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Amores Brutos #8
“Vou ali comprar pão.”
Peguei a carteira e nunca mais voltei.
Amores Brutos #7
Ele riu, deu um gole na cerveja e se esparramou na cadeira. Sempre fazia isso quando achava uma conversa divertida. Coçou o rosto e se endireitou.
“Quando a gente se separou eu me fiz as mesmas perguntas, saca? Mas não tem nada a ver. Olha, a gente é assim agora. Foi por terra essa coisa do amor pra vida toda. Ficar vivendo aquele inferno é amor? O caralho que é! Cada um foi pra um canto pra salvar o respeito, a amizade. Pra poder sentar aqui e ter essa conversa na boa. Se você tá bem não devia ser um bom sinal?”
Na lata, daquele jeito dele. Passamos bons anos juntos.
“Mas é uma coisa de culpa…”
“Deixa a culpa pros cristãos, porra! Entende uma coisa menina: essa é nossa geração. Romance, amor, casamento, tudo mudou de significado. Acabou toda a babaquice que herdamos dos escritores idiotas do século XIX. Já era. Sobramos nós, esse bando de despretensiosos desapegados. Qualquer um que te disse que leva a vida a sério mentiu.”
Ria debochadamente. Mas era mentira. Os relacionamentos são todos absolutamente simples, ridículos. São as espectativas que fazem deles essa loucura. Não tem desapego nenhum, só esse desejo irracional de encontrar a merda do par perfeito. Vai ver a diferença é que sonhamos mais alto e desistimos mais rápido.
Amores Brutos #6
Eu tinha pavor, me sufocava a felicidade que ele me trazia. Abortei todas as vezes que engravidei nos últimos anos: um filho podia nos ligar pra sempre, quem ia querer isso? Traí ele com um monte de caras, praticamente com qualquer idiota que conheci. Teve uns que eu conheci no ônibus, outros na padaria, outros que trabalhavam comigo. Alguns eu levei pra casa, quando ele viajava a trabalho, pra cima da nossa cama.
Nunca deixei ele saber de nada. Acho que ele nem suspeitava, tamanha era a confiança que tinha em mim. Não dava pra pensar que traição ele dentro do nosso relacionamento perfeito. Mas eu não traía para o meu prazer, não traía para agredir… eu traía pelo medo.
Mas continuava amando. Muito, chorava de paixão às vezes. Traía porque amava. Traía para não me entregar completamente, para não me dar por inteiro. Pra não ser toda dele, que já era tão melhor que eu, tão menos covarde.
Um dia pedi o divórcio. Ele veio até mim, em prantos, sem entender nada. Confiava em mim, me respeitava, me amava de verdade. Não acha que fosse fazer outra coisa. Tive coragem de jogar na cara dele todos aqueles pequenos erros do nosso dia-dia. Suplicou para que eu não o deixasse, mas eu queria, para não ter que sofrer com o contrário…
Para nunca ter de ouvir alguém atirar contra mim tudo o que fiz.
Amores Brutos #5
Vontade de chorar. O ódio é sempre a motriz do meu choro, especialmente o ódio próprio. Me odeio muito, mais do que qualquer pessoa saudável deveria se odiar. O ódio que eu nutro por mim mesma é tão venenoso quanto uma cascavel, ele me destrói por dentro, me come, me torna alguém pior do que eu já sou. É um ciclo vicioso: quanto mais me odeio, mais me afundo, logo me odeio ainda mais.
Como superar isso? Não sei. Mas se me odeio não posso ser amada, se não posso ser amada me odeio. Percebe a sutileza? Me humilham, me odeio, logo vou ser mais humilhada ainda. E digamos, pela melhor das ironias do destino, me humilhar parece ser o hobbie das pessoas que me cercam. Não basta que me odeiem também, na verdade, eles gostam de me fazer sentir cada vez pior.
Os amores podem ser brutos mas o ódio, esse quase sempre é cruel. E só.
Amores Brutos #4
Pela manhã a TV ainda estava ligada no canal pornô, muda e ainda assim vibrante. Pelo menos 5 preservativos usados aguardavam em sua viscosidade nojenta espalhados pelo chão, e faziam o quarto inteiro cheirar a sexo, acompanhadas garrafinhas de vodka e bourbon. A cama parecia um turbilhão de pano e pedaços de travesseiro, de colchão rasgado e tudo mais. A água da banheira estava fria e eu percebi que estava todo enrugado.
Ela estava ali, encostada em mim, mais bonita do que nunca, e também mais enrugada do que quando fosse ter 90 anos. Eu passei a mão delicadamente em seu cabelo molhado, e beijei sua testa. Ela abriu os olhos para e mim e disse “Te amo”.
Eu sabia que era mentira, claro que era mentira. Me amar fazia parte de um jogo perigoso, de uma disputa de egos, de traições e de todas as outras coisas que faziam de mim aquilo que eu era. Mas eu acreditei mesmo assim.
Acredito até hoje, e ainda não houve alguém para desmentir.
Amores Brutos #3
Estávamos conversando um dia desses, ele me falava que jogar em um relacionamento é uma coisa muito perigosa. Eu disse que talvez não, que preferia ser uma jogadora, blefar e trapacear. Ele falou que sim, talvez isso pudesse parecer confortável, mas quem joga não constrói nada, vive eternamente retraído no medo de se envolver. Talvez ele estivesse certo, mas muitas vezes é tudo como um mosaico doentio de dor e decepção. Se aproximar demais é se expor. Se expor é sofrer. As pessoas são mesquinhas e tolas demais pra podermos confiar nelas… quem é que confiaria em si mesmo?
Acho que ninguém faria isso. Confiança é coisa de gente ingênua, e acho que não existe ninguém no mundo que mereça algo tão precioso. Também não existe amor, construção de quem sonha muito. O que existe é o medo de perder, a conveniência, o ciúme, a necessidade.
Eu sei o que sinto, e acho que é raiva, decepção e raiva. Não das pessoas que passam pela minha vida, mas de mim, a pessoa em quem menos confio, a pessoa que mais me faz sofrer.
Às vezes eu queria ser uma jogadora… passar meus sofrimentos para os outros, fazer as pessoas se sentirem mal pra compensar minhas frustrações. Tudo pra eu poder sorrir de novo, porque viver de mentiras é simples e confortável.
Amores Brutos #2
Sabe, não acho que podemos esperar muito dos homens depois de uma certa idade. Eles vão vir, entrar na sua vida, bagunçar todo o seu esquema, te deixar muito mal e depois sumirão para sempre. Ah, claro, esse intervalo entre a chegada e a partida pode variar bastante na duração, algo entre três dias e meio século.
Os motivos da partida também são variados. Pode ser desde uma vagabunda qualquer até câncer de próstata. Por quê de próstata? Porque nenhum machão desses vai querer um proctologista inserindo o dedo indicador pelo rabo e depois rodando delicadamente. Do que eles têm tanto medo? Porque não pensam duas vezes antes pedir pra fazer em nós a mesma coisa, mas com outro membro? Ah, não me venha com essa de virilidade, não senhor! O ânus é mesmo pros dois sexos.
Mas, voltando ao assunto, eu queria saber por quê os homens são desse jeito. Uma vez uma revista disse que isso era culpa da herança genética de algum ancestral primata idiota, cujo instinto sempre o ordena a procriar com muitas fêmeas. “Mau caráter tem muitos nomes” dizia minha mãe. Não é por que algum macaco das cavernas tinha que foder com 12 macacas diferentes que esses putos sempre tem que buscar fazer o mesmo. Bem, o tal artigo não mencionava que as macacas também trepavam com vários machos, acho que era pra manter o bom nome delas, caridosas mães do lar pré-histórico.
Será que eles não percebem quanta tristeza nos trazem agindo desse jeito? Será que percebem? Talvez, talvez não, mas ainda assim eles nos ferem… O que esperar dos homens? Que eles nasçam, que se nutram, que gozem e depois vão embora. Para sempre.
Amores Brutos #1
Não eu nunca bati nela, nem quando ela veio com aquela história de um outro cara, o playboyzinho da Zona Sul, fedendo a desodorante Nivea, metido a artista. Mas, ao bem da verdade eu acabei com ele: duas facadas bem dadas na altura dos rins. Aquilo me fez sentir bem, dessa vez era eu quem estava afrontando saca? As pessoas me olhavam talvez com a mesma cara que eu olhei para ela naquele dia de chuva: uma desaprovação. Ela me disse que eu havia sido bruto, que nada. Respondi que brutalidade seria se eu tivesse arrancado os bagos dele e depois pregado na testa. Ele sobreviveu, claro, não teve coragem de prestar queixa e nunca mais aparaceu nas minha vida e na dela.
Depois disso as coisas mudaram, ela se irritava comigo o tempo todo: era como se eu sempre estivesse fazendo a coisa errada. Foi assim quando eu cheguei bêbado em casa. Ela estava lá me esperando aos prantos – ela que nunca me esperou – disse que eu era um insensível, um grosso, que eu não amava ela. Não, ela não entendia o que eu sentia: aquele misto de vontade de sair na mão com 70 caras maiores que eu misturado com a de cuidar dela, de colocá-la pra dormir do meu lado.
Eu amava ela sim, de um jeito intenso pra cacete. Mas ela nunca entenderia nada do que eu sentia. Pra ela era fácil sabe? Era o meu dever de homem, de macho, protegê-la. Eu tinha que ficar vigilante, era minha a responsabilidade de não deixar acontecer nada. Como daquela vez que eu quebrei a cara daquele cara na festa da faculdade – eu sabia que ele tava afim dela, podia acabar agarrando ela qualquer dia. Escrevi no rosto dele “Em mulher minha ninguém põe a mão”, mas tive que pagar a cirurgia no nariz. Devia ter pagado o médico pra marcar a cara dele com um bisturi.
Mas naquele dia de chuva, em que eu tava puto, foi que saquei. Era isso que ela sentia de mim: achava que eu brigava só pra horrorizar. Não era verdade, acho. Naquele dia a gente terminou. Perguntei se era por causa de outro cara, ela respondeu que não, e eu sabia que não era. Tava na hora mesmo das coisas acabarem, tipo filme, quando passa os créditos significa que tá na hora da gente levantar da cadeira. Eram os créditos da nossa história porra… talvez ainda viessem aquelas cenas de depois, mas elas eram curtas.
Ela foi embora. Tava livre, acho.

