Savoir-Faire

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O que é a distância? Uma linha entre dois ou mais pontos? Aquilo que há entre todas as coisas do universo? A proximidade absoluta não existe. Dois corpos podem se tocar, entre a fricção e a aderência, mas a fusão é o prenúncio da destruição. A proximidade não é sinônimo da completude, a distância não é o fim. Existiriam em si mesmas? Mesmo absolutamente longe o sentimento é de relativa proximidade. Todos os dias anuncio que o mundo é aqui, que a esterilidade parece  ser esmagada entre o céu e a água. O vazio e o isolamento tão falados parecem uma histórias contadas por viajantes supersticiosos. A distância, esta é pura dificuldade. Mas o que não é? A impossibilidade é o que não deveria existir.

Escrito por Barba

março 17, 2011 em 18:36

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…e mesmo depois de beber aquele tanto eu só pensava na solidão, na distância que existe entre o homem e o mundo… Vivemos sempre sozinhos, ainda que isso possa parecer impossível quando todo lugar anda tão repleto de tudo. Foi justamente naquilo que é vago que eu triunfei, nas fronteiras deformadas dos meus sonhos, nos espaços planos, nos lugares onde mal anda o diabo, quiçá deus qualquer. Eu falava, ouvia, sorria, farsa qualquer, não acreditava em nada. Não eram meus comparsas, não compartilhavam muito comigo além de embriaguez e certa dose de vaidade… o que é que poderiam entender de ódio?  Que turva a visão, embebeda de vermelho, planta a vontade de cortar, atear fogo, babar, mutilar. Aquele que não sabe do que eu falo nunca me cruzou o caminho, não fitou o olhar perdido, os dentes trincados e os braços marcados. Não sabe o que é humilhação, violência… a tristeza do abandono. A distância é o que aguarda no final, a melhor e mais perfeita panacéia para todos os males, tudo para não precisar viver consigo mesmo.

Escrito por Barba

março 7, 2010 em 23:37

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Superficialidade… eis uma benção. “Entre duas explicações possíveis, a mais simples deve ser verdade.” Uma dor se cura com um copo ou um corpo de o-que-você-quiser. Um momento para se entupir, entorpecer e parar de pensar. Antes isso que pensar até parar… esmagado pelo peso do vazio. Drama: qualquer um sabe que se trata disso. Do lado de lá todo e qualquer dilema experimentado aqui parece irrelevante e irreal, desprovido de sentido e vida. A sabedoria do outro aparenta um emaranhado e, mesmo que o seja, é mais forte do que essa. O superficial sempre depende da superfície… espelho não é chão e não pode ser transposto sem algum risco. Não sei o que existe adiante e nem sei se quero saber.

Escrito por Barba

fevereiro 22, 2010 em 17:20

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Num mundo onde tudo apita, o foco é privilégio de poucos. Como permanecer num esforço contínuo quando tudo parece arrastá-lo para longe de si. Mensagem, foto, elo, chamada, vídeo, cores e formas para desfocar. Cada dia parece menor, transbordando informação pelas bordas. Em 10 anos essa plenitude fragmentária será ainda mais intensa, até lá espero ter aprendido a lidar com ela.

Escrito por Barba

janeiro 9, 2010 em 19:22

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Nos meus sonhos o sol sempre está encoberto, seja por nuvens ou pela noite.  Pensei que isso fosse comum a todo e qualquer sonho, dada sua natureza nebulosa, mas descobri que é uma peculiaridade dos  meus. Neles abundam paisagens distorcidas, prédios velhos, viadutos, locais em construção, poeira, fumaça.  São um espelho ainda mais decadente desse mundo, uma projeção do irreversível.

Escrito por Barba

outubro 20, 2009 em 9:53

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A constatação da própria insignificância é um momento de brutalidade e doçura. Saber que você é mais um, ou menos um, na multidão. Que não é especial, que não é especialmente querido, que não é referência para ninguém. Que é só aquele um pouco chegado de todos e muito distante de tudo. Há um instante de pânico sublime, de vulnerabilidade total, quando se pensa que a qualquer momento é possível deixar de existir. E não digo morrer, mas sumir da memória das pessoas. Desaparecer sem deixar rastro ou legado. Perceber que sua vida é só um emaranhado desprovido de sentido, motivação ou direção. Esforço ou mérito caem diante da coincidência. O lugar certo, a hora certa. E então um meio sorriso cria a chave, o mapa, o traçado, as cores de tudo. E nada brilha tanto quanto parece. Todos os ídolos têm pés de barro. Os anjos já caíram e as amantes são rameiras. Arte é para afetados e a música para os desgraçados. As pessoas estão em seus pequenos universos desinteressantes… vivendo a utopia do dinheiro, das drogas, de Jesus. Alienação é a palavra mais usada num contexto de soberba – seria uma palavra de alienados? Não importa. Tudo segue fora de escala, fora de foco, fora de esquadro.

Escrito por Barba

setembro 28, 2009 em 1:27

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Os sonhos são estados ou espaços? Sempre existe a possibilidade de que sejam ambos, ou nenhum. Em se tratando de sonhos, é impossível escolher sem que tudo pareça inadequado. Seria suficiente saber que eles não contém nada além de si mesmos?

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junho 27, 2009 em 19:31

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O segredo. Potes de doce escondidos, adolescentes fumando longe das vistas dos pais, montinhos de sujeira varridos para debaixo do tapete, revistas pornográficas no cesto de roupa suja, o aparelho quebrado. A culpa. A vergonha avassaladora de ser descoberto, a insistência em se desculpar, a conformação silenciosa, o outro dia. A resignação é um exercício tortuoso.

Escrito por Barba

abril 28, 2009 em 0:08

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Escrever é um esforço que deriva de uma necessidade egoísta, de uma intensidade auto-centrada. É gostar de escutar o deslizar da caneta sobre o papel, o teclado pressionado inúmeras vezes por minuto – concerto para um piano torto. Escrever é algo que nunca se aprende – mesmo. É um fim e começo de algo que inspira no princípio mas logo, logo se torna patético. Escrever é um rastro do ócio, um desespero do prazo. É um sacrifício inútil, dotado de uma ilusão de eternidade. Escrever é se calar.

Escrito por Barba

março 24, 2009 em 0:53

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O pressuposto ontológico de uma Natureza é o pressuposto ontológico de uma Realidade (?). Aceitar que um multinaturalismo é possível seria aceitar o ponto de vista nativo sem uma reflexão? Apenas se esta incluir em seu germe, uma noção quase frazeriana de que o nativo estaria equivocado, refém de uma ilusão produzida por uma “cultura” que lhe é própria. Caberia então, a uma antropologia simétrica, pós-estrutural, um estandarte onde se estampa uma multiplicidade de pontos de vista, de perspectivas, de percepções, que se efetiva em uma multiplicidade de realidades.

Escrito por Barba

março 13, 2009 em 19:50

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Cultura para expressar unidade e diferença. Cultura para dizer tudo, para resumir qualquer argumento. Cultura para o totemismo da burguesia, para o ritual do selvagem. Cultura da empresa, Cultura da nação, Cultura da Internet, da geração, da etnia, do povo. Cultura para dizer que é chique, abreviado a cultuar, o cult. Cultura para afirmar, para conservar, para inventar. Cultura para o programa do governo, para o instalação do artista, para o blog do jornalista. Cultura, essa metáfora torta da Vida.

Escrito por Barba

fevereiro 19, 2009 em 17:56

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Seis dias depois, entre a chuva e o sangue, é possível perceber que não há outro caminho a não ser aquele que se decide seguir. Não há conforto nem sofrimento absolutos tal como não há rosa que não tenha espinho: uma lição que alguém só pode aprender depois de arrancar e experimentar todas as pétalas que lhe forem oferecidas. Essa mortandade fria, sempre presente quando algo deixa de ser, é uma espécie de legado daquilo que foi abandonado, deixado de lado, esquecido, despropositadamente ou à força. Porque sim, nada é mais poderoso que o esquecimento, a capacidade de renovar com a qual os homens de memória justíssima jamais poderão experimentar. E é para o novo que o caminho escolhido sempre aponta – todo rumo é rumo ao esquecimento.

Escrito por Barba

janeiro 28, 2009 em 21:02

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