Teerã em chamas

Junho 18, 2009

iran (3)

Fotos aqui, aqui e aqui.

Escritos aqui e aqui.

http://shooresh1917.blogspot.com/2009/06/minute-by-minute-with-revolution.html

Mil Pedras

Abril 21, 2009

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Finalmente assisti Der Baader-Meinhof Komplex. Como afirmei minha obsessão pela RAF nesse outro post, onde também fiz um resumo do contexto e da história do grupo terrorista, vou me limitar a comentar um pouco das minhas impressões sobre o filme – e o que nele se envolve.

O filme de Uli Edel, baseado num livro de Stefan Aust, é a produção mais cara do cinema alemão, e também conta com performance dos melhores e mais célebres atores de lá. Der Baader-Meinhof Komplex (referido à partir daqui como DBMK) recria muito bem o climão das décadas de 60 e 70, tanto na parte técnica quanto nos dilemas. Muito da história foca  na tensão entre o ideal socialista romântico e as implicações mais severas de todas as tentativas de se “fazer a revolução” – fossem elas contradições internas ou a repressão, muitas vezes brutal.

Ulrike Meinhof (Martina Gedeck)

Ulrike Meinhof (Martina Gedeck)

Nesse contexto de violência e mudança, Ulrike Meinhof (Martina Gedeck) é uma jornalista de esquerda que vivencia um conflito entre a teoria e prática de suas idéias. Divorciada e mãe de duas filhas, ela é seduzida pela visceralidade de Andreas Baader (Moritz Bleibtreu) e Gudrun Ensslin (Johanna Wokalek), dois beatniks extremistas condenados por atear fogo a uma loja de departamentos em prostesto contra a Guerra do Vietnã, Ulrike acaba envolvida com a instauração de um movimento de guerrilha urbana na Alemanha Ocidental.

Recrutando seus membros entre simpatizantes de esquerda, estudantes e ex-internos em reformatórios, a RAF segue em sua campanha de assaltos a banco e atentados a alvos militares. O filme se concentra nos três personagens, considerados os líderes e fundadores da Facção Exército Vermelho – o que é um problema. Quem tem algum conhecimento dessa história sabe que, entre membros e partidários, a RAF tinha algumas boas dezenas de integrantes. DBMK deixa isso no vácuo, inserindo muitos dos personagens na história sem a contextualização necessária – o que causa alguma confusão. Introduzir cada personagem tomaria muito tempo do filme, mas deixar de fazê-lo torna ele difícil para quem não tem conhecimento do assunto.

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Andreas Baader (Moritz Bleibtreu) e Gudrun Ensslin (Johanna Wokalek)

O ponto positivo é que o trio Baader, Ensslin e Meinhof teve um tratamento à altura de sua estranha história. Baader é mostrado como dono de uma personalidade explosiva, machista e pouco brilhante. Sua capacidade de liderar o grupo reside no seu carisma controverso e no apoio incondicional que recebe de Ensslin – sua companheira – retratada como uma revolucionária apaixonada e, muitas vezes, irredutível. Meinhof, por outro lado, é quem tem alguma ponderação, fato pelo qual os outros dois líderes a consideram fraca. A relação de conflito entre os três e os diálogos daí decorrentes foram muito bem produzidos, tendo como com base nos escritos deixados por eles e nos depoimentos de ex-membros do grupo.

Outro ponto forte é maneira como ficou retratada a escalada de violência entre o Estado alemão e a RAF. À medida que membros do grupo e policiais iam morrendo, cada lado do conflito se tornava disposto a fazer pior. A tortura e a neglicência por parte algumas autoridades que resultou na morte de guerrilheiros da RAF é contraposta pela figura do chefe da polícia, Horst Herold (Bruno Ganz). Mesmo com a missão de desarticular a RAF e prender seus membros, Herold se recusa a acreditar que há respostas simples para o fenômeno colocado diante dele. A cena em que ele conversa com seus associados e é acusado de simpatizar com os terroristas a cada vez que, em voz alta, tenta desvendar seus motivos é emblemática.

Na minha reles opinião, é na sinergia entre o pensamento de Herold e as ações lideradas por Brigitte Mohnhaupt (Nadja Uhl) que estão alguns dos momentos mais densos do filme. Mohnhaupt é que cooderna os assassinatos mais brutais da RAF, a maioria feitos em retaliação ao que ocorre em Stammheim – a prisão de segurança máxima feita exclusivamente para abrigar e julgar membros do grupo e outros guerrilheiros urbanos. E Herold, que prefere refletir antes de agir cada vez que recebe a notícia de um atentado, parece ser privilegiado em entender o que se passa.

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Chacina durante o seqüestro de Hanns Martin Schleyer.

A cena do assassinato de Siegfried Buback (Gerald Alexander Held) é emblemática nesse sentido. Mohnhaupt leva a cabo a vingança pela morte de membros da RAF em Stammheim, fuzilando todos que estavam dentro do carro de Buback. Diante do comunicado do atentado, o assistende Herold pergunta “O que leva novas unidades terroristas a ser formar? O que os motiva?”, e ele responde “Um mito”.

E é sobre esse mito que DBMK versa. O mito de que do outro lado da Cortina de Ferro não havia opressão, o mito de que a luta armada era a única forma de contrapor a violência do Estado, o mito de que martírio e revolução andam de mãos dadas. E como toda mitologia, aquela que cercava os membros da RAF pode estar datada, o que não exclui seu poder – e nem sua razão de ser.

Em um texto, Ulrike Meinhof escreveu: “Jogue uma pedra e é um crime. Jogue mil pedras e trata-se de uma ação política”. As mil pedras da RAF não foram jogadas em seus atentados – já que nem de longe eles foram o grupo terrorista mais eficiente na Alemanha daquele tempo. Seu triunfo residiu em seu espetáculo de violência, em sua capacidade de mobilizar a mídia para suas figuras, no fato de que saíram da história para entrar na cultura pop.

E isso não é tudo.

Protesto! O ditatômetro é uma invenção da burguesia ocidetal!

"O Ditatômetro é uma invenção da burguesia Ocidental!"

Como eu não assino a Folha, não tive acesso ao polêmico editorial da “ditabranda” até ler esse artigo do Observatório da Imprensa, linkado no blog do Carlos.

A pergunta que não quer calar é: existe ditadura que põe só a cabecinha? Que estupra mas não mata? Se pensarmos como os editores da Folha, isso existe e tem nome: ditabranda. Penso até em um slogan “Ditabranda: porque os nossos torturadores antidemocratas são melhores que os dos outros”.

O regime de Alberto Fujimori, muito bem lembrado pelo infeliz editor da Folha, contava com uma polícia pessoal do presidente que cometeu atrocidades sob a justificativa de combater o Sendero Luminoso. Os homens de Fujimori torturaram guerrilheiros, camponeses, indígenas – os últimos, por sua vez também eram torturados e mortos pelos guerrilheiros do Sendero – e ao fim foram incapazes de capturar Abimael Guzmán. Esse, foi preso pela polícia “de verdade”, cujos chefes ainda sabiam o que era investigar.

Mas olha, podemos dizer que Fujimori só fez o que fez porque estava na iminência de ver o Peru transformado em um Estado Comunista, que mataria milhões e milhões mais… e isso seria um puta tiro no pé.

E é isso que a boa e velha direita brasileira gosta de dizer sobre o regime militar daqui. Já cheguei ao cúmulo de escutar a seguinte pergunta: “quem matou mais: Stalin ou Geisel?”. Me parece bastante conveniente colocar o autoritarismo nesses termos.

Para evitar essa polêmica virulenta é melhor começarmos a definir quais são as piores e as melhores ditaduras, as maiores e as menores. Assim poderemos dizer, por exemplo, que a China Comunista de Mao foi uma ditaduríssima, sempre preparada. Nada como essa meia-bomba erguida pelos militares canarinho.

Sendo assim, proponho a criação de um ranking de ditaduras, o Ditatômetro.

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Glamour e Ditabranda no Chile.

Critérios de pontuação

+20 se defende abertamente alguma ideologia

+5 se sua instauração for chamada de “revolução”

+10 se possuir um símbolo (+60 se ele for uma caveira ou osso)

+20 se possui um líder icônico (+100 se ele tiver um mito de origem)

+1 para cada 1o mil mortos

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E ainda vão duvidar disso.

Ranking

5o1 ou mais pontos – Ditaduríssima: a revolução não acontecerá enquanto todos não tiverem decorado o livrinho e quem não o fizer será sumariamente executado. Pena que o país tem um bilhão de pessoas…

301 a 500 pontos – Ditadurona: os traidores são enviados para o fuzilamento ou colônias de férias na Sibéria. Os cidadãos morrem em crises de fome, mas tudo faz parte do esforço de deixar de ser burguês.

201 a 300 pontos – Ditaduraça: um povo é culpado de todos os males. Muitos dos seus vão brincar de câmara de gás, experimentos médicos e fornos.

101 a 200 pontos – Ditadura: a matança per capita é alta, mas como o país fica em uma região sem importância geopolítica ninguém mantém estatísticas ou faz filmes sobre isso.

51 a 100 pontos – Ditadureca: milhares morrem e são torturados, mas tudo o que vão lembrar é que o regime salvou o país dos perigosos comunistas.

11 a 50 pontos – Ditadurinha: o país é tão pequeno e tão próximo do inimigo que os opositores fogem à nado. O restante morre nas prisões e não sensibiliza ninguém.

10 ou menos pontos – Ditabranda: ninguém quer machucar ninguém, já que todo mundo tá afim mesmo é de praia e cerveja, mas alguém tem que impedir os malignos militantes da oposição. A brandura permite que alguns fiquem vivos e cheguem ao poder 20 anos depois.

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Nada como um descanso relaxante no Arquipélago Gulag.

Vejam o quanto somos fudidos aqui na Brasilândia: nem conseguimos ter uma ditadura decente para nos oprimir. Vou mudar pra Coréia do Norte.

Obama, o Nacional-Socialista

Novembro 13, 2008

Diversão

Ok, vocês não precisavam ver isso.

Congressman sorry for likening Obama to Hitler

“It may sound a bit crazy and off base, but the thing is, he’s the one who proposed this national security force,” Broun told the AP. “I’m just trying to bring attention to the fact that we may– may not, I hope not — but we may have a problem with that type of philosophy of radical socialism or Marxism.

Broun was specifically referring to a July speech by Obama, where the then-Democratic presidential nominee said he supports a civilian force helping the military when it comes to national security: “We’ve got to have a civilian national security force that’s just as powerful, just as strong, just as well funded [as the military],” Obama said in the speech that was largely a call to national service.

Responding to those comments, Broun told the AP Monday: “That’s exactly what Hitler did in Nazi Germany and it’s exactly what the Soviet Union did. When he’s proposing to have a national security force that’s answering to him, that is as strong as the U.S. military, he’s showing me signs of being Marxist.

Mas olhem só, pessoas mais “sensatas” já disseram algo assim antes:

Quanto à campanha de Obama, seu perfil é claro. O amálgama de promessas utópicas, propaganda avassaladora, beatificação psicótica do líder, apelo racial, controle da mídia e intimidação sistemática do eleitorado é idêntico nos mínimos detalhes à estratégia eleitoral de Hitler em 1933, mas para dizer isso em público – ou mesmo conscientizá-lo em voz baixa – é preciso mais coragem do que se pode esperar do eleitor médio hoje em dia.

Vejamos, a América, terra das milícias civis armadas treme ante a possibilidade de uma força armada civil proposta por Obama – que ao fim, não me parece tão diferente da National Guard. O problema todo não seria a ascensão da Águia Democrata e os campos de concentração para republicanos e rednecks, mas algo que resultaria na derrocada contratos para segurança nacional negociados com a Blackwater, nosso exército mercenário preferido. E Broun, como vários outros republicanos, apóia declaradamente a Blackwater.

Depois das trocentas denúnicas de violência desproporcional contra civis no Iraque, dos abusos cometidos na situação do Katrina e da ameaça a Marshall Adame a Blackwater continua livre, leve, solta e fora do alcance de qualquer lei.

Big Brother is Watching You

Novembro 9, 2008

Bamalama

Novembro 5, 2008

HOPE?

Discuti um pouco com o Fu sobre o que poderia significar a vitória de Barack Obama. Entendo que foi algo revolucionário o fato dos norte-americanos terem eleito um presidente negro mas sou cético em relação à tal “esperança” que Obama parece representar. Após uma administração desastrosa, duas guerras desnecessárias e uma crise galopante parece quase mandatório que tanta esperança recaia sobre Obama.

Quando Bush foi eleito, tive uma conversa longa com a mãe de uma amiga sobre o que fariam os republicanos. Ela, ativa em movimentos sociais, acreditava que as coisas iam piorar. Eu, anarco-punk de boutique, acreditava que qualquer um dos dois candidatos seria a mesma coisa. Os oito anos seguintes provaram que ela estava certa. O 9/11 foi um evento intenso, mas nada que pudesse justificar o caos bélico que se seguiria, a instabilidade que fomentou uma escalada sem limites do terrorismo da Al-Qaeda e dos soldados da fortuna da Blackwater. O efeitos desses 7 anos de guerras serão ainda mais atrozes nessa próxima década.

O que a vitória de Obama representa é uma descrença em relação ao discurso vazio que marcou as administrações republicanas e também um reflexo do estouro da bolha de consumo. Se Obama não é um símbolo de uma esperança profética para o mundo sua eleição, enquanto rejeição da insanidade republicana ele significa que nem tudo está (muito) perdido.

Aquele, o “menos pior”

Outubro 26, 2008

"Ruas limpas serão a marca da minha gestão!"

Ontem, numa conversa na cozinha da (nova) casa do Perna (e da Ana) chegamos à conclusão que a eleição no Brasil deveria ser pautada pelo índice de rejeição. Você marcava as várias opções de pessoas nas quais não votaria de maneira alguma e o candidato com o menor índice de rejeição era eleito. Esse papo nonsense regado a drinks estilosos é um pouco a cara desse segundo turno em Belo Horizonte. De ressaca hoje de manhã (manhã é gentileza, mas enfim) fui votar no Lacerda.

Eu não queria votar no Lacerda de jeito nenhum. Na verdade no primeiro turno eu não queria votar em ninguém, então votei nulo. E então, eis que Lacerda, seus negócios estranhos e tecnocracia pra boi dormir parece uma escolha muito, muito mais sensata do que a de seu rival. Eu gosto de ver debates e acompanhar a eleição pela internet, evitando a propaganda política ao máximo mas bastou ver o programa de Leonardo Quintão para ficar assustado. Saber então que ele estava com 51% nas pesquisas me causou um bocado de desespero.

Quintão é um espécie de síntese de tudo o que eu mais detesto em um candidato. Sua fala é calcada em chavões e bordões, típicos dos discursos que escutei quando morava no interior. Ele abusa de maneirismos e fala de forma tão emotiva que não inspira o mínimo de sinceridade – na verdade costumo achar que ele morre de rir depois de gravar aquilo. A respeito do discurso humanista de boteco no qual “gente cuida de gente” não há o que dizer… Mas o pior para mim é a maneira como ele insere a questão religiosa.

Quando um candidato atesta que deve ser escolhido porque “é do Senhor” dá pra ver até que nível a coisa chegou. A idéia de que uma religião qualquer agrega qualidades a alguém que vá exercer um cargo de autoridade é, no mínimo, desconfortável.  Chama a atenção o quanto um candidato cristão protestante parece ter certas qualidades intrínsecas, como se o eleitorado projetasse alguns valores sagrados nele. Bush e Pallin, alguns dos políticos mais assustadores desse século condenado, abusam do “God’s Will” em seus discursos, fazendo coro curioso com os fundamentalistas islâmicos. O candidato passa de político a parte de um “Plano Divino”. Além do histórico nada promissor da administração dos Quintão em Ipatinga, a idéia de ter um prefeito cujo compromisso político começa com “deus e adjacências” me parece absurda – que seja de qualquer religião, mas que não coloque isso como questão.

Então desci ao nível de dar meu voto ao “menos pior”, pedindo por uma administração “menos pior”. Se o resultado for uma cidade “menos pior” que atualmente, posso até ficar satisfeito. A única coisa que sei é que será “menos pior” do que aquela eventualmente administrada por um cruzamento do Fernando Collor com o Anthony Garotinho.

Maldito segundo turno.

Der Baader-Meinhof Komplex

Outubro 18, 2008

Andreas Baader e Gudrun Ensslin, líderes da RAF, durante um julgamento

Minha obsessão pelo Baader-Meinhof sempre foi confessa. Desde o final de 2002, quando li o livreto Televisionários em poucas horas na casa do Rocha, tentei saber mais sobre a vida e err… obra do grupo terrorista cuja marca distintiva era um misto de charme e crueza sem limites.

Baader-Meinhof era o nome “popular” da Facção Exército Vermelho (Rote Armee Fraktion ou RAF) um grupo radical surgido na Alemanha Ocidental na década de 1960. A RAF foi formada num contexto muito particular, onde um movimento estudantil de orientação comunista se consolidava frente a  alguns tópicos delicados naquela Alemanha pós-guerra. O primeiro deles se referia à manuntenção de muitos ex-membros do Partido Nazista em posições de poder, ilegalidade do Partido Comunista, além da ascenção dos conservadores ao poder – que alguns anos mais tarde culminou no expurgo de muitos funcionários públicos com idéias “radicais”. O segundo se referia ao controle da OTAN sobre a Alemanha e uma oposição ferrenha à Guerra do Vietnã.

O embate entre os estudantes e o Estado chegou a ponto sem retorno quando, em 1967, um estudante é morto em um protesto contra o Xá do Irã, Mohammad Reza Pahlavi. Benno Ohnesorg foi morto com um tiro na cabeça e o policial responsável pelo disparo absolvido em um julgamento posterior. A ação desproporcional se tornou um marco e causou reações intensas na esquerda alemã. Muitos questionavam o monopólio da violência pelo Estado e afirmavam que o governo da Alemanha Ocidental não havia rompido com o fascismo.

É nesse contexto que o a RAF surge com um projeto político radical, com uma clara orientação maoísta. Seus membros eram estudantes e profissionais envolvidos com movimentos de esquerda, alguns com um certo renome como a jornalista Ulrike Meinhof. Inspirada pelo Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano de  Carlos Marighella a RAF inverteu a noção maoísta do campesinato revolucionário defendendo a guerrilha urbana. Após uma temporada de treinamento na Palestina, o grupo começou sua campanha de atentados, assaltos e manifestos em 1970.

A RAF podia ser um grupo terrorista qualquer, defendendo o maoísmo ou qualquer outro “ismo” e derramando algum sangue pra mostrar que ninguém estava ali brincando. Mas algo os tornou celebridades nacionais. As perseguições policiais, fugas, trocas de tiros e outras ações da RAF eram ousadas. A presença e importância das mulheres no grupo era um diferencial, e o charme beatnik dos membros chamava atenção. Usando a violência de uma maneira, literalmente, espetacular a RAF entrou para o rol dos bandidos-heróis.

Cena do filme Der Baader-Meinhof Komplex. Se eu for atingido, que seja por uma moça nesse modelito...

Com o lançamento de Der Baader-Meinhof Komplex (Alemanha, 2008) a história do grupo deve voltar a ter alguma evidência. O filme, baseado no premiado livro de mesmo nome escrito por Stefan Aust, já vem causando alguma polêmica. Parentes de vítimas da RAF se dividem sobre o teor do roteiro, alguns afirmam que a história desrespeita as vítimas e que seria uma espécie de Bony e Clyde moderninho. Outros, como o filho de Hanns-Martin Schleyer, entenderam que o filme mostra a RAF como ela realmente era “um bando de assassinos impiedosos e insensíveis”.

Enquanto o filme não chega por aqui é possível assistir a trailer sem legenda e pensar se, afinal de contas o projeto da RAF não teria sido bem sucedido. O livreto Televisionários, de Tom Vague, tem esse título por causa de uma teoria de que os membros da RAF se guiavam pela imagem deles que era projetada na mídia – daí seriam (tele)visionários. Julgando pelo trailer abaixo e pelo efeito que esse filme terá  na representação da RAF durante os próximos anos talvez eles não estivessem nada errados.

Atualizado 21/04/2009:  assisti o filme e escrevi uma resenha/comentário.

A tal festa

Outubro 8, 2008

Argumentos?

As eleições se resumem a uma ressaca no domingo de manhã. Uma leitura antes de levantar da cama. Uma despedida rápida seguida de uma esfirra de carne, um refresco de laranja e uma cigarrilha. No ônibus falam sobre o candidato que ama muito a filhinha e chora no horário político. Do outro que a cunhada da filha conhece e é muito trabalhador, honesto. Do vereador que é servo de Jesus mas não vai conseguir votos para se eleger.

Dois meses antes, a eleição era a feijoada na casa do genro do candidato. As propagandas absurdas, as discussões sobre a ética da aliança, sobre os limites de um apoio declarado, sobre quem era aliado de quem. Procedências, providências, expectativas.

No fim, com os olhos pregados, basta se esforçar para lembrar da sessão. Entrar, digitar alguns números escolhidos no último segundo, e concluir. Cumprir o dever, participar dessa tal festa. Uma festa de ruas sujas, inundadas de papel, de comentários perdidos sobre esses mal-ditos anfitriões.

Essa eleição, uma síntese mal feita, onde tudo fez ainda menos sentido.

No Terra:

Já foi debatida no Congresso uma proposta de plebiscito para resolver essa questão. O que o senhor acha dessa idéia? Quem está distante do cotidiano de Roraima fica sem saber quantos índios de fato apóiam a demarcação contínua…

A gente tem a expectativa de que 70% a 80% dos índios não apóiam essa demarcação contínua. São índios aculturados, que já vivem num mundo diferente. Eles querem estudar, ter celular, bicicleta, querem faculdade, internet com banda larga. Eles não querem mais essa segregação.

De onde saíram esses números? Onde diabos terra contínua significa segregação? Só nas crônicas do Hélio Jaguaribe ou na cabeça de senhores comprometidos com agronegócio feito por grileiros. Terra contínua é garantia e riqueza, pode ser justamente a maior chance de poder aos povos indígenas para poderem usufruir do que a modernidade lhes oferece – e os índios sabem disso muito bem. É curioso notar como a negação a qualquer coisa que cheire a modernidade como condição do “ser índio”. A nós, modernos, cidadãos, ocidentais, está reservada a última instância de uma identidade preservada sob qualquer suspeita, passando por quaisquer mudanças. Para os outros, o necessário é provar uma condição qualquer, passar pelo crivo superficial do que um burocrata define como “acultução”.

E, independente disso, acho muito mais questionáveis os antecedentes dos nossos amigos de Roraima. A galerinha de lá é da pesada.

Agosto 11, 2008

Me impressiona o quanto a questão indígena no Brasil é tratada na base de “dois pesos, duas medidas¨. Mílicias que abrem fogo contra índios desarmados são tratadas como ilegais, mas logo depois o apresentador de jornal se esmera em dizer que os indígenas haviam adentrado em terras alheias – daí não se explica, mas se justifica o ato. Menos de uma semana depois, numa discussão acalorada, o braço de um engenheiro é cortado. O escarcéu leva semanas de atenção, com direito a todo tipo de discussão e intriguinha a respeito de quem teria comprado os facões, de como os povos indígenas do Brasil seriam violentos, etc, etc, etc. Não sou a favor de qualquer violência desse tipo e não acho que nem nenhum dois casos tem qualquer justificativa plausível.

Só acho impressionante a sociedade nacional se questionar a respeito de uma suposta imunidade penal dos indígenas e se fechar a respeito de qualquer discussão das muitas violências que eles têm sofrido. Ontem, contabilizei o terceiro assassinato de índios por não-índios na etnia com a qual trabalho, em menos de um ano.

Durante o processo de regularização territorial, ou de “luta pela terra” como eles preferem chamar, os Xakriabá sofreram inúmeras violências- entre chacinas, roubos e expulsão de famílias. Os responsáveis e mandantes estão por aí, livres, alguns ocupando cargos de destaque na política da região. O assassinato de ontem teve motivação clara, um recado aos indígenas que se envolveram na política regional como maneira de trazer melhorias para seu povo. Os dois primeiros ficaram impunes e espero, ainda que não muito, que não seja o caso para esse. Alguma justiça há de haver.

… e duvido que o Jornal Nacional gastará mais de 2 minutos com isso.