14:42

Junho 27, 2009

Os sonhos são estados ou espaços? Sempre existe a possibilidade de que sejam ambos, ou nenhum. Em se tratando de sonhos, é impossível escolher sem que tudo pareça inadequado. Seria suficiente saber que eles não contém nada além de si mesmos?

00:08

Abril 28, 2009

O segredo. Potes de doce escondidos, adolescentes fumando longe das vistas dos pais, montinhos de sujeira varridos para debaixo do tapete, revistas pornográficas no cesto de roupa suja, o aparelho quebrado. A culpa. A vergonha avassaladora de ser descoberto, a insistência em se desculpar, a conformação silenciosa, o outro dia. A resignação é um exercício tortuoso.

00:53

Março 24, 2009

Escrever é um esforço que deriva de uma necessidade egoísta, de uma intensidade auto-centrada. É gostar de escutar o deslizar da caneta sobre o papel, o teclado pressionado inúmeras vezes por minuto – concerto para um piano torto. Escrever é algo que nunca se aprende – mesmo. É um fim e começo de algo que inspira no princípio mas logo, logo se torna patético. Escrever é um rastro do ócio, um desespero do prazo. É um sacrifício inútil, dotado de uma ilusão de eternidade. Escrever é se calar.

20:34

Março 13, 2009

O pressuposto ontológico de uma Natureza é o pressuposto ontológico de uma Realidade (?). Aceitar que um multinaturalismo é possível seria aceitar o ponto de vista nativo sem uma reflexão? Apenas se esta incluir em seu germe, uma noção quase frazeriana de que o nativo estaria equivocado, refém de uma ilusão produzida por uma “cultura” que lhe é própria. Caberia então, a uma antropologia simétrica, pós-estrutural, um estandarte onde se estampa uma multiplicidade de pontos de vista, de perspectivas, de percepções, que se efetiva em uma multiplicidade de realidades.

18:00

Fevereiro 19, 2009

Cultura para expressar unidade e diferença. Cultura para dizer tudo, para resumir qualquer argumento. Cultura para o totemismo da burguesia, para o ritual do selvagem. Cultura da empresa, Cultura da nação, Cultura da Internet, da geração, da etnia, do povo. Cultura para dizer que é chique, abreviado a cultuar, o cult. Cultura para afirmar, para conservar, para inventar. Cultura para o programa do governo, para o instalação do artista, para o blog do jornalista. Cultura, essa metáfora torta da Vida.

23:46

Janeiro 28, 2009

Seis dias depois, entre a chuva e o sangue, é possível perceber que não há outro caminho a não ser aquele que se decide seguir. Não há conforto nem sofrimento absolutos tal como não há rosa que não tenha espinho: uma lição que alguém só pode aprender depois de arrancar e experimentar todas as pétalas que lhe forem oferecidas. Essa mortandade fria, sempre presente quando algo deixa de ser, é uma espécie de legado daquilo que foi abandonado, deixado de lado, esquecido, despropositadamente ou à força. Porque sim, nada é mais poderoso que o esquecimento, a capacidade de renovar com a qual os homens de memória justíssima jamais poderão experimentar. E é para o novo que o caminho escolhido sempre aponta – todo rumo é rumo ao esquecimento.

03:55

Janeiro 6, 2009

Insônia como nunca antes. Leituras, reparos, escutas, espectativas – de espectador. Os pajés mantém segredo, Gaza queima e estremece, a magia é uma ciência abdutiva. Kavo.Worm ocupa 4 ou 6 horas e some para todo o sempre.  Minutos, pop ruim travestido de coisa cool pra agradar meninas blasé, Motörhead. Lei, ordem, facões e Will Smith andando sozinho em Nova Iorque. Agora, desligando o mundo porque amanhã já é outro.

03:41

Dezembro 30, 2008

“E em seguida a linha de segmentação maleável, em que o alcoólatra e a louca extraem, como em um beijo nos lábios e nos olhos, a multiplicação de um duplo no limite do que podem suportar em seu estado, com os subentendidos que lhes servem de mensagem interna.”

Deleuze e Guattari – 1874 -Três Novelas ou “O que se passou?”

16:42

Novembro 12, 2008

Antes de dar início a qualquer empreitada é preciso parar, olhar ao redor, abaixar os ombros, deixar os braços soltos. Cumprir a cartilha do sexto pecado capital do início ao fim. Então, alguma raiva virá, produzindo um levantar violento e um correr de volta para o mundo. E assim o caminho a ser percorrido se torna um projeto de uma vingança contra a indolência própria.

17:31

Setembro 14, 2008

Nua, ela escreve sobre a pele. Grava todas as palavras que eu queria gravar, palavras só minhas. Uma vestidura de verbo, feita feito luxo. Dispêndio de espírito impresso em carne delineando a forma imperfeita em completude. Convida, cruza o olhar de maneira a reter tudo em mãos… em braços e pernas de um corpo que não tem fim. Ou limiar. Mas a parábola que desejo não detém suavidade alguma, é feita amontoando golpes sobre pequenas letras sujas, derramadas. É limitada, incompleta, limítrofe. Em uma fronteira qualquer há punhado de tinta borrada por dedos duros mas as palavras, essas permanecem.

13:26

Setembro 11, 2008

00:26

Setembro 7, 2008

E de repente não acreditava mais em coisa alguma. No íntimo ninguém acredita em ninguém, o que torna uma boa dose de auto-engano necessária para conseguir o mais fino sopro de vida. Aos indignos, à multidão, a vingança consiste na ignorância, na dissimulação, no caráter duplo de cada palavra e cada olhar. Porque, mesmo que se queira dizer a doçura, não há qualquer maneira de conter a fumlinância involuntária, a vontade de ver tudo desabar, de rir por cima dos escombros. Qual a distância existente entre a desconfiança e a sensatez? Se ser razoável é ser pragmático, a paranóia é última sabedoria. A brutalidade a última força. O ódio o último sentimento – e tudo se destila em indiferença. E só então pode se voltar a crer

no que quer que seja.