Arquivo da categoria ‘horas’
20:45
O que é a distância? Uma linha entre dois ou mais pontos? Aquilo que há entre todas as coisas do universo? A proximidade absoluta não existe. Dois corpos podem se tocar, entre a fricção e a aderência, mas a fusão é o prenúncio da destruição. A proximidade não é sinônimo da completude, a distância não é o fim. Existiriam em si mesmas? Mesmo absolutamente longe o sentimento é de relativa proximidade. Todos os dias anuncio que o mundo é aqui, que a esterilidade parece ser esmagada entre o céu e a água. O vazio e o isolamento tão falados parecem uma histórias contadas por viajantes supersticiosos. A distância, esta é pura dificuldade. Mas o que não é? A impossibilidade é o que não deveria existir.
22:22
…e mesmo depois de beber aquele tanto eu só pensava na solidão, na distância que existe entre o homem e o mundo… Vivemos sempre sozinhos, ainda que isso possa parecer impossível quando todo lugar anda tão repleto de tudo. Foi justamente naquilo que é vago que eu triunfei, nas fronteiras deformadas dos meus sonhos, nos espaços planos, nos lugares onde mal anda o diabo, quiçá deus qualquer. Eu falava, ouvia, sorria, farsa qualquer, não acreditava em nada. Não eram meus comparsas, não compartilhavam muito comigo além de embriaguez e certa dose de vaidade… o que é que poderiam entender de ódio? Que turva a visão, embebeda de vermelho, planta a vontade de cortar, atear fogo, babar, mutilar. Aquele que não sabe do que eu falo nunca me cruzou o caminho, não fitou o olhar perdido, os dentes trincados e os braços marcados. Não sabe o que é humilhação, violência… a tristeza do abandono. A distância é o que aguarda no final, a melhor e mais perfeita panacéia para todos os males, tudo para não precisar viver consigo mesmo.
17:04
Superficialidade… eis uma benção. “Entre duas explicações possíveis, a mais simples deve ser verdade.” Uma dor se cura com um copo ou um corpo de o-que-você-quiser. Um momento para se entupir, entorpecer e parar de pensar. Antes isso que pensar até parar… esmagado pelo peso do vazio. Drama: qualquer um sabe que se trata disso. Do lado de lá todo e qualquer dilema experimentado aqui parece irrelevante e irreal, desprovido de sentido e vida. A sabedoria do outro aparenta um emaranhado e, mesmo que o seja, é mais forte do que essa. O superficial sempre depende da superfície… espelho não é chão e não pode ser transposto sem algum risco. Não sei o que existe adiante e nem sei se quero saber.
12:48
Num mundo onde tudo apita, o foco é privilégio de poucos. Como permanecer num esforço contínuo quando tudo parece arrastá-lo para longe de si. Mensagem, foto, elo, chamada, vídeo, cores e formas para desfocar. Cada dia parece menor, transbordando informação pelas bordas. Em 10 anos essa plenitude fragmentária será ainda mais intensa, até lá espero ter aprendido a lidar com ela.
23:51
Nos meus sonhos o sol sempre está encoberto, seja por nuvens ou pela noite. Pensei que isso fosse comum a todo e qualquer sonho, dada sua natureza nebulosa, mas descobri que é uma peculiaridade dos meus. Neles abundam paisagens distorcidas, prédios velhos, viadutos, locais em construção, poeira, fumaça. São um espelho ainda mais decadente desse mundo, uma projeção do irreversível.
01:26
A constatação da própria insignificância é um momento de brutalidade e doçura. Saber que você é mais um, ou menos um, na multidão. Que não é especial, que não é especialmente querido, que não é referência para ninguém. Que é só aquele um pouco chegado de todos e muito distante de tudo. Há um instante de pânico sublime, de vulnerabilidade total, quando se pensa que a qualquer momento é possível deixar de existir. E não digo morrer, mas sumir da memória das pessoas. Desaparecer sem deixar rastro ou legado. Perceber que sua vida é só um emaranhado desprovido de sentido, motivação ou direção. Esforço ou mérito caem diante da coincidência. O lugar certo, a hora certa. E então um meio sorriso cria a chave, o mapa, o traçado, as cores de tudo. E nada brilha tanto quanto parece. Todos os ídolos têm pés de barro. Os anjos já caíram e as amantes são rameiras. Arte é para afetados e a música para os desgraçados. As pessoas estão em seus pequenos universos desinteressantes… vivendo a utopia do dinheiro, das drogas, de Jesus. Alienação é a palavra mais usada num contexto de soberba – seria uma palavra de alienados? Não importa. Tudo segue fora de escala, fora de foco, fora de esquadro.
14:42
Os sonhos são estados ou espaços? Sempre existe a possibilidade de que sejam ambos, ou nenhum. Em se tratando de sonhos, é impossível escolher sem que tudo pareça inadequado. Seria suficiente saber que eles não contém nada além de si mesmos?
00:08
O segredo. Potes de doce escondidos, adolescentes fumando longe das vistas dos pais, montinhos de sujeira varridos para debaixo do tapete, revistas pornográficas no cesto de roupa suja, o aparelho quebrado. A culpa. A vergonha avassaladora de ser descoberto, a insistência em se desculpar, a conformação silenciosa, o outro dia. A resignação é um exercício tortuoso.
00:53
Escrever é um esforço que deriva de uma necessidade egoísta, de uma intensidade auto-centrada. É gostar de escutar o deslizar da caneta sobre o papel, o teclado pressionado inúmeras vezes por minuto – concerto para um piano torto. Escrever é algo que nunca se aprende – mesmo. É um fim e começo de algo que inspira no princípio mas logo, logo se torna patético. Escrever é um rastro do ócio, um desespero do prazo. É um sacrifício inútil, dotado de uma ilusão de eternidade. Escrever é se calar.
20:34
O pressuposto ontológico de uma Natureza é o pressuposto ontológico de uma Realidade (?). Aceitar que um multinaturalismo é possível seria aceitar o ponto de vista nativo sem uma reflexão? Apenas se esta incluir em seu germe, uma noção quase frazeriana de que o nativo estaria equivocado, refém de uma ilusão produzida por uma “cultura” que lhe é própria. Caberia então, a uma antropologia simétrica, pós-estrutural, um estandarte onde se estampa uma multiplicidade de pontos de vista, de perspectivas, de percepções, que se efetiva em uma multiplicidade de realidades.
18:00
Cultura para expressar unidade e diferença. Cultura para dizer tudo, para resumir qualquer argumento. Cultura para o totemismo da burguesia, para o ritual do selvagem. Cultura da empresa, Cultura da nação, Cultura da Internet, da geração, da etnia, do povo. Cultura para dizer que é chique, abreviado a cultuar, o cult. Cultura para afirmar, para conservar, para inventar. Cultura para o programa do governo, para o instalação do artista, para o blog do jornalista. Cultura, essa metáfora torta da Vida.
23:46
Seis dias depois, entre a chuva e o sangue, é possível perceber que não há outro caminho a não ser aquele que se decide seguir. Não há conforto nem sofrimento absolutos tal como não há rosa que não tenha espinho: uma lição que alguém só pode aprender depois de arrancar e experimentar todas as pétalas que lhe forem oferecidas. Essa mortandade fria, sempre presente quando algo deixa de ser, é uma espécie de legado daquilo que foi abandonado, deixado de lado, esquecido, despropositadamente ou à força. Porque sim, nada é mais poderoso que o esquecimento, a capacidade de renovar com a qual os homens de memória justíssima jamais poderão experimentar. E é para o novo que o caminho escolhido sempre aponta – todo rumo é rumo ao esquecimento.


