Essa tal “Princesinha do Solimões”…
Não sei se a malha urbana de Tefé é um parâmetro para as cidades do interior do Amazonas, mas espero que não. Eu morei e trabalhei em cidades de interior a vida toda. Algumas dessas cidades eram pólos regionais, outras estavam entre aquelas com o menor IDH do estado. Algumas tinham dezenas de milhares de habitantes e outras mais pareciam vilarejos. Mas o que eu observo em Tefé é algo muito diferente do que vi na maioria absoluta dos interiores por onde andei.
Tefé tem algo de muito peculiar. As ruas e avenidas são largas e asfaltadas, mas as calçadas são inexistentes ou minúsculas. Apesar do sol forte que impera em quase todos os dias do ano, quase não há árvores e aquelas que existem são podadas ao ponto de não oferecerem sombra. A quantidade surreal de motocicletas pode ser explicada pela impossibilidade de se deslocar usando outro meio de transporte. Há poucas praças, e aquelas que existem estão tomadas por vendedores ambulante que ocupam todo espaço de sombra. A orla está em obras há mais de 8 meses, há uma praça que foi destruída e transformada num lamaçal por um ex-prefeito.
Há falta de saneamento básico em muitos bairros, a água não é adequadamente tratada e o fornecimento de eletricidade é intermitente no verão porque os geradores parecem não funcionar adequadamente no calor amazônico. Não há espaço entre os imóveis em muitas áreas da cidade, sendo que apartamentos e casas tendem a ter poucas janelas. O maior desafio aqui é encontrar um lugar para morar que seja banhado pela luz do sol e possua janelas em todos os quartos. A maioria das pessoas que mora aqui usa o ar condicionado para resolver esse problema… o que além de não ser nada saudável também não é barato.
O problema é que Tefé parece ter sido “planejada” seguindo critérios de urbanização que, além de não serem adequados à Amazônia, não deveriam ser seguidos por qualquer prefeito. Muito asfalto, pouca sombra, pouca estrutura para que as pessoas circulem à pé e todos os problemas decorrentes do uso intensivo de veículos automotivos, especialmente poluição e barulho. Problemas de cidade grande onde eles não deveriam existir.
Conhecendo o tipo de administração pública exercido no Médio Solimões, não acho que Tefé vai mudar nos próximos dez anos. O TCU tem questionado as contas das prefeituras da região. Prefeitos têm sido cassados, mas acabam recorrendo e abandonam as cidades à míngua durante os anos em que corre o processo, deixando de pagar os funcionários e manter serviços básicos de educação, saúde ou mesmo coleta de lixo. O dinheiro dos royalties da eventual exploração de petróleo exibidos como sinônimo de progresso, muito provavelmente não vão fazer muita diferença para a cidade… muito embora um eventual vazamento possa comprometer brutalmente a economia local, baseada na pesca.
Por enquanto a prospecção de petróleo trouxe apenas o aumento dos preços e da especulação imobiliária…


