Cyberpunk = filme ruim
Julho 14, 2008
Não assista!
Há um ou dois anos atrás eu estava conversando com o Ig sobre filmes de terror. Nessa época o cara já tinha uma coleção invejável de filmes de zumbi e reclamava sobre a falta de filmes abordando lobisomens. É verdade, com exceção de Companhia dos Lobos eu nunca assisti nenhum filme interessante com os peludos e sei de mais uns dois ou três.
Por outro lado, no Em Busca de Drácula e Outros Vampiros, livro mambembe que comprei por R$3 há uma bom tempo, há uma lista com mais de 200 filmes de vampiro. Claro, 90% deles são trash, mas é curioso pensar em como as histórias de sugadores de sangue são populares no cinema. Eu falei pra ele que isso era mérito do Bram Stoker, que popularizou a história de Drácula e outros mitos romenos através de seu romance. Já no caso dos lobisomens não há nenhuma obra de referência em qualquer mídia.
Depois de assistir Strange Days ontem cheguei à conclusão que a temática cyberpunk, apesar de seus vários “romances fundadores”, é quase sempre sinônimo de filmes medíocres. Neuromancer não é nenhuma obra prima da literatura, mas é uma história pop invejável com ação na medida certa, cenários empolgantes e ótimos toques de futurologia - não é coincidência o termo “cyberespaço” ter aparecido ali pela primeira vez. Ou seja: a obra que coloca a pedra fundamental do gênero cyberpunk já nasce pronta ser adaptada ao cinema.
Neuromancer nunca foi filmado. Outras obras do Gibson ganharam versões cinematográficas mas nenhuma delas vale um tostão furado - quem assistiu Johnny Mnemonic não me deixa mentir. Mais feliz foi Phillip K. Dick: Blade Runner, Total Recall e Minority Report podem não ser adaptações fiéis mas são filmes bons filmes.
Strange Days, arrisco dizer, é o pior filme cyberpunk já rodado na história. Tem uma premissa interessante mas quando vai se desenvolver parece as histórias que eu escrevia quando tinha 17 anos: cheio de frases de efeito, clichês, falta de sutileza. Blade Runner consegue mostrar a distopia futurista de uma forma que parece verossímil, Strange Days tira seu futuro de uma música do Rage Against the Machine tocada com a bunda. Mesmo bebendo diretamente de várias idéias do Gibson, o diretor não foi feliz.
Falando em plagiar Neuromancer, os irmãos Wachoswki também o fizeram e nem assim conseguiram fazer algo bom. Pois é, depois primeiro filme todo mundo ficou naquela de “dogde this” e bullet time, mas o resto da “trilogia” jogou Matrix no ostracismo. Efeitos especiais empolgam todo mundo por seis meses, um bom roteiro fica pra eternidade.
Falam que ainda vai Neuromancer vai ganhar as telonas…
Resto e descuido
Dezembro 5, 2007

Assisti Estamira hoje de manhã e no fim de tudo bateu uma melancolia estranha, feita de desesperança e chorume das águas daquele aterro sanitário. Ano passado, alguém me contou que as pessoas riam no cinema toda vez que Estamira falava algo - talvez pudessem ser até coisas engraçadas em algum outro contexto.
A mulher mal tratada, abandonada, estuprada e enlouquecida que eu vejo no filme me deixa perplexo. O lixão não é propriamente uma novidade, estive perto de um certa vez e ele fedia mesmo a meio quilômetro de distância, mas nunca pensei em quem seriam aqueles catadores. Por algum motivo pensei que com a diversificação e ampliação da coleta seletiva eles não precisassem mais comer do lixo. Besteira. Pra se estar ali, pra se dispor àquilo, é necessário se abrir mão de muita coisa.
Ao contrário de outros filmes, Estamira não é feito pra chocar, mas o faz. O que parece terrível não é a constatação de que aquelas pessoas e aquela situação existem mas o fato de que o farão pra sempre.
A pirataria explicada às crianças
Novembro 1, 2007
A nova pirataria que explodiu tão de repente usando dos novos meios digitais parece ter emburrecido a maioria dos burocratas do entretenimento. Os mais espertos a encaram como um concorrente, outros querem combatê-la através de restrições que prejudicam seu mercado consumidor.
Você aluga três filmes originais em uma locadora, que paga impostos e faz tudo certinho. Na porta da locadora você vê um cartaz gigantesco falando dos males da pirataria. Ok, mas você é um cliente, está lá pra alugar e não pra comprar uma cópia pirata ou algo parecido. Acaba levando três filmes pra casa, ansioso pra ocupar aquela quarta-feira tediosa com alguma coisa. Assim que você insere um deles ao invés de surgirem alguns trailers, mais propagandinha anti-pirataria. Você tem que perder dois minutos da sua vida vendo isso em um filme que foi alugado legitimamente? Nem precisa responder.
Um dos três filmes é realmente bom e merece entrar pra sua coleção, então você decide que vai comprá-lo quando tiver uma chance. Alguns meses mais tarde você depara com o título numa loja de departamentos, a um preço acessível, e leva ele pra casa. Num domingo qualquer você senta com a sua garota pra rever o filme e assim que o DVD começa a rodar o mesmo vídeo anti-pirata, em toda sua majestade, invade a tela. “Porra, eu comprei esse filme!” você diz enquanto pensa que uma cópia pirata custaria uns R$ 20 a menos e não teria esse incômodo. Mas você não comprou pirata porque não se coleciona um DVD com uma capa feia e título escrito errado com caneta de retroprojetor.
Já quem comprou um CD não pode copiar pra deixar no carro, já que ninguém em sã consciência deixa os originais de bobeira, porque uma trava anti-pirataria não deixa. Outro que adquiriu um livro em PDF não pode copiar o texto ou reproduzir o arquivo um número ilimitado de vezes, pelo mesmo motivo. Em todos os casos, a cópia pirata é livre e a original restrita.
Os executivos da indústria do entretenimento andam extremamente neuróticos já que seus produtos podem ser reproduzidos e distribuídos a um custo muito próximo de zero. Eles ainda encaram a pirataria como algo totalmente vil e imoral e por isso têm que lembrar os cidadãos disso o todo tempo, principalmente colocando anúncios e restrições no que é original. O que não parecem não entender é que a pirataria já tomou formas próprias em todas as culturas e países do mundo, e que as pessoas sabem que é errado piratear. Ao invés de investirem tempo e dinheiro em travas e lições de moral que atrapalham e chateiam seus consumidores eles deveriam tentar mudar a forma de vender seus produtos.
Hoje em dia quando vão ao cinema, as pessoas pagam pela experiência de ver o filme em uma tela grande, com um ótimo som, comendo pipoca e tomando coca-cola acompanhados pelos amigos. Se quisessem “apenas” ver o filme, poderiam gastar R$ 5 no camelô da esquina e levarem o mesmo pra assistir em casa. Ninguém vai ser preso por fazer isso em nenhuma parte do globo terrestre. Se a indústria cinematográfica está preocupada com a pirataria ela devia se esforçar em fazer a experiência de ir ao cinema (ou ter um DVD original) cada vez mais divertida e prazerosa ao invés de buscar doutrinar e ameaçar seus consumidores por causa da pirataria.
Da mesma forma, se a indústria fonográfica tivesse apostado suas fichas no formato mp3 (ou na música digital) mais cedo e implantado lojas virtuais, ou mesmo maquininhas de vender música em shopping centers, seria muito melhor pra todo mundo. Claro, imaginando que seria vendido mais barato, já que ninguém ia ter que gastar milhares em estoque e distribuição de CDs.
Como nada disso foi feito a pirataria está aí, forte como nunca. Além dos produtos serem mais baratos que os originais, ou mesmo gratuitos, ela se utiliza de meios de distribuição e reprodução que permitem ampliar o público de um determinada mídia de maneira exponencial. As cópias piratas, apesar de tudo, suprem uma demanda reprimida e chegam onde o mercado legal ainda não conseguiu atingir.
O Brasil tem um caso interessante nesse aspecto: muitas bandas de forró e brega conseguiram distribuir seus CDs prensando cópias baratas e vendendo para os camelôs. Enquanto poderiam gastar milhares de reais em CDs caros, e que seriam vendidos só em lojas especializadas, eles souberam aproveitar de uma estrutura criada pela pirataria de música pra conseguir chegar ao público.
A maioria das empresas procura vender seus produtos com pesadas restrições ao consumidor porque entendem que qualquer um deles pode colocar o produto de graça na internet. Todos nós somos, na cabeça deles, criminosos em potencial. Não chega a ser mentira, mas… está funcionando? Não temos praticamente todos os produtos digitais que se encontram à venda também disponíveis em versões “gratuitas”?
Outro ponto a se pensar é a real dimensão do dano que a pirataria causa. Tropa de Elite caiu nos camelôs antes de pintar no cinema e o diretor já correu pra dizer que o filme seria um fracasso por causa disso. Nada mais inocente do que essa declaração, já que durante os meses subseqüentes não se falou em outra coisa que não no filme. Obviamente Tropa foi um recorde de bilheteria, porque muitos queriam a experiência de vê-lo no cinema.
Apesar disso, as grandes empresas alegam milhões de reais em prejuízo todo ano, usando a lógica absurda de que uma cópia pirateada é uma cópia legal que deixou de ser vendida. Esse raciocínio parece razoável mas é fantasioso, já que não se pode assegurar que todos os que adquirem produtos piratas são consumidores em potencial de originais. Grande parte do consumo de pirataria se dá pela conveniência e pela onipresença. Camelôs vendendo CDs e DVDs piratas estão em cada esquina, e têm capacidade de atingir muito mais pessoas que quaisquer lojas. Assim o dinheiro “perdido em pirataria” é mais o resultado de cópias baratas e abundantes do que de uma procura do público em consumir essas cópias.
Outro grande vilão seria a “pirataria doméstica”, os downloads ilegais de séries, filmes, livros e revistas. E esse é um caso ainda é mais complexo de se calcular os supostos prejuízos. Não é uma pirataria feita para gerar lucro, mas um livre compartilhamento de conteúdo entre aficionados de um determinado assunto ou mídia.
A título de exemplo, grande parte de quem baixa quadrinhos, também compra quadrinhos. Na verdade a possibilidade de pegá-los da internet representa uma chance de ampliar a variedade de títulos lidos. Mas da mesma maneira que o freqüentador de cinema não vai lá só para assistir o filme, o consumidor de quadrinhos também não paga simplesmente para ler a história. Ele quer ter o material, a edição de luxo, poder guardar na estante, ler antes de dormir, carregar pra outros lugares. As vantagens de se ter um produto material são imensas.
Da mesma maneira o formato mp3 ampliou a quantidade de música consumida no mundo, ainda que ilegalmente, e ajudou muitos artistas a ganhar público. Fora os multimilionários do Mettallica, nenhum artista reclama do fato de suas músicas estarem disponíveis de graça. O que se vê hoje em dia é um movimento das grandes gravadoras para reprimir os downloads ilegais (inclusive com processos doentios) mas nenhum movimento organizado de artistas – que sempre ganharam dinheiro com shows.
A questão, que vem sendo repetida exaustivametne ao longo do texto, é que existem pessoas em todo mundo dispostas a gastar dinheiro com produtos que já se encontram pirateados, que querem a experiência do original. E isso não é ideologia, é escolha. Encostar num cantinho e fazer beiço, ou berrar que tudo está errado não vai resolver problemas de mercado. Se isso é tudo o que a indústria do entretenimento pode fazer, então é melhor admitir que foram derrotados pela máfia chinesa, nerds sedentários, webdesigners suecos e camelôs.
A obsolência do mercado de entretenimento frente às novas técnicas de produção e distribuição são as principais do avanço vertiginoso da pirataria nessa última década. E todas as subseqüentes tentativas de doutrinação e repressão aos consumidores não vão reverter esse quadro. Mais que isso é preciso pensar em novas formas para o mercado do entretenimento frente às mudanças socioculturais e tecnológicas. Ampliar as possibilidades do consumidor e conseguir concorrrer com os piratas não é simples, não é fácil, mas é a única solução.
—
A verdadeira revolução no consumo de livros, música e filmes não é causada pela pirataria. Os piratas só reproduzem o que está por aí, mas as tecnologias e know-how apropriados por eles também podem ser usadas por pessoas e grupos que produzem.
À medida que avançam os processos de publicar, gravar e filmar, torna-se muito mais fácil para os criadores controlarem os meios de produção. No passado, custava uma fortuna gravar um disco de qualidade. Hoje qualquer estúdio medianamente competente consegue fazer isso a um preço camarada. Antes era necessário gastar dinheiro pra fazer seus textos, músicas e filmes chegarem até um público, coisa que a internet a um custo próximo de zero.
Em um mundo onde qualquer um pode produzir e ter audiência, muitos vão fazer isso e alguns vão fazer com qualidade. E, seguindo na contramão, alguns artistas consagrados vão ver a oportunidade de se tornarem independentes, como aconteceu com o Radiohead - cujo álbum colocado “de graça” na internet parece ter rendido a eles cerca de US$ 6 a 10 milhões nos primeiros dias.
Para ir além
http://www.informationarchitects.jp/
Tropa de Elite Facts
Outubro 11, 2007

“Ó o presunto!”
Eu tava errado. No Tropa de Elite não tem Rambo mas sobra Jack Bauer. A ONG, os universitários, a aula de sociologia, tudo muito caricato, 0 ou 1, mas é a visão dos PMs sobre a realidade. É legal humanizar os caras, sentar o dedo na ferida de todo maconheiro e ainda pagar lição de moral pra sociedade em geral. Mas fala aí, é isso? Quem aplaudiu as atitudes dos policiais tem problema - na cabeça ou no cólon. Porque tudo isso aí em cima tá bem pequeno em relação ao que o filme esfrega na cara de todo mundo: pro cara virar PM de verdade tem que meter tapa e saco plástico na mulher do traficante, querer enfiar cabo de vassoura no c* de vapor ou executar nego com um tiro de dozão na cara.
É, os caras fazem isso pra eu e você dormirmos em paz.
Será? Um dia, o fogo cruzado vai chegar até aí na sua porta. Se é que já não tá.
–
Eu fui no lançamento do Elite da Tropa aqui em Belo Horizonte. Os caras falaram por alguns minutos de como foi escrever o livro e da experiência de servir no BOPE. Um deles, por sinal o que saiu, não acredita mais na PM do Rio e acha que ela tem que ser extinta.
–

“Essa é da boa. Safra Roche® legítima de 1998.”
Usuário financia o tráfico, é fato. Então galera eu tenho a solução perfeita pra consciência de vocês e é mais tranquila do que legalizar, como sugere o Bressane: financiem a indústria farmacêutica. Ao invés de irem ao morro buscar um pó ou um brau, corram na farmácia e peçam uma tarja vermelha ou preta. Vai de ritalina? Vai de diazepam? Codeína? Benflogin? Se você for da paz tem um prozac esperto também. E se quiser efedrina é só dar um pulinho na loja de suplemento pra maromba. Qualquer uma te vende um potão por cinquentinha.
As drogas estão por aí desde os primórdios, e não vão sumir nem quando matarem todos os traficantes. O ser humano precisa delas. Lícitas ou ilícitas. Medicinais ou recreativas. A proibição é cultural, é política, é uma desculpa pra cambada ganhar votos prometendo o que não pode cumprir e ignorar o problema monumental de saúde causado pela dependência química - sejam da farmácia ou do morro. Em tempo: o Brasil já lidera o ranking no consumo de anfetaminas. Antes isso, ao menos todo mundo vai ficar magrinho.
—
Em tempo a idéia do o título saiu daqui.
The (other) Iron Man
Outubro 10, 2007

Ontem assisti o bizarríssimo Tetsuo: The Iron Man. Já estava com ele aqui há quase um ano, mas faltava a vontade de ver. A primeira impressão que tive foi que o filme, de alguma maneira, serviu de inspiração para o π do Darren Aronofsky: preto e branco opressivo, centrado em temas como transformação e loucura, etc.
Mas Tetsuo é um filme completamente underground e não-ortodoxo. Partindo da primeira cena, na qual um fetichista sem-teto rasga a carne da perna pra inserir um tubo de metal nela, o filme entra numa narrativa bem fragmentada, com poucos diálogos. Tudo gira em torno da maldição que assombra o personagem principal à medida que partes do seu corpo vão se transformando em maquinário. Embora a idéia pareça ser trabalhar dilemas como homem versus máquina e natureza versus tecnologia, o filme é meio gore e estranho demais pra expor isso com clareza.
Em compensação a fotografia, maquiagem e os efeitos trash de stop-motion só somam ao climão bizarro e tornam muito boa a experiência de assisti-lo. A cena mais marcante mostra o protagonista, já meio “maquinado”, se excitando enquanto sua namorada lambe um garfo. Só os japoneses mesmo.
Atualizado: a começar pelo título, o filme foi obviamente influenciado por Akira.
Homem de Ferro [Intro Clip / Trailer]
Julho 30, 2007
Dá pra ver pouca coisa, já que foi filmado direto da exibição na San Diego ComiCon, mas vale à pena.
Como o outro vídeo foi tirado do ar, substituí pelo trailer oficial.
Watchmen nem saiu ainda…
Julho 30, 2007
… e já causa polêmica.
Eu ainda tenho Orkut por causa de algumas comunidades (pois é…). Curto ler o que os outros estão pensando sobre determinados assuntos, especialmente coisas de nerd, e dar uns pitacos de vez em quando. Maneira pouco construtiva de gastar o tempo, já dizia a velha máxima politicamente incorreta comparando paraolimpíadas e internet, mas devo adimitir que de vez em quanto dá pra engatar algumas interessantes.
Barraqueira de fórum - também chamada de flame war - é algo que me desagrada bastante. Quando se gasta o tempo discutindo algo, é melhor que seja de maneira (minimamente) civilizada, mas isso nem sempre acontece.
Nesse domingo fiquei algum tempo lendo os tópicos da comunidade de Watchmen, que anda pegando fogo por causa da adaptação cinematográfica que vem aí. Os leitores mais conservadores (ou implicantes) acham que o filme vai ser ruim porque é impossível adaptar a obra do Alan Moore em toda (err…) “complexidade”. Comparam o quadrinho com filmes e livros importantes pra indústria cultural como um todo - e nisso não deixam de ter alguma razão porque Watchmen realmente foi um marco - mas acabam caindo no pedantismo como modo de discussão.
Isso é normal, todo ponto de vista é válido, mas as réplicas a eles são ainda piores e muitas vezes acabam descambando pra uma série de acusações de cunho pessoal e xingamentos nada educados - alguns proferidos pelo editor de uma revista de cinema de circulação nacional - que são respondidos de maneira igualmente desagradável.
Em suma: Watchmen é profundo, complexo e inadaptável para a grande tela? Não. Watchmen merece o mesmo tratamento boçal dado a Liga Extraordinária no cinema? Certamente que não.
O que acontece - vivo falando iss0 - é que nesses dias a indústria cinematográfica parece estar carente de bons roteiros ou de histórias com apelo. Ao mesmo tempo que impossível adaptar uma obra de outra mídia com perfeição - ainda que seja um livro de comédia romântica - também não é legal gastar anos e milhões de dólares pra produzir filmes feitos simplesmente pra entretenimento. Não que cinema não seja diversão, é óbivo que é, mas pra quê fazer um filme que além de ter um vínculo pobre com a obra original ainda é ruim?
Do Inferno tem pouquíssimo a ver com a graphic novel mas pelo ainda é um filme bem feito, bacana de se assistir. Já Liga Extraodinária considero uma m*rda, é o sumo da idéia de pegar um nome que faz sucesso em outra mídia e usá-lo como embalagem apenas, produzindo algo que nem passa o clima e a ironia do original - ao menos Do Inferno se digna a mostrar a sujeira e a violência da Inglaterra Vitoriana.
Watchmen não vai ser igual ao quadrinho, mas tampouco vai ser ruim - na pior das hipóteses vai ser “legalzinho bobo” tipo V de Vingança. O que me parece é que os estúdios fazem uma equação de bilheteria que inclui a classificação do filme como algo acima do roteiro e, na cabeça dos grandes da indústria, quadrinho ainda parece ser só coisa de criança.
Watchmen não é a ultima maravilha, não é arte, nem é a melhor obra do Moore. - ao menos pra mim é A Voz do Fogo. Mas sim, é uma das primeiras histórias de super hérois a usar um modo narrativo que inclui elementos de literatura - e é uma puta história.
Realmente vou ficar chateado se o filme for ruim. Nesse caso pego em DVD um dia e assisto, com certeza vou me divertir.
Children of Men
Julho 28, 2007

Os irmãos Wachowski deviam ter aprendido com Alfonso Cuarón como se dirige um filme em um futuro distópico, assim V de Vingança não seria aquela palhaçada infanto-juvenil, ia continuar rendendo uns bons trocados e também ficaria pra posteridade como algo bom - não aquele produto patético que vai ser adorado por meia dúzia de babões sem senso crítico.
Filhos da Esperança (Children of Men, 2006, 109 min., EUA) é um dos melhores filmes que já vi ser exibido em uma grande sala de cinema, ao lado de O Labirinto do Fauno que não por coincidência já que foi produzido por Cuarón, juntando um cenário e história instigantes com ótimas cenas de ação.
No ano de 2027 o mundo colapsou porque os humanos não conseguem mais procriar e a Inglaterra permanece um dos últimos estados nacionais organizados. Levas de imigrantes ilegais procuram escapar do caos, mas são recebidas com perseguições e tratamento desumano. Londres parece uma cidade mais cinzenta do que nunca, inserida na desesperança absurda que tomou conta do globo.
Theo (Clive Owen) é um ativista político frustrado cuja vida não é nada mais do que uma sucessão de dias em uma rotina enfadonha. Seus únicos momentos de relativa felicidade são aqueles em que está com Jasper (Michael Caine), um ex-cartunista político atualmente traficante de maconha.

Um dia, a caminho do trabalho, ele é seqüestrado por integrantes do grupo terrorista Fishes e junto deles encontra Julian (Juliane Moore), sua ex-esposa. Ela lhe pede que consiga passes para conduzir uma garota refugiada até a costa. Inicialmente pouco cooperativo, Theo acaba cedendo quando ela lhe promete 5000 libras, mas ao mesmo tempo tenta se reaproximar de Julian.
O que ele não sabe é que a garota, Kee (Claire-Hope Ashitey), é a primeira mulher a engravidar em 18 anos.
Alfonso escolheu filmar Filhos da Esperança em longos takes e uma câmera um pouco trêmula - similar à do filme A Supremacia Bourne - o que causa a impressão que o espectador está seguindo Theo em sua jornada. Em algumas cenas essa sensação é reforça pelo fato de que sempre há algo acontecendo nos “cantos” do filme : televisores que transmitem propaganda governamental, conversas alheias, passeatas, despejos, prisões, recortes de jornal, fotos, etc. Várias vezes foi preciso voltar algumas cenas pra prestar atenção nesses pequenos detalhes e muitos deles enriquecem e complementam a história.

O clima de opressão e desesperança impera durante todo o tempo, reforçado pela aparência decadente das paisagens que incluem a periferia decadente de Londres, creches abandonadas e campos de refugiados. O mundo é violento mas, mesmo nas cenas de ação, não espere ver clichês hollywoodianos: Cuarón destacou pelo realismo.
Filhos da Esperança merece ser visto. Fica a sugestão.
Apocalypto
Julho 14, 2007
Depois de filmar o snuff de Jesus, Mel Gibson entrou pra história como um diretor sanguinário, fanático e anti-semita. Mas ninguém pode negar que ele também foi ousado ao fazer o filme em aramaico. E não deixemos de reconhecer que, mesmo sendo católico raivoso, ele também protagonizou Mad Max, a trilogia mais divertida do cinema.Agora misture Mad Max, adicionando alguns clichês dignos de Rambo II: A Missão, com a violência sangrenta de A Paixão de Cristo, mas ao invés de fariseus malignos, sacerdotes nativos. É desse caldo que se ergue a última obra do (ahn…) grande mestre Gibson: Apocalypto (2006, 139 min., EUA).
A trama tem início quando Pata de Jaguar (Rudy Yongblood) e sua tribo são capturados por mercadores de escravos maias, em meio a todos os tipos de atrocidades possíveis cometidas sem distinção. A jornada iniciada para a capital maia, chamada por alguns de “o lugar em que a terra sangra”, se faz por um trajeto que mostra a pestilência e devastação. Uma vez na cidade, Pata de Jaguar se defronta com uma violenta celebração religiosa, para qual ele e seus companheiros foram capturados para serem imolados. Salvo do altar de sacrifícios por eclipse, o ponto alto da festa, ele precisa tentar escapar dali e voltar para a mulher grávida e filho que escondeu em um poço durante o ataque.
Turbilhão de anacronismos, Apocalypto pode até ser um filme de ação divertido mas é historicamente equivocado em quase tudo. A começar pela estética da tribo de Pata de Jaguar, que mistura simultaneamente elementos ameríndios, africanos e polinésios. Apesar do filme ser falado no idioma maia da península de Yucatán, o que certamente é um rico recurso pra aclimatar o espectador na história, os modos e costumes da tribo de Pata de Jaguar são retratados de maneira completamente estereotipada, quando não ocidentalizada.
Outro ponto é o abuso da idéia de que a religião maia se pautava em torno da violência espetacularizada. Na cena dos sacrifícios no topo pirâmide, multidão se extasia enquanto cabeças rolam escada abaixo, como se estivessem no Coliseu romano ou de um enforcamento público. Sacrifícios obviamente não eram assim, não se oferece qualquer um para os deuses dessa maneira. As vítimas eram preparadas física e mentalmente, e muitas vezes eram oferecidas ao invés de capturadas - ou se voluntariavam. O sacrifício deve possuir algum valor para ser aceito como oferenda divina.
O figurino do clero e dos habitantes da cidade parece bem representado, muito fiel à iconografia encontrada nas esculturas e nas paredes das construções maias. A riqueza material que convive lado a lado com a decadência da civilização parece ser usado como uma rasa crítica social no filme.
Durante a fuga de Pata de Jaguar, as cenas de ação são exageradas e hollywoodianas até não poder mais. Ele corre de uma pantera, salta de uma cachoeira, e não para por dois dias mesmo depois de ter sido alvejado por uma flecha na barriga - é mais fodão que Mad Max, Jesus Cristo e William Wallace juntos!
Ao final, pra fechar o festival de imprecisões históricas, podemos ver a chegada dos espanhóis - claro, trazendo uma cruz bem visível. Peraí? O auge dos maias foi entre os séculos VII e X e os espanhóis só chegaram a Yucatán 600 anos depois!
Pra Mel Gibson isso pouco importa. Mais uma vez com a desculpa de mostrar sangue em prol de “retratar a história” ele cria um retrato distorcido de uma cultura. Houve quem achasse perturbador mas, pelo menos pra mim, é quase trash. Divertido, Apocalypto é cinema pra assistir em casa, no sofá, logo depois de ver um Bradock ou Armaggedon da vida…
Editado (21/04/2008): para quem acha que Apocalypto é historicamente correto, vale à pena ler esses dois bons artigos sobre o filme.
Pra Chocar
Julho 12, 2007
Achou forte? Essa cena nem é a pior.
“Eu faço cinema é pra chocar” afirmou Cláudio Assis em entrevista à Rede Cultura. Pois não duvido e, na verdade reitero: os filmes dele são pra chocar mesmo. Na verdade esse é o grande problema de Baixio das Bestas (2007, 80 min., Brasil) , seu segundo filme. Monstrando o cotidiano de uma área canavieira na Zona da Mata de Recife, Baixio trata principalmente da condição da mulher. Retrata de perto a vida de Auxiliadora (Mariah Teixeira), uma menina explorada pelo avô (Fernando Teixeira) que a obriga a lavar roupa durante o dia e se exibir numa parada de caminhoneiros em troca de dinheiro durante a noite. Dira Paes é Bela, uma prostituta com sonhos de grandeza e língua afiada, que parece contente com a profissão. Já Caio Blat e Matheus Nachtergaele interpretam Cícero e Everardo, dois agroboys que vivem em função de fumar maconha e fazer orgias em uma casa de prostituição local, que muitas vezes envolvem violência.Do mesmo jeito que Amarelo Manga (2003, 100 min., Brasil) Baixio das Bestas é visualmente atraente e empenhado na estética pobreza, da decadência. Mas é a violência a linguagem predominante do filme. Costumo dizer que, como qualquer forma de expressão, a violência também é uma boa forma de contar uma história. Ao sair do cinema me peguei perguntando o que Baixio narrava. Não muito, é só cinema pra chocar.
Enquanto isso em Istambul…
Junho 6, 2007
Sim, isso é um capacete de ciclista com um fone de ouvido… longe dos ouvidos.
O Duvido está fazendo uma série sobre o que se convenciona a chamar de “Cinema Trash Turco”. Basicamente são filmes B (ou C, ou D) estrelados por grandes atores da Turquia cuja produção é completamente calcada em personagens - e até mesmo filmes - da cultura pop norte-americana. Mas não se engane, isso não quer dizer que são filmes parecidos e sim copiados - com direito a uso de cenas e personagens sem qualquer respeito por direitos autorais.Mas a maior diversão é sacar o roteiro completametne dadaísta dessas produções, especialmente O Homem que Salvou o Mundo ou, como é mais conhecido, o Star Wars Turco. No Duvido, além do ótimo (e hilário) texto do Douglas, também tem um link para download dessa maravilha da sétima arte.
Sem volta
Março 4, 2007
Rossa (Helena Yaralova) e Menachem (Menachem Lang) instantes antes de um ataque a uma vila palestina.
Kedma (2002, 100 min., França/Itália/Israel) de Amos Gitai, ilustra a história de judeus chegando à Palestina no período pós Segunda Guerra. É um filme peculiar, todo filmado fora de estúdio, alternando cenas longas sem fala e monólogos longos num formato bastante teatral. Ilustra, de maneira quase alegórica, a formação do Estado de Israel, conflituosa e destrutiva desde seu início.Sou suspeito pra falar qualquer coisa sobre o filme, já que acho a obra do Amos Gitai muito rica em seu conjunto. Ao invés de recorrer ao sofrimento judaico como maneira de produzir cinema, tal fez Spilberg em A Lista de Schindler, Gitai prefere tratar de história sob uma ótica provocadora, pensando em pontos de vista mais do que verdades. O que, digamos, é bastante importante ao se tratar de questões delicadas como a formação de Israel e suas conseqüências.
Nesse ponto é que o filme possui uma dimensão bastante atual. No monólogo de um palestino que foge “de medo dos judeus” as alegorias ficam evidentes. “Não somos organizados como vocês, não temos as suas armas. Mas nós ficaremos aqui. Serviremos suas refeições, lavaremos o seu chão. Nosso filhos serão rebeldes” brada o homem.
A vida de gerações fora da terra natal, as perseguições intermináveis e a expatriação do povo hebreu também são lembrados nos testemunhos daqueles que acabaram de sair do pesadelo na Europa. Em alguns momentos, especialmente nos finais, fica a sensação de que nem Israel é um pais para os judeus.
Do gueto de Varsóvia à Faixa de Gaza, a história parece composta de reprises.













