Da escrita…
Junho 27, 2008
Passei algumas tardes das últimas duas semanas corrigindo trabalhos da graduação - tarefa integrante do estágio docente que estou fazendo nesse semestre. Isso fortaleceu meu respeito pelos professores que corrigem e comentam os trabalhos de seus alunos de maneira cuidadosa. Porque tentei fazer isso na medida do possível e gastei próximo de 30 horas lendo tudo e discutindo alguns pontos com a minha orientadora, que é a professora da disciplina.
Mas o que mais me chamou a atenção foi a questão da escrita. Em alguns trabalhos os alunos foram mais desleixados e mal passaram um corretor ortográfico do editor de texto. Os erros presentes incomodaram bastante durante a leitura e tornaram maior o esforço de ver a qualidade do trabalho como um todo. Alguns trabalhos, por mais breves que fossem, tinham uma fluidez sensacional que fazia a leitura muito agradável e interessante.
Notei que alguns trabalhos tinham um teor meio “travado”, onde era possível perceber a dificuldade do grupo em colocar no papel as idéias e experiências vividas - as tarefas dessa disciplina exigem uma investigação de campo.
Quando eu cursei essa disciplina essa também foi uma dificuldade minha. Como eu sempre digo, escrever é a coisa mais difícil do mundo. É uma espécie de domesticação de si mesmo que nunca tem fim. Se eu leio as coisas que escrevi há três ou quatro anos atrás, acho mal escritas e ponto. O pior é quando eu me deparo com o que escrevi na semana passada.
Alguns dizem que isso faz parte do processo todo, que a mudança de estilo sempre faz com que você ache o que fez antes pior do que o de hoje. Tenho minhas dúvidas a respeito disso, acho que a insatisfação é parte de uma dificuldade perene em expressar coisas cada vez mais complexas - pelo menos na escrita dentro da academia.
Na etnografia, onde a escrita tem que expressar (ou dar conta de um experiência) isso é flagrante. Meus primeiros trabalhos de campo eram, sem qualquer medo de falar, bem ingênuos. Eu percebia poucas sutilezas do assunto que ia pesquisar e costumava a ter visões objetivistas de tudo, o que obviamente viciava minha análise.
Nem por isso o texto era melhor, até porque eu não escrevia nada bem naqueles tempos. Hoje, de alguma maneira, sinto que consigo pensar o campo, e dentro do campo, de um modo que me satisfaz mais - ou pelo menos fica mais próximo do que eu idealizo como uma pesquisa etnográfica. No entanto, a escrita ainda parece muito travada, como se uma espécie de medo de me expressar de forma equivocada causasse justamente esse equívoco. Um ciclo vicioso daqueles mais angustiantes.
Para isso não há outra solução a não ser escrever. Lapidar a escrita mal-acabada, cheia de repetições e frases desconexas em alguma coisa palpável e fluida. Já percebi, dentro do óbvio ululante, que é impossível revisar o próprio texto logo após escrevê-lo. Um texto bom necessita de um tempo diferenciado, de ser escrito e reescrito, trabalhado frase a frase.
Logo, além de exercitar a escrita, também se faz necessária a disciplina. Só assim para dar conta dos equívocos, do medo, do ciclo vicioso.
Utilitarianism
Junho 26, 2008
A people who conceive life to be the pursuit of happiness must be chronically unhappy.
Espera
Fevereiro 8, 2008
O conto do jornalista
Janeiro 30, 2008
Dessa vez a revista IstoÉ cede à histeria anti-quilombola e, como em muitos outros casos de reportagens sobre o tema, desvirtua dados e espalha desinformação. Na reportagem O conto dos quilombos, de autoria do jornalista Sérgio Pardellas, é afirmado que as populações quilombolas revindicam área maior que o Estado de São Paulo.
O mapa de onde esse suposto dado se apresenta foi feito com base em outro produzido pelo professor Rafael Sanzio, da Universidade de Brasília. No mapa de Sanzio, as àreas destacadas correspondem às de municípios onde há registros de comunidades quilombolas. A revista Istoé apresentou o mesmo sob o título de “Áreas revindicadas como quilombolas”:
Não bastando esse “mal entendido” - prefiro acreditar que não se trata de uma manipulação de dados - o jornalista repete o bordão do movimento Paz no Campo, ligado a setores de extrema direita, de que o município de São Mateus terá 80% de sua área desapropriada para regularização fundiária de terras de quilombo. E claro, o autor ainda inventa a categoria de “pirataria antropológica”. Os antropólogos, como sempre, é que fabricam essas populações, elas nunca tiveram suas reivindicações e problemas.
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A palavra “quilombo” significa “habitação” na língua banto. Durante os tempos do Império Ultramarino Português foi usada para designar, na legislação, lugares onde se escondiam dois ou mais escravos fugidos. Esse sentido de quilombo é o mais popular e presente na historiografia, especialmente devido ao caso de Palmares, mas nunca foi o único. Muitas comunidades de negros, inclusive perto de grandes centros urbanos como o Rio de Janeiro, também eram referidas como quilombos. Em Minas Gerais, persistem inúmeras comunidades rurais habitadas principalmente por negros chamadas desde de tempos antigos simplesmente de “Quilombo”.
Grande parte das populações hoje chamadas de quilombolas são compostas por grupos que sustentam um modo de vida tradicional ligado à exploração da terra, caça e pesca. São remanescentes de locais onde se abrigaram escravos fugidos, herdeiros das chamadas Terras de Preto e Terras de Santo, populações de escravos e/ou libertos que moraram em terras adquiridas e herdadas regularmente.
Todos esses grupos tiveram seu acesso à terra comprometido, em grande parte devido à falta de acesso à justiça, grilagens e compras fraudulentas. Hoje a regularização fundiária das terras de quilombo representa a chance de reparar injustiças cometidas contra essas populações.
Antropologia e laudos periciais
Janeiro 17, 2008
Desde o início da histeria anti-quilombola, desencadeada por uma reportagem da Rede Globo, alguns jornalistas (e também alguns “filósofos”) têm procurado deslegitimar as revindicações das comunidades. Primeiro usando o argumento de que não se tratariam de “verdadeiros quilombos”, entendendo que a palavra denomina apenas comunidades onde se abrigavam escravos fugidos, e mais tarde afirmando que a política de demarcação seria rascista ou que agrediria o princípio da propriedade privada - houve até quem afirmasse que a instauração da propriedade coletiva dos quilombos seria uma uma maneira de fazer comunismo no Brasil.
A quantidade de desinformação espalhada a respeito da questão quilombola não se deve apenas à má vontade dos veículos de informação ou à mentiras de grandes proprietários cujas terras podem ser “ameaçadas”: ela também se firmou devido à falta de uma política de respostas coordenadas por parte dos profissionais envolvidos na produção de relatórios antropológicos. Por causa desse silêncio houve espaço para publicação de todo tipo de absurdo.
Nos dois anos em que tenho estudado e acompanhado a questão dos quilombos e de outras populações tradicionais foi possível perceber que, de modo geral, o que pleiteiam não somente é legítimo como necessário - e pretendo abordar isso em um outro texto.
Antropologia e laudos periciais
LUÍS R. CARDOSO DE OLIVEIRA
Presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA)
No último dia 20, a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) assinou novo termo de cooperação com Ministério Público Federal comprometendo-se a indicar peritos para a elaboração de laudos envolvendo demandas de minorias em processos judiciais. Trata-se freqüentemente de processos de identificação de território indígena e quilombola.
O papel da antropologia nesses casos é tornar inteligível para a Justiça a definição do território pleiteado por indígenas e quilombolas, o que significa traduzir concepções culturalmente diversas da visão vigente na sociedade mais ampla, assim como elucidar o significado da relação do grupo com o território. Para compreender a demanda é preciso relativizar as concepções vigentes no Estado e evitar que preconceitos ou etnocentrismos inviabilizem avaliação adequada do pleito.
A eventual imposição da visão predominante na sociedade nacional significa arbitrariedade que inibe a compreensão e ato de desrespeito aos direitos do grupo em foco. Por exemplo, quando se pretende avaliar a extensão do território ocupado por um grupo indígena a partir de critérios utilizados para garantir um modo de vida adequado a pequenos produtores rurais, que vivem da agricultura. Como para maioria dos povos indígenas brasileiros a caça e a coleta são atividades fundamentais para a subsistência do grupo, e suas instituições sociais estimulam a circulação por áreas extensas, delimitar seus territórios, tendo como referencia o padrão adequado para pequenos produtores, significaria decretar a morte dessas sociedades.
São situações como essa que estimulam a ABA e os antropólogos brasileiros a desenvolverem consciência aguçada quanto às implicações ético-morais do etnocentrismo e dos preconceitos quando estes se misturam com relações de poder, e essa é uma ameaça permanente quando se trata dos direitos de minorias.
A clara percepção das implicações desse tipo de ameaça a direitos tem marcado nossa atuação política na defesa de minorias contra as arbitrariedades do Estado e de grupos poderosos que, por incompreensão ou por interesses econômicos, não medem esforços para impor sua vontade e seu ponto de vista.
É importante distinguir esse tipo de atuação política daquela identificada com interesses partidários, ou daquelas que dão suporte aos movimentos sociais. Os antropólogos, como os demais cidadãos brasileiros, têm suas opções políticas, que são diversas, e uma parte deles têm militância política em partidos ou em movimentos sociais específicos. Entretanto, quando se expressam em nome da ABA, ou quando atuam como peritos em laudos para a Justiça, a dimensão política de sua atuação se restringe à defesa dos princípios ético-morais mencionados acima. Assim, defendemos os direitos de indígenas, quilombolas e de outras minorias de serem ouvidos, compreendidos e respeitados.
A observação desses princípios não significa que os antropólogos tomam acriticamente o que dizem os sujeitos da pesquisa ou dos laudos periciais. Nossos laudos e monografias procuram reproduzir apenas o que somos capazes de fundamentar à luz das teorias e dos instrumentos de produção de verdade de nossa disciplina. Como tem sido argumentado por vários colegas, no que concerne aos laudos periciais sobre território, o objetivo é compreender a relação do grupo em tela com a área que ocupa, assim como expressa em sua organização social, em sua visão de mundo e em suas praticas culturais.
Tal empreendimento é muito distante do que tem sido divulgado equivocadamente na mídia como simples reprodução da afirmação de vontade do grupo ou de parte dele. Embora os antropólogos não pretendam ter a palavra final sobre demandas de reconhecimento de identidade étnica ou cultural, e apoiemos a Convenção 169 da OIT, no que concerne ao valor da auto-identificação, defendemos a capacidade de nossa disciplina em fundamentar o significado das demandas dos grupos envolvidos nos laudos sobre direitos territoriais. Finalmente, gostaria de repudiar, com veemência, as alegações de que os laudos periciais produzidos por antropólogos seriam motivados por outros interesses, ou que se limitariam a reproduzir a opinião dos beneficiados. A ABA está aberta ao diálogo com a sociedade, mas exige respeito ao saber produzido pela nossa disciplina, assim como à honestidade, à seriedade e aos compromissos éticos dos antropólogos que atuam na elaboração de laudos periciais.
(Originalmente publicado no Correio Brasiliense de 24/12/2007)
(in)Veja
Dezembro 2, 2007
“Que coisa formidável! Estamos diante da defesa de uma nova forma de apartheid. Para os antropólogos da maldade, os morros e as periferias são civilizações independentes” escreveu Reinaldo Azevedo em um artigo para a revista Veja dessa semana.
Parece impossível comentar isso. Me lembra a matéria dizendo que a UFMG faz doutrinação comunista porque treina professores de movimentos sem-terra - ensinar matemática, geografia, português e história pra o pessoal da Bancada Ruralista seria promover uma doutrinação direitista, imagino.
Qual o problema com esses colunistas? O que poderia justificar sua atitude anal-retentiva a qualquer coisa que passe longe do cosmopolitismo de Ipanema, da Avenida Paulista ou dos cafés europeus que freqüentam? Quem sabe seus filhos dançam funk carioca no churrasco da faculdade, usam camisas do Che Guevara ou freqüentam show de rap. Eles, a pleno mau-humor com a “barbárie” que se espalha pelo mundo, chegam em casa e cospem a quantidade absurda de desinformação em formato de matéria.
A separação entre uma cultura erudita e uma cultura popular não é nova, não foi inventada pela Regina Casé nem é apoiada pelos “antropólogos” - desde o início da histeria anti-quilombola viramos uma espécie de ameaça terrorista. Eu não concordo com essa distinção, até porque o que é tido como erudito hoje já foi considerado bárbaro por “senhores de família” (samba era música de malandro, não?). O popular ganha espaço no meio erudito e vice-versa (alguém realmente acredita que os “antropólogos” são contra inclusão digital, bibliotecas ou ensino formal?) o que Regina Casé e outros querem promover é um diálogo entre meios aparentemente separados. Ninguém acha que não há nada a ser ensinado para as populações das periferias, só parece pretensioso e infantil acreditar que elas não têm nada a dizer para o mundo.
Obviamente o que Reinaldo Azevedo faz é repetir a boa e velha ladainha que celebra o Ocidente Moderno como o ápice, como a grande realização do ser humano, e seria blasfêmia dizer que existe algo que sua ciência não saiba ou formas de expressão que se equivalham às suas artes.
Se a cosmologia do Ocidente Moderno se constrói nesses termos, inexiste o espaço para o diálogo. Resta aos guardiães de seu estandarte imaculado promoverem uma resistência cega a qualquer tentativa de celebrar um debate em termos iguais com aqueles que consideram inferiores. Esse pensamento binário e tacanho é uma indicação que “atraso” e “barbárie” têm muitas faces.
Mais sobre o caso de São Francisco do Paraguaçu
Maio 17, 2007
Ontem comentei lá no Seriguela.com
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Como eu disse, eu não estou acompanhando esse caso, mas tenho algum conhecimento a respeito de laudos e regularização fundiária de terras de quilombo.
Já existem normas para que esse trabalho possa ser realizado, e a Associação Brasileira de Antropologia esta trabalhando junto ao governo para padronizar os laudos produzidos no país.
A Instrução Normativa 20 que regulamenta todo o trabalho, inclusive o relatório antropológico, estabelece que o primeiro passo é fazer uma reunião com toda a comunidade e explicar o estudo que será feito. Isso também serve para entender as tensões políticas internas (quando existem) e ver o quanto os quilombolas estão informados a respeito do processo. No caso que acompanhei mais de perto, foram feitas reuniões sistemáticas e muita discussão com a comunidade, especialmente porque toda a área é desapropriada e se torna de uso comum - dividida e usada de acordo com critérios da própria comunidade. Isso significa que mesmo eventuais quilombolas que possuam a propriedade da terra terão que abrir mão dela, que a passará a ser gerida pela associação comunitária deles.
Se, de fato, a população de São Francisco do Paraguaçu está desinformada a respeito do processo, inclusive com essa denúncia grave de falsificação de assinaturas, então temos um caso de um trabalho realizado de maneira errada sim. Não é impossível que isso tenha acontecido, mas acho improvável. Além da obrigatoriedade das reuniões para esclarecimento, que são responsabilidade do INCRA e equipe reponsável, não é possível que um levamantamento de informações da magnitude de um estudo antropológico não mobilize a comunidade - caso esse seja um bom estudo, claro.
São necessárias inúmeras entrevistas, visitas e conversas com os moradores pra compor um estudo das relações parentesco, aproveitamento dos recursos naturais, uso do território pleiteado, economia local, história, relações com comunidades vizinhas e etc.
Se a reportagem não abusou de má fé ao compôr as perguntas, como eu acredito, então podemos realmente estar diante de um caso de um trabalho mal-feito.
Eu penso que a matéria foi composta de maneira a desqualificar a luta da comunidade em geral, inclusive dando a entender que eles só querem vender madeira do “último refúgio de Mata Atlântica do Recôncavo Baiano”. Comunidade Quilombola é obrigada a seguir a legislação ambiental.
Abraço!
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Corrigi algumas repetições de palavras.
Alguém sabe se passou mais alguma coisa sobre o caso?
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COMUNIDADE REMANESCENTE DE QUILOMBO SÃO FRANCISCO DO PARAGUAÇU
Cachoeira, Bahia.
As falsidades veiculadas pelo Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão no dia 14 de maio deste ano “Crime no quilombo – suspeitas de fraude e extração de madeira de Mata Atlântica” repetem na história o que significou o 14 de maio de 1888 para a população negra no Brasil, dia seguinte à abolição oficial da escravatura. O dia 14 daquela época significou o acirramento das relações escravistas, da violência racial contra negras e negros, e a tentativa de exterminá-la através de inúmeras medidas de exclusão e apartheid, dando continuidade ao processo de exclusão social e criminalização da população negra.
A Vingança da Bancada Ruralista
Maio 16, 2007
A série de reportagens sobre os quilombos é risível, absolutamente, além de estar trabalhando em cima de uma série de falácias. Pra começo de conversa, o repórter mostra total e completo desconhecimento a respeito do que se tem por comunidade remanescente de quilombo - se referindo ao termo como se fosse relativo somente aos aglomerados de escravos fugidos dos séculos XVII, XVIII e XIX. (editado)
Também não foi direto ao ponto e deixou de entrevistar a antropóloga responsável pelo laudo de São Francisco do Paraguaçu. Segundo as pesquisas desta, a origem da comunidade remonta aos século XVII, com a construção de um convento na região. Outros podem ter chegado no início do século XX, como afirmaram os fazendeiros da região, mas nada disso desqualifica sua constituição enquanto uma comunidade rural remanescente de escravos - que já ocupa o dito território há quase um século. O repórter também afirmou, que engenhos de açúcar jamais existiram na região, ignorando o fato de que uma das áreas pleiteadas trata-se de uma das primeiras fazendas de exportação de açúcar para Europa, onde existiu um engenho muito importante, cujas ruínas podem ser observadas até hoje.
Pra fechar com muito know-how de jornalismo irresponsável a reportagem apresentou a comunidade como exclusiva responsável pelo desmatamento de uma área de proteção ambiental. A área que a Rede Globo filmou, segundo os responsáveis pelo laudo de demarcação de território, não faz parte do terreno de São Francisco do Paraguaçu. Tal desmatamento se localiza antes do povoado de Santiago do Iguape, distante do início da área pleiteada pela Comunidade de São Francisco do Paraguaçu. (editado) O rapaz que se identifica como quilombola está extraindo madeira de uma área fora do território proposto…
É a retórica de sempre. Terra no Brasil sempre foi e sempre será um problema. Quase todos os casos (isso pra não dizer todos) de comunidades remanescentes de quilombos que eu acompanho e tenho conhecimento passaram por expropriação e grilagem de suas terras no último século - geralmente pelas mesmas famílias que se dizem lesadas pela demarcação dos territórios quilombolas, ainda que estejam sendo indenizadas propriamente. Quando se estuda a história da terra no Brasil, é possível observar que a falta de acesso a justiça por parte de populações tradicionais (especialmente remanescentes indígenas e quilombolas) permitiu que suas terras fossem griladas por grandes proprietários - que geralmente cercavam áreas de uso comum desses povos e registravam a posse no órgão resposável. Quando se pisa nesses lugares, a realidade observada é diferente da mostrada na reportagem: as áreas em posse de fazendeiros foram desmatadas para ampliação de pastagens, ao passo que as da comunidade ainda se encontram em bom estado de preservação.
A reportagem do Jornal Nacional não é uma denúncia, é só um reflexo de um problema político sem data pra ser resolvido.
Editado (16/05/07): Tinha escrito que o rapaz que corta madeira não teria se identificado como quilombola, mas ele o fez sim, na reportagem exibida na segunda-feira 14/05/07. Entretanto, sengundo comunicado dos moradores de São Francisco do Paraguaçu (logo posto aqui), ele não pertence à comunidade. Outra coisa é a tal prática do maculêle que foi no pedido de reconhecimento da Palmares - isso é algo alegado pela comunidade sim. Muito me espantou o fato do repóter dar a entender que São Francisco do Paraguaçu, por ser uma comunidade de pescadores, não pode ser uma comunidade de remanescente de quilombo.
I Seminário do NUQ
Maio 4, 2007
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Este será o I Seminário do NUQ, que durante 2006 promoveu palestras intituladas “Diálogos sobre Quilombos” que contaram com a participação dos antropólogos José Augusto Laranjeiras Sampaio (UNEB/ANAI) e José Maurício Arruti (PUC-RJ/CEBRAP/Koinonia).
As palestras serão proferidas por um professor da UFMG e dois visitantes. Confira a programação:
- José Augusto Sampaio - ANAI/UNEB
“Trombetas/Mapuera: a experiência de regularização fundiária de uma grande terra indígena na Amazônia”
- Rubem Caixeta - UFMG
“Território Quilombola: uma propriedade especial”
Mariza Rios - Escola Superior Dom Helder Câmara










