Arquivo da categoria ‘amores brutos’
Amores Brutos #20
Carta para X
Do lado de lá não há nada que reste. Que preste. Apenas os mesmos rasgos gastos, as marcas antigas daquilo que não foi. Do lado de lá não há conforto, como nunca houve nesse ou em qualquer outro. Há um bocado de conveniência, uma infelicidade residente, um muro construído em dívidas, o controle sutil. Aqui nunca houve nada que não fosse o ensaio de um delírio duplo, de uma embriaguez construída por detrás do mundo. Talvez isso não seja nada, talvez isso seja muito menos do que um tanto que não resta. Mas aqui, aqui mesmo, fundamos o império do impossível, com seu regente manco e caolho, dono da chave para todos os prazeres e sofrimentos do mundo conhecido. Agora que um exército atravessou as montanhas para carregar toda a beleza de volta para longe, para esconder aquilo que foi dentro de uma toca gélida… agora eu me recolho. A hora de seguir já passou, para todos nós.
Amores Brutos #19
Era para ser uma travessia. Cruzar de um lado ao outro, como se faz em tempos de mudança. Foi você quem sinalizou, me convidou a te aguardar. Mas era uma travessia pesarosa, doentia. Um martírio onde lugar nenhum pode ser alcançado. Remar na terceira margem, dizem, pode durar para sempre. Agora, percebo, que os passos eram apenas voltas: correr atrás do próprio ego.
Agora me convida a compartilhar essa infâmia, remar no centro, observando a correnteza passar. Do fundo da ignorância é possível saber que quem desconhece o fluxo das coisas está condenado a viver nele, sem nunca segui-lo.
Não senhor. Atravessar é preciso.
Amores Brutos #18
Incomunicável. Era assim que se passou aquela última noite. Não havia como falar nada. Eu tentei, algumas vezes até. Dava pra saber o que viria na manhã seguinte, como anunciado, a fala terrível, carregada de uma tristeza ímpar, de um peso desnecessário. Todos são fracos de alguma maneira, não importa quanta força irradiem. Eu fui. Levantei, peguei minhas coisas e saí de lá. Não podia suportar nada daquilo por mais tempo.
Amores Brutos #17
Naqueles dias eu dormia durante as tardes para poder te ver de noite. Dias longos e calourentos. Dias de pouca saúde e muito tempo. Dias de muita bebida e pouco tento. Dias que passaram preguiçosos, com muitas surpresas gratas e algumas desgraças.
Agora que eles se foram é o tempo de colher. Fatos e feitos enraizados na carne… mas que se nutrem da alma. Destroços, esboços e engôdos, do inesperado ao planejado, do que tem que vazar, destravar, despedir.
Naqueles dias eu comia uma vez ao dia e vivia várias. Dias turvos e trapaceiros. Dias de ser contrário ao mundo, de fazer do errado o certo. Dias de roubar, matar e destruir. E gargalhar. Dias de cuspir e chorar. Ah…
Para cada um deles, uma despedida, um funeral e um memorial. Para cada um de nós o melhor de outros dias.
Amores Brutos #16
Os monges ascetas buscam a iluminação através da privação e, talvez, do sofrimento. Dormem em camas de pregos, se açoitam, vivem sem bens materiais, passam dias em jejum ou reclusão, praticam o celibato e a castidade. Em que mundo invertido castidade e celibato são fontes de sofrimento? Ah! Queria ver um monge que se dispõe a viver todos os relacionamentos que lhe são possíveis e consegue aprender com o sofrimento de cada um deles. Que disciplina permite isso? Que religião ensina isso? Que pregador, apóstolo, santo ou profeta falou sobre isso? Não. Todos ensinam que a privação e a fuga são o melhor caminho. Talvez porque não se aprenda nada com esse sofrimento ou porque até os ascetas se acovardam diante disso. Pois quer ver, na religião que fundei agora é melhor perder do que hesitar, é melhor se confundir do que se abster, é melhor se destruir do que se preservar. Privar-se não causa mal algum, é uma auto-preservação polida e carola. Os ascetas não entendem porra nenhuma de sofrimento.
Amores Brutos #15
Quem foi terá sido o idiota que disse que o mais importante numa relação é o amor? Amor, amor, amor, repetido infinitamente até perder o sentido. Amor é grande? Lindo? Cego? Infinito? Grande merda. Até os cães são amados. Até cerveja e times de futebol podem ser um objeto do amor.
Amor se distribui como se panfletos, tem um preço e é barato como bananas, faz e se desfaz como bolha de sabão. Amor único e “pra sempre” é uma fábula, uma história de ninar pra consolar o desespero humano.
Em qualquer relação o mais importante é o desapego, saber a hora de tomar pra perto de si e a hora de deixar ir. Porque é a despedida, nunca a saudação, o que abre para o reino possibilidade, que torna o imaginado em concreto.
Despeçam-se amantes! Sem olhar pra trás, sem se arrependerem. A despedida concede o que nenhum amor do mundo pode dar.
Amores Brutos #14
Depois de 9 anos de casamento qualquer um poderia não é? Então eu saí de casa, disse que ia beber com os amigos e fui pra lá. “Scotch Bar”, eufemismo de puteiro. Um leão de chácara na entrada, um ponto de ônibus vazio, um estacionamento 24 horas. Do outro lado de tudo, uma igreja evangélica, um carrinho de cachorro-quente.
Subo as escada e realmente tem um barzinho arrumado lá em cima, espero que o uísque não seja paraguaio. A cafetina me recebe, jovem e bonita, dizendo que as meninas dela são as melhores da região. Espero que sejam, porque nem a entrada foi barata.
Algumas delas estão soltas pelo lugar, onde todos os freqüentadores parecem ter mais de 40 anos, e parecem ótimas apesar das roupas vulgares, maquiagem pesada e perfume exagerado. Uma de pele morena e percebe que eu estou olhando e se aproxima. Camille, seu nome carnal, me conduz pra longe, pra um quarto.
Tudo acontece rápido e violentamente e de repente sou eu quem a conduz. Um ou dois tapas, xingamentos e humilhações. A sensação de poder. Acaba e nos recompomos, daquele jeito tímido, estranho. Seus olhos brilham, ela diz ter gostado da pegada firme. Não falo nada, distante quilômetros dali. Ela se veste e pergunta se pode sair.
Pergunto se tem filhos e ela se senta de novo na cama. Dois, pequenos. O pai? Encarcerado por tráfico, foge e volta pra cadeia todo ano. Ela quer saber de mim. Não falo nada mas sou gentil. Ela se retira, mais leve.
Tomo um White Horse na saída. Assuncíon nunca fez nada tão gostoso. Gorjeta para o porteiro, para o vigia do estacionamento onde convivem carros de bons cristãos e de bons pecadores.
Em casa, ela olha pra mim por cima dos óculos, concentrada na tela do laptop. Pergunta se posso buscar as crianças amanhã. Digo que sim, mas tenho outra entrevista marcada na quarta. Ela assente e continua seu processo. A distância entre nós, como um estreito, pequena e difícil de percorrer.
Amores Brutos #13
Sempre soube que devia tomar cuidado com as mulheres que têm as maçãs do rosto salientes. Os adeptos da antropologia física achavam que conseguiriam detectar traços da personalidade de alguém pelas formas do crânio. Isso era só uma desculpa pra enquadrar os negros mais do que os brancos, dentro da lógica perversa da boa e velha ciência racista. Ainda assim, a saliência das maçãs do rosto em uma mulher é um sinal de personalidade forte, de alguém que faz o que quer, que segue os próprios instintos. E estar à mercê dos instintos de outrem é um perigo.
E o perigo faz bem. Deixa o sangue correr mais forte, a respiração ofegante, o suor frio, a vontade intensa. A vida vivida em sobressalto, a cada encontro, cada ligação. Defronte lugares estranhos, luzes vermelhas e bebidas fortes. A múltipla sensação de ser presa… e gostar disso.
Sempre soube que devia tomar cuidado…
Amores Brutos #12
Amor pra sempre não existe porque nada é eterno. Azar de quem tentou eternizar o amor, aposto que sofreu demais no processo. Se a mudança sempre foi uma constante, hoje é muito rápida. Quando ela foi embora, pensei no que tinha me dito, nas coisas lindas derramadas suavemente. Aquelas que se fala no pós-coito, entre um cigarro e um beijo, quando o mundo parece jovem e despreocupado. Mesmo que fossem mentiras, era bom acreditar nelas, dormir com o conforto anestésico de ser amado. Essa sensação, um entorpecente perigoso cujo efeito acaba mais rápido que todos os outros. Quando não se consegue mais, um buraco é aberto na alma, ali, logo acima do estômago.
Sempre dói um pouco e cada vez que eu lembro de algumas coisas, dói muito. Às vezes dói tanto que não há outra opção senão ajoelhar e chorar. Orgulho ferido, coisas rasgadas e pisadas. Mas não pra sempre. A dor vai passar, assim, bem rápido mas o vazio vai permanecer. Incomoda, belisca, mas é fácil conviver com ele.
Amores Brutos #11
Seis tiros foram pouco, a vadia merecia muito mais do que isso. Nem fui eu quem atirou, paguei o esquisito que sempre ficava até o bar fechar. Sabia que ele ia aceitar o serviço. Nem cobrou caro. Na verdade cobrou quase nada e disse que queria me encontrar depois do expediente. Não vou, sou mulher de família, nada como a que ele matou pra mim. Aquela ali não sabia o que é o amor, não sabia dar valor a um sentimento. Era uma biscate, mulher sem alma. Se jogava em cima do meu marido, ali, na minha frente, como se ninguém fosse ligar. Eu via as piscadas, o jeito que ela olhava. Pedia pra ele preparar a caipirinha dela toda noite que chegava no bar. Esquecia que eu estava lá também. Que eu odiava quando ela fazia isso. Que eu tinha um sentimento nunca correspondido. E ainda desdenhado muitas e muitas vezes. Meu irmão sempre falava que não dá pra amar uma mulher sem sofrer. Ele tinha razão.
Amores Brutos #10
Alguém me disse uma vez que o problema com as mulheres é que além de você não conseguir entendê-las e nem elas se entendem. Porra nenhuma. Esse é o problema de todo mundo, até mesmo dos psicanalistas. Ninguém entende ninguém, do contrário não teriam inventado os fuzis.
Duas semanas desde quando eu tinha pegado minhas coisas. Sair de casa foi o mais difícil, eu tinha me acostumado com tudo. Trinta e dois anos de idade, pouca paciência e menos vontade de viver ainda. Sempre disse que casamento era errado e ainda assim casei. Apaixonado, lógico. Só existem três condições que motivam um casamento: gravidez, interesse financeiro e paixão. Talvez comodidade entrasse nessa lista, mas acho que encosta bastante em interesse financeiro. Que tipo de idiota procura paz tentando viver com um estranho sob o mesmo teto?
Não pensei em nada disso quando disse sim. Só conseguia imaginar uma casona, um golden retriever, ela linda e dois filhos perfeitos. Em cinco anos, tudo virou um montinho de cinzas, devidamente acompanhadas de brigas horríveis.
XnX LXXsX também era apaixonada, mas nunca me deu muito crédito. Muito menos sua família, especialmente seus pais. Me odiavam, eu parecia uma mancha na vida perfeita da filhinha que eles, dois emergentes asquerosos, criaram com tanto carinho. Eu era um vagabundo pra eles todos, até minha mulher. Tudo porque não queria me matar de trabalhar 15 horas por dia, 6 dias por semana pra depois passar um mês esquiando em Bariloche e então recusei o emprego que o sogrão me ofereceu.
Mas ok, ok, ok. Isso não foi o maior dos males. Eu trabalhava, pagava minhas contas, comprei meu carro, móveis, viagens pra lugares que me interessavam e eu podia pagar. Depois de quatro anos juntos, morando num apartamento bacana, Ana decidiu que queria o mesmo estilinho emergente do papai.
Ela era publicitária, ganhava algo decente, podíamos ter feito a vida assim. Mas não, resolveu montar a própria agência usando grana do velho e me intimou a trabalhar com ela. Achava que assim ia ganhar uma fortuna. Nunca devia ter deixado ela me convencer que ia dar certo. Imagine o inferno conjugal elevado à décima potência. Agora embrulhe tudo e enfie no cu. É algo próximo do que acontece quando você trabalha do lado da sua mulher.
Sim, porque na segunda semana o respeito vai embora. Lá pelo segundo mês o sexo se torna um inferno. Ao invés de aproveitar a onda e querer trepar no escritório vocês vão seguir o inverso e trazer todos os problemas do trabalho pra cama.
E sim, no meio de todo esse caos ela ainda vai querer ter filhos. Eu justifico esse tipo de coisa com aquelas teorias de que as pessoas têm instintos de reproduzir quando estão em perigo, durante guerras, por exemplo. Porque cada centímetro da minha vida tinha virado um campo de batalha, e ela era o general nazista. Bela merda isso. Bom jeito de destruir o que cinco anos de convivência tinham erguido.
Então, um dia ela explodiu, falou o que não podia, ou não devia. Eu destrui meio quarto e depois enfiei tudo o que era importante dentro daquela mala ali. Podia ter ficado por lá, podia ter resolvido as coisas. Mas não. Joguei tudo no lixo quando deixei aquele apartamento. Me sinto péssimo, me sinto bem. Vai passar. Tudo passa.
(Também conhecido como Vendido #1)
Amores Brutos #9
“GXbrXl,Eu não tinha mais o que dizer, quando tudo o que existe no mundo já havia sido falado. O pior das brigas, o melhor da vida. Você fez tudo de pior que um homem poderia fazer. Desdenhou de tudo que meus pais nos deram: do nosso apartamento ao seu emprego. Por sua indolência, sua incompetência e sua indiferença não tivemos filhos. Mas, você foi bom pra mim, do seu jeito eu sei. Eu me esforcei em te fazer feliz mas isso é impossível, mas você conseguiu me realizar mesmo sem querer. Eu achava que era por isso que íamos ser felizes juntos. Não vamos.
Perdôo sua fraqueza. Perdoe a minha indiferença.
XnX LXXsX”

