Salvador (BA) Brasil

    Edmar

    maio 6, 2010 em 14:17

    • Edmar,

      Ah… então temos OUTRA história. Agora estamos falando de superfície de plantio, não de propriedade privada ou espaço para o “desenvolvimento”. A Embrapa afirma que 29% do país está disponível para plantio, coisa que é contradita pelo IPAM, que afirma que 36%. Sem entrar no mérito da contradição, esses são dados que podemos discutir, inclusive comparando com a área que outros países que possuem uma grande agroindústria usam – ontem eu postei uma nota acerca disso no final do post.

      A questão aí envolve muito mais do que qualquer “farra” inventada pela Veja, que desenha um estranho quadro onde o país foi reduzido a áreas de preservação, quilombos e terras indígenas. Primeiro, parte da suposição de que terras indígenas, áreas de uso sustentável e terras de quilombo não são produtivas por não seguirem os modelos do agronegócio – a pertinência de modelos de plantio também envolveria outra discussão mais extensa, mas “improdutivas” essas terras não são. Ex: na terra indígena Xakriabá, onde eu trabalhei, planta-se tanto quanto os não-indígenas da região. Há criação de gado, porcos, galinhas e etc. Se não estivessem sendo castigados por um regime inconstante de chuvas, já que se encontram numa área de semi-árido, estariam colhendo mais.

      Além disso, eu gostaria de saber se essa conta alegada pelo jornalista leva em conta as sobreposições de terras indígenas e terras de quilombo com unidades de conservação. Além disso, seria necessário excluir esse quase 1/4 (TIs, TQs, UCs) de área do país do cálculo de tamanho das reservas legais das propriedades – que variam de estado para estado e devem ter sido grosseiramente estimadas.

      De toda forma, a redação de Coutinho dá a entender que agricultores estão sendo expulsos e que “as próximas gerações terão de se contentar em ocupar uma porção do tamanho de São Paulo e Minas Gerais”… ele que apresente provas de um absurdo sem tamanho desses. Além disso ele continua sem indicar o documento que foi a fonte de seus dados (estaria online?), o qual todos estamos curiosos para ver.

      Abraço

      Barba

      maio 6, 2010 em 16:55

      • Epa! Aí pegou.

        Já teria que entender o que significa o “se garante”. Agora tem essa de vc dizer que se o indio planta e cria então não é improdutiva?

        Se seguir essa logica, não há fazenda improdutiva no Brasil. Aqui na Mata de MG os “indios” do MST invadiram uma fazenda declarada por eles improdutiva, antes do laudo do INCRA ter sido divulgado. Mas é improdutiva? Segundo seus critérios não é nem nunca foi, pois tem galinha, boi,cavalo, milho, feijão…até mata virgem tem!

        Daria pra explicar melhor? Se é branco e fazendeiro tem que produzir pra não ser invadido; mas, se for indio, crioulo e tuti quanti algumas galinhas resolvem?

        MAM

        marcos moraes

        maio 7, 2010 em 19:02

      • Marcos,

        Não sou responsável pelas ações do MST, nem tenho muita informação sobre estas. Mas concordo quando se fala que ao invés de acamparem em locais onde há propriedades produtivas e consolidadas, os caras deviam estar buscando outras vias para a reforma agrária. Claro, isso é diferente de concordar com ser assentado em qualquer terra bizarra e péssima pra plantio no cafundó do judas, sem estrutura alguma para viver e comercializar – como aconteceu em um monte de assentamentos no Norte. Enfim, essa é outra questão.

        O que os indígenas requerem, por outro lado, são terras que lhes foram expropriadas, seu “território tradicional” se você entende assim. E olha, como eu te expliquei, no caso lá do Norte de Minas os caras tinham até certidão da doação da terra registrada em cartório – como acontece com vários outros povos do São Francisco que foram aldeados em missões religiosas e depois tiveram seus direitos à terra revogados no século XIX.

        Agora, essa questão da produtividade eu acho sempre curiosa. Se digo que os caras produzem tanto quanto os outros pequenos agricultores da região, onde está o problema? Eu estou falando de um caso específico, que está relacionado principalmente às terras indígenas das regiões Sul, Sudeste e Nordeste – onde se planta e cria. Claro, podemos dizer que toda terra indígena é produtiva, já que caça e coleta também são produção. E também podemos dizer que os latifúndios com quilômetros de pastagem que existem por aí também são produtivos. Aí também podemos entrar no mérito de quantas pessoas usufruem do que produzem essas terras, do impacto de cada uma delas na fauna e flora da região, nos recursos hírdricos, data de ocupação cadeia dominial, situação fundiária, etc… A questão não é simples e as controvérsias não devem ser simplificadas.

        Abs

        Barba

        maio 7, 2010 em 19:34

  32. Moro na França onde fiz um doutorado em parte sobre os campos de refugiados palestinos no Libano. Das vezes que estive no Brasil e que coincidiram com a ultima guerra do Libano em 2006 e a guerra na Faixa de Gaza, fiquei estarrecida com a cobertura da veja, nada imparcial, chegava a ser ridiculo! Principalmente quando comparado com a cobertura mediatica desses conflitos na Fraça. E terrivel nos darmos conta de que no Brasil milhares de pessoas lêem um meio de comunicação que se coloca como objetivo e que na verdade esta claramente ao serviço de interesses elitistas no Brasil. Acusar antropologos e cientatistas sociais para descreditar toda e qualquer militancia nesse pais infelizmente nao é privilégio da veja. Basta vermos como os moradores de favelas são estigmazados e como os antropologos que tentam se unirem as causas deles logo são acusados de “cumplicidade com o trafico”. é realmente uma coisa que temos que trabalhar para que seja mudada no Brasil, pois não ha democracia sem uma midia séria e minimalmente “objetiva”, ou que pelo menos da ouvidos a todas as partes envolvidas nos acontecimentos que cobre, no lugar de se lançar em acusações escabrosas.

    Amanda

    maio 6, 2010 em 17:23

  33. Excelente texto.
    Para colaborar com a verdade, informo que os dados oficiais sobre territórios quilombolas titulados encontram-se no sitio do INCRA em: http://www.incra.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=252&Itemid=274
    último arquivo no fim da página.
    Estes dados estão atualizados e são revisados constantemente. A área já titulada de comunidades quilombolas corresponde a exatos 955.330,5955 hectares.
    Roberto Almeida
    Antropólogo do INCRA

    Roberto Almeida

    maio 6, 2010 em 17:45

  34. Barbi,

    matou a pau!!! Esse texto, derruba qualquer argumento dessa revista. Parabéns!

    Pablo

    maio 6, 2010 em 19:36

  35. [...] os dados que se contrapõem, pois isso já foi feito com primor por Rafael Barbi no texto “A farra do jornalismo oportunista?”. Para desfazer as mentiras da revista deixo disponível também as respostas de antropólogos [...]

  36. Muito obrigada por essa resposta.
    Me envergonhou enormemente a matéria da Veja, que recebi de amigos por e-mail. Mas não tive argumento e dados para contestar o conteúdo, apenas uma revolta por ter certeza de que os dados estavam manipulados, como é praxe dessa revista.
    Com seus créditos, estou encaminhando o texto aos demais amigos que ficaram chocados com a reportagem, pra que a gente faça uma disseminação dessa informação.
    Militância internética!

    Maíra Rocha

    maio 7, 2010 em 18:56

  37. Acho que os autores da crítica ignoraram as APPs e as áreas de reserva legal (respectivamente arts. 2° e 16 do Código Florestal). São áreas que não há como colocar no mapinha, já que ocorrem dentro de cada propriedade.

    Rodrigo

    maio 7, 2010 em 20:03

  38. Rodrigo, pq vc diz que não tem como listar as APPs em um mapa? É só colocar uma cor diferente pra cada APP presente dentro da APA e numerar na legenda.

    No próprio site da APA Sul tem uma função muito inspirada que permite o usuário criar um mapa, em tempo real através de um programinha de flash, com os dados que ele deseja visualizar. Só conferir na parte de mapas interativos.

    http://www.redeapasul.com.br/

    Inclusive, o que falta pra esse povo da Veja é uma aula de matemática básica sobre “conjuntos” e mapas sobrepostos. Se eles tivessem isso, veriam que, mesmo com muita má fé, é impossível chegar nos resultados escabrosos publicados na famigerada matéria.

    Aguirre

    maio 7, 2010 em 23:46

  39. [...] A farra do jornalismo oportunista? A revista Veja dessa semana publicou uma matéria intitulada “A farra da antropologia oportunista”. Aparentemente os jornalistas Leonardo Coutinho, Júlia de Medeiros e Igor Paulin desejavam denunciar o que seria uma espécie de “esquema” entre ONGs internacionais, antropólogos e o Governo Federal para extinguir a propriedade privada de imóveis rurais no Brasil através da demarcação de terras indígenas e terras de quilombo, além da criação de unidades de conservação.  [...]

  40. Creio que o trabalho da Embrapa utilizado pela Veja é o que está no endereço: http://www.alcance.cnpm.embrapa.br/
    Não vi nenhum erro de matemática no estudo e a metodologia está bem detalhada. Os pesquisadores ainda oferecem vários cenários que interferem no cálculo final das áreas.
    Não se pode criticar a Embrapa pelo estudo. Se foi utilizado de forma equivocada, é culpa da revista Veja.

    Edmar

    maio 8, 2010 em 16:42

    • Obrigado Edmar. A metodologia usada no relatório foi e está sendo questionada, mas não vamos nos ater a ela aqui: suponhamos que ela absolutamente foi correta.

      Os cenários apresentam diferentes resultados do que seria a área disponível para plantio e ocupação no Brasil, considerando várias sobreposições possíveis entre APPs e reservas legais e os números variam muito – entre 25 e 41%. O que, segundo o Marcelo Leite (jornalista da Folha), não é pouco nem insuficiente. No Altas da Questão Agrária Brasileira tem dados interessantes sobre o uso ocupação da terra, que iluminam um pouco o que essas cifras significam… até porque temos uma área imensa destinada a pastagens para pecuária extensiva de baixo rendimento

      http://www4.fct.unesp.br/nera/atlas/arq_capitulos/estrutura_fundiaria/mapa_6.13.png

      Bem, agora entendo de onde os números citados saíram, do seguinte trecho da conclusão:

      “Os primeiros resultados indicaram que, em termos legais, aproximadamente 70% do território está legalmente destinado a minorias, a proteção e preservação ambiental ou indisponível para um uso e ocupação intensivos dada a existência de outros mecanismos, restrições e condicionamentos ambientais (planos diretores, conselhos, planos de manejo, comitês gestores etc).”

      Ou seja, o “legalmente destinado” implicaria que há muitas propriedades em situação irregular ou desrespeitando APPs ou Reservas Legais – como o Rodrigo já destacou no comentário ali embaixo.

      Temos um cenário de controvérsias metodológicas, legislação ambiental complexa, terras exploráveis mal ou inutilizadas, etc… Daí a dizer que o governo está loteando “o que restou” o Brasil para os indígenas e quilombolas através de uma “indústria da demarcação” é forçar a barra demais. Pra não dizer outra coisa.

      Barba

      maio 8, 2010 em 18:17

  41. Oi Aguirre, é o seguinte, as APPs são não são iguais às unidades de conservação que são designadas especificamente: APA X, APA Y, etc.

    No caso das APPs é uma preservação genérica: por exemplo, qualquer área a 200 metros de um rio, no topo de morro, etc. Se na sua fazenda tiver um rio ou um morro, vai ter automaticamente uma área da APP na qual, em tese, você não pode produzir. Não precisa de nenhum ato estatal delimitando, basta a norma do Código Florestal.

    A área de reserva lehgal é a mesma coisa, uma porcentagem da terra que tem que ser mantida intocada – sem contar as que já são APPs.

    Trabalho com ações judiciais nas quais tentamos fazer os fazendeiros respeitarem e cercarem essas áreas. Não é preciso haver vegetação nativa nelas, o que beneficiaria o desmatador. Pelo menos é isso que defendemos e os juizes costumam acatar algumas vezes, outras não. Ou seja, EM TESE, é provável que as terras disponíveis para cultivo sejam aquelas que a Veja mencionou mesmo. Já a manipulação das declarações dos antropólogos pela revista eu achei lamentável.

    Rodrigo

    maio 8, 2010 em 17:55

  42. Rodrigo, eu estava me referindo especificamente às APPs presentes em áreas delimitadas, mas, é perfeitamente possível incluir topos de morro e margens de rio em um mapa. O nível de complexidade depende mesmo da base de dados disponível e da escala utilizada.

    A delimitação jurídica das APPs, entretanto, não é arbitrária. Topos de morro e margens de rio são protegidos justamente para, por exemplo, evitar o assoreamento dos cursos d’água, secagem de lençóis freáticos, processos erosivos, dentre outros. E tais fatores podem dar muito mais prejuízo para um produtor rural do que preservar as áreas mencionadas, além de afetarem o restante da população.

    Logo, não adianta a Veja simplesmente falar que isso é uma conspiração de antropólogos ou quem quer que seja se eles não apresentarem provas e contra-argumentos convincentes. Eles utilizaram uma pesquisa, cuja conclusão já foi questionada no meio científico, para divulgar a ideologia que defendem, isso não é jornalismo, é propaganda.

    O resultado final da Veja é questionado pq eles só somaram todos os números que viram pela frente, desconsiderando qualquer tipos de sobreposição existente. Isso, quando eu estudei estatística I e II, era chamado de “estudo direcionado” e o resto do mundo chama de “má fé”.

    Em nota, é sim necessária a presença de mata ciliar nativa ao longo dos rios e mata nativa em topos de morro para prevenir os processos acima citados de erosão e assoreamento. A discussão é longa, a explicação também, mas a idéia central é essa. Mas, vc deve saber disso, já que lida profissionalmente com o assunto.

    Aguirre

    maio 8, 2010 em 20:46

  43. [...] que essa revista não é séria e eles insistem em provar. Veja que absurdo essa revista faz em A farra do jornalismo oportunista. A revista Veja dessa semana publicou uma matéria intitulada “A farra da antropologia [...]

  44. [...] repudia reportagem de ‘Veja’ | Comentário de Viveiros de Castro à resposta da Veja | A farra do jornalismo oportunista? | Anti-indigenismo midiático: a arte de cultivar racismo e limpezas étnicas | Abril demite editor [...]

  45. [...] A farra do jornalismo oportunista? por Rafael Barbi – Mestrando em Antropologia pelo PPGAN/UFMG [...]

  46. [...] de cotas ou direitos diferenciados garantidos aos povos indígenas, não raramente fundamentadas em falácias e dados absurdos, me refiro aqui a críticas supostamente menos espetaculares, aparentemente mais [...]

  47. É Patrícia, li um bocado dos seus textos e não consegui entender de “antropólogos” você está falando, e nem mesmo qual foi o seu caso. O que eu vi foi uma glossolalia que envolve o Estatuto do Índio, noções tiradas dos tempos de SPI e um bocado de equivocação da sua parte. Onde eu trabalho é muito diferente. Os índios têm sua terra demarcada, casam com quem bem entenderem, trabalham fora e têm uma inserção interessante na política regional. A demarcação foi importante porque os indígenas estavam ameaçados por fazendeiros que estavam ocupando, há muito pouco tempo, uma terra doada aos índios pela Coroa. Mas, é claro, isso não prova que você não foi “vítima de abuso” por quem quer que seja. Vou ler com mais calma e comento depois. Obrigado.

    Barba

    maio 29, 2010 em 2:44


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