Princípios do nosso Cargo Cult
Junho 7, 2009
Antropologia e o Avesso
Junho 6, 2009
Para vocês dois, meus companheiros mais antigos e mais fiéis nessa empreitada esquisita que é a Antropologia – com A maiúsculo porque a fulana é uma espécie de entidade, de vadia (quase com V maiúsculo) que às vezes nos dá tesão e outras vezes nos faz chorar, espernear, socar a parede e cortar os braços.
O que falo aqui não é uma espécie de mea culpa, de “lamentália” estúpida, mas uma constatação sincera – e também um manifesto de admiração daqueles que você não deve conter, pelo menos não por muito tempo.
O fato é que, outro dia eu me surpreendi com o ato de estar fazendo mestrado, estudando etnologia, coisas que eu vislumbrava pouco e desejava nada até bem recentemente. Me lembrei da minha graduação rebelde, da falta de interesse nas aulas, do pouco que dediquei à leitura das coisas, do quanto desprezava coisas que hoje gosto tanto – como aquele “velho filho-da-puta”, o tal Lévi-Strauss. Por essas e outras, sempre tenho a sensação de que sou, afinal, o fruto de um amontoado de coincidências felizes e infelizes, ou de uma inércia incomodada.
Vocês dois, por outro lado, sempre me pareceram muito mais audazes, capazes de se movimentar e desejar. F. lia muito, pensava em questões teóricas as quais eu nem sonhava – talvez intuía – e devorava noções de filosofia. L. sempre atento ao que ia acontecer, freqüentando as palestras das quais eu tinha preguiça – lembrando, a primeira vez em que fui ver o Viveiros de Castro foi por insistência sua.
O que eu queria dizer com isso é que se eu estou onde eu estou agora – que não é um lugar muito diferente de onde vocês estão, mas é muito importante para mim – eu devo aos dois. Pela confiança depositada, pelo conhecimento e pelo delírio compartilhados. E o que isso implica de mais importante é: não desistam da Antropologia, ainda que tenham a impressão de que ela desistiu de vocês.
Nem sempre as coisas vão ser desenhadas numa estrada de tijolos amarelos, levando à Oz, tudo lindo e claro. Sabemos, nós três mais do que ninguém, que os caminhos são tortuosos mesmo. Que não tivemos bolsa pra sentar numa cadeirinha do quarto andar e ler “O Pensamento Selvagem”, mas isso não importa! Cada vez mais eu tendo a valorizar a experiência, a vivência e a loucura tão típica de quem precisou penar para fazer e escrever o trabalho de madrugada, a monografia na última hora, o projeto de mestrado em quatro dias… se algumas vezes o produto não é o melhor, as coisas pelas quais ele foi trocado podem ser infinitamente belas.
Isso não significa que não haja tempo para aprender qualquer coisa que não sabemos, e tem sido assim comigo. Se sei alguma antropologia ou antropologia alguma, devo a esses últimos dois anos – não exatamente ao mestrado, mas ao fato de finalmente poder sentar e estudar, e querer fazer isso. Não se intimidem com nada. As limitações, as paixões, as competências e incompetências não importam: elas podem ser beijadas, abraçadas, fodidas ou superadas.
De maneira confusa, desajeitada, digo que é isso.
Primeiro Contato
Dezembro 13, 2008
Numa sexta-feira qualquer fui ao Cine Humberto Mauro para assistir First Contact (1983, 54 min., Papua-Nova Guiné) dos documentários da Mostra Melanésia exibido durante o forumdoc.2008.
First Contact é, basicamente, um documentário construído em torno das imagens colhidas pelos irmãos Leahy em suas jornadas pelo interior da Papua-Nova Guiné, durante a década de 1930. Buscando ouro em terras inexploradas pelos colonizadores, os os Leahy são os primeiros “brancos” a serem avistados por vários povos nativos.
A sinopse do filme fazia um paralelo entre esse encontro e o de Colombo com os “índios” ao chegar no Novo Mundo. De fato, não há uma outra comparação melhor que essa. O encontro dos irmãos Leahy e seus empregados com os nativos das Terras Altas da Papua-Nova Guiné é, citando um clichê, um “encontro de dois mundos”.
Os Leahy em busca do ouro, os nativos em busca de uma maneira de situar aqueles outros entre si. A câmera daqueles tempos é testemunha de um clash cosmológico e de toda uma série de traduções e traições produzidas durante a efetivação de uma relação que nada possui de harmoniosa ou simétrica.
As imagens feitas pelos Leahy são intercaladas com outras, de trinta anos depois, onde aqueles que testemunharam o encontro vêem a si mesmos e falam a respeito de como foi o contato.
Na sessão em que eu estava o documentário causou reações diversas. Algumas situações do primeiro contato muitas vezes eram revistas pelos nativos com um toque de humor, outras acabaram em mortes, no caminho para a exploração sistemática que faria dos Leahy homens ricos.
Tive um incômodo parecido com o de um colega que assistiu Estamira no cinema. Nada relativo ao filme, mas à platéia: em alguns momentos as pessoas gargalhavam. Politicamente incorreto? Nada disso. No inferno do lixão ou nas chagas do contato da Papua-Nova Guiné uma certa insensibilidade é compartilhada.
100
Novembro 28, 2008
Textos como A Gesta de Asdiwal e A Ciência do Concreto me causaram um duplo-efeito. De imediato deram a impressão de que eu havia escolhido a área errada, já que a prosa de Lévi-Strauss sempre me parecia incompreensível. E, no entanto, foi justamente a minha dificuldade em entendê-lo como queria (totalmente) que fez com que eu, pela primeira vez, me dedicasse a estudar antropologia. Perceber que a compreensão da obra de Lévi-Strauss nunca se daria de forma holística, completa, foi fundamental para que eu continuasse. E aqui estou.
O velho mestre comemora hoje os seus 100 anos. E que venham outros tantos.
Governador de Roraima = survey ambulante
Agosto 27, 2008
No Terra:
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De onde saíram esses números? Onde diabos terra contínua significa segregação? Só nas crônicas do Hélio Jaguaribe ou na cabeça de senhores comprometidos com agronegócio feito por grileiros. Terra contínua é garantia e riqueza, pode ser justamente a maior chance de poder aos povos indígenas para poderem usufruir do que a modernidade lhes oferece – e os índios sabem disso muito bem. É curioso notar como a negação a qualquer coisa que cheire a modernidade como condição do “ser índio”. A nós, modernos, cidadãos, ocidentais, está reservada a última instância de uma identidade preservada sob qualquer suspeita, passando por quaisquer mudanças. Para os outros, o necessário é provar uma condição qualquer, passar pelo crivo superficial do que um burocrata define como “acultução”.
E, independente disso, acho muito mais questionáveis os antecedentes dos nossos amigos de Roraima. A galerinha de lá é da pesada.

…
Me impressiona o quanto a questão indígena no Brasil é tratada na base de “dois pesos, duas medidas¨. Mílicias que abrem fogo contra índios desarmados são tratadas como ilegais, mas logo depois o apresentador de jornal se esmera em dizer que os indígenas haviam adentrado em terras alheias – daí não se explica, mas se justifica o ato. Menos de uma semana depois, numa discussão acalorada, o braço de um engenheiro é cortado. O escarcéu leva semanas de atenção, com direito a todo tipo de discussão e intriguinha a respeito de quem teria comprado os facões, de como os povos indígenas do Brasil seriam violentos, etc, etc, etc. Não sou a favor de qualquer violência desse tipo e não acho que nem nenhum dois casos tem qualquer justificativa plausível.
Só acho impressionante a sociedade nacional se questionar a respeito de uma suposta imunidade penal dos indígenas e se fechar a respeito de qualquer discussão das muitas violências que eles têm sofrido. Ontem, contabilizei o terceiro assassinato de índios por não-índios na etnia com a qual trabalho, em menos de um ano.
Durante o processo de regularização territorial, ou de “luta pela terra” como eles preferem chamar, os Xakriabá sofreram inúmeras violências- entre chacinas, roubos e expulsão de famílias. Os responsáveis e mandantes estão por aí, livres, alguns ocupando cargos de destaque na política da região. O assassinato de ontem teve motivação clara, um recado aos indígenas que se envolveram na política regional como maneira de trazer melhorias para seu povo. Os dois primeiros ficaram impunes e espero, ainda que não muito, que não seja o caso para esse. Alguma justiça há de haver.
… e duvido que o Jornal Nacional gastará mais de 2 minutos com isso.
Da escrita…
Junho 27, 2008
Passei algumas tardes das últimas duas semanas corrigindo trabalhos da graduação – tarefa integrante do estágio docente que estou fazendo nesse semestre. Isso fortaleceu meu respeito pelos professores que corrigem e comentam os trabalhos de seus alunos de maneira cuidadosa. Tentei fazer isso na medida do possível e gastei próximo de 30 horas lendo tudo e discutindo alguns pontos com a minha orientadora, que é a professora da disciplina.
E o que mais me chamou a atenção foi a questão da escrita. Em alguns trabalhos os alunos foram mais desleixados e mal passaram um corretor ortográfico do editor de texto. Os erros presentes incomodaram bastante durante a leitura e tornaram maior o esforço de ver a qualidade do trabalho como um todo. Alguns trabalhos, por mais breves que fossem, tinham uma fluidez sensacional que fazia a leitura muito agradável e interessante. Outros tinham um teor meio “travado”, onde era possível perceber a dificuldade do grupo em colocar no papel as idéias e experiências vividas – as tarefas dessa disciplina exigem uma investigação de campo.
Quando eu cursei essa disciplina essa também foi uma dificuldade minha. Como eu sempre digo, escrever é a coisa mais difícil do mundo. É uma espécie de domesticação de si mesmo que nunca tem fim. Se eu leio as coisas que escrevi há três ou quatro anos atrás, acho mal escritas e ponto. O pior é quando eu me deparo com o que escrevi na semana passada.
Alguns dizem que isso faz parte do processo todo, que a mudança de estilo sempre faz com que você ache o que fez antes pior do que o de hoje. Tenho minhas dúvidas a respeito disso, acho que a insatisfação é parte de uma dificuldade perene em expressar coisas cada vez mais complexas – pelo menos na escrita dentro da academia.
Na etnografia, onde a escrita tem que expressar (ou dar conta de um experiência) isso é flagrante. Meus primeiros trabalhos de campo eram, sem qualquer medo de falar, bem ingênuos. Eu percebia poucas sutilezas do assunto que ia pesquisar e costumava a ter visões objetivistas de tudo, o que obviamente viciava minha análise.
Nem por isso o texto era melhor, até porque eu não escrevia nada bem naqueles tempos. Hoje, de alguma maneira, sinto que consigo pensar o campo, e dentro do campo, de um modo que me satisfaz mais – ou pelo menos fica mais próximo do que eu idealizo como uma pesquisa etnográfica. No entanto, a escrita ainda parece muito travada, como se uma espécie de medo de me expressar de forma equivocada causasse justamente esse equívoco. Um ciclo vicioso daqueles mais angustiantes.
Para isso não há outra solução a não ser escrever. Lapidar a escrita mal-acabada, cheia de repetições e frases desconexas em alguma coisa palpável e fluida. Já percebi, dentro do óbvio ululante, que é impossível revisar o próprio texto logo após escrevê-lo. Um texto bom necessita de um tempo diferenciado, de ser escrito e reescrito, trabalhado frase a frase.
Logo, além de exercitar a escrita, também se faz necessária a disciplina. Só assim para dar conta dos equívocos, do medo, do ciclo vicioso.
Utilitarianism
Junho 26, 2008
A people who conceive life to be the pursuit of happiness must be chronically unhappy.
Espera
Fevereiro 8, 2008
O conto do jornalista
Janeiro 30, 2008
Dessa vez a revista IstoÉ cede à histeria anti-quilombola e, como em muitos outros casos de reportagens sobre o tema, desvirtua dados e espalha desinformação. Na reportagem O conto dos quilombos, de autoria do jornalista Sérgio Pardellas, é afirmado que as populações quilombolas revindicam área maior que o Estado de São Paulo.
O mapa de onde esse suposto dado se apresenta foi feito com base em outro produzido pelo professor Rafael Sanzio, da Universidade de Brasília. No mapa de Sanzio, as àreas destacadas correspondem às de municípios onde há registros de comunidades quilombolas. A revista Istoé apresentou o mesmo sob o título de “Áreas revindicadas como quilombolas”:
Não bastando esse “mal entendido” – prefiro acreditar que não se trata de uma manipulação de dados – o jornalista repete o bordão do movimento Paz no Campo, ligado a setores de extrema direita, de que o município de São Mateus terá 80% de sua área desapropriada para regularização fundiária de terras de quilombo. E claro, o autor ainda inventa a categoria de “pirataria antropológica”. Os antropólogos, como sempre, é que fabricam essas populações, elas nunca tiveram suas reivindicações e problemas.
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A palavra “quilombo” significa “habitação” na língua banto. Durante os tempos do Império Ultramarino Português foi usada para designar, na legislação, lugares onde se escondiam dois ou mais escravos fugidos. Esse sentido de quilombo é o mais popular e presente na historiografia, especialmente devido ao caso de Palmares, mas nunca foi o único. Muitas comunidades de negros, inclusive perto de grandes centros urbanos como o Rio de Janeiro, também eram referidas como quilombos. Em Minas Gerais, persistem inúmeras comunidades rurais habitadas principalmente por negros chamadas desde de tempos antigos simplesmente de “Quilombo”.
Grande parte das populações hoje chamadas de quilombolas são compostas por grupos que sustentam um modo de vida tradicional ligado à exploração da terra, caça e pesca. São remanescentes de locais onde se abrigaram escravos fugidos, herdeiros das chamadas Terras de Preto e Terras de Santo, populações de escravos e/ou libertos que moraram em terras adquiridas e herdadas regularmente.
Todos esses grupos tiveram seu acesso à terra comprometido, em grande parte devido à falta de acesso à justiça, grilagens e compras fraudulentas. Hoje a regularização fundiária das terras de quilombo representa a chance de reparar injustiças cometidas contra essas populações.
Antropologia e laudos periciais
Janeiro 17, 2008
Desde o início da histeria anti-quilombola, desencadeada por uma reportagem da Rede Globo, alguns jornalistas (e também alguns “filósofos”) têm procurado deslegitimar as revindicações das comunidades. Primeiro usando o argumento de que não se tratariam de “verdadeiros quilombos”, entendendo que a palavra denomina apenas comunidades onde se abrigavam escravos fugidos, e mais tarde afirmando que a política de demarcação seria rascista ou que agrediria o princípio da propriedade privada – houve até quem afirmasse que a instauração da propriedade coletiva dos quilombos seria uma uma maneira de fazer comunismo no Brasil.
A quantidade de desinformação espalhada a respeito da questão quilombola não se deve apenas à má vontade dos veículos de informação ou à mentiras de grandes proprietários cujas terras podem ser “ameaçadas”: ela também se firmou devido à falta de uma política de respostas coordenadas por parte dos profissionais envolvidos na produção de relatórios antropológicos. Por causa desse silêncio houve espaço para publicação de todo tipo de absurdo.
Nos dois anos em que tenho estudado e acompanhado a questão dos quilombos e de outras populações tradicionais foi possível perceber que, de modo geral, o que pleiteiam não somente é legítimo como necessário – e pretendo abordar isso em um outro texto.
Antropologia e laudos periciais
LUÍS R. CARDOSO DE OLIVEIRA
Presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA)
No último dia 20, a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) assinou novo termo de cooperação com Ministério Público Federal comprometendo-se a indicar peritos para a elaboração de laudos envolvendo demandas de minorias em processos judiciais. Trata-se freqüentemente de processos de identificação de território indígena e quilombola.
O papel da antropologia nesses casos é tornar inteligível para a Justiça a definição do território pleiteado por indígenas e quilombolas, o que significa traduzir concepções culturalmente diversas da visão vigente na sociedade mais ampla, assim como elucidar o significado da relação do grupo com o território. Para compreender a demanda é preciso relativizar as concepções vigentes no Estado e evitar que preconceitos ou etnocentrismos inviabilizem avaliação adequada do pleito.
A eventual imposição da visão predominante na sociedade nacional significa arbitrariedade que inibe a compreensão e ato de desrespeito aos direitos do grupo em foco. Por exemplo, quando se pretende avaliar a extensão do território ocupado por um grupo indígena a partir de critérios utilizados para garantir um modo de vida adequado a pequenos produtores rurais, que vivem da agricultura. Como para maioria dos povos indígenas brasileiros a caça e a coleta são atividades fundamentais para a subsistência do grupo, e suas instituições sociais estimulam a circulação por áreas extensas, delimitar seus territórios, tendo como referencia o padrão adequado para pequenos produtores, significaria decretar a morte dessas sociedades.
São situações como essa que estimulam a ABA e os antropólogos brasileiros a desenvolverem consciência aguçada quanto às implicações ético-morais do etnocentrismo e dos preconceitos quando estes se misturam com relações de poder, e essa é uma ameaça permanente quando se trata dos direitos de minorias.
A clara percepção das implicações desse tipo de ameaça a direitos tem marcado nossa atuação política na defesa de minorias contra as arbitrariedades do Estado e de grupos poderosos que, por incompreensão ou por interesses econômicos, não medem esforços para impor sua vontade e seu ponto de vista.
É importante distinguir esse tipo de atuação política daquela identificada com interesses partidários, ou daquelas que dão suporte aos movimentos sociais. Os antropólogos, como os demais cidadãos brasileiros, têm suas opções políticas, que são diversas, e uma parte deles têm militância política em partidos ou em movimentos sociais específicos. Entretanto, quando se expressam em nome da ABA, ou quando atuam como peritos em laudos para a Justiça, a dimensão política de sua atuação se restringe à defesa dos princípios ético-morais mencionados acima. Assim, defendemos os direitos de indígenas, quilombolas e de outras minorias de serem ouvidos, compreendidos e respeitados.
A observação desses princípios não significa que os antropólogos tomam acriticamente o que dizem os sujeitos da pesquisa ou dos laudos periciais. Nossos laudos e monografias procuram reproduzir apenas o que somos capazes de fundamentar à luz das teorias e dos instrumentos de produção de verdade de nossa disciplina. Como tem sido argumentado por vários colegas, no que concerne aos laudos periciais sobre território, o objetivo é compreender a relação do grupo em tela com a área que ocupa, assim como expressa em sua organização social, em sua visão de mundo e em suas praticas culturais.
Tal empreendimento é muito distante do que tem sido divulgado equivocadamente na mídia como simples reprodução da afirmação de vontade do grupo ou de parte dele. Embora os antropólogos não pretendam ter a palavra final sobre demandas de reconhecimento de identidade étnica ou cultural, e apoiemos a Convenção 169 da OIT, no que concerne ao valor da auto-identificação, defendemos a capacidade de nossa disciplina em fundamentar o significado das demandas dos grupos envolvidos nos laudos sobre direitos territoriais. Finalmente, gostaria de repudiar, com veemência, as alegações de que os laudos periciais produzidos por antropólogos seriam motivados por outros interesses, ou que se limitariam a reproduzir a opinião dos beneficiados. A ABA está aberta ao diálogo com a sociedade, mas exige respeito ao saber produzido pela nossa disciplina, assim como à honestidade, à seriedade e aos compromissos éticos dos antropólogos que atuam na elaboração de laudos periciais.
(Originalmente publicado no Correio Brasiliense de 24/12/2007)
(in)Veja
Dezembro 2, 2007
“Que coisa formidável! Estamos diante da defesa de uma nova forma de apartheid. Para os antropólogos da maldade, os morros e as periferias são civilizações independentes” escreveu Reinaldo Azevedo em um artigo para a revista Veja dessa semana.
Parece impossível comentar isso. Me lembra a matéria dizendo que a UFMG faz doutrinação comunista porque treina professores de movimentos sem-terra – ensinar matemática, geografia, português e história pra o pessoal da Bancada Ruralista seria promover uma doutrinação direitista, imagino.
Qual o problema com esses colunistas? O que poderia justificar sua atitude anal-retentiva a qualquer coisa que passe longe do cosmopolitismo de Ipanema, da Avenida Paulista ou dos cafés europeus que freqüentam? Quem sabe seus filhos dançam funk carioca no churrasco da faculdade, usam camisas do Che Guevara ou freqüentam show de rap. Eles, a pleno mau-humor com a “barbárie” que se espalha pelo mundo, chegam em casa e cospem a quantidade absurda de desinformação em formato de matéria.
A separação entre uma cultura erudita e uma cultura popular não é nova, não foi inventada pela Regina Casé nem é apoiada pelos “antropólogos” – desde o início da histeria anti-quilombola viramos uma espécie de ameaça terrorista. Eu não concordo com essa distinção, até porque o que é tido como erudito hoje já foi considerado bárbaro por “senhores de família” (samba era música de malandro, não?). O popular ganha espaço no meio erudito e vice-versa (alguém realmente acredita que os “antropólogos” são contra inclusão digital, bibliotecas ou ensino formal?) o que Regina Casé e outros querem promover é um diálogo entre meios aparentemente separados. Ninguém acha que não há nada a ser ensinado para as populações das periferias, só parece pretensioso e infantil acreditar que elas não têm nada a dizer para o mundo.
Obviamente o que Reinaldo Azevedo faz é repetir a boa e velha ladainha que celebra o Ocidente Moderno como o ápice, como a grande realização do ser humano, e seria blasfêmia dizer que existe algo que sua ciência não saiba ou formas de expressão que se equivalham às suas artes.
Se a cosmologia do Ocidente Moderno se constrói nesses termos, inexiste o espaço para o diálogo. Resta aos guardiães de seu estandarte imaculado promoverem uma resistência cega a qualquer tentativa de celebrar um debate em termos iguais com aqueles que consideram inferiores. Esse pensamento binário e tacanho é uma indicação que “atraso” e “barbárie” têm muitas faces.






