Amores Brutos #20

Agosto 2, 2008

Carta para X

Do lado de lá não há nada que reste. Que preste. Apenas os mesmos rasgos gastos, as marcas antigas daquilo que não foi. Do lado de lá não há conforto, como nunca houve nesse ou em qualquer outro. Há um bocado de conveniência, uma infelicidade residente, um muro construído em dívidas, o controle sutil. Aqui nunca houve nada que não fosse o ensaio de um delírio duplo, de uma embriaguez construída por detrás do mundo. Talvez isso não seja nada, talvez isso seja muito menos do que um tanto que não resta. Mas aqui, aqui mesmo, fundamos o império do impossível, com seu regente manco e caolho, dono da chave para todos os prazeres e sofrimentos do mundo conhecido. Agora que um exército atravessou as montanhas para carregar toda a beleza de volta para longe, para esconder aquilo que foi dentro  uma toca gélida… agora eu me recolho. A hora de seguir já passou, para todos nós.

Glória

Junho 22, 2008

O salário do pecado é a morte?

Na estrada lá de de baixo vai passar o homem. Doutor advogado,  é da raça de político de respeito. Gente querida, que é do povo. Deve ter vindo cá pra esses lados daqui fazer a média com a coronelagem, promessinha, pegar menino preto no colo. Vinha num automóvel, essa coisa que ninguém vê,  pra ajuntar mais gente em volto ainda, mas nem estrada há.

Cá ninguém anda só. Dizem que é lugar onde muito espreita: catitu, gato do mato, bicho-homem. No cemitério da Fazenda da Vargem contam que se enterrou uma cafusa que coitou com o Cão. A mulher tinha um fogo que mal se apagava. Tombava homem. Mas se desvairou e consumiu. Na paróquia escutei que tinha parido um leitão, rubrinho, de sete patas.

E onde já se viu que mulher alguma ia parir porco? De certo a cafusa encontrou um bruto que lhe tirou o  de digno, endoideceu e de tanto berrar lhe pensaram por possessa. Pedi pra ver o tal leitão, mas cadê que me falava onde andava? Ela morreu depois de pouco. Morte é coisa mais de Deus do que do resto.

E medo é de quê? De quem? Meu padrasto adiantava que medo é o que faz a miséria do homem. Que é que medo trás de bom? Já nem sei. Adiantei a vida sem nem pensar nisso. No seminário aprendi o temor de Deus: mas é o medo que anda com Deus ou Deus que anda com medo? Vai saber…

Eu não. Perdi a esperança de encontrar com o Alto. O Altíssimo. Reza nenhuma salva o que eu fiz. Nem novena rezada só com mulher casta. Nada adianta, não senhor. Pra Inferno ainda não vou, é preciso mais desgraça, talvez. Alma penada, esquecida no Limbo até o Dia do Juízo. É o que faz meu dizer andar na hora de rezar uma missa que seja: há que no Juízo o Cristo deixa eu morar na beirinha do Paraíso.

Doutor advogado urge fazer média na Casa de Deus, mas pernoita em teto de compadre antes de seguir. É do povo de Seu Maurício do Pinhal. Contaram que moça suspira de ver que é uma beleza, mal tem trinta. Fala complicado. Quer ser presidente.

Seu Maurício é que ia de candidato, quinta vez, mas o coração não seguiu. Caiu de cara na sopa… tristeza que só. O povo até chorou, fez fila no velório. Esse velório teve foi bom. Rezei missa daquelas de levar, cheia de renda. A viúva me chamou para a cozinha provar do assado, privilégio de padre. Moça mais nova, casada depois que a outra esposa morreu. Queixo a Deus pra que vire beata, já que não fica bonito ela se unir a outro em respeito à memória de tão estimada figura. Mas se quiser deixar o casarão da Fazenda do Pinhal pra confessar seus poucos pecados que padre não lhe prestaria um favor do consolo?

O confessionário é o leito do pecado. Ano após ano os pecados se deitam e rolam entre as línguas. Para quem muito fez o Mal o caminho é a penitência. A reza só traz ali a rememória do feito: Deus é Verbo mas não habita palavra, sim? Por penitência foi que escolhi o sacerdócio. Vida de pároco é sacrifício mesmo quando não é. A vocação, garanto, o homem só tem para a coisa que não se faz: todo o resto é suor.

Quando ainda moço segui a vocação e coisa ruim se deu. Larguei a roça do padrasto, rodei em casa de luz vermelha, joguei, bebi. Me ajuntei em bandidagem, roubei, matei pai de família. Carecia do recurso pra manter os vícios da carne. Dia sim, dia não, vagando com sol e lua na cacunda. Haveria de morrer cedo? Se não…

Mal conto o que me trouxe de volta à razão. Foi castigo, malefício, desgraça, coisa que marca um qualquer e condena. Aproveitei, ainda era jovem e mal procurado, fui bater em porta de  igreja, demonstrar minha ladinagem como esforço do ofício. O padrasto era devoto, pagador de promessa, me contava dos versos do Rei Davi, vidas de santo, pragas de Moisés. De aceito e feito Ele me tornou pároco. Achei mais justo carregar as Escrituras na ponta da língua. No meu coração onde ia se caber isso? Só o medo é que alarga suas portas. Tive nenhum.

Como nunca tive de muita coisa. Se não tenho muito temor de Deus, vou temer é gente? O homem pode ser ruim, mas é mortal. A figura pode ser o que mais pode nesse mundo, mas um tiro bem dado lhe põe bem no lugarzinho. Temor algum nessa bruma da manhãzinha, como nem nunca. Carabina de cano retinho, bala de soldado. Dá pra acertar até borboleta.

Seu Maurício, tão querido político, fazendeiro. Homem bom. Do outro lado do rio há quem não ache. Seu Otaviano Fonseca vêm doando do bom e do melhor para a paróquia… se eleito diz de dobrar os esforços para agradar o Senhor. Pra quê vou deixar esse moço, doutor, ocupar a Pinhal? Engraçar com a viúva, desmercer a memória de Seu Marício? Não senhor.

Deus escreve tão certo por linhas tão tortas que é possível entortar o quanto aprouver, não? Amém, aleluia. Pecado não deita fora do confessionário: corre solto, baba e morde. Pecado é o que move o mundo, que faz o dia e a noite. Glória sem delito é coisa pouca, conversinha do Divino. Alguém já viu guerra sem culpado? Rei sem fardo? Vinho sem delírio?

Tem não. Tem nada disso… Quem vence carrega a serpente enrolada no pescoço. Quem perde vai ao encontro do Criador. O devir do pecado, o que é? Morte? Nãnão. É o sentir mal, a vertigem. Morte é concessão do Altíssimo aos seus filhos. Pra quê o medo num mundo assim?

Lá vem, lá vem a passar o doutor. Montado em cavalo de raça. Garboso, de paletó branquinho. Sol nascendo, nem tem jeito de errar, o doutor brilha que nem vaga-lume no meio da comitiva. Não quero o outro dia sem a satisfação desse. Mais cinco vêm junto, ninguém anda sozinho por aqui. Muito se espreita por essas bandas de cá mas não há quem possa imaginar o pároco e sua carabina no alto da colina. Não quem desconfie, quem possa acusar.

Esse uso maligno da santidade me colocaria lado a lado com os sodomitas e blasfemadores. Mas aposto que esses ai arrependeriam bem em frentezinha ao Esquerdo. Eu não, carrego nada de culpa comigo. Acredito sem receio e sem covardia, pois não? Daqui o tiro é certo. O puxar do gatilho é meu, entre ele e a morte do doutor está a vontade de Deus.

Amores Brutos #19

Junho 13, 2008

Era para ser uma travessia. Cruzar de um lado ao outro, como se faz em tempos de mudança. Foi você quem sinalizou, me convidou a te aguardar. Mas era uma travessia pesarosa, doentia. Um martírio onde lugar nenhum pode ser alcançado. Remar na terceira margem, dizem, pode durar para sempre. Agora, percebo, que os passos eram apenas voltas: correr atrás do próprio ego.

Agora me convida a compartilhar essa infâmia, remar no centro, observando a correnteza passar. Do fundo da ignorância é possível saber que quem desconhece o fluxo das coisas está condenado a viver nele, sem nunca segui-lo.

Não senhor. Atravessar é preciso.

Vendido #5

Abril 22, 2008

Queria me embebedar mas tive preguiça de sair. Comprei uma garrafa de uísque barato no supermercado da esquina e voltei para casa, pensando no quanto era deprimente beber sozinho. XnX LXXsX teve a decência de dizer que o filho não é meu, como bem suspeitava. Mas não ligou, não marcou encontro. Mandou um e-mail cheio de culpa vazia, o qual nem me dei ao trabalho de responder. Se escondeu atrás do computador. Todo mundo faz isso hoje em dia.

Isso trouxe o pior de volta. O pior da situação inteira. Além de infernizar minha vida ela andava dormindo com outro, ou outros… Nada disso importava mais, mas pesava. Pesava muito. Não entendi como tinha casado com uma infeliz tão manipuladora, que ainda teve coragem de dizer eu destruí nossa relação. Mas também não era isso. Era a porra do orgulho ferido. Jesus, achei que nunca mais ia sentir isso desde que meu primo tinha pegado a menina em quem eu tava chegando numa festa.

De novo vinha aquele sentimento de que tinha falhado miseravelmente. Não importava a vida de agora, com alguns projetos novos, outra casa, coisas diferentes. De novo na grande ciranda da autopiedade na qual toda a humanidade se encontra. Hora de encharcar a culpa em álcool.

Desliguei depois de meia garrafa e só voltei a pensar de novo quando vi que gritava pela janela. Gritava muito, mas não conseguia saber bem o que era. As luzes dos outros apartamentos estavam acessas, havia gente em algumas janelas. Passou.

Acordei no outro dia com uma ressaca horrível. Sensação de ausência, não sabia de quem. Sabia mas queria negar. Às vezes você rejeita pessoas que ainda nem conhece por medo de se apegar a elas. O filho não era meu, mas já tinha sido em algum momento.

Vendido #0

Vendido #1

Vendido #2

Vendido #3

Vendido #4

Expiação

Abril 1, 2008

penitência
Se nasce torto…

Pra lhe dizer a verdade eu não entendo muito dessas coisas. Quando eu era moço, logo que surgia um sujeito ruim por aqui diziam que era maconheiro. Era que nem falar que era filho do Cão! Sabia que homem era uma moléstia só. Desgraça! Nem em São Paulo mexi com nada disso, pergunte à minha mulher.

Teve uns dois aí que foram comigo, novinhos, pra trabalhar de aprendiz de carpinteiro. Cadê que voltaram? Se perderam. O senhor volte lá e procure, devem estar no chão preto cheirando cola de sapateiro. Ah, mas meu irmão nunca foi que nem eu - que nem nós da família. Se o senhor perguntar aí vai saber: nem avô, nem tio, nem pai meu foi de confusão. Veja só. O temperamento de minha família é o de trabalho, viver em paz, na comunhão com Deus. E ele queria saber disso? Ah… que nada. Nasceu teimoso, bugre… De novo, não aceitava que lhe pusessem roupa. Nosso avô dizia que era o sangue índio, que mãe dele tinha sido pega a cachorro. Era nada. Tem coisa que é feita assim da própria pessoa mesmo, né não? Sujeito veve, veve e não muda.

Adiante, eu fui jornaleiro em São Paulo. Depois pedreiro. Depois pintor. Nesse último serviço eu já morava como gente. Casinha feita, um quarto pra eu e a véia e outro pros meninos. Banheiro azulejado, privada de louça. Naquele tempo nem era coisa que se via assim, pra todo lado. Era luxo rico.

O nosso pai morreu naquele tempo. Foi coisa da cabeça, segundo dizia o doutor. Meu irmão era novo, nem tinha casado ainda. Fiquei com pena, ele que tinha ficado pra trás ajudando o pai na roça. Falei pra ele vir, morar comigo. Eu arranjava um trabalho fichado, dava chance dele fazer a vidinha.

Mal chegou lá e já foi encostando perto de mau elemento. Trabalhava de dia, bebia cachaça e jogava carta de noite. Como não faltava um dia de serviço, deixei. Mas mal de calado é o pior, não é não? Mês depois ele apareceu em casa de barriga furada: carteado e bebedeira é porta de inferno certeira.

Aí disse pra ele se ajuizar, buscar retidão. Adiantou? Como disse ao senhor, a pessoa nunca muda. Até rezar eu rezei. De tanto eu pedir ele foi dar jeito de se ajeitar noutro canto. Um barraquinho sujo, parede de madeira e lata, até rato tinha. Povo vinha dizer que ele tinha virado maconheiro.

Passei tempos sem ver, tempos grandes mesmo, só lamentando a desgraça. Num dia fui comprar um quilo de farinha, farinha boa, na casa do Candelário - ele sempre trazia dessas de casa. Topei com meu irmão na rua, magro que só osso, olho vidrado. Passou por mim feito fantasma.
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Coisa horrível, digo pro senhor, é ver sofrer alguém que a gente gosta. Quando eu era rapaz um cavalo meu quebrou a pata, até chorei com pena do bicho, pranto mesmo. Como não tinha remédio chamei meu pai, que veio de espingarda carregada pra aliviar o sofrimento. Coisa justa isso.
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Mas meu irmão não era bicho, vê-lá se eu ia fazer isso com ele. Deus livra! Havia de aproximar. De vez em quando eu fazia uma marmitinha do jeito que ele gostava - torresmo, feijão, angu e abóbora - e entregava no barraco. Às vezes ele nem abria a porta, às vezes comia até com a mão.
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Coisa foi, coisa foi e ele sumiu de novo. Pensei que tinha morrido, mandei rezar missa até. Daí quase ano depois ele me volta, terno branco, Bíblia garrada debaixo do braço. Tava feito missionário pelo sangue de Jesus. Disse que tinha largado dos tóchico todo, até cigarro. Por vista de longe achavam ele diferente, feito novo. Eu sabia, que nunca tinha mudado. A pessoa não muda.
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Esperto era de quem sabia escutar o sermão dele, suor e grito. Nem Deus, nem camisa e gravata alinhada, nem Bíblia. Isso tudo só cobria a pele, aquela que levava ele pra vida rasgada. Se ainda sofria não sei, mas continuava feito bicho, feito arisco.
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Vendido #4

Março 23, 2008

Sofrimento prolongado é coisa de maricas, góticos, intelectuais e mocinhas viciadas em comédias românticas - o que inclui Sex & the City. Todo o resto do mundo larga isso de mão assim que pode… ninguém curte esse peso filho da puta no peito ou aquele vazio na altura do estômago.

Sofrimento é bacana porque depois dele é que os problemas de verdade começam: ter de arrumar emprego, pagar o aluguel, escolher um tema de pós-graduação, arrumar um nome para o filho… ter que sair do quarto escuro e enfrentar o mundo de peito aberto. Então, eu acordei ontem e percebi que tinha parado de sofrer em absoluto - e notei isso porque toda a raiva da XnX LXXsX havia sumido. Restou só aquela compreensão de que as coisas não haviam funcionado como deviam. Não era culpa de ninguém… eu já tinha pensado nisso antes mas só agora fazia sentido de verdade.

Eu tava atrasado pro trabalho, como de costume, mas sem pressa. Ninguém por lá chega no horário, muito menos a chefia. Debaixo do chuveiro fiquei pensando em como tudo era bizarro e sentindo falta da minha casa. Da minha casa, não da minha mulher. Quer dizer, da minha ex-casa, não da minha ex-mulher.

É absolutamente estranho ter de abandonar alguma coisa que você construiu, que colocou sonhos e esperanças em cima. Felizmente às vezes é tão necessário quanto. Apesar de tudo o que aconteceu era inegável o alívio que eu senti desde o dia em que fui embora.

Agora batia uma sensação estranha. Aquele clichezão de que tudo era possível, de que tudo ia acontecer, de que nada estava escrito. Vai ver era verdade, ou sei lá, só coisa de homens solteiros com mais de 30.

Antes de sair pro trabalho a constatação de que coisas mais imediatas tinham que ser feitas. A quitinete estava uma zona completa, meu colchão jogado no chão, os livros e cds e espalhados por todos os lados e o computador montado em cima de uma mesinha que era um convite pra tendinite, etc, etc. No celular, duas ligações não atendidas dos filhos da puta do escritório. Uma mensagem dos meus amigos felizes e casados me chamando pra jantar amanhã, etc, etc.

Como era bom estar de volta.

Vendido #0

Vendido #1

Vendido #2

Vendido #3

Amores Brutos #18

Março 18, 2008

Incomunicável. Era assim que se passou aquela última noite. Não havia como falar nada. Eu tentei, algumas vezes até. Dava pra saber o que viria na manhã seguinte, como anunciado, a fala terrível, carregada de uma tristeza ímpar, de um peso desnecessário.  Todos são fracos de alguma maneira, não importa quanta força irradiem. Eu fui. Levantei, peguei minhas coisas e saí de lá. Não podia suportar nada daquilo por mais tempo.

Demanda

Março 8, 2008

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E santo tolera ofensa?

Não, não. Nem sei. Foi há tempo demais, não dá pra lhe precisar o ano. Deve ser coisa de antes da tal guerra, aquela lá na Itália. Segunda Guerra? Essa mesma. Tinha um velho pros lados do Corgo Limpo que foi pra lá, sabia? Lutou, foi soldado. Ele morava numa casinha assim, sozinho. Moça nenhuma lavava roupa pra riba de lá com medo desse aí. Se vi ele falar foi pra comprar na venda, ainda assim muito pouco. Apontava quase sempre, deixava lá o dinheiro da pensão. Bebia nada! Tinha era mania de atirar em lata. Às vezes gente escutava cada pipoco, estrondo, quem nem trovão, mas era ele. Devia ser o jeito de passar o tempo. Tinha dia que ficava inteiro lá na venda, só assuntando. Em silêncio completo, bebendo café. Davam-lhe bom dia, boa tarde e ele balançava a cabeça. Vê isso!

Mas não sei dizer quando foi que aconteceu. Meu avô me contou, quando eu era novo, mas nunca disse o ano precisado. O senhor anote aí desse jeito, é o que dá pra precisar. Também não lembro da história toda, cabeça da gente falha demais nessa idade, mas vou lhe contar como ouvi.

Naquele tempo sei que tinha a Folia do Mato Seco. Contam que foi a família de Seu Rubim que fundou ela, pra modo de pagar promessa. A promessa? Aí já não sei. Cada um fala uma coisa: foi pra salvar colheita, vida de filho, sarar doença… vai saber. Mas todo dia 24 do dezembro, depois da meia noite, ele juntava os companheiro e saía fazendo a Folia.

Noutra partezinha aí, pro lado do Corgo Fino, tinha outra gente que cantava Folia. Desses não sei muito, já não estão mais por aí. Os velhos falam que o chefe dela era meio amargo, gente meio bruta. Senhor vê, Corgo Fino não tinha igreja, nem capela, mal estrada - a gente de lá era capiau mesmo. Nome dele era Julião, queria ajuntar esmola pra erguer uma capelinha pro São Sebastião.

E naquele tempo não tinha isso de tocar ali pertinho não, os folião comiam chão de instrumento em punho. Iam longe. Era cantoria em cada casa que chegavam. Vinham versando esmola, o senhor sabe, pro Santo Reis. Gente pobre dava o que podia, tostâo, vintém, mantimento até. Mas sempre tinha um doutor ou fazendeiro que recebia o folião em casa, davam esmola gorda, abrigo, cachaça boa, cozinhavam um macarrão com frango - iguaria fina!

Eis que afora, Dia de Reis, quando as duas Folias já tinham rodado meio mundo, dão cara no alto do morro ali, onde tem aquele cruzeiro. Quando isso acontecia o encontro desandava em uma demanda: as Folias iam tocando uma pra outra, respondendo verso e tudo, até uma desistir. Folião vencido entregava instrumento, bandeira, oratório e oferta…

Vai que as duas nunca paravam, quem perdesse ia dar ao outro ofertório cheinho. Sol alto e sol baixo e lá ia sanfona e viola comendo o dia. Até ajuntou gente a ver, redondeza toda daqui.

Daí, como feito pra destino, desabou um toró no fim da tarde, daqueles que não dá pra ver um palmo adiante. Todo mundo correu pra abrigar embaixo dum pezão de joá ali perto. E lá, mesmo com a chuva toda caindo, começou a discussão pra ver quem tinha parado primeiro. Veja o senhor como os antigos não deixavam nada por conta!

Meu avô já era moço feito, tava embaixo desse pé assistindo aquela loucura. Tentou apartar e quase levou um tapão na altura da orelha. Julião disse que nunca ia dar por vencido, do contrário o São Sebastião ia ficar sem capela. Seu Rubim, já velho idoso, protegido por filharada e sobrinhos falava que nunca, nunca ia entregar esmola que ele tinha suado de sanfona na cacunda pra conseguir.

As gentes que lá suplicavam, rezavam até pra resolver aquilo rápido. Brigar em Dia de Reis perto do cruzeiro e carregando bandeira de santo era pecado grande, se não era? Diantou nadinha… Julião, muito forte e belicoso, saiu de viola na cabeça duns pobres lá.

Foi que foi, se bateram demais. Um tal de Vercim até perdeu um bocado de dente. Negócio feio, feio mesmo, coisa que o senhor nem queria ver. Os antigos eram meio ignorante: num dava pra resolver um empate? Que coisa!

Mas tem pior, ah se tem. Quando já tinham arrebentado instrumento e cara de tudo quanto é folião, deram por conta que os ofertório tinham se ido no meio daquela desordem toda. Dá-lhe acusação, uns querendo voltar em casa pra buscar garrucha, facão, foice… Povo segurou eles. Procuraram no arredor todo, olharam com pessoal, ameaçaram até. Nada.

Aí o Julião pôs os joelho em terra e pediu perdão pro Santo Reis. Disse que era castigo imposto pelo feito ruim, chorou até. Empate dado, por brutalidade, as duas tinham perdido os instrumentos e dias de esmola. Punição de santo não é pouca! Seu Rubim entrou em acordo e se uniu a ele em reza. Todo mundo seguiu.

Mas contar pro senhor, tanta confusão de briga desse jeito, dia anoitecendo e tudo. Qualquer um podia ter roubado e corrido, pois não? Nunca se soube, e quem ia acusar em falso? Erro era deles. Foi essa a história. Mas lhe digo que meu avô, por mistério do mundo, ergueu casa aqui. Casou logo depois. Nunca lhe faltou nada. Ah…

Êxodo

Fevereiro 27, 2008

exodus

Longe…

Quando os primeiros daqui foram pra longe, trabalhar pros lados de São Paulo, gente toda duvidou. Diziam que capiau feito esses daqui iam arrumar serviço nenhum em cidade grande que nem aquela. Quando voltaro uns dez anos depois, vinha gente de tudo quanto é lugar aí pra riba pra fazer visita, agrado, pedir bênção.

Os três chegaram assim, diferente, bonito. Terno como não se via, sapato lustrado, cabelo bem cortado e penteado. Naquele tempo meu filho, isso era coisa de gente de posse. Os antigos andavam todos de pé no chão. Ternim que se tinha era só pra domingo de igreja e suava muito pra comprar. Sapato mal se via - ah! Ganhei meu primeiro quando já era homem feito, dezessete anos completos.

Morada nossa era barreada, casa simples, como o senhor ainda pode ver pelas roças longe afora - telha de coxa ou sapé pra cobrir, armada de madeira e taquara. Vê, quem vai morar nisso hoje? Só se usa pra rancho. Mas nem ruim era. Casinha dessa era fresca e, se bem cuidada, aguentava o tempo.

Povo morria assim de coisa boba também. Médico era raridade. Agora fome tinha pouca, só coisa de seca. Cabou tudo, aquela fartura… Vê, quem vai plantar roça hoje? O senhor? Meus neto? Cabo de enxada sobrou pra gente analfabeta de todo… resto quer escola, ofício que pague, carteira assinada. Sol na moleira é desaprovado… Ainda planto meu feijão, que fique gravado, meu milho também. Cana só parei porque rapadura findou, nem pra despesa vale à pena. Adianta?

Mas o negócio que te digo é… quando os três pisaram pras bandas de cá travez foi aquele alvoroço. Daí um mês, dois, três, foi se indo os novo. E daí não se parou de ir mais… até eu fui, como já lhe contei. Trabalhei em fábrica de tudo: pneu, enlatado… coisa que nem aqui se via. Depois passei a motorista. Dez anos mais tarde comprei quela Rural, sucata que o senhor viu ali fora. Voltei. Dirigir aqui dava um dinheirinho…

Vendido #3

Fevereiro 23, 2008

Queria que fosse mentira. Queria que ela estivesse contando a maior de todas as mentiras do mundo. Queria que a criança não fosse minha. Podia ser até o novo salvador aí, um outro messias de conceição imaculada.

O problema é que eu já tinha visto XnX mentir pra mim pelo menos umas mil vezes. Essas mentiras que os casados contam pra não se matarem na segunda semana de convivência. É engraçado, mas pelo menos até onde eu lembre nada disso acontece quando você convive com a sua família próxima. O que persiste ali é um surto demente de sinceridade - verdades atiradas na cara a todo momento.

Aí veja, justo quando já me sentia livre, desintoxicado da presença dela eis que surge a criança. Um elo de 200 toneladas pra nos ligar pelo resto da eternidade. Deus é um piadista genial, ou o “destino”, sei lá. De preferência o que for mais feio dos dois, nunca houve um bom piadista que fosse bonito - eu digo, assim, um galã.

E nessa piada, como um portuga ou uma loira, eu sou o sacaneado. A naba é minha. “Calma lá GXbrXXl, nada de se submeter à auto-piedade.” Mas é foda… fico imaginando eu indo buscar o pirralho pra passar o fim de semana na minha casa, que obviamente vai ser uma zona, e ela me enchendo a orelha com recomendações e encheções de saco.

Provavelmente ela vai se casar com algum empresário com pinta de tiozão, tipo a cara do governador. Ele usará um rolex, uma pulseira de ouro. Ela vai pintar o cabelo de louro, passar temporadas em Miami. Ele vai comer putas enquanto ela estiver lá. Meu filho vai chamá-lo de “papai” ou de “fulano”, e ele vai poder ensiná-lo a ser nojento que nem ele. Espero que ele não convença o menino a pentear o cabelo pra trás.

Enquanto isso eu provavelmente vou pegar meninas mais novas, que serão ludibriadas pela minha aparente experiência de vida e segurança. Depois de alguns anos, elas perceberão que é tudo fachada e vão procurar empresários com cara de tiozão, pintar o cabelo de louro e viajar pra Miami. Que julgamento eu estou fazendo das meninas… pelo menos serão umas gatinhas e vou poder fazer inveja na minha ex-mulher.

A ex… justo uma criatura que eu odeio vai ser a mãe do meu filho. Ela ainda acha que há chance de voltarmos, de eu querer outra coisa, do bebê salvar esse casamento naufragado por si só… Mas não há. Existem momentos que todo aquele amor idiota desaparece e só sobra uma raiva e um desprezo letal - sem espaço pra compreensão.

Só é possível odiar de verdade as pessoas de quem já fomos íntimos - e quanto mais íntimo, mais forte esse sentimento pode ser. Não é poesia de gótico, porra. Isso é verdade, você só não vai dar outra chance pra alguém com quem compartilhou tanta coisa. Só assim dá pra saber que realmente não vale à pena. E aí, quando você chegar à essa conclusão entre um cigarro e outro, vai descobrir que a tal pessoa que não quer mais é parte integrante da sua vida - contra a sua vontade.

Mas vou esperar, talvez o moleque nem seja meu filho mesmo.

Vendido #0

Vendido #1

Vendido #2

Amores Brutos #17

Fevereiro 10, 2008

Naqueles dias eu dormia durante as tardes para poder te ver de noite. Dias longos e calourentos. Dias de pouca saúde e muito tempo. Dias de muita bebida e pouco tento. Dias que passaram preguiçosos, com muitas surpresas gratas e algumas desgraças.

Agora que eles se foram é o tempo de colher. Fatos e feitos enraizados na carne… mas que se nutrem da alma. Destroços, esboços e engôdos, do inesperado ao planejado, do que tem que vazar, destravar, despedir.

Naqueles dias eu comia uma vez ao dia e vivia várias. Dias turvos e trapaceiros. Dias de ser contrário ao mundo, de fazer do errado o certo. Dias de roubar, matar e destruir. E gargalhar. Dias de cuspir e chorar. Ah…

Para cada um deles, uma despedida, um funeral e um memorial. Para cada um de nós o melhor de outros dias.

Amores Brutos #16

Janeiro 6, 2008

Os monges ascetas buscam a iluminação através da privação e, talvez, do sofrimento. Dormem em camas de pregos, se açoitam, vivem sem bens materiais, passam dias em jejum ou reclusão, praticam o celibato e a castidade. Em que mundo invertido castidade e celibato são fontes de sofrimento? Ah! Queria ver um monge que se dispõe a viver todos os relacionamentos que lhe são possíveis e consegue aprender com o sofrimento de cada um deles. Que disciplina permite isso? Que religião ensina isso? Que pregador, apóstolo, santo ou profeta falou sobre isso? Não. Todos ensinam que a privação e a fuga são o melhor caminho. Talvez porque não se aprenda nada com esse sofrimento ou porque até os ascetas se acovardam diante disso. Pois quer ver, na religião que fundei agora é melhor perder do que hesitar, é melhor se confundir do que se abster, é melhor se destruir do que se preservar. Privar-se não causa mal algum, é uma auto-preservação polida e carola. Os ascetas não entendem porra nenhuma de sofrimento.