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Mil Pedras

Finalmente assisti Der Baader-Meinhof Komplex. Como afirmei minha obsessão pela RAF nesse outro post, onde também fiz um resumo do contexto e da história do grupo terrorista, vou me limitar a comentar um pouco das minhas impressões sobre o filme – e o que nele se envolve.
O filme de Uli Edel, baseado num livro de Stefan Aust, é a produção mais cara do cinema alemão, e também conta com performance dos melhores e mais célebres atores de lá. Der Baader-Meinhof Komplex (referido à partir daqui como DBMK) recria muito bem o climão das décadas de 60 e 70, tanto na parte técnica quanto nos dilemas. Muito da história foca na tensão entre o ideal socialista romântico e as implicações mais severas de todas as tentativas de se “fazer a revolução” – fossem elas contradições internas ou a repressão, muitas vezes brutal.

Ulrike Meinhof (Martina Gedeck)
Nesse contexto de violência e mudança, Ulrike Meinhof (Martina Gedeck) é uma jornalista de esquerda que vivencia um conflito entre a teoria e prática de suas idéias. Divorciada e mãe de duas filhas, ela é seduzida pela visceralidade de Andreas Baader (Moritz Bleibtreu) e Gudrun Ensslin (Johanna Wokalek), dois beatniks extremistas condenados por atear fogo a uma loja de departamentos em prostesto contra a Guerra do Vietnã, Ulrike acaba envolvida com a instauração de um movimento de guerrilha urbana na Alemanha Ocidental.
Recrutando seus membros entre simpatizantes de esquerda, estudantes e ex-internos em reformatórios, a RAF segue em sua campanha de assaltos a banco e atentados a alvos militares. O filme se concentra nos três personagens, considerados os líderes e fundadores da Facção Exército Vermelho – o que é um problema. Quem tem algum conhecimento dessa história sabe que, entre membros e partidários, a RAF tinha algumas boas dezenas de integrantes. DBMK deixa isso no vácuo, inserindo muitos dos personagens na história sem a contextualização necessária – o que causa alguma confusão.

Andreas Baader (Moritz Bleibtreu) e Gudrun Ensslin (Johanna Wokalek)
O ponto positivo é que o trio Baader, Ensslin e Meinhof teve um tratamento à altura de sua estranha história. Baader é mostrado como dono de uma personalidade explosiva, machista e pouco brilhante. Sua capacidade de liderar o grupo reside no seu carisma controverso e no apoio incondicional que recebe de Ensslin – sua companheira – retratada como uma revolucionária apaixonada e, muitas vezes, irredutível. Meinhof, por outro lado, é quem tem alguma ponderação, fato pelo qual os outros dois líderes a consideram fraca. A relação de conflito entre os três e os diálogos daí decorrentes foram muito bem produzidos, tendo como com base nos escritos deixados por eles e nos depoimentos de ex-membros do grupo.
Outro ponto forte é maneira como ficou retratada a escalada de violência entre o Estado alemão e a RAF. À medida que membros do grupo e policiais iam morrendo, cada lado do conflito se tornava disposto a fazer pior. A tortura e a neglicência por parte algumas autoridades que resultou na morte de guerrilheiros da RAF é contraposta pela figura do chefe da polícia, Horst Herold (Bruno Ganz). Mesmo com a missão de desarticular a RAF e prender seus membros, Herold se recusa a acreditar que há respostas simples para o fenômeno colocado diante dele. A cena em que ele conversa com seus associados e é acusado de simpatizar com os terroristas a cada vez que, em voz alta, tenta desvendar seus motivos é emblemática.
Na minha reles opinião, é na sinergia entre o pensamento de Herold e as ações lideradas por Brigitte Mohnhaupt (Nadja Uhl) que estão alguns dos momentos mais densos do filme. Mohnhaupt é que cooderna os assassinatos mais brutais da RAF, a maioria feitos em retaliação ao que ocorre em Stammheim – a prisão de segurança máxima feita exclusivamente para abrigar e julgar membros do grupo e outros guerrilheiros urbanos. E Herold, que prefere refletir antes de agir cada vez que recebe a notícia de um atentado, parece ser privilegiado em entender o que se passa.

Chacina durante o seqüestro de Hanns Martin Schleyer.
A cena do assassinato de Siegfried Buback (Gerald Alexander Held) é emblemática nesse sentido. Mohnhaupt leva a cabo a vingança pela morte de membros da RAF em Stammheim, fuzilando todos que estavam dentro do carro de Buback. Diante do comunicado do atentado, o assistende Herold pergunta “O que leva novas unidades terroristas a ser formar? O que os motiva?”, e ele responde “Um mito”.
E é sobre esse mito que DBMK versa. O mito de que do outro lado da Cortina de Ferro não havia opressão, o mito de que a luta armada era a única forma de contrapor a violência do Estado, o mito de que martírio e revolução andam de mãos dadas. E como toda mitologia, aquela que cercava os membros da RAF pode estar datada, o que não exclui seu poder – e nem sua razão de ser.
Em um texto, Ulrike Meinhof escreveu: “Jogue uma pedra e é um crime. Jogue mil pedras e trata-se de uma ação política”. As mil pedras da RAF não foram jogadas em seus atentados – já que nem de longe eles foram o grupo terrorista mais eficiente na Alemanha daquele tempo. Seu triunfo residiu em seu espetáculo de violência, em sua capacidade de mobilizar a mídia para suas figuras, no fato de que saíram da história para entrar na cultura pop.
E isso não é tudo.
The Ace of Spades
Esse é o melhor vídeo do mundo, disparado. Não é todo dia que duas grandes realizações da humanidade, como Mad Max e Motörhead podem ser vistas num crossover épico desse porte.
[na verdade já mostrei isso pra todo mundo que eu conheço, mas não faço idéia de porque nunca postei aqui]
Der Baader-Meinhof Komplex
Minha obsessão pelo Baader-Meinhof sempre foi confessa. Desde o final de 2002, quando li o livreto Televisionários em poucas horas na casa do Rocha, tentei saber mais sobre a vida e err… obra do grupo terrorista cuja marca distintiva era um misto de charme e crueza sem limites.
Baader-Meinhof era o nome “popular” da Facção Exército Vermelho (Rote Armee Fraktion ou RAF) um grupo radical surgido na Alemanha Ocidental na década de 1960. A RAF foi formada num contexto muito particular, onde um movimento estudantil de orientação comunista se consolidava frente a alguns tópicos delicados naquela Alemanha pós-guerra. O primeiro deles se referia à manuntenção de muitos ex-membros do Partido Nazista em posições de poder, ilegalidade do Partido Comunista, além da ascenção dos conservadores ao poder – que alguns anos mais tarde culminou no expurgo de muitos funcionários públicos com idéias “radicais”. O segundo se referia ao controle da OTAN sobre a Alemanha e uma oposição ferrenha à Guerra do Vietnã.
O embate entre os estudantes e o Estado chegou a ponto sem retorno quando, em 1967, um estudante é morto em um protesto contra o Xá do Irã, Mohammad Reza Pahlavi. Benno Ohnesorg foi morto com um tiro na cabeça e o policial responsável pelo disparo absolvido em um julgamento posterior. A ação desproporcional se tornou um marco e causou reações intensas na esquerda alemã. Muitos questionavam o monopólio da violência pelo Estado e afirmavam que o governo da Alemanha Ocidental não havia rompido com o fascismo.
É nesse contexto que o a RAF surge com um projeto político radical, com uma clara orientação maoísta. Seus membros eram estudantes e profissionais envolvidos com movimentos de esquerda, alguns com um certo renome como a jornalista Ulrike Meinhof. Inspirada pelo Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano de Carlos Marighella a RAF inverteu a noção maoísta do campesinato revolucionário defendendo a guerrilha urbana. Após uma temporada de treinamento na Palestina, o grupo começou sua campanha de atentados, assaltos e manifestos em 1970.
A RAF podia ser um grupo terrorista qualquer, defendendo o maoísmo ou qualquer outro “ismo” e derramando algum sangue pra mostrar que ninguém estava ali brincando. Mas algo os tornou celebridades nacionais. As perseguições policiais, fugas, trocas de tiros e outras ações da RAF eram ousadas. A presença e importância das mulheres no grupo era um diferencial, e o charme beatnik dos membros chamava atenção. Usando a violência de uma maneira, literalmente, espetacular a RAF entrou para o rol dos bandidos-heróis.

Cena do filme Der Baader-Meinhof Komplex. Se eu for atingido, que seja por uma moça nesse modelito...
Com o lançamento de Der Baader-Meinhof Komplex (Alemanha, 2008) a história do grupo deve voltar a ter alguma evidência. O filme, baseado no premiado livro de mesmo nome escrito por Stefan Aust, já vem causando alguma polêmica. Parentes de vítimas da RAF se dividem sobre o teor do roteiro, alguns afirmam que a história desrespeita as vítimas e que seria uma espécie de Bony e Clyde moderninho. Outros, como o filho de Hanns-Martin Schleyer, entenderam que o filme mostra a RAF como ela realmente era “um bando de assassinos impiedosos e insensíveis”.
Enquanto o filme não chega por aqui é possível assistir a trailer sem legenda e pensar se, afinal de contas o projeto da RAF não teria sido bem sucedido. O livreto Televisionários, de Tom Vague, tem esse título por causa de uma teoria de que os membros da RAF se guiavam pela imagem deles que era projetada na mídia – daí seriam (tele)visionários. Julgando pelo trailer abaixo e pelo efeito que esse filme terá na representação da RAF durante os próximos anos talvez eles não estivessem nada errados.
Atualizado 21/04/2009: assisti o filme e escrevi uma resenha/comentário.
Sweet home Alabama
Banksy está num tour pelos EUA. Depois de fazer uma visitinha a Nova Orleans, cara foi até o Alabama e deixou esse presentinho por lá:
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Os membros da Ku Klux Klan usaram linchamentos e enforcamentos para oprimir negros, judeus e católicos no sul dos EUA. Colocar um membro da KKK enforcado é uma ótima provocação aos simpatizantes de sua “causa”…

… que, pelo visto, ainda são muitos por aquelas bandas.
Reversal Polonesa
Na Polônia Yoda é treinado por VOCÊ!
Cinqüenta pôsteres poloneses para filmes hollywoodianos. Clique na imagem acima para conferir.
Cyberpunk = filme ruim
Não assista!
Há um ou dois anos atrás eu estava conversando com o Ig sobre filmes de terror. Nessa época o cara já tinha uma coleção invejável de filmes de zumbi e reclamava sobre a falta de filmes abordando lobisomens. É verdade, com exceção de Companhia dos Lobos eu nunca assisti nenhum filme interessante com os peludos e sei de mais uns dois ou três.
Por outro lado, no Em Busca de Drácula e Outros Vampiros, livro mambembe que comprei por R$3 há uma bom tempo, há uma lista com mais de 200 filmes de vampiro. Claro, 90% deles são trash, mas é curioso pensar em como as histórias de sugadores de sangue são populares no cinema. Eu falei pra ele que isso era mérito do Bram Stoker, que popularizou a história de Drácula e outros mitos romenos através de seu romance. Já no caso dos lobisomens não há nenhuma obra de referência em qualquer mídia.
Depois de assistir Strange Days ontem cheguei à conclusão que a temática cyberpunk, apesar de seus vários “romances fundadores”, é quase sempre sinônimo de filmes medíocres. Neuromancer não é nenhuma obra prima da literatura, mas é uma história pop invejável com ação na medida certa, cenários empolgantes e ótimos toques de futurologia – não é coincidência o termo “cyberespaço” ter aparecido ali pela primeira vez. Ou seja: a obra que coloca a pedra fundamental do gênero cyberpunk já nasce pronta ser adaptada ao cinema.
Neuromancer nunca foi filmado. Outras obras do Gibson ganharam versões cinematográficas mas nenhuma delas vale um tostão furado – quem assistiu Johnny Mnemonic não me deixa mentir. Mais feliz foi Phillip K. Dick: Blade Runner, Total Recall e Minority Report podem não ser adaptações fiéis mas são filmes bons filmes.
Strange Days, arrisco dizer, é o pior filme cyberpunk já rodado na história. Tem uma premissa interessante mas quando vai se desenvolver parece as histórias que eu escrevia quando tinha 17 anos: cheio de frases de efeito, clichês, falta de sutileza. Blade Runner consegue mostrar a distopia futurista de uma forma que parece verossímil, Strange Days tira seu futuro de uma música do Rage Against the Machine tocada com a bunda. Mesmo bebendo diretamente de várias idéias do Gibson, o diretor não foi feliz.
Falando em plagiar Neuromancer, os irmãos Wachoswki também o fizeram e nem assim conseguiram algo bom. Pois é, depois primeiro filme todo mundo ficou naquela de “dogde this” e bullet time, mas o resto da “trilogia” jogou Matrix no ostracismo. Efeitos especiais empolgam todo mundo por seis meses, um bom roteiro fica pra eternidade.
Falam que Neuromancer ainda vai ganhar as telonas…
Chora, chora e depois…
When you use Napster you’re downloading comunism!O método utilizado pelo Radiohead não deu tão certo quanto era esperado. De acordo com o site Remixtures, 62% das pessoas que baixaram o CD In Rainbows não pagaram nada por ele, e quem pagou (por volta de 465 mil pessoas) manteve a média de seis dólares. Isso deu uma média de US$ 2,26 por CD. De acordo com o Slashdot, a banda Nine Inch Nails declarou um rendimento de US$ 1,6 milhão com a iniciativa.
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Se ao invés de irritar os fãs por causa arranhões que o Napster causava às suas gordas contas bancárias os integrantes do Metallica tivessem tentado lucrar com a internet pelo menos 5 anos antes… É curioso a matéria dizer que uma média de US$ 2,26 por CD é fruto de um resultado “não (…) tão certo quanto era esperado”, quando isso é bem mais do que um artista recebe por um CD vendido. Madona anda vendendo seu novo a preço de banana, Prince chegou a distribuir uns discos de graça… todo mundo sempre soube que se lucra pouco em cada disco vendido.
Agora a distribuição eletrônica parece mudar um pouco a coisa de figura: o processo de intermediação da gravadora cai por terra, o artista tem um alcance virtualmente ilimitado [internet chega onde não há lojas de discos], etc… Lucra-se alguma coisa com o processo de distribuir os álbuns “gratuitamente” – indepentende disso eles vão ganhar a internet.
“Lie, lie to my face”
Crooked Little Vein não é bom. Se as primeiras 35 páginas prometiam um grande livro, todas as outras são decepção. O livro em si não é um desperdício, tem algumas passagens engraçadas, diálogos interessantes e alguns insights bacanas – especialmente quando trata de pornografia.
Uma pena que nada disso constrói um bom romance, pois a história é fraca, muito fraca. Fora o protagonista e sua assistente, poucos personagens são realmente interessantes. Fora as 30 páginas iniciais não há qualquer surpresa, ou suspense, ou whatever, dentro da trama. Tudo parece horrivelmente previsível e chato.
Repetir o absurdismo característico de Transmetropolitan não foi suficiente pra fazer um bom livro. Espero que o Ellis escreva outros – e que eles sejam bons.
Comecei a ler Café-da-Manhã dos Campeões, do Kurt Vonnegut. Esse não vai me desapontar.
Crooked
No domingo comecei a ler Crooked Little Vein, um romance escrito por Warren Ellis. A história é completamente insólita com um estilo narrativo que lembra bastante a verborragia toxicológica expelida por Spider Jerusalem, o protagonista de Transmetropolitan uma graphic novel no mesmo autor.
Em CLV acompanhamos Mike, um detetive particular falido, em sua jornada pelo submundo norte-americano enquanto procura por uma outra Constituição dos EUA – que aparentemente é a redenção para uma América entupida de pervertidos. A trama em si não parece muito interessante, nem supreendente, nem nada. O ponto forte do livro é a maneira como Ellis exotiza todas as subculturas urbanas, as descreve em seus próprios mundos de absurdos aparentes.
E Mike é uma espécie imã de estranheza, durante sua jornada ele sempre se depara com coisas absurdamente bizarras: tarados por lagartos, fisiculturistas que injetam solução salina nos escrotos, fetichistas e pervertidos de todas a espécies. Algumas vezes você tem a impressão de estar lendo um livro saído direto das músicas da UDR.
Fica claro que Ellis está fazendo algo muito muito parecido com o que fez ao descrever o mundo de Transmetropolitan, um futuro próximo e provável, onde as cidades abrigam todo tipo de seitas, grupos, povos e comérico – com destaque para a Long Pig, uma rede de lanchonetes que vende carne humana clonada. Apesar de gostar bastante desse estilo, fiquei um pouco decepcionado pela repetição da fórmula em CLV. Vamos ver se me surpreendo com algo até o final da história.
Alan Moore nos Simpsons
Se a voz é dele, tenho certeza que a dublagem aconteceu em Northampton. O velho nunca sai de lá.
Ótimo, a Fox conseguiu retirar os pouco mais de dois minutos com o Moore de todos os sites onde o video estava hospedado. Se alguém achar o trecho dando sopa por por aí me avise.
A pirataria explicada às crianças
A nova pirataria que explodiu tão de repente usando dos novos meios digitais parece ter emburrecido a maioria dos burocratas do entretenimento. Os mais espertos a encaram como um concorrente, outros querem combatê-la através de restrições que prejudicam seu mercado consumidor.
Você aluga três filmes originais em uma locadora, que paga impostos e faz tudo certinho. Na porta da locadora você vê um cartaz gigantesco falando dos males da pirataria. Ok, mas você é um cliente, está lá pra alugar e não pra comprar uma cópia pirata ou algo parecido. Acaba levando três filmes pra casa, ansioso pra ocupar aquela quarta-feira tediosa com alguma coisa. Assim que você insere um deles ao invés de surgirem alguns trailers, mais propagandinha anti-pirataria. Você tem que perder dois minutos da sua vida vendo isso em um filme que foi alugado legitimamente? Nem precisa responder.
Um dos três filmes é realmente bom e merece entrar pra sua coleção, então você decide que vai comprá-lo quando tiver uma chance. Alguns meses mais tarde você depara com o título numa loja de departamentos, a um preço acessível, e leva ele pra casa. Num domingo qualquer você senta com a sua garota pra rever o filme e assim que o DVD começa a rodar o mesmo vídeo anti-pirata, em toda sua majestade, invade a tela. “Porra, eu comprei esse filme!” você diz enquanto pensa que uma cópia pirata custaria uns R$ 20 a menos e não teria esse incômodo. Mas você não comprou pirata porque não se coleciona um DVD com uma capa feia e título escrito errado com caneta de retroprojetor.
Já quem comprou um CD não pode copiar pra deixar no carro, já que ninguém em sã consciência deixa os originais de bobeira, porque uma trava anti-pirataria não deixa. Outro que adquiriu um livro em PDF não pode copiar o texto ou reproduzir o arquivo um número ilimitado de vezes, pelo mesmo motivo. Em todos os casos, a cópia pirata é livre e a original restrita.
Os executivos da indústria do entretenimento andam extremamente neuróticos já que seus produtos podem ser reproduzidos e distribuídos a um custo muito próximo de zero. Eles ainda encaram a pirataria como algo totalmente vil e imoral e por isso têm que lembrar os cidadãos disso o todo tempo, principalmente colocando anúncios e restrições no que é original. O que não parecem não entender é que a pirataria já tomou formas próprias em todas as culturas e países do mundo, e que as pessoas sabem que é errado piratear. Ao invés de investirem tempo e dinheiro em travas e lições de moral que atrapalham e chateiam seus consumidores eles deveriam tentar mudar a forma de vender seus produtos.
Hoje em dia quando vão ao cinema, as pessoas pagam pela experiência de ver o filme em uma tela grande, com um ótimo som, comendo pipoca e tomando coca-cola acompanhados pelos amigos. Se quisessem “apenas” ver o filme, poderiam gastar R$ 5 no camelô da esquina e levarem o mesmo pra assistir em casa. Ninguém vai ser preso por fazer isso em nenhuma parte do globo terrestre. Se a indústria cinematográfica está preocupada com a pirataria ela devia se esforçar em fazer a experiência de ir ao cinema (ou ter um DVD original) cada vez mais divertida e prazerosa ao invés de buscar doutrinar e ameaçar seus consumidores por causa da pirataria.
Da mesma forma, se a indústria fonográfica tivesse apostado suas fichas no formato mp3 (ou na música digital) mais cedo e implantado lojas virtuais, ou mesmo maquininhas de vender música em shopping centers, seria muito melhor pra todo mundo. Claro, imaginando que seria vendido mais barato, já que ninguém ia ter que gastar milhares em estoque e distribuição de CDs.
Como nada disso foi feito a pirataria está aí, forte como nunca. Além dos produtos serem mais baratos que os originais, ou mesmo gratuitos, ela se utiliza de meios de distribuição e reprodução que permitem ampliar o público de um determinada mídia de maneira exponencial. As cópias piratas, apesar de tudo, suprem uma demanda reprimida e chegam onde o mercado legal ainda não conseguiu atingir.
O Brasil tem um caso interessante nesse aspecto: muitas bandas de forró e brega conseguiram distribuir seus CDs prensando cópias baratas e vendendo para os camelôs. Enquanto poderiam gastar milhares de reais em CDs caros, e que seriam vendidos só em lojas especializadas, eles souberam aproveitar de uma estrutura criada pela pirataria de música pra conseguir chegar ao público.
A maioria das empresas procura vender seus produtos com pesadas restrições ao consumidor porque entendem que qualquer um deles pode colocar o produto de graça na internet. Todos nós somos, na cabeça deles, criminosos em potencial. Não chega a ser mentira, mas… está funcionando? Não temos praticamente todos os produtos digitais que se encontram à venda também disponíveis em versões “gratuitas”?
Outro ponto a se pensar é a real dimensão do dano que a pirataria causa. Tropa de Elite caiu nos camelôs antes de pintar no cinema e o diretor já correu pra dizer que o filme seria um fracasso por causa disso. Nada mais inocente do que essa declaração, já que durante os meses subseqüentes não se falou em outra coisa que não no filme. Obviamente Tropa foi um recorde de bilheteria, porque muitos queriam a experiência de vê-lo no cinema.
Apesar disso, as grandes empresas alegam milhões de reais em prejuízo todo ano, usando a lógica absurda de que uma cópia pirateada é uma cópia legal que deixou de ser vendida. Esse raciocínio parece razoável mas é fantasioso, já que não se pode assegurar que todos os que adquirem produtos piratas são consumidores em potencial de originais. Grande parte do consumo de pirataria se dá pela conveniência e pela onipresença. Camelôs vendendo CDs e DVDs piratas estão em cada esquina, e têm capacidade de atingir muito mais pessoas que quaisquer lojas. Assim o dinheiro “perdido em pirataria” é mais o resultado de cópias baratas e abundantes do que de uma procura do público em consumir essas cópias.
Outro grande vilão seria a “pirataria doméstica”, os downloads ilegais de séries, filmes, livros e revistas. E esse é um caso ainda é mais complexo de se calcular os supostos prejuízos. Não é uma pirataria feita para gerar lucro, mas um livre compartilhamento de conteúdo entre aficionados de um determinado assunto ou mídia.
A título de exemplo, grande parte de quem baixa quadrinhos, também compra quadrinhos. Na verdade a possibilidade de pegá-los da internet representa uma chance de ampliar a variedade de títulos lidos. Mas da mesma maneira que o freqüentador de cinema não vai lá só para assistir o filme, o consumidor de quadrinhos também não paga simplesmente para ler a história. Ele quer ter o material, a edição de luxo, poder guardar na estante, ler antes de dormir, carregar pra outros lugares. As vantagens de se ter um produto material são imensas.
Da mesma maneira o formato mp3 ampliou a quantidade de música consumida no mundo, ainda que ilegalmente, e ajudou muitos artistas a ganhar público. Fora os multimilionários do Mettallica, nenhum artista reclama do fato de suas músicas estarem disponíveis de graça. O que se vê hoje em dia é um movimento das grandes gravadoras para reprimir os downloads ilegais (inclusive com processos doentios) mas nenhum movimento organizado de artistas – que sempre ganharam dinheiro com shows.
A questão, que vem sendo repetida exaustivametne ao longo do texto, é que existem pessoas em todo mundo dispostas a gastar dinheiro com produtos que já se encontram pirateados, que querem a experiência do original. E isso não é ideologia, é escolha. Encostar num cantinho e fazer beiço, ou berrar que tudo está errado não vai resolver problemas de mercado. Se isso é tudo o que a indústria do entretenimento pode fazer, então é melhor admitir que foram derrotados pela máfia chinesa, nerds sedentários, webdesigners suecos e camelôs.
A obsolência do mercado de entretenimento frente às novas técnicas de produção e distribuição são as principais do avanço vertiginoso da pirataria nessa última década. E todas as subseqüentes tentativas de doutrinação e repressão aos consumidores não vão reverter esse quadro. Mais que isso é preciso pensar em novas formas para o mercado do entretenimento frente às mudanças socioculturais e tecnológicas. Ampliar as possibilidades do consumidor e conseguir concorrrer com os piratas não é simples, não é fácil, mas é a única solução.
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A verdadeira revolução no consumo de livros, música e filmes não é causada pela pirataria. Os piratas só reproduzem o que está por aí, mas as tecnologias e know-how apropriados por eles também podem ser usadas por pessoas e grupos que produzem.
À medida que avançam os processos de publicar, gravar e filmar, torna-se muito mais fácil para os criadores controlarem os meios de produção. No passado, custava uma fortuna gravar um disco de qualidade. Hoje qualquer estúdio medianamente competente consegue fazer isso a um preço camarada. Antes era necessário gastar dinheiro pra fazer seus textos, músicas e filmes chegarem até um público, coisa que a internet a um custo próximo de zero.
Em um mundo onde qualquer um pode produzir e ter audiência, muitos vão fazer isso e alguns vão fazer com qualidade. E, seguindo na contramão, alguns artistas consagrados vão ver a oportunidade de se tornarem independentes, como aconteceu com o Radiohead – cujo álbum colocado “de graça” na internet parece ter rendido a eles cerca de US$ 6 a 10 milhões nos primeiros dias.
Para ir além
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