Mais MUD
Outubro 23, 2008
Depois de escrever o post sobre os MUDs, eis que vem o Marcelão – jornalista do futebol e dos games em geral – e me conta que no dia 20 de outubro os MUDs tinham completado 30 anos de idade. O Rocha também escreveu sobre a a experiência dele durante a “Era Dourada” dos MUDs lá no Área Cinza. Me espantaram alguns comentários lá no Área que davam a entender que jogar um jogo baseado em texto poderia ser algo menos divertido ou interessante do que um jogo gráfico. Posso falar que é singular, que exige um esforço de imaginação e atenção diferente do que os jogos gráficos exigem.
Eu não resisti e fui dar uma vasculhada em MUDs que já joguei para ver se eles não tinham sido abandonados. A grata surpresa foi encontrar o Achaea com 220 jogadores online numa noite de quinta-feira, todos se divertindo e traçando planos junto a suas respectivas facções. O Achaea é um jogo gratuito mas se um jogador quiser ele pode investir dinheiro (de verdade) no personagem e torná-lo poderoso. Isso é um grande foco de críticas para jogadores que queriam um jogo inteiramente gratuito, no entanto o gasto de dinheiro real em objetos e moedas virtuais já é algo mandatório na maioria dos MMO.
De qualquer forma fiquei feliz em saber que um MUD comercial fundado no mesmo ano em que estreou Ultima Online, o primeiro MMO gráfico a emplacar, continua funcionando e gerando lucro. E viva os MUDs.
Old School #3 : MUDs!
Outubro 21, 2008
Los Juegos
Outro dia me lembrei que a indústria dos jogos eletrônicos passou por pouco o faturamento do cinema no ano passado. Para quem aprendeu a jogar River Raid aos 4 anos isso é uma notícia e tanto. Desde 98, ano em que foi lançado Metal Gear Solid para Playstation, venho observando que um “hit” da indústria de jogos se tornou tão complexo (e custoso) de se produzir quanto um longa-metragem. Games desse tipo costumam ter roteiros elaborados, cutscenes extensas, dublagem feita por bons profissionais. Talvez seja justamente o formato cinematográfico a razão de tanto sucesso.
Felizmente os gamedesigners não vivem só de imitar o formato do cinema, e muitos jogos buscam colocar vários jogadores simultâneamente em situações de confronto e cooperação. Daí vêm a idéia dos jogos multiplayer. Tudo bem, é justo falar que PONG ou Tennis for Two eram voltados para mais de um jogador e, logo, que os primeiros video-games tinham essa lógica – que tornava a manufatura mais simples já que nenhuma IA era necessária.
Mas e jogos com mais de dois jogadores? Alguns arcades e consoles tinham títulos onde isso era permitido, mas a verdadeira revolução do multiplayer veio com os chamados massive games. Os MMO (Massively Multiplayer Online) costumam ser mais viciantes que crack – quem tem um amigo ou conhecido que joga sabe do que eu estou falando. World of Warcraft, Lineage e Ragnarok são exemplos de massivos bem sucedidos. Mas os MMO não vieram dos arcade nem dos consoles, sua história é um pouco mais diversa.
Os Massively Online de outrora
Mais precisamente em meados da década de 70, alguns programadores do PLATO System – plataforma que deveria ser usada exclusivamente para desenvolver aplicativos educacionais – criaram vários jogos. Estes eram completamente baseados em texto, no melhor estilo do Zork, e jogados através das redes locais das universidades européias.
Estavam criado os primeiros MUDs (Multi-User Dungeons) e, até onde eu sei, foram os primeiros jogos com modo multiplayer remoto da história. Muitas versões de MUDs seriam desenvolvidas, alguns usando a logomarca Dungeons & Dragons sem permissão, e eventualmente levadas para o DOS.
Com o advento dos computadores baratos (no 1o Mundo, claro) e conexões BBS via modem os MUDs se tornaram variados e numerosos. E chegaram até a década de 90 como uma das mais interessantes e acessíveis formas de entretenimento online.
Mas como funciona um MUD?
Diferente de um jogo com uma plataforma gráfica, onde qualquer ação ou evento é ilustrada na tela, o MUD anuncia e descreve essas ações em bases textuais. Quando o personagem entra em uma “sala”, como é chamada uma unidade de espaço imaginário do MUD, surge um pequeno texto no terminal descrevendo o lugar, listando objetos e personagens que se encontram ali. Quando uma ação é desempenhada, ela também é descrita por texto.
Segue um pequeno exemplo, com uma “sala” e objetos descritos:
A caverna é pouco iluminada mas morcegos podem ser vistos voando ocasionalmente por todas as direções. Muitos ossos estão depositado à esquerda, em uma pilha grande e volumosa. O lugar cheira a guano e pedra fria, com uma umidade que impregna o ar. Água pode ser ouvida gotejando em algum lugar. Há uma velha espada enferrujada no chão.
Objetos: Uma espada enferrujada.
Saídas: Norte, Fora.A descrição de uma “sala” inclui uma noção geral do que está contido nela além das direções para onde é possível andar – “fora” no caso seria para sair da caverna. Alguns objetos são listados de forma óbvia, como a espada enferrujada, e outros podem aparecer apenas no corpo da descrição, como a pilha de ossos. Se jogador digitar “examinar ossos” ou coisa do tipo ele terá uma descrição do que são esses ossos, se há algo embaixo da pilha, etc.
Se outro personagem – digamos, uma mulher – entrar na “sala”, examinar a pilha de ossos e seguir para o norte o terminal mostrará algo como os seguintes textos:
Uma mulher entra na sala.
Uma mulher examina a pilha de ossos.
Uma mulher sai pelo norte.Em alguns MUDs ao invés de uma descrição genérica como “uma mulher” pode aparecer o nome do personagem. Em outros o nome só aparecerá para os jogadores que conheçam aquele personagem de alguma situação prévia.
MUDs
Minha primeira experiência com esses jogos se deu em 1997, quando eu tinha acabado de entrar no Colégio Técnico da UFMG. Como o caipira que era, eu nunca tinha usado a internet até por os pés no laboratório de informática de lá. Um colega me falou de um jogo, que parecia uma sala de chat, e deixava ele acordado à noite inteira. Era um tal de Avalon.
Entrei no site, li um pouco do que se tratava o jogo e fiquei bem empolgado. Tentei jogar o Avalon umas 200 vezes, mas a lentidão da conexão fazia tudo ficar sofrível. Nunca consegui fazer mais do que andar por algumas salas e ter uma vaga noção do que seria a interatividade proporcionada pelo jogo.
Em uma outra oportunidade, dois anos mais tarde, eu estava vagando por alguns sites com ilustrações e textos a respeito de O Senhor dos Anéis. Acabei achando na parte de links o endereço de um tal de The Two Towers, um MUD ambientado na Terra Média. Algum tempo depois eu comprei o meu primeiro computador e pude jogar o T2T, como ele era chamado.
The Two Towers
O T2T não era um MUD muito sofisticado em se tratando do sistema de jogo. A mecânica era simples, os personagens tinham poucos poderes e, caso pertencessem à mesma classe, eram muito parecidos uns com os outros. A vantagem era o cenário.
Embora não fosse 100% fiel aos elementos estéticos e aos conceitos da Terra Média de Tolkien, o Two Towers tinha em jogo quase todas as regiões descritas em O Senhor dos Anéis Isso mantinha viva aquela sensação de vagar por lugares ermos e descobrir ruínas, cavernas, esconderijos de bandidos, tumbas amaldiçoadas. Explorar o cenário de T2T era grande parte da diversão.
Na época, o MUD costumava a ter 300 jogadores conectados o dia todo. Esse número pode parecer ínfimo quando comparado com a legião de jogadores que povoam os servidores de MMORPGs mas num MUD isso significa sala lotada. As áreas (virtuais) geralmente não são tão grandes e muitos jogadores online pode significar uma disputa acirrada por recursos.
Como toda comunidade virtual, os MUDs também têm sua micropolítica e no T2T as coisas não eram diferentes. Uma teia de guildas, clãs, grupos, alianças era tecida o tempo todo mas cum um diferencial: a prática do PK (playerkilling) era julgada e condenada por outros jogadores – que também mantinham a lei para todos os outros aspectos. Aliar-se a outros jogadores era não apenas desejável como necessário, já que não era possível combater inimigos ou juntar recursos sem a ajuda ocasional de alguém.
Joguei T2T com regularidade durante 1 ano. Minha conexão discada horrível não me permitiu ir muito longe no jogo. Meu personagem chegou a ter alguns aliados importantes, mas acabei meio insatisfeito com a administração sobre como a parte de PK estava sendo conduzida já que alguns personagens mais experientes estava “assassinando” novatos indiscriminadamente e a administração se recusava a encarar o problema. Mais tarde acabaram mudando isso, mas eu já estava jogando outros MUDs e estava com preguiça de voltar ao T2T. Na época em que saí eu já conhecia uns dez brasileiros que também jogavam.
Outros
Joguei outros MUDs além de ter testado pelo menos uns trinta. Como muitos MUDs são jogos sem fins lucrativos organizados por fãs eles têm licença para usar temas de outras mídias. MUDs baseados em filmes, livros e até mesmo outros jogos são comuns, o que dá ao jogador opções interessantes. Além do T2T recomendo os seguintes:
SWMUD: MUD temático de Star Wars. Tem um ótimo sistema, é bem adequado ao universo e dá uma grande liberdade na criação de personagens. Garante horas e horas de diversão mas não possui uma ativa como se esperaria de uma comunidade virtual. Os jogadores interagem pouco entre si e não há intriga nem rivalidade apesar de todos estarem distribuídos entre o Império e os Rebeldes. o SWMUD vale à pena ser jogado como um excelente jogo de texto com alguma interação ocasional.
Achaea: A jóia dos MUDs. Desprezando a parte gráfica, Achaea pode ser considerado o jogo online mais complexo e bem estruturado já construído. Ele tem um universo fantástico próprio, com suas lendas, deuses e organizações – muito baseado em mitologia grega e nórdica. Mas seu grande atrativo é ser completamente orientado para os jogadores e seus personagens. Ao contrário dos outros MUDs onde as ações dos personagens influem pouco ou nada no cenário, a história de Achaea é construída com base no que fazem os jogadores. São eles quem controlam o comércio, que treinam outros personagens, que mandam nas cidades e reinos do jogo. O jogo também tem uma ênfase bacana na interpretação de papéis – você tem mesmo que “entrar” no personagem – e muitos eventos, como guerras e surgimento de reinos, acontecem no mundo por influência de grupos de jogadores. O tempo passa em jogo, fazendo com que objetos se desgastem e personagens envelheçam. Achaea é de graça, mas jogadores que quiserem podem comprar pacotes especiais – com dólares – com itens que ajudam seus personagens. Só há um pequeno problema: Achaea só pode ser jogado por desempregados, aposentados e pessoas de férias porque é absurdamente viciante.
O fim de uma Era
Infelizmente muitos MUDs estão vazios nesses tempos de jogos online com gráficos estonteantes. Hoje grande parte dos MUDs concentra poucas dezenas de jogadores veteranos, o que desencoraja mesmo um novato muito interessado.
Acho isso uma pena, primeiro porque os MUDs são comunidades mantidas por fãs de um determinado tema ou aficionados por jogos e programação. Nem por isso deixam de ser divertidos e bem organizados, bons lugares para aprender inglês, trocar experiências com outras pessoas do mundo todo e começar a digitar sem “catar milho” no teclado (sim, eu aprendi jogando).
Além disso, se posso dizer algo sobre os MUDs é que eles ainda estão anos-luz à frente de muitos outros jogos online em termos de possibilidades e experiência de usuário. Seria bom se as grandes empresas do ramo de MMORPGs pudessem aprender algo com isso e fazer jogos onde a única possibilidade de interação não é matar monstros, acumular tesouros e avançar de nível.
Para ir além
Alguns links úteis.
Mushclient: Melhor programa que já usei para jogar MUD.
The Mud Connector: Diretório com centenas de MUDs listados e descritos de acordo com critérios específicos – se possuem ênfase na interpretação de papéis dos personagens, para qual temática estão orientados, qual sistema de jogo usam, o tamanho do “universo virtual”, etc.
Valinor: Único MUD inteiramente em português que conheço. Como o T2T, o Valinor também é ambientado na Terra Média e parece organizado por um pessoal muito sério. Infelizmente só tomei conhecimento dele muitos anos depois de ter largado os MUDs de vez.
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Leia também:
Os verdadeiros MMORPGs: post do Rocha no Área Cinza, também sobre a “Era Dourada” dos MUDs.
Old School #1 : Cadillacs & Dinosaurs
Old School #2 : Akira
Fighting Fantasy
Devil Got My Woman
Setembro 26, 2008
Ah, run off with the devil, gonna beat that woman bad.
Ah, run off with the devil, gonna beat that woman bad.Oh, nothing but the devil, change my baby’s mind.
Oh, nothing but the devil, change my baby’s mind.I laid down last night, laid down last night,
I laid down last night, tryin to take my rest.
My mind got to ramblin, like a wild geese from the west,
From the west.The woman I love, woman that I love,
Woman I love, took her from my best friend.
But he got lucky, stoled her back again.
And he got lucky, stoled her back again.
Fighting Fantasy
Setembro 23, 2007
Como todo jogador de RPG (nerd!) brasileiro nascido na década de 80 fui inciado no hobby por dois produtos: o jogo Hero Quest e os livros da série Aventuras Fantásticas.
Logo depois passei pro Dungeons & Dragons da Grow, depois pra um sistema caseiro, depois pro AD&D da Abril Jovem e assim por diante. Hero Quest era divertido e me rende boas lembranças, mas pra série Aventuras Fantásticas eu tiro o chapéu até hoje.
O primeiro que joguei foi A Cripta do Vampiro, no qual seu personagem era um aventureiro tentando matar um vampirão genérico no melhor estilo do Conde Drácula. Lembro que, além dos usuais atributos Habilidade e Sorte, você tinha que rolar a Fé do personagem em situações assustadoras. Divertido demais!
Comprei alguns livros depois disso. Cheguei a ter O Calabouço da Morte, um outro que não gostei e nem lembro mais o nome, e Dungeoneer – nada mais na menos que um sistema avançado do Aventuras Fantásticas pra se jogar em grupo. Mas a Cripta do Vampiro eu nunca mais achei, nem quando percorri vários sebos em busca do livro – o que eu usava era emprestado.
Bem, pelo menos até hoje. Uma galera teve a inciativa de escanear os livros-jogo da série e colocar pra download. Pirataria? Claro, mas além de estarem esgotados a editora está marcando toca de não republicar pelo menos os que venderam mais. Eu compraria, e aposto que as pessoas que estão baixando os livros fariam o mesmo.
O blog deles é esse aqui.
PS: Se você é realmente tem a nerdice em níveis perigosos, pode baixar os jogos eletrônicos da série feitos pra Sinclair ZX Spectrum, um daqueles computadores que rodavam programas em fita cassete, junto com um emulador na página oficial.
Art Blakey & Freddie Hubbard – Moanin’
Junho 8, 2007
Charlie Parker & Dizzy Gillespie – Hot House
Maio 22, 2007
Old School: Queer Edition
Março 16, 2007
Ok, ok. Sabemos que gay também significa alegre. Mas nem por isso o nome deixa de ser estranho.
Sim. Batman e Robin numa mesma cama, falando em banho e café da manhã.
“Punish me daddy! I deserve it!”
“Uh, that’s hot! Say it again!”
“Hey, no fisting allowed!”Retirado do excelente superdickery.com
Old School Special Edition
Dezembro 13, 2006
Back, in 1983… um comercial do D&D abusando da animação podrona dos anos 80 : )
Old School #2 : Akira
Setembro 19, 2006
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Se na atualidade o mangá está mundialmente firmado como uma grande mídia do entretenimento, estejam certos de que nem sempre foi assim. Desde as historinhas do Astroboy até os fenômenos cult como Blade of the Immortal e Evangelion, os quadrinhos japoneses percorreram um grande caminho. Um dos grandes responsáveis pelo sucesso dessa trajetória foi o artista Katsuhiro Otomo, ninguém menos que o pai de Akira. E já que a história do mangá no mundo está dividida entre o pré e o pós-Akira, nada mais justo do que falar essa obra-prima, cuja publicação mais tarde rendeu um dos melhores longas-metragens da animação.
Editado no Japão pela revista Young Magazine, durante o período de 1982 até 1990, Akira foi o projeto mais ambicioso de Katsuhiro Otomo. O mangá tomou muito fôlego quando um outro quadrinho de sua autoria, Domu, foi transformado em romance e ganhou o Grand Prix of 1983 for best Sci-Fi Novel. Akira foi trazido para o Ocidente pela Epic Comics (subsidiária da gigante Marvel), que coloriu e espelhou o mangá para garantir que ele tivesse lugar no mercado norte-americano. O início da publicação na gringa se deu em 1988, pouco mais de um ano antes do lançamento do longa metragem nos cinemas, mas devido a uma série de problemas teve sua regularidade perturbada e só terminou em 1995. Cinco anos mais tarde a Dark Horse lançou toda a série em seis volumes preto e branco.
No Brasil, Akira passou a ser publicado pela Editora Globo em 1990 e também teve os mesmo problemas da edição norte-amercicana – já que dependia dos originais coloridos. Para desespero geral da galera, a Globo terminou a publicação apenas em 1997. Hoje, ainda é possível achar as edições encadernadas em sebos, com preços que variam entre R$ 50 e R$ 200!
Akira passa em um futuro distópico com um clima bem próximo do retratado nos então recentes Neuromancer e Blade Runner mas com um foco bastante diferente, como se vê no desenrolar da história. Nesse mundo Tokyo foi destruída em 1992 por uma misteriosa explosão de proporções nucleares, que acabou se desdobrando na III Guerra Mundial. A guerra acabou, trinta e oito anos se passaram, o mundo se reergueu e agora, onde antes haviam ruínas, o Japão construiu sua nova capital: Neo-Tokyo.
Tudo começa durante um racha de motocicleta nas ruínas da antiga Tokyo, levado a diante por uma gangue de motoqueiros juvenis e irresponsáveis. Kaneda, o líder do grupo, é desafiado por Tetsuo, seu amigo de infância, mas durante um certo momento da corrida um fato inexplicável acontece: uma estranha criança surge no meio da pista, bem na frente de Tetsuo. Antes mesmo de tentar desviar, ele tem sua motocicleta explodida em pedaços e fica severamente ferido. Quando seus amigo vêm socorrê-lo, acabam notando que a criança tem um aspecto que lembra bastante um idoso e que em sua mão direita está gravado o número 26. Mas antes que possam fazer qualquer pergunta ela desaparece como um fantasma!
Kaneda, Tetsuo, Yamagata e outros vagabundos em um momento de descontração.
Após esse episódio insólito Kaneda, Tetsuo, Yamagata e Kaisume (os últimos também membros da gangue) se vêem envolvidos em uma trama que envolve o exército, altos escalões do governo, poderes psíquicos e parece estar conectada com a misteriosa explosão que devastou Tokyo anos atrás. Daí em diante, o roteiro que se desenvolve nas absurdas 1800 páginas de Akira introduz novos personagens, tramas e subtramas, que vão construindo uma ótima história. Além de mestre no traço, Katsuhiro Otomo se mostra como um roteirista competente.
Muitos do que consideramos serem traços da cultura japonesa são retratados em Akira. Kaneda e seu bando são autênticos representantes das bosozoku: gangues de jovens interessados em modificações ilegais em carros e motos que ocasionalmente promovem vandalismo e combates nas ruas. A falta de perspectiva e as pressões que sofrem da sociedade também expressam uma rigidez antiga que persiste no Japão moderno. O tema da evolução, do alcance de um estado de graça, é recorrente ao se tratar dos poderes psíquicos e remete claramente ao Budismo. Além disso Akira foi escrito na década de 80, quando o Japão era sinônimo de modernidade e o retrato da tecnologia avançada no mangá deixa clara essa referência. Além disso, pode-se dizer que Otomo segue o melhor da crueza dos quadrinhos japoneses, não poupando sangue nem personagens. Se você quiser ler, é melhor preparar o estômago.
Nem todo mundo tem final feliz…
Correm boatos que Akira será relançado no Brasil – em preto e branco e formato mangá – pela Editora JBC. Se isso for verdade tratem de comemorar, porque finalmente quem perdeu a edição da Globo vai poder acompanhar essa belezinha.
Old School #1 : Cadillacs & Dinosaurs
Setembro 4, 2006
Ok. Se até agora eu só fiquei postando chatices acadêmicas, análises gonzo e contos sobre traficantes e loucos violentos é porque tem algo errado. Eu sou nerd, tenho nerd pride, então nada mais saudável que balancear esse conteúdo com alguma coisinha mais leve – e nerd. Então à partir de hoje eu começo uma série (irregular como eu) chamada Old School. A idéia é tematizar quadrinhos, seriados, filmes e jogos velhos mas que nada têm de ultrapassados – até porque se tornaram clássicos!
Hoje vamos falar sobre Cadillacs & Dinosaurs. Pra que nem não sabe esse é o nome de um jogo de arcade lançado pela CAPCOM no início da década de 90, baseado no obscuro quadrinho Xenozoic Tales.
Xenozoic Tales, obra do ilustrador e quadrinista Mark Schultz, foi publicado no final da década de 80 pela Kitchen Sink Comix. Mais tarde, foi colorizada e reeditada pela Marvel sob o nome de Cadillacs & Dinosaurs, mesmo título do jogo de arcade e do desenho animado que viria a ser produzido pela rede de TV norte-americana CBS.
Tanto em arte quanto no teor do roteiro, Xenzoic se aproxima dos quadrinhos da Era Dourada e das histórias de pulp fiction, em particular os títulos de Edgar Rice Burroughs como Tarzan e Barsoom, mas com um conteúdo bem mais funesto. Em Cadillacs & Dinosaurs, depois de mudanças climáticas bruscas a humanidade foi forçada a se refugiar por 600 anos nos subterrâneos. Quando finalmente emergiram o mundo estava povoado novamente pela fauna pré-histórica! Na Era Xenozóica, como é chamado esse novo período, os humanos vivem nas ruínas das antigas cidades e não são mais os protagonistas do mundo – que, com os lagartões soltos, se tornou um lugar bastante ameaçador.
É nesse mundo que vive Jack “Cadillac” Tenrec, um mecânico que acredita que finalmente os humanos têm a possibilidade de conviver em harmonia com o planeta. Durante o tempo em que a humanidade esteve nos subterrâneos os mecânicos eram vitais para a manutenção do maquinário que permitia que a vida continuasse, por isso tinham um status elevado. Jack ainda goza desse prestígio, com muitos empregados e aliados, além de sua famosa garagem onde ele repara e adapta todo tipo de maquinário que encontra nas ruínas – especialmente cadillacs.
A história começa com a chegada da diplomata Hannah Dundee, habitante de uma outra tribo. Hannah é o equivalente a uma cientista e, como observadora implacável, consegue compreender o que se passa ao seu redor como nenhum outro.
Depois se salvar Hannah de uma tentativa de assassinato Jack manifesta uma mal disfarçada atração por ela, que parece prontamente correspondida. No entanto, a relação que se estabelece entre os dois em nada aponta para um romance e eles terão que enfrentar os perigos da violenta Era Xenozóica enquanto têm que aprender a lidar um com o outro. As histórias quase sempre tratam das descobertas dos dois a respeito do novo e do velho mundo que se estendem à sua volta. Em estilo pulp, Xenozoic Tales tem muitas cenas de impacto e ação, especialmente dinossauros perseguindo cadillacs envenenados.
Já o game Cadillacs & Dinosaurs é bem mais conhecido no Brasil. Boteco com fliperama que se preza tem que ter duas máquinas: um Street Fighter pirata e podrão, daquele que o Ryu solta dois hadouken de uma vez, e uma Cadillac & Dinosaurs, igualmente pirata e tosca, adaptada em um visor comum que acaba cortando a tela do jogo.
Com uma historinha é básica, coisa digna do gênero “beat ‘em up” consagrado pelo arqueológico Final Fight, o jogo se consagrou por ser divertido e de excelente jogabilidade. Outro fator responsável pelo sucesso de Cadillac é o uso extenso de armas de fogo (revolver, espingarda, submetralhadora, fuzil, bazuca, etc…) no jogo, coisa pouco usual nos outros jogos do gênero.
Hannah não deixa barato!
Os mesmos cenários e personagens do quadrinho dão as caras, e jogador pode escolher entre Jack Tenrec, Hannah Dundee, Mustapha Cairo e Mess O’Bradovich – os dois últimos são coadjuvantes em Xenozoic Tales. O grupo se vê às voltas com caçadores de dinossauros mas acabam descobrindo que um cientista louco está criando mutantes híbridos entre humanos e dinos, acreditando que esse é próximo passo pra a evolução. Mais trash impossível.
Clássico como ele só, Cadillac & Dinosaurs ainda vale à pena ser jogado. Afinal de contas não é todo dia em que você acha um jogo onde submetralhaoras Uzi, dinossauros, pin-ups e cadillacs se encontram pra sua diversão. Se você ainda não conhece, melhor não deixar de dar um pulo naquele fliperama da esquina.
PS: Como muita gente veio aqui atrás da ROM segue um link para o download dela e outro pra download do emulador. Se tiver esse jogo no boteco ou padaria próximo da sua casa não deixe de gastar 20 centavos na ficha seu pão-duro.






