Vendido #9

Maio 17, 2009

Felicidade incontida, derramando pelos poros. Ando sozinho, desacompanhado, e talvez por isso mesmo as coisas parecem mais simples. Acordo de manhã e não há ninguém ao lado, chego bêbado em casa e não há ninguém me esperando.

A padaria do primeiro andar me dá o prazer de fumar enquanto tomo um café e leio o jornal – colocaram mesas nas calçadas, o dono se recusa a seguir o nazismo anti-tabagista que parece ter enlouquecido o mundo.

Meu salário diminuiu algo em torno de 15%, tudo subiu, não vou poder viajar para a Europa como queria. Mas nada importa, aliás, nada importa que vá me chatear tanto assim. Como um monge isolado numa câmara escura em alguma planície deserta do Tibet, eu me sinto a caminho de algo grandioso e simples.

Outro dia a nova estagiária da empresa leu em voz alta uma matéria falando sobre como cada vez mais pessoas preferem ser solteiros a se casar. Isso é uma bobagem, uma inversão dos termos anteriores. Para estar feliz era preciso se estar casado, agora é preciso se estar sozinho, disponível, pronto para todas as possibilidades? Isso me parece uma extrapolação da pequena fábula “você é especial”.

Felicidade, se é que existe, não é uma conquista, é uma condição. Ou melhor, é uma efemeridade. Um bocado de nada que te faz bem em algumas horas da vida. O que mais precisa ser?

Duvido que alguém consiga imaginar uma pessoa que está sempre feliz e, ao mesmo tempo, não tême-la. Talvez pela falsidade que os felizes inspiram, talvez porque todos sabem que felicidade demais cega, embriaga.

E por isso mesmo é hora de ficar sóbrio.

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Vendido #0

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Vendido #7

Vendido #8

Vendido #8

Fevereiro 17, 2009

MXrXX se levava a sério demais. Não conseguia relaxar nem quando eu olhava ela pelas costas, indo voltando lentamente, com o cabelo transbordando sobre a pele branca. Não gemia, resmungava como se tivesse dentro de si uma senhora de 50 anos, solteira e malcomida, trabalhando numa repartição burocrática desde os 18.

E no entanto, ela não era nada disso. Talvez uma antítese. Magra, jovem, bonita e na pré-puberdade do sucesso.  Antes dos 30 ela já ganhava quase duas vezes o meu salário. Ativa, não era exatamente a pessoa para se imaginar refletindo apodrecendo aquelas duas horas  redentoras no sofá enquanto Luciana Gimenez entrevista alguma atriz pornográfica pela terceira vez no ano.

A questão é que MXrXX tinha nascido adulta. E agora, ao invés de ser uma jovenzinha feliz da vida, ela realmente tinha a velha amargurada dentro de si. Nessas três semanas ela tinha rido duas vezes, e uma delas foi quando eu disse que nunca tinha ido à Europa porque não tinha dinheiro.

Uma das minhas paixões mais secretas sempre sempre foi o devaneio pós-sexo. A capacidade de ficar em silêncio junto do outro, ou de falar a primeira coisa que viesse à cabeça – e por isso é tão difícil guardar um segredo de alguém com quem você dorme.

Mas MXrXX desconhecia isso,  essa própria idéia da inércia. Se ela tinha gostado, suspirava uma ou duas vezes e ia tomar uma ducha. Do contrário ela ia tomar uma ducha. Me perguntava onde íamos comer, se eu tinha algum plano para a noite e, dependendo da resposta, me deixava ou acompanhava.

Seu aparente desprezo por mim só me incomodou até eu perceber que ela desprezava tudo. Minha relação com MXrXX era patológica, um reflexo tardio que eu tinha vivido com XnX LXXsX, minha ex-mulher. XnX me colocava no pior dos lugares porque ela mesma não tinha idéia de onde queria estar. Eu, como um bom cristão, insistia em achar que carregava comigo a culpa. E me esforçava, e tentava de tudo para ser aceito por uma  que, a rigor, havia jurado estar comigo.

Com MXrXX isso não acontecia. O desprezo dela era o meu desprezo, só agíamos de maneira diversa. Ela empinava o nariz toda vez que me pensava inadequado, e logo queria se abrir em mim. Eu mentia para fazê-la ir embora mais rápido quando ela me incomodava, e me despedia com um beijo cálido. O desprezo dela era o que fazia moça trabalhar, tanto e tão bem.  O meu era o que me jogava desmontado, destronado, seminu em cima da cama.

MXrXX foi para Paris pela terceira vez. Eu preferi ficar por aqui.

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Vendido #6

Vendido #7

Vendido #7

Novembro 21, 2008

Sabe quando nada te faz feliz? É uma espécie de incômodo peculiar: você revira, revira a vida e não consegue que quer. Às vezes, infelizmente, é possível revirar até conseguir o que você não quer de maneira alguma.

Eu sou bom nisso. Cada vez que saio da inércia consigo o que não quero. O que não quero nem fudendo. AnX LXXsX, TXrXzX, ClxrX, MXrXX são as forças que sempre me jogam de volta para onde não deveria ter saído. Essas mulheres, essas malditas mulheres.Não se pode viver sem elas nem jogá-las pela janela. Desde os dezessete anos elas me causam danos irreparáveis, que provavelmente só aumentam com o passar do tempo.

Meu primeiros três namoros me deixaram com a sensação de ter perdido pedaços da vida. Meus tempos de solidão me deixaram com a sensação de não estar vivendo. Meu casamento foi como um sonho ruim. Meu divórcio como um pesadelo fora de controle.

O que eu aprendi com isso? Que não existe estado perfeito, equilíbrio ou conforto no mundo dos relacionamentos. E é um mundinho escroto de onde não há saída. Duvida? Tente então. Mesmo que você vá pra um monastério na putaquepariu seus relacionamentos vão te perseguir até lá.

Amar ao próximo numa dose ligeiramente maior do que o amor próprio pode ser a regra da união. Ter pena e ódio do outro de si é uma espécie de linha-guia da separação. E quando o fim vier, queime o que restou… do contrário tudo brotará de novo. Mas não fique achando que são brotos verdes e bonitos, são todos tortos e doentes. Vão crescer deformados e virar árvores escuras, daquelas que parecem a beira da queda o tempo todo.

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Vendido #6

Vendido #6

Setembro 16, 2008

Nunca gostei de gatos, desde quando era bem pequeno. Que tipo de afeição é possível ter por esses bichos que estão sempre à espreita, que não atendem a qualquer chamado? Alguma, é certo, do contrário os gatos não estariam há tanto tempo à nossa volta. Roubando carne posta para descongelar, urinando nos sofás, arranhando cortinas, defecando em caixinhas de areia.

Mas qualquer coisa que falte aos gatos é compensada com graça, e é justamente por isso que não quero os gatos próximos de mim: a graça torna qualquer ser traiçoeiro e egoísta ainda pior. Podem tudo do mais errado e ainda assim ganham o perdão, sob quaisquer circunstâncias. Alguns gatos eu nunca perdoei, outros torturei. Coisa de criança.

E agora, nesse momento, eu divido a cama com um felino – de outra espécie, não um gato. Talvez uma gata, embora eu ache essa a gíria mais cafona do mundo. E, mesmo que tudo o que eu disse sobre os gatos se aplique, eu deixo que ela roube a minha carne, arranhe as minhas costas.

O cabelo solto, o nariz levemente empinado, a pele lisa cheirando a loção hidratante e suor. Ninguém tem poder pra resistir a isso, mesmo sabendo que tudo fatalmente dará errado. Um dia. A vida é assim mesmo: mesmo quando sabe que caminha pro buraco, você continua andando se o caminho for agradável. Se for um deleite então é possível correr e pular de ponta.

É isso que eu estou fazendo aqui, na minha cama. Acordado, observando cada detalhe, sentido alguma coisa mexer na altura do estômago, pulando de ponta. Tudo intriga, convida. A tatuagem no braço tem algo escrito em francês e não faço idéia é, algumas cicatrizes na perna, a marca de biquíni (bem fraca) nas costas…

Há quanto tempo estamos aqui? Mais que um dia inteiro, a manhã diz que já é domingo, grita que já é hora de fazer alguma outra coisa além de fornicar mas não sinto qualquer vontade de sair do meu lugar. O quarto todo é uma inércia, as roupas espalhadas também teimam em não mexer.

Deslizo o dedo pelas costas dela, quase involuntariamente. Ela arrepia, vira para me olhar. Olhos grandes, de um formato exótico, que inspira mistério. É um felino gracioso, oh sim, e vai fazer muito do que não deve. Eu, já na terceira noite, tenho certeza que vou perdoar, aceitar, tratar bem.

É uma bela encrenca.

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Vendido #5

BeanStorm

Setembro 9, 2008

Em algum momento entre as doses de mescal e café colombiano as coisas começaram a fazer sentido. Havia um coelho, sentado num canto. Um coelho rosa, gigante, com uma motossera. Elétrica não, a diesel. A coisa real. Parecia um garoto propaganda de alguma madeireira cujo departamento de marketing é dirigido pelo filho do dono. Animais, motosseras, salvem as florestas, desenvolvimento sustentável Quase acreditei em tudo e pedi que o coelho salvasse o mundo, porque ninguém pensava mais nisso. Não com quarenta graus lá fora e as bolas colando na perna enquanto eu andava… o carbono já estava todo lá.

Acendi um charuto e observei coisas com um outro olhar. Quer dizer, era pra ser um workshop, mas parecia uma convenção de loucos. Novas tendências da mídia, eu diria. E como não havia nada de novo a ser feito, as coisas simplesmente pararam de fazer sentido. Pensei nisso quando descobri que os cachorros da minha ex estavam viciados em pó. Noiadões, assim. Quer dizer, que mundo é esse?

O charuto, maravilhoso, enrolado na coxa firme de algumas trabalhadoras dedicadas de alguma república obscura da América Central. Como aquilo tinha vindo parar nas minhas mãos? Da coxa de tão maravilhosas senhoras para os meus lábios podres. As colegiais japonesas, porra. elas suportam cada coisa. Eu vi naqueles filmes… ninguém podia gostar de assistir aquele tipo de coisa.

Quando tudo mais perde o sentido, não há mais nada para se procurado. Quanto menos encontrado. Eu pensei nisso enquanto a dose batia, e tive uma visão do que parecia ser a Sagrada Família cantando Great Balls of Fire. Um dos reis magos estava no piano, outro no contrabaixo. Maria dançava com o terceiro e José cantava mais alto do que devia. O Menino Jesus era o baterista.

Com uma visão dessas eu poderia fundar uma Igreja. Se eu fosse um patriarca religioso ia me concentrar em atrair seguidoras, jovens seguidoras. Minha religião seria um culto cósmico à deusa, alguma babaquice Wicca que traz meninas loucas pra ficarem nuas e correr pela floresta. E consumar o sacrifício, hehehe.

Mas eu estou perdendo o ponto, não tem nada a ver com isso. A questão toda era o coelho, rosa, essa espécie de sacerdote pós-moderno da propaganda. Putaquepariu. Aquilo era muito bom. Quase tanto quanto o palhaço sadomasoquista e seu espetáculo de dor. Você assina um contrato antes de entrar no show do cara e aí é uma parada como uma apresentação do GG Allin. Escatológica, se é que você me entende. Dizem que ele amarra um peso no pau, tipo um faquir. Eu não queria ser esse cara.

A mulher da publicidade honesta me disse algo sobre a propaganda que diz a verdade. Nada mais que a verdade, juro. Ela está fazendo a caixa de uma nova marca de cigarro para a Phillip-Morris. Chama-se DEATH. Tenho que admitir que gosto do nome e acho que vai fazer um sucesso fudido entre emos, góticos e vadias suicidas em geral. Se pusse sugerir algo eu falaria para fabricarem o sabor cianureto. Diminuir o número de idiotas no mundo é uma ótima maneira de demonstrar responsabilidade social.

Os chineses por exemplo, podem ser muitos, mas matam assim,  meio sem dó. Acho isso uma espécie de nobreza que não se encontra no mundo mais. Os americanos podem até matar mais, mas pedem tanta desculpa e chamam coletivas de impresa para dizer que “necessário” que toda a graça se perde. O exército, putz, é quem mais precisa de um publicitário esperto. Espertão.

Outro dia encontrei uma freira na rua. Ela me disse que seu nome havia sido João, e que havia se transformado para seguir a deus melhor como mulher. Como não amar essa criatura desprovida de pau e bom senso? Respirei fundo fui para o outro canto, me controlando para não enchê-lo/a de pontapés. Quer dizer, isso não faz qualquer sentido.

Amores Brutos #20

Agosto 2, 2008

Carta para X

Do lado de lá não há nada que reste. Que preste. Apenas os mesmos rasgos gastos, as marcas antigas daquilo que não foi. Do lado de lá não há conforto, como nunca houve nesse ou em qualquer outro. Há um bocado de conveniência, uma infelicidade residente, um muro construído em dívidas, o controle sutil. Aqui nunca houve nada que não fosse o ensaio de um delírio duplo, de uma embriaguez construída por detrás do mundo. Talvez isso não seja nada, talvez isso seja muito menos do que um tanto que não resta. Mas aqui, aqui mesmo, fundamos o império do impossível, com seu regente manco e caolho, dono da chave para todos os prazeres e sofrimentos do mundo conhecido. Agora que um exército atravessou as montanhas para carregar toda a beleza de volta para longe, para esconder aquilo que foi dentro  uma toca gélida… agora eu me recolho. A hora de seguir já passou, para todos nós.

Glória

Junho 22, 2008

O salário do pecado é a morte?

Na estrada lá de de baixo vai passar o homem. Doutor advogado,  é da raça de político de respeito. Gente querida, que é do povo. Deve ter vindo cá pra esses lados daqui fazer a média com a coronelagem, promessinha, pegar menino preto no colo. Vinha num automóvel, essa coisa que ninguém vê,  pra ajuntar mais gente em volto ainda, mas nem estrada há.

Cá ninguém anda só. Dizem que é lugar onde muito espreita: catitu, gato do mato, bicho-homem. No cemitério da Fazenda da Vargem contam que se enterrou uma cafusa que coitou com o Cão. A mulher tinha um fogo que mal se apagava. Tombava homem. Mas se desvairou e consumiu. Na paróquia escutei que tinha parido um leitão, rubrinho, de sete patas.

E onde já se viu que mulher alguma ia parir porco? De certo a cafusa encontrou um bruto que lhe tirou o  de digno, endoideceu e de tanto berrar lhe pensaram por possessa. Pedi pra ver o tal leitão, mas cadê que me falava onde andava? Ela morreu depois de pouco. Morte é coisa mais de Deus do que do resto.

E medo é de quê? De quem? Meu padrasto adiantava que medo é o que faz a miséria do homem. Que é que medo trás de bom? Já nem sei. Adiantei a vida sem nem pensar nisso. No seminário aprendi o temor de Deus: mas é o medo que anda com Deus ou Deus que anda com medo? Vai saber…

Eu não. Perdi a esperança de encontrar com o Alto. O Altíssimo. Reza nenhuma salva o que eu fiz. Nem novena rezada só com mulher casta. Nada adianta, não senhor. Pra Inferno ainda não vou, é preciso mais desgraça, talvez. Alma penada, esquecida no Limbo até o Dia do Juízo. É o que faz meu dizer andar na hora de rezar uma missa que seja: há que no Juízo o Cristo deixa eu morar na beirinha do Paraíso.

Doutor advogado urge fazer média na Casa de Deus, mas pernoita em teto de compadre antes de seguir. É do povo de Seu Maurício do Pinhal. Contaram que moça suspira de ver que é uma beleza, mal tem trinta. Fala complicado. Quer ser presidente.

Seu Maurício é que ia de candidato, quinta vez, mas o coração não seguiu. Caiu de cara na sopa… tristeza que só. O povo até chorou, fez fila no velório. Esse velório teve foi bom. Rezei missa daquelas de levar, cheia de renda. A viúva me chamou para a cozinha provar do assado, privilégio de padre. Moça mais nova, casada depois que a outra esposa morreu. Queixo a Deus pra que vire beata, já que não fica bonito ela se unir a outro em respeito à memória de tão estimada figura. Mas se quiser deixar o casarão da Fazenda do Pinhal pra confessar seus poucos pecados que padre não lhe prestaria um favor do consolo?

O confessionário é o leito do pecado. Ano após ano os pecados se deitam e rolam entre as línguas. Para quem muito fez o Mal o caminho é a penitência. A reza só traz ali a rememória do feito: Deus é Verbo mas não habita palavra, sim? Por penitência foi que escolhi o sacerdócio. Vida de pároco é sacrifício mesmo quando não é. A vocação, garanto, o homem só tem para a coisa que não se faz: todo o resto é suor.

Quando ainda moço segui a vocação e coisa ruim se deu. Larguei a roça do padrasto, rodei em casa de luz vermelha, joguei, bebi. Me ajuntei em bandidagem, roubei, matei pai de família. Carecia do recurso pra manter os vícios da carne. Dia sim, dia não, vagando com sol e lua na cacunda. Haveria de morrer cedo? Se não…

Mal conto o que me trouxe de volta à razão. Foi castigo, malefício, desgraça, coisa que marca um qualquer e condena. Aproveitei, ainda era jovem e mal procurado, fui bater em porta de  igreja, demonstrar minha ladinagem como esforço do ofício. O padrasto era devoto, pagador de promessa, me contava dos versos do Rei Davi, vidas de santo, pragas de Moisés. De aceito e feito Ele me tornou pároco. Achei mais justo carregar as Escrituras na ponta da língua. No meu coração onde ia se caber isso? Só o medo é que alarga suas portas. Tive nenhum.

Como nunca tive de muita coisa. Se não tenho muito temor de Deus, vou temer é gente? O homem pode ser ruim, mas é mortal. A figura pode ser o que mais pode nesse mundo, mas um tiro bem dado lhe põe bem no lugarzinho. Temor algum nessa bruma da manhãzinha, como nem nunca. Carabina de cano retinho, bala de soldado. Dá pra acertar até borboleta.

Seu Maurício, tão querido político, fazendeiro. Homem bom. Do outro lado do rio há quem não ache. Seu Otaviano Fonseca vêm doando do bom e do melhor para a paróquia… se eleito diz de dobrar os esforços para agradar o Senhor. Pra quê vou deixar esse moço, doutor, ocupar a Pinhal? Engraçar com a viúva, desmercer a memória de Seu Marício? Não senhor.

Deus escreve tão certo por linhas tão tortas que é possível entortar o quanto aprouver, não? Amém, aleluia. Pecado não deita fora do confessionário: corre solto, baba e morde. Pecado é o que move o mundo, que faz o dia e a noite. Glória sem delito é coisa pouca, conversinha do Divino. Alguém já viu guerra sem culpado? Rei sem fardo? Vinho sem delírio?

Tem não. Tem nada disso… Quem vence carrega a serpente enrolada no pescoço. Quem perde vai ao encontro do Criador. O devir do pecado, o que é? Morte? Nãnão. É o sentir mal, a vertigem. Morte é concessão do Altíssimo aos seus filhos. Pra quê o medo num mundo assim?

Lá vem, lá vem a passar o doutor. Montado em cavalo de raça. Garboso, de paletó branquinho. Sol nascendo, nem tem jeito de errar, o doutor brilha que nem vaga-lume no meio da comitiva. Não quero o outro dia sem a satisfação desse. Mais cinco vêm junto, ninguém anda sozinho por aqui. Muito se espreita por essas bandas de cá mas não há quem possa imaginar o pároco e sua carabina no alto da colina. Não quem desconfie, quem possa acusar.

Esse uso maligno da santidade me colocaria lado a lado com os sodomitas e blasfemadores. Mas aposto que esses ai arrependeriam bem em frentezinha ao Esquerdo. Eu não, carrego nada de culpa comigo. Acredito sem receio e sem covardia, pois não? Daqui o tiro é certo. O puxar do gatilho é meu, entre ele e a morte do doutor está a vontade de Deus.

Amores Brutos #19

Junho 13, 2008

Era para ser uma travessia. Cruzar de um lado ao outro, como se faz em tempos de mudança. Foi você quem sinalizou, me convidou a te aguardar. Mas era uma travessia pesarosa, doentia. Um martírio onde lugar nenhum pode ser alcançado. Remar na terceira margem, dizem, pode durar para sempre. Agora, percebo, que os passos eram apenas voltas: correr atrás do próprio ego.

Agora me convida a compartilhar essa infâmia, remar no centro, observando a correnteza passar. Do fundo da ignorância é possível saber que quem desconhece o fluxo das coisas está condenado a viver nele, sem nunca segui-lo.

Não senhor. Atravessar é preciso.

Vendido #5

Abril 22, 2008

Queria me embebedar mas tive preguiça de sair. Comprei uma garrafa de uísque barato no supermercado da esquina e voltei para casa, pensando no quanto era deprimente beber sozinho. XnX LXXsX teve a decência de dizer que o filho não é meu, como bem suspeitava. Mas não ligou, não marcou encontro. Mandou um e-mail cheio de culpa vazia, o qual nem me dei ao trabalho de responder. Se escondeu atrás do computador. Todo mundo faz isso hoje em dia.

Isso trouxe o pior de volta. O pior da situação inteira. Além de infernizar minha vida ela andava dormindo com outro, ou outros… Nada disso importava mais, mas pesava. Pesava muito. Não entendi como tinha casado com uma infeliz tão manipuladora, que ainda teve coragem de dizer eu destruí nossa relação. Mas também não era isso. Era a porra do orgulho ferido. Jesus, achei que nunca mais ia sentir isso desde que um primo tinha pegado a menina em quem eu tava chegando numa festa.

De novo vinha aquele sentimento de que tinha falhado miseravelmente. Não importava a vida de agora, com projetos novos, outra casa, coisas diferentes. De novo na grande ciranda da autopiedade na qual toda a humanidade se encontra.

Hora de encharcar a culpa em álcool.

Desliguei depois de meia garrafa e só voltei a pensar de quando percebi que gritava pela janela. Gritava muito, mas não conseguia saber bem o que era. As luzes dos outros apartamentos estavam acessas, havia gente me olhando. Passou.

Acordei no outro dia com ressaca e sensação de ausência. Ausência de quem? Sabia mas queria negar. Às vezes você rejeita pessoas que ainda nem conhece por medo de se apegar a elas. O filho não era meu, mas já tinha sido em algum momento.

Vendido #0

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Vendido #4

Expiação

Abril 1, 2008

penitência
Se nasce torto…

Pra lhe dizer a verdade eu não entendo muito dessas coisas. Quando eu era moço, logo que surgia um sujeito ruim por aqui diziam que era maconheiro. Era que nem falar que era filho do Cão! Sabia que homem era uma moléstia só. Desgraça! Nem em São Paulo mexi com nada disso, pergunte à minha mulher.

Teve uns dois aí que foram comigo, novinhos, pra trabalhar de aprendiz de carpinteiro. Cadê que voltaram? Se perderam. O senhor volte lá e procure, devem estar no chão preto cheirando cola de sapateiro. Ah, mas meu irmão nunca foi que nem eu – que nem nós da família. Se o senhor perguntar aí vai saber: nem avô, nem tio, nem pai meu foi de confusão. Veja só. O temperamento de minha família é o de trabalho, viver em paz, na comunhão com Deus. E ele queria saber disso? Ah… que nada. Nasceu teimoso, bugre… De novo, não aceitava que lhe pusessem roupa. Nosso avô dizia que era o sangue índio, que mãe dele tinha sido pega a cachorro. Era nada. Tem coisa que é feita assim da própria pessoa mesmo, né não? Sujeito veve, veve e não muda.

Adiante, eu fui jornaleiro em São Paulo. Depois pedreiro. Depois pintor. Nesse último serviço eu já morava como gente. Casinha feita, um quarto pra eu e a véia e outro pros meninos. Banheiro azulejado, privada de louça. Naquele tempo nem era coisa que se via assim, pra todo lado. Era luxo rico.

O nosso pai morreu naquele tempo. Foi coisa da cabeça, segundo dizia o doutor. Meu irmão era novo, nem tinha casado ainda. Fiquei com pena, ele que tinha ficado pra trás ajudando o pai na roça. Falei pra ele vir, morar comigo. Eu arranjava um trabalho fichado, dava chance dele fazer a vidinha.

Mal chegou lá e já foi encostando perto de mau elemento. Trabalhava de dia, bebia cachaça e jogava carta de noite. Como não faltava um dia de serviço, deixei. Mas mal de calado é o pior, não é não? Mês depois ele apareceu em casa de barriga furada: carteado e bebedeira é porta de inferno certeira.

Aí disse pra ele se ajuizar, buscar retidão. Adiantou? Como disse ao senhor, a pessoa nunca muda. Até rezar eu rezei. De tanto eu pedir ele foi dar jeito de se ajeitar noutro canto. Um barraquinho sujo, parede de madeira e lata, até rato tinha. Povo vinha dizer que ele tinha virado maconheiro.

Passei tempos sem ver, tempos grandes mesmo, só lamentando a desgraça. Num dia fui comprar um quilo de farinha, farinha boa, na casa do Candelário – ele sempre trazia dessas de casa. Topei com meu irmão na rua, magro que só osso, olho vidrado. Passou por mim feito fantasma.
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Coisa horrível, digo pro senhor, é ver sofrer alguém que a gente gosta. Quando eu era rapaz um cavalo meu quebrou a pata, até chorei com pena do bicho, pranto mesmo. Como não tinha remédio chamei meu pai, que veio de espingarda carregada pra aliviar o sofrimento. Coisa justa isso.
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Mas meu irmão não era bicho, vê-lá se eu ia fazer isso com ele. Deus livra! Havia de aproximar. De vez em quando eu fazia uma marmitinha do jeito que ele gostava – torresmo, feijão, angu e abóbora – e entregava no barraco. Às vezes ele nem abria a porta, às vezes comia até com a mão.
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Coisa foi, coisa foi e ele sumiu de novo. Pensei que tinha morrido, mandei rezar missa até. Daí quase ano depois ele me volta, terno branco, Bíblia garrada debaixo do braço. Tava feito missionário pelo sangue de Jesus. Disse que tinha largado dos tóchico todo, até cigarro. Por vista de longe achavam ele diferente, feito novo. Eu sabia, que nunca tinha mudado. A pessoa não muda.
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Esperto era de quem sabia escutar o sermão dele, suor e grito. Nem Deus, nem camisa e gravata alinhada, nem Bíblia. Isso tudo só cobria a pele, aquela que levava ele pra vida rasgada. Se ainda sofria não sei, mas continuava feito bicho, feito arisco.
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Vendido #4

Março 23, 2008

Sofrimento prolongado é coisa de maricas, góticos, intelectuais e mocinhas viciadas em comédias românticas – o que inclui Sex & the City. Todo o resto do mundo larga isso de mão assim que pode… ninguém curte esse peso filho da puta no peito ou aquele vazio na altura do estômago.

Sofrimento é bacana porque depois dele é que os problemas de verdade começam: ter de arrumar emprego, pagar o aluguel, escolher um tema de pós-graduação, arrumar um nome para o filho… ter que sair do quarto escuro e enfrentar o mundo de peito aberto. Então, eu acordei ontem e percebi que tinha parado de sofrer em absoluto – e notei isso porque toda a raiva da XnX LXXsX havia sumido. Restou só aquela compreensão de que as coisas não haviam funcionado como deviam. Não era culpa de ninguém… eu já tinha pensado nisso antes mas só agora fazia sentido de verdade.

Eu tava atrasado pro trabalho, como de costume, mas sem pressa. Ninguém por lá chega no horário, muito menos a chefia. Debaixo do chuveiro fiquei pensando em como tudo era bizarro e sentindo falta da minha casa. Da minha casa, não da minha mulher. Quer dizer, da minha ex-casa, não da minha ex-mulher.

É absolutamente estranho ter de abandonar alguma coisa que você construiu, que colocou sonhos e esperanças em cima. Felizmente às vezes é tão necessário quanto. Apesar de tudo o que aconteceu era inegável o alívio que eu senti desde o dia em que fui embora.

Agora batia uma sensação estranha. Aquele clichezão de que tudo era possível, de que tudo ia acontecer, de que nada estava escrito. Vai ver era verdade, ou sei lá, só coisa de homens solteiros com mais de 30.

Antes de sair pro trabalho a constatação de que coisas mais imediatas tinham que ser feitas. A quitinete estava uma zona completa, meu colchão jogado no chão, os livros e cds e espalhados por todos os lados e o computador montado em cima de uma mesinha que era um convite pra tendinite, etc, etc. No celular, duas ligações não atendidas dos filhos da puta do escritório. Uma mensagem dos meus amigos felizes e casados me chamando pra jantar amanhã, etc, etc.

Como era bom estar de volta.

Vendido #0

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Vendido #2

Vendido #3

Amores Brutos #18

Março 18, 2008

Incomunicável. Era assim que se passou aquela última noite. Não havia como falar nada. Eu tentei, algumas vezes até. Dava pra saber o que viria na manhã seguinte, como anunciado, a fala terrível, carregada de uma tristeza ímpar, de um peso desnecessário.  Todos são fracos de alguma maneira, não importa quanta força irradiem. Eu fui. Levantei, peguei minhas coisas e saí de lá. Não podia suportar nada daquilo por mais tempo.