Mil Pedras
Abril 21, 2009

Finalmente assisti Der Baader-Meinhof Komplex. Como afirmei minha obsessão pela RAF nesse outro post, onde também fiz um resumo do contexto e da história do grupo terrorista, vou me limitar a comentar um pouco das minhas impressões sobre o filme – e o que nele se envolve.
O filme de Uli Edel, baseado num livro de Stefan Aust, é a produção mais cara do cinema alemão, e também conta com performance dos melhores e mais célebres atores de lá. Der Baader-Meinhof Komplex (referido à partir daqui como DBMK) recria muito bem o climão das décadas de 60 e 70, tanto na parte técnica quanto nos dilemas. Muito da história foca na tensão entre o ideal socialista romântico e as implicações mais severas de todas as tentativas de se “fazer a revolução” – fossem elas contradições internas ou a repressão, muitas vezes brutal.

Ulrike Meinhof (Martina Gedeck)
Nesse contexto de violência e mudança, Ulrike Meinhof (Martina Gedeck) é uma jornalista de esquerda que vivencia um conflito entre a teoria e prática de suas idéias. Divorciada e mãe de duas filhas, ela é seduzida pela visceralidade de Andreas Baader (Moritz Bleibtreu) e Gudrun Ensslin (Johanna Wokalek), dois beatniks extremistas condenados por atear fogo a uma loja de departamentos em prostesto contra a Guerra do Vietnã, Ulrike acaba envolvida com a instauração de um movimento de guerrilha urbana na Alemanha Ocidental.
Recrutando seus membros entre simpatizantes de esquerda, estudantes e ex-internos em reformatórios, a RAF segue em sua campanha de assaltos a banco e atentados a alvos militares. O filme se concentra nos três personagens, considerados os líderes e fundadores da Facção Exército Vermelho – o que é um problema. Quem tem algum conhecimento dessa história sabe que, entre membros e partidários, a RAF tinha algumas boas dezenas de integrantes. DBMK deixa isso no vácuo, inserindo muitos dos personagens na história sem a contextualização necessária – o que causa alguma confusão. Introduzir cada personagem tomaria muito tempo do filme, mas deixar de fazê-lo torna ele difícil para quem não tem conhecimento do assunto.

Andreas Baader (Moritz Bleibtreu) e Gudrun Ensslin (Johanna Wokalek)
O ponto positivo é que o trio Baader, Ensslin e Meinhof teve um tratamento à altura de sua estranha história. Baader é mostrado como dono de uma personalidade explosiva, machista e pouco brilhante. Sua capacidade de liderar o grupo reside no seu carisma controverso e no apoio incondicional que recebe de Ensslin – sua companheira – retratada como uma revolucionária apaixonada e, muitas vezes, irredutível. Meinhof, por outro lado, é quem tem alguma ponderação, fato pelo qual os outros dois líderes a consideram fraca. A relação de conflito entre os três e os diálogos daí decorrentes foram muito bem produzidos, tendo como com base nos escritos deixados por eles e nos depoimentos de ex-membros do grupo.
Outro ponto forte é maneira como ficou retratada a escalada de violência entre o Estado alemão e a RAF. À medida que membros do grupo e policiais iam morrendo, cada lado do conflito se tornava disposto a fazer pior. A tortura e a neglicência por parte algumas autoridades que resultou na morte de guerrilheiros da RAF é contraposta pela figura do chefe da polícia, Horst Herold (Bruno Ganz). Mesmo com a missão de desarticular a RAF e prender seus membros, Herold se recusa a acreditar que há respostas simples para o fenômeno colocado diante dele. A cena em que ele conversa com seus associados e é acusado de simpatizar com os terroristas a cada vez que, em voz alta, tenta desvendar seus motivos é emblemática.
Na minha reles opinião, é na sinergia entre o pensamento de Herold e as ações lideradas por Brigitte Mohnhaupt (Nadja Uhl) que estão alguns dos momentos mais densos do filme. Mohnhaupt é que cooderna os assassinatos mais brutais da RAF, a maioria feitos em retaliação ao que ocorre em Stammheim – a prisão de segurança máxima feita exclusivamente para abrigar e julgar membros do grupo e outros guerrilheiros urbanos. E Herold, que prefere refletir antes de agir cada vez que recebe a notícia de um atentado, parece ser privilegiado em entender o que se passa.

Chacina durante o seqüestro de Hanns Martin Schleyer.
A cena do assassinato de Siegfried Buback (Gerald Alexander Held) é emblemática nesse sentido. Mohnhaupt leva a cabo a vingança pela morte de membros da RAF em Stammheim, fuzilando todos que estavam dentro do carro de Buback. Diante do comunicado do atentado, o assistende Herold pergunta “O que leva novas unidades terroristas a ser formar? O que os motiva?”, e ele responde “Um mito”.
E é sobre esse mito que DBMK versa. O mito de que do outro lado da Cortina de Ferro não havia opressão, o mito de que a luta armada era a única forma de contrapor a violência do Estado, o mito de que martírio e revolução andam de mãos dadas. E como toda mitologia, aquela que cercava os membros da RAF pode estar datada, o que não exclui seu poder – e nem sua razão de ser.
Em um texto, Ulrike Meinhof escreveu: “Jogue uma pedra e é um crime. Jogue mil pedras e trata-se de uma ação política”. As mil pedras da RAF não foram jogadas em seus atentados – já que nem de longe eles foram o grupo terrorista mais eficiente na Alemanha daquele tempo. Seu triunfo residiu em seu espetáculo de violência, em sua capacidade de mobilizar a mídia para suas figuras, no fato de que saíram da história para entrar na cultura pop.
E isso não é tudo.
Filmorama I
Março 28, 2009
Comentários randômicos a respeito de filmes vistos recentemente.
Os Falsários
Os Falsários (Die Fälscher): Filme bom como eu não via há muito tempo. Sally Sorowitsch, o protagonista, é um artista especialista na arte de falsificar. Seu azar é viver na Alemanha em 1939, onde é preso e mandando para um campo de concentração. Mas Sally é uma raposa velha e consegue usar seu talento para arte como trunfo, agradando oficiais com murais e pinturas de temas nazistas. Em 1945 ele é enviado para um outro campo, onde outros artistas e profissionais judeus se reúnem sob o comando da SS para forjar dinheiro e passaportes em larga escala. Atuação fina, roteiro decente, fotografia ótima. Podem assistir.

O Leitor
O Leitor (The Reader): Tenho preguiça letal de noventa por cento dos filmes de drama que assisti – especialmente uma obviedade como Closer. Fui ver O Leitor meio sem saber do que se tratava e gostei. Enfim, enquanto muita gente criticou o filme por achá-lo meio inverossímil ou por, acreditem, fazer parte de uma conspiração de pedófilos negadores do Holocausto, eu achei interessante. Os tipos de tragédia, de indecisão e paralisia retratados em O Leitor não são exatamente factuais. Talvez o filme pareça melhor se eles forem entendidos como metáforas.

Australia
Australia: Não sei exatamente o que dizer de Australia. O filme trabalha alguns clichês de maneira divertida, o que é um ponto a favor. Se ele fosse só isso seria algo como um A Múmia melhorado, mas infelizmente a parte “dramática” é um pé no saco e tira toda a diversão meio pulp da história. O mundo não precisa de outro E o Vento Levou, então só assista se você não tiver nada melhor pra fazer.

Deixe Ela Entrar
Deixe Ela Entrar (Låt den rätte komma in): Um filme que tematiza vampiros de maneira sutil e elegante é raro. É bom encontrar algo interessante em meios a poços de tédio como Crepúsculo ou Anjos da Noite – últimos grandes expoentes do gênero. Deixe Ela Entrar é uma mistura bizarra de carinho inocente e ultraviolência, entre ambições infantis e poderes eternos. É provavelmente um dos melhores filmes de vampiro já feito. Assista, já.
Primeiro Contato
Dezembro 13, 2008
Numa sexta-feira qualquer fui ao Cine Humberto Mauro para assistir First Contact (1983, 54 min., Papua-Nova Guiné) dos documentários da Mostra Melanésia exibido durante o forumdoc.2008.
First Contact é, basicamente, um documentário construído em torno das imagens colhidas pelos irmãos Leahy em suas jornadas pelo interior da Papua-Nova Guiné, durante a década de 1930. Buscando ouro em terras inexploradas pelos colonizadores, os os Leahy são os primeiros “brancos” a serem avistados por vários povos nativos.
A sinopse do filme fazia um paralelo entre esse encontro e o de Colombo com os “índios” ao chegar no Novo Mundo. De fato, não há uma outra comparação melhor que essa. O encontro dos irmãos Leahy e seus empregados com os nativos das Terras Altas da Papua-Nova Guiné é, citando um clichê, um “encontro de dois mundos”.
Os Leahy em busca do ouro, os nativos em busca de uma maneira de situar aqueles outros entre si. A câmera daqueles tempos é testemunha de um clash cosmológico e de toda uma série de traduções e traições produzidas durante a efetivação de uma relação que nada possui de harmoniosa ou simétrica.
As imagens feitas pelos Leahy são intercaladas com outras, de trinta anos depois, onde aqueles que testemunharam o encontro vêem a si mesmos e falam a respeito de como foi o contato.
Na sessão em que eu estava o documentário causou reações diversas. Algumas situações do primeiro contato muitas vezes eram revistas pelos nativos com um toque de humor, outras acabaram em mortes, no caminho para a exploração sistemática que faria dos Leahy homens ricos.
Tive um incômodo parecido com o de um colega que assistiu Estamira no cinema. Nada relativo ao filme, mas à platéia: em alguns momentos as pessoas gargalhavam. Politicamente incorreto? Nada disso. No inferno do lixão ou nas chagas do contato da Papua-Nova Guiné uma certa insensibilidade é compartilhada.
The Ace of Spades
Outubro 20, 2008
Esse é o melhor vídeo do mundo, disparado. Não é todo dia que duas grandes realizações da humanidade, como Mad Max e Motörhead podem ser vistas num crossover épico desse porte.
[na verdade já mostrei isso pra todo mundo que eu conheço, mas não faço idéia de porque nunca postei aqui]
Der Baader-Meinhof Komplex
Outubro 18, 2008
Minha obsessão pelo Baader-Meinhof sempre foi confessa. Desde o final de 2002, quando li o livreto Televisionários em poucas horas na casa do Rocha, tentei saber mais sobre a vida e err… obra do grupo terrorista cuja marca distintiva era um misto de charme e crueza sem limites.
Baader-Meinhof era o nome “popular” da Facção Exército Vermelho (Rote Armee Fraktion ou RAF) um grupo radical surgido na Alemanha Ocidental na década de 1960. A RAF foi formada num contexto muito particular, onde um movimento estudantil de orientação comunista se consolidava frente a alguns tópicos delicados naquela Alemanha pós-guerra. O primeiro deles se referia à manuntenção de muitos ex-membros do Partido Nazista em posições de poder, ilegalidade do Partido Comunista, além da ascenção dos conservadores ao poder – que alguns anos mais tarde culminou no expurgo de muitos funcionários públicos com idéias “radicais”. O segundo se referia ao controle da OTAN sobre a Alemanha e uma oposição ferrenha à Guerra do Vietnã.
O embate entre os estudantes e o Estado chegou a ponto sem retorno quando, em 1967, um estudante é morto em um protesto contra o Xá do Irã, Mohammad Reza Pahlavi. Benno Ohnesorg foi morto com um tiro na cabeça e o policial responsável pelo disparo absolvido em um julgamento posterior. A ação desproporcional se tornou um marco e causou reações intensas na esquerda alemã. Muitos questionavam o monopólio da violência pelo Estado e afirmavam que o governo da Alemanha Ocidental não havia rompido com o fascismo.
É nesse contexto que o a RAF surge com um projeto político radical, com uma clara orientação maoísta. Seus membros eram estudantes e profissionais envolvidos com movimentos de esquerda, alguns com um certo renome como a jornalista Ulrike Meinhof. Inspirada pelo Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano de Carlos Marighella a RAF inverteu a noção maoísta do campesinato revolucionário defendendo a guerrilha urbana. Após uma temporada de treinamento na Palestina, o grupo começou sua campanha de atentados, assaltos e manifestos em 1970.
A RAF podia ser um grupo terrorista qualquer, defendendo o maoísmo ou qualquer outro “ismo” e derramando algum sangue pra mostrar que ninguém estava ali brincando. Mas algo os tornou celebridades nacionais. As perseguições policiais, fugas, trocas de tiros e outras ações da RAF eram ousadas. A presença e importância das mulheres no grupo era um diferencial, e o charme beatnik dos membros chamava atenção. Usando a violência de uma maneira, literalmente, espetacular a RAF entrou para o rol dos bandidos-heróis.

Cena do filme Der Baader-Meinhof Komplex. Se eu for atingido, que seja por uma moça nesse modelito...
Com o lançamento de Der Baader-Meinhof Komplex (Alemanha, 2008) a história do grupo deve voltar a ter alguma evidência. O filme, baseado no premiado livro de mesmo nome escrito por Stefan Aust, já vem causando alguma polêmica. Parentes de vítimas da RAF se dividem sobre o teor do roteiro, alguns afirmam que a história desrespeita as vítimas e que seria uma espécie de Bony e Clyde moderninho. Outros, como o filho de Hanns-Martin Schleyer, entenderam que o filme mostra a RAF como ela realmente era “um bando de assassinos impiedosos e insensíveis”.
Enquanto o filme não chega por aqui é possível assistir a trailer sem legenda e pensar se, afinal de contas o projeto da RAF não teria sido bem sucedido. O livreto Televisionários, de Tom Vague, tem esse título por causa de uma teoria de que os membros da RAF se guiavam pela imagem deles que era projetada na mídia – daí seriam (tele)visionários. Julgando pelo trailer abaixo e pelo efeito que esse filme terá na representação da RAF durante os próximos anos talvez eles não estivessem nada errados.
Atualizado 21/04/2009: assisti o filme e escrevi uma resenha/comentário.
Reversal Polonesa
Setembro 15, 2008
Satã
Setembro 13, 2008
“Vivia na Arábia um sultão…“
Ando tentando assistir todos os bons filmes que deixei de ver por preguiça ou falta de oportunidade. Meses atrás comecei com A Queda, Terra Fria e (riam) Diários de Motocicleta. Essa semana a surpresa foi Madame Satã (2002, 105 min., Brasil). Tinha uma curiosidade grande com relação ao Madame Satã desde quando eu li uma entrevista com o finado Nelson Gonçalves – ele contava algumas histórias e falava de quando se conheceram. Um boêmio homossexual, capoeirista e cafetão certamente devia ser uma figura única, quase absurda. Karim Aïnouz também se interessou por ele o suficiente para contar uma boa história A recriação do meio boêmio da década de 30 me pareceu bastante fiel, especialmente pela trilha sonora – na maioria das vezes ambiente. As cenas homoeróticas incomodaram muitos em Cannes, mas não achei elas mais ousadas ou chocantes do que muito que aparece pelas telas afora. Embora a narrativa tenha um ritmo próprio, fragmentado, Madame Satã entrou para o meu santuário de bons filmes – daqueles que único grande defeito é não durar mais.
Cyberpunk = filme ruim
Julho 14, 2008
Não assista!
Há um ou dois anos atrás eu estava conversando com o Ig sobre filmes de terror. Nessa época o cara já tinha uma coleção invejável de filmes de zumbi e reclamava sobre a falta de filmes abordando lobisomens. É verdade, com exceção de Companhia dos Lobos eu nunca assisti nenhum filme interessante com os peludos e sei de mais uns dois ou três.
Por outro lado, no Em Busca de Drácula e Outros Vampiros, livro mambembe que comprei por R$3 há uma bom tempo, há uma lista com mais de 200 filmes de vampiro. Claro, 90% deles são trash, mas é curioso pensar em como as histórias de sugadores de sangue são populares no cinema. Eu falei pra ele que isso era mérito do Bram Stoker, que popularizou a história de Drácula e outros mitos romenos através de seu romance. Já no caso dos lobisomens não há nenhuma obra de referência em qualquer mídia.
Depois de assistir Strange Days ontem cheguei à conclusão que a temática cyberpunk, apesar de seus vários “romances fundadores”, é quase sempre sinônimo de filmes medíocres. Neuromancer não é nenhuma obra prima da literatura, mas é uma história pop invejável com ação na medida certa, cenários empolgantes e ótimos toques de futurologia – não é coincidência o termo “cyberespaço” ter aparecido ali pela primeira vez. Ou seja: a obra que coloca a pedra fundamental do gênero cyberpunk já nasce pronta ser adaptada ao cinema.
Neuromancer nunca foi filmado. Outras obras do Gibson ganharam versões cinematográficas mas nenhuma delas vale um tostão furado – quem assistiu Johnny Mnemonic não me deixa mentir. Mais feliz foi Phillip K. Dick: Blade Runner, Total Recall e Minority Report podem não ser adaptações fiéis mas são filmes bons filmes.
Strange Days, arrisco dizer, é o pior filme cyberpunk já rodado na história. Tem uma premissa interessante mas quando vai se desenvolver parece as histórias que eu escrevia quando tinha 17 anos: cheio de frases de efeito, clichês, falta de sutileza. Blade Runner consegue mostrar a distopia futurista de uma forma que parece verossímil, Strange Days tira seu futuro de uma música do Rage Against the Machine tocada com a bunda. Mesmo bebendo diretamente de várias idéias do Gibson, o diretor não foi feliz.
Falando em plagiar Neuromancer, os irmãos Wachoswki também o fizeram e nem assim conseguiram algo bom. Pois é, depois primeiro filme todo mundo ficou naquela de “dogde this” e bullet time, mas o resto da “trilogia” jogou Matrix no ostracismo. Efeitos especiais empolgam todo mundo por seis meses, um bom roteiro fica pra eternidade.
Falam que Neuromancer ainda vai ganhar as telonas…
Resto e descuido
Dezembro 5, 2007

Assisti Estamira hoje de manhã e no fim de tudo bateu uma melancolia estranha, feita de desesperança e chorume das águas daquele aterro sanitário. Ano passado, alguém me contou que as pessoas riam no cinema toda vez que Estamira falava algo – talvez pudessem ser até coisas engraçadas em algum outro contexto.
A mulher mal tratada, abandonada, estuprada e enlouquecida que eu vejo no filme me deixa perplexo. O lixão não é propriamente uma novidade, estive perto de um certa vez e ele fedia mesmo a meio quilômetro de distância, mas nunca pensei em quem seriam aqueles catadores. Por algum motivo pensei que com a diversificação e ampliação da coleta seletiva eles não precisassem mais comer do lixo. Besteira. Pra se estar ali, pra se dispor àquilo, é necessário se abrir mão de muita coisa.
Ao contrário de outros filmes, Estamira não é feito pra chocar, mas o faz. O que parece terrível não é a constatação de que aquelas pessoas e aquela situação existem mas o fato de que o farão pra sempre.
A pirataria explicada às crianças
Novembro 1, 2007
A nova pirataria que explodiu tão de repente usando dos novos meios digitais parece ter emburrecido a maioria dos burocratas do entretenimento. Os mais espertos a encaram como um concorrente, outros querem combatê-la através de restrições que prejudicam seu mercado consumidor.
Você aluga três filmes originais em uma locadora, que paga impostos e faz tudo certinho. Na porta da locadora você vê um cartaz gigantesco falando dos males da pirataria. Ok, mas você é um cliente, está lá pra alugar e não pra comprar uma cópia pirata ou algo parecido. Acaba levando três filmes pra casa, ansioso pra ocupar aquela quarta-feira tediosa com alguma coisa. Assim que você insere um deles ao invés de surgirem alguns trailers, mais propagandinha anti-pirataria. Você tem que perder dois minutos da sua vida vendo isso em um filme que foi alugado legitimamente? Nem precisa responder.
Um dos três filmes é realmente bom e merece entrar pra sua coleção, então você decide que vai comprá-lo quando tiver uma chance. Alguns meses mais tarde você depara com o título numa loja de departamentos, a um preço acessível, e leva ele pra casa. Num domingo qualquer você senta com a sua garota pra rever o filme e assim que o DVD começa a rodar o mesmo vídeo anti-pirata, em toda sua majestade, invade a tela. “Porra, eu comprei esse filme!” você diz enquanto pensa que uma cópia pirata custaria uns R$ 20 a menos e não teria esse incômodo. Mas você não comprou pirata porque não se coleciona um DVD com uma capa feia e título escrito errado com caneta de retroprojetor.
Já quem comprou um CD não pode copiar pra deixar no carro, já que ninguém em sã consciência deixa os originais de bobeira, porque uma trava anti-pirataria não deixa. Outro que adquiriu um livro em PDF não pode copiar o texto ou reproduzir o arquivo um número ilimitado de vezes, pelo mesmo motivo. Em todos os casos, a cópia pirata é livre e a original restrita.
Os executivos da indústria do entretenimento andam extremamente neuróticos já que seus produtos podem ser reproduzidos e distribuídos a um custo muito próximo de zero. Eles ainda encaram a pirataria como algo totalmente vil e imoral e por isso têm que lembrar os cidadãos disso o todo tempo, principalmente colocando anúncios e restrições no que é original. O que não parecem não entender é que a pirataria já tomou formas próprias em todas as culturas e países do mundo, e que as pessoas sabem que é errado piratear. Ao invés de investirem tempo e dinheiro em travas e lições de moral que atrapalham e chateiam seus consumidores eles deveriam tentar mudar a forma de vender seus produtos.
Hoje em dia quando vão ao cinema, as pessoas pagam pela experiência de ver o filme em uma tela grande, com um ótimo som, comendo pipoca e tomando coca-cola acompanhados pelos amigos. Se quisessem “apenas” ver o filme, poderiam gastar R$ 5 no camelô da esquina e levarem o mesmo pra assistir em casa. Ninguém vai ser preso por fazer isso em nenhuma parte do globo terrestre. Se a indústria cinematográfica está preocupada com a pirataria ela devia se esforçar em fazer a experiência de ir ao cinema (ou ter um DVD original) cada vez mais divertida e prazerosa ao invés de buscar doutrinar e ameaçar seus consumidores por causa da pirataria.
Da mesma forma, se a indústria fonográfica tivesse apostado suas fichas no formato mp3 (ou na música digital) mais cedo e implantado lojas virtuais, ou mesmo maquininhas de vender música em shopping centers, seria muito melhor pra todo mundo. Claro, imaginando que seria vendido mais barato, já que ninguém ia ter que gastar milhares em estoque e distribuição de CDs.
Como nada disso foi feito a pirataria está aí, forte como nunca. Além dos produtos serem mais baratos que os originais, ou mesmo gratuitos, ela se utiliza de meios de distribuição e reprodução que permitem ampliar o público de um determinada mídia de maneira exponencial. As cópias piratas, apesar de tudo, suprem uma demanda reprimida e chegam onde o mercado legal ainda não conseguiu atingir.
O Brasil tem um caso interessante nesse aspecto: muitas bandas de forró e brega conseguiram distribuir seus CDs prensando cópias baratas e vendendo para os camelôs. Enquanto poderiam gastar milhares de reais em CDs caros, e que seriam vendidos só em lojas especializadas, eles souberam aproveitar de uma estrutura criada pela pirataria de música pra conseguir chegar ao público.
A maioria das empresas procura vender seus produtos com pesadas restrições ao consumidor porque entendem que qualquer um deles pode colocar o produto de graça na internet. Todos nós somos, na cabeça deles, criminosos em potencial. Não chega a ser mentira, mas… está funcionando? Não temos praticamente todos os produtos digitais que se encontram à venda também disponíveis em versões “gratuitas”?
Outro ponto a se pensar é a real dimensão do dano que a pirataria causa. Tropa de Elite caiu nos camelôs antes de pintar no cinema e o diretor já correu pra dizer que o filme seria um fracasso por causa disso. Nada mais inocente do que essa declaração, já que durante os meses subseqüentes não se falou em outra coisa que não no filme. Obviamente Tropa foi um recorde de bilheteria, porque muitos queriam a experiência de vê-lo no cinema.
Apesar disso, as grandes empresas alegam milhões de reais em prejuízo todo ano, usando a lógica absurda de que uma cópia pirateada é uma cópia legal que deixou de ser vendida. Esse raciocínio parece razoável mas é fantasioso, já que não se pode assegurar que todos os que adquirem produtos piratas são consumidores em potencial de originais. Grande parte do consumo de pirataria se dá pela conveniência e pela onipresença. Camelôs vendendo CDs e DVDs piratas estão em cada esquina, e têm capacidade de atingir muito mais pessoas que quaisquer lojas. Assim o dinheiro “perdido em pirataria” é mais o resultado de cópias baratas e abundantes do que de uma procura do público em consumir essas cópias.
Outro grande vilão seria a “pirataria doméstica”, os downloads ilegais de séries, filmes, livros e revistas. E esse é um caso ainda é mais complexo de se calcular os supostos prejuízos. Não é uma pirataria feita para gerar lucro, mas um livre compartilhamento de conteúdo entre aficionados de um determinado assunto ou mídia.
A título de exemplo, grande parte de quem baixa quadrinhos, também compra quadrinhos. Na verdade a possibilidade de pegá-los da internet representa uma chance de ampliar a variedade de títulos lidos. Mas da mesma maneira que o freqüentador de cinema não vai lá só para assistir o filme, o consumidor de quadrinhos também não paga simplesmente para ler a história. Ele quer ter o material, a edição de luxo, poder guardar na estante, ler antes de dormir, carregar pra outros lugares. As vantagens de se ter um produto material são imensas.
Da mesma maneira o formato mp3 ampliou a quantidade de música consumida no mundo, ainda que ilegalmente, e ajudou muitos artistas a ganhar público. Fora os multimilionários do Mettallica, nenhum artista reclama do fato de suas músicas estarem disponíveis de graça. O que se vê hoje em dia é um movimento das grandes gravadoras para reprimir os downloads ilegais (inclusive com processos doentios) mas nenhum movimento organizado de artistas – que sempre ganharam dinheiro com shows.
A questão, que vem sendo repetida exaustivametne ao longo do texto, é que existem pessoas em todo mundo dispostas a gastar dinheiro com produtos que já se encontram pirateados, que querem a experiência do original. E isso não é ideologia, é escolha. Encostar num cantinho e fazer beiço, ou berrar que tudo está errado não vai resolver problemas de mercado. Se isso é tudo o que a indústria do entretenimento pode fazer, então é melhor admitir que foram derrotados pela máfia chinesa, nerds sedentários, webdesigners suecos e camelôs.
A obsolência do mercado de entretenimento frente às novas técnicas de produção e distribuição são as principais do avanço vertiginoso da pirataria nessa última década. E todas as subseqüentes tentativas de doutrinação e repressão aos consumidores não vão reverter esse quadro. Mais que isso é preciso pensar em novas formas para o mercado do entretenimento frente às mudanças socioculturais e tecnológicas. Ampliar as possibilidades do consumidor e conseguir concorrrer com os piratas não é simples, não é fácil, mas é a única solução.
—
A verdadeira revolução no consumo de livros, música e filmes não é causada pela pirataria. Os piratas só reproduzem o que está por aí, mas as tecnologias e know-how apropriados por eles também podem ser usadas por pessoas e grupos que produzem.
À medida que avançam os processos de publicar, gravar e filmar, torna-se muito mais fácil para os criadores controlarem os meios de produção. No passado, custava uma fortuna gravar um disco de qualidade. Hoje qualquer estúdio medianamente competente consegue fazer isso a um preço camarada. Antes era necessário gastar dinheiro pra fazer seus textos, músicas e filmes chegarem até um público, coisa que a internet a um custo próximo de zero.
Em um mundo onde qualquer um pode produzir e ter audiência, muitos vão fazer isso e alguns vão fazer com qualidade. E, seguindo na contramão, alguns artistas consagrados vão ver a oportunidade de se tornarem independentes, como aconteceu com o Radiohead – cujo álbum colocado “de graça” na internet parece ter rendido a eles cerca de US$ 6 a 10 milhões nos primeiros dias.
Para ir além
http://www.informationarchitects.jp/
Tropa de Elite Facts
Outubro 11, 2007

“Ó o presunto!”
Eu tava errado. No Tropa de Elite não tem Rambo mas sobra Jack Bauer. A ONG, os universitários, a aula de sociologia, tudo muito caricato, 0 ou 1, mas é a visão dos PMs sobre a realidade. É legal humanizar os caras, sentar o dedo na ferida de todo maconheiro e ainda pagar lição de moral pra sociedade em geral. Mas fala aí, é isso? Quem aplaudiu as atitudes dos policiais tem problema – na cabeça ou no cólon. Porque tudo isso aí em cima tá bem pequeno em relação ao que o filme esfrega na cara de todo mundo: pro cara virar PM de verdade tem que meter tapa e saco plástico na mulher do traficante, querer enfiar cabo de vassoura no c* de vapor ou executar nego com um tiro de dozão na cara.
É, os caras fazem isso pra eu e você dormirmos em paz.
Será? Um dia, o fogo cruzado vai chegar até aí na sua porta. Se é que já não tá.
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Eu fui no lançamento do Elite da Tropa aqui em Belo Horizonte. Os caras falaram por alguns minutos de como foi escrever o livro e da experiência de servir no BOPE. Um deles, por sinal o que saiu, não acredita mais na PM do Rio e acha que ela tem que ser extinta.
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“Essa é da boa. Safra Roche® legítima de 1998.”
Usuário financia o tráfico, é fato. Então galera eu tenho a solução perfeita pra consciência de vocês e é mais tranquila do que legalizar, como sugere o Bressane: financiem a indústria farmacêutica. Ao invés de irem ao morro buscar um pó ou um brau, corram na farmácia e peçam uma tarja vermelha ou preta. Vai de ritalina? Vai de diazepam? Codeína? Benflogin? Se você for da paz tem um prozac esperto também. E se quiser efedrina é só dar um pulinho na loja de suplemento pra maromba. Qualquer uma te vende um potão por cinquentinha.
As drogas estão por aí desde os primórdios, e não vão sumir nem quando matarem todos os traficantes. O ser humano precisa delas. Lícitas ou ilícitas. Medicinais ou recreativas. A proibição é cultural, é política, é uma desculpa pra cambada ganhar votos prometendo o que não pode cumprir e ignorar o problema monumental de saúde causado pela dependência química – sejam da farmácia ou do morro. Em tempo: o Brasil já lidera o ranking no consumo de anfetaminas. Antes isso, ao menos todo mundo vai ficar magrinho.
—
Em tempo a idéia do o título saiu daqui.
The (other) Iron Man
Outubro 10, 2007

Ontem assisti o bizarríssimo Tetsuo: The Iron Man. Já estava com ele aqui há quase um ano, mas faltava a vontade de ver. A primeira impressão que tive foi que o filme, de alguma maneira, serviu de inspiração para o π do Darren Aronofsky: preto e branco opressivo, centrado em temas como transformação e loucura, etc.
Mas Tetsuo é um filme completamente underground e não-ortodoxo. Partindo da primeira cena, na qual um fetichista sem-teto rasga a carne da perna pra inserir um tubo de metal nela, o filme entra numa narrativa bem fragmentada, com poucos diálogos. Tudo gira em torno da maldição que assombra o personagem principal à medida que partes do seu corpo vão se transformando em maquinário. Embora a idéia pareça ser trabalhar dilemas como homem versus máquina e natureza versus tecnologia, o filme é meio gore e estranho demais pra expor isso com clareza.
Em compensação a fotografia, maquiagem e os efeitos trash de stop-motion só somam ao climão bizarro e tornam muito boa a experiência de assisti-lo. A cena mais marcante mostra o protagonista, já meio “maquinado”, se excitando enquanto sua namorada lambe um garfo. Só os japoneses mesmo.
Atualizado: a começar pelo título, o filme foi obviamente influenciado por Akira.








