Mudanças
fevereiro 22, 2008
Ainda sobre o caso da Ricardo Eletro no Mercado Central, achei um e-mail da administração do mesmo nesse blog aqui. Nele o Diretor Presidente do Mercado, Marcou R. Patrocínio, comenta:
Sr.(a) infelizmente a diretoria não tem autonomia sobre a definição do ramo de atividade, isso compete ao nosso conselho que aprovou previamente a instalação do Ricardo Eletro.
Algumas lojas modernizam o mercado de acordo com o tempo (drogaria Araujo tem mais de 100 anos e alguns caracterizam que ela descaracteriza) os tempos mudam e as atividades também, se adaptando aos novos tempos. A diretoria se preocupa com essas mudanças, porém, que o associado é proprietário tendo certa liberdade de comercialização. O Sr Olímpio, proprietário do Supermercado tem 90 anos e está aqui desde 1932 quando veio para Belo Horizonte como carroceiro. Infelizmente ele não deixou sucessores, os seus filhos tem mais de 60 anos e já estão aposentados, não restando a ele outra alternativa a não ser repassar o ponto.
A diretoria sente muito essa mudança, porém não conseguimos outro supermercado para se instalar no local pois o espaço do mesmo é muito pequeno para os modelos de supermercados de hoje. A modernidade fez sucumbir este modelo tipo armazém. O custo do aluguel e da manutenção desta atividade são inviáveis e os proprietários tem que cumprir os compromissos que ficaram durante muitos anos com baixa lucratividade, sendo que a melhor proposta para eles foi a do Ricardo Eletro que cumpriu todas as exigências fazendo um contrato todo na forma mas correta, inclusive no que tange ao pagamentos dos impostos que ocasionaram com essa transferência.
Na década 70 tivemos a maior descaracterização que foi ocasionada pelo surgimento da Ceasa, dos sacolões e supermercados, praticamente extinguindo o ramo de hortifrutigrangeiros no mercado. Nem por isso o mercado deixou de ser o Mercado Central e hoje mesmo assim somos um ponto de referência em Belo Horizonte , culturalmente e turisticamente.
O Mercado Central é uma instituição privada desde 1964 e soubemos muito bem construir e renovar um espaço que a prefeitura não conseguiu e resolveu privatizar. Agora aos seus 90 anos, doente e precisando fazer recursos para se prover, o Sr Olímpio e seu Irmão Olinto, tomaram essa decisão que foi um trauma para suas vidas, mas inevitável. Seria muito injusto se depois de estar aqui a 75 anos eles não pudessem fazer o que acham melhor neste momento da vida para poderem descansar com os recursos proveniente do imóvel que lhes resta.
Nem por bastar a diretoria pede a todas essas pessoas que amam o mercado que nos ajudem, pois não conseguimos ninguém para ocupar tão importante espaço nas característica que todos nós desejamos e que atendam as necessidades do Sr Olimpio e seus familiares. Quem sabe pode surgir uma boa idéia sem demagogias?
Lembramos que o contrato com o Ricardo eletro (sic) está assinado e pago, qualquer alteração no destino desta negociação ocasionará reflexos financeiros que tem que ser avaliados. Então a sua forma de manifestação pode atrapalhar os comerciantes que não tem nada haver com esta negociação e se gostas realmente deste local tenho certeza que fará forma de ajudar e não de piorar algo que já nos deixou profundamente infelizes.
Lembramos que esse fato é isolado e que com certeza não virão outras lojas do ramo concorrente. Esperamos que mais esta nova etapa seja vencida pelos comerciantes que lutam pelo destino de seus comércios para que o mercado continue sendo a casa do povo de Belo Horizonte.
Muito obrigado por gostar do Mercado Central.
Ok, mas a pergunta é: se eu quiser fazer uma loja de eletrônicos baratos no lugar onde algum fruteiro antes tinha sua banca, eu posso? Não há qualquer restrição nesse sentido? Não acho que seja comparável a diminuição dos hortifruti e sua substituição por armazéns, floriculturas ou vendedores de bebidas e condimentos com a instalação de uma loja de uma grande de rede de eletrodomésticos … A verdade é que o Mercado Central é um ponto de referência, bastante freqüentado por um público muito diverso e o espaço ali parece ter um grande valor potencial para operadoras celular, redes de lanchonetes, etc. Nada contra, mas essas já existem em grande número fora do MC. Por outro lado não há muitos lugares em Belo Horizonte onde eu possa comprar pequi, feijão andu, carne de sol, fécula de mandioca ou fumo de rolo.
Não acho que trata-se de temer e evitar mudanças, mas de escolher em quais termos elas devem acontecer. Se de fato não se conseguiu outro estabelecimento além da Ricardo Eletro para ocupar o ponto da Mercaria Aymoré, que assim seja. A administração acha que foi a melhor solução mas os freqüentadores temem que isso descaraterize o mercado, resta saber o que os outros varejistas de lá pensam sobre isso.
A pirataria explicada às crianças
novembro 1, 2007
A nova pirataria que explodiu tão de repente usando dos novos meios digitais parece ter emburrecido a maioria dos burocratas do entretenimento. Os mais espertos a encaram como um concorrente, outros querem combatê-la através de restrições que prejudicam seu mercado consumidor.
Você aluga três filmes originais em uma locadora, que paga impostos e faz tudo certinho. Na porta da locadora você vê um cartaz gigantesco falando dos males da pirataria. Ok, mas você é um cliente, está lá pra alugar e não pra comprar uma cópia pirata ou algo parecido. Acaba levando três filmes pra casa, ansioso pra ocupar aquela quarta-feira tediosa com alguma coisa. Assim que você insere um deles ao invés de surgirem alguns trailers, mais propagandinha anti-pirataria. Você tem que perder dois minutos da sua vida vendo isso em um filme que foi alugado legitimamente? Nem precisa responder.
Um dos três filmes é realmente bom e merece entrar pra sua coleção, então você decide que vai comprá-lo quando tiver uma chance. Alguns meses mais tarde você depara com o título numa loja de departamentos, a um preço acessível, e leva ele pra casa. Num domingo qualquer você senta com a sua garota pra rever o filme e assim que o DVD começa a rodar o mesmo vídeo anti-pirata, em toda sua majestade, invade a tela. “Porra, eu comprei esse filme!” você diz enquanto pensa que uma cópia pirata custaria uns R$ 20 a menos e não teria esse incômodo. Mas você não comprou pirata porque não se coleciona um DVD com uma capa feia e título escrito errado com caneta de retroprojetor.
Já quem comprou um CD não pode copiar pra deixar no carro, já que ninguém em sã consciência deixa os originais de bobeira, porque uma trava anti-pirataria não deixa. Outro que adquiriu um livro em PDF não pode copiar o texto ou reproduzir o arquivo um número ilimitado de vezes, pelo mesmo motivo. Em todos os casos, a cópia pirata é livre e a original restrita.
Os executivos da indústria do entretenimento andam extremamente neuróticos já que seus produtos podem ser reproduzidos e distribuídos a um custo muito próximo de zero. Eles ainda encaram a pirataria como algo totalmente vil e imoral e por isso têm que lembrar os cidadãos disso o todo tempo, principalmente colocando anúncios e restrições no que é original. O que não parecem não entender é que a pirataria já tomou formas próprias em todas as culturas e países do mundo, e que as pessoas sabem que é errado piratear. Ao invés de investirem tempo e dinheiro em travas e lições de moral que atrapalham e chateiam seus consumidores eles deveriam tentar mudar a forma de vender seus produtos.
Hoje em dia quando vão ao cinema, as pessoas pagam pela experiência de ver o filme em uma tela grande, com um ótimo som, comendo pipoca e tomando coca-cola acompanhados pelos amigos. Se quisessem “apenas” ver o filme, poderiam gastar R$ 5 no camelô da esquina e levarem o mesmo pra assistir em casa. Ninguém vai ser preso por fazer isso em nenhuma parte do globo terrestre. Se a indústria cinematográfica está preocupada com a pirataria ela devia se esforçar em fazer a experiência de ir ao cinema (ou ter um DVD original) cada vez mais divertida e prazerosa ao invés de buscar doutrinar e ameaçar seus consumidores por causa da pirataria.
Da mesma forma, se a indústria fonográfica tivesse apostado suas fichas no formato mp3 (ou na música digital) mais cedo e implantado lojas virtuais, ou mesmo maquininhas de vender música em shopping centers, seria muito melhor pra todo mundo. Claro, imaginando que seria vendido mais barato, já que ninguém ia ter que gastar milhares em estoque e distribuição de CDs.
Como nada disso foi feito a pirataria está aí, forte como nunca. Além dos produtos serem mais baratos que os originais, ou mesmo gratuitos, ela se utiliza de meios de distribuição e reprodução que permitem ampliar o público de um determinada mídia de maneira exponencial. As cópias piratas, apesar de tudo, suprem uma demanda reprimida e chegam onde o mercado legal ainda não conseguiu atingir.
O Brasil tem um caso interessante nesse aspecto: muitas bandas de forró e brega conseguiram distribuir seus CDs prensando cópias baratas e vendendo para os camelôs. Enquanto poderiam gastar milhares de reais em CDs caros, e que seriam vendidos só em lojas especializadas, eles souberam aproveitar de uma estrutura criada pela pirataria de música pra conseguir chegar ao público.
A maioria das empresas procura vender seus produtos com pesadas restrições ao consumidor porque entendem que qualquer um deles pode colocar o produto de graça na internet. Todos nós somos, na cabeça deles, criminosos em potencial. Não chega a ser mentira, mas… está funcionando? Não temos praticamente todos os produtos digitais que se encontram à venda também disponíveis em versões “gratuitas”?
Outro ponto a se pensar é a real dimensão do dano que a pirataria causa. Tropa de Elite caiu nos camelôs antes de pintar no cinema e o diretor já correu pra dizer que o filme seria um fracasso por causa disso. Nada mais inocente do que essa declaração, já que durante os meses subseqüentes não se falou em outra coisa que não no filme. Obviamente Tropa foi um recorde de bilheteria, porque muitos queriam a experiência de vê-lo no cinema.
Apesar disso, as grandes empresas alegam milhões de reais em prejuízo todo ano, usando a lógica absurda de que uma cópia pirateada é uma cópia legal que deixou de ser vendida. Esse raciocínio parece razoável mas é fantasioso, já que não se pode assegurar que todos os que adquirem produtos piratas são consumidores em potencial de originais. Grande parte do consumo de pirataria se dá pela conveniência e pela onipresença. Camelôs vendendo CDs e DVDs piratas estão em cada esquina, e têm capacidade de atingir muito mais pessoas que quaisquer lojas. Assim o dinheiro “perdido em pirataria” é mais o resultado de cópias baratas e abundantes do que de uma procura do público em consumir essas cópias.
Outro grande vilão seria a “pirataria doméstica”, os downloads ilegais de séries, filmes, livros e revistas. E esse é um caso ainda é mais complexo de se calcular os supostos prejuízos. Não é uma pirataria feita para gerar lucro, mas um livre compartilhamento de conteúdo entre aficionados de um determinado assunto ou mídia.
A título de exemplo, grande parte de quem baixa quadrinhos, também compra quadrinhos. Na verdade a possibilidade de pegá-los da internet representa uma chance de ampliar a variedade de títulos lidos. Mas da mesma maneira que o freqüentador de cinema não vai lá só para assistir o filme, o consumidor de quadrinhos também não paga simplesmente para ler a história. Ele quer ter o material, a edição de luxo, poder guardar na estante, ler antes de dormir, carregar pra outros lugares. As vantagens de se ter um produto material são imensas.
Da mesma maneira o formato mp3 ampliou a quantidade de música consumida no mundo, ainda que ilegalmente, e ajudou muitos artistas a ganhar público. Fora os multimilionários do Mettallica, nenhum artista reclama do fato de suas músicas estarem disponíveis de graça. O que se vê hoje em dia é um movimento das grandes gravadoras para reprimir os downloads ilegais (inclusive com processos doentios) mas nenhum movimento organizado de artistas – que sempre ganharam dinheiro com shows.
A questão, que vem sendo repetida exaustivametne ao longo do texto, é que existem pessoas em todo mundo dispostas a gastar dinheiro com produtos que já se encontram pirateados, que querem a experiência do original. E isso não é ideologia, é escolha. Encostar num cantinho e fazer beiço, ou berrar que tudo está errado não vai resolver problemas de mercado. Se isso é tudo o que a indústria do entretenimento pode fazer, então é melhor admitir que foram derrotados pela máfia chinesa, nerds sedentários, webdesigners suecos e camelôs.
A obsolência do mercado de entretenimento frente às novas técnicas de produção e distribuição são as principais do avanço vertiginoso da pirataria nessa última década. E todas as subseqüentes tentativas de doutrinação e repressão aos consumidores não vão reverter esse quadro. Mais que isso é preciso pensar em novas formas para o mercado do entretenimento frente às mudanças socioculturais e tecnológicas. Ampliar as possibilidades do consumidor e conseguir concorrrer com os piratas não é simples, não é fácil, mas é a única solução.
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A verdadeira revolução no consumo de livros, música e filmes não é causada pela pirataria. Os piratas só reproduzem o que está por aí, mas as tecnologias e know-how apropriados por eles também podem ser usadas por pessoas e grupos que produzem.
À medida que avançam os processos de publicar, gravar e filmar, torna-se muito mais fácil para os criadores controlarem os meios de produção. No passado, custava uma fortuna gravar um disco de qualidade. Hoje qualquer estúdio medianamente competente consegue fazer isso a um preço camarada. Antes era necessário gastar dinheiro pra fazer seus textos, músicas e filmes chegarem até um público, coisa que a internet a um custo próximo de zero.
Em um mundo onde qualquer um pode produzir e ter audiência, muitos vão fazer isso e alguns vão fazer com qualidade. E, seguindo na contramão, alguns artistas consagrados vão ver a oportunidade de se tornarem independentes, como aconteceu com o Radiohead – cujo álbum colocado “de graça” na internet parece ter rendido a eles cerca de US$ 6 a 10 milhões nos primeiros dias.
Para ir além
http://www.informationarchitects.jp/
Tropa de Elite Facts
outubro 11, 2007

“Ó o presunto!”
Eu tava errado. No Tropa de Elite não tem Rambo mas sobra Jack Bauer. A ONG, os universitários, a aula de sociologia, tudo muito caricato, 0 ou 1, mas é a visão dos PMs sobre a realidade. É legal humanizar os caras, sentar o dedo na ferida de todo maconheiro e ainda pagar lição de moral pra sociedade em geral. Mas fala aí, é isso? Quem aplaudiu as atitudes dos policiais tem problema – na cabeça ou no cólon. Porque tudo isso aí em cima tá bem pequeno em relação ao que o filme esfrega na cara de todo mundo: pro cara virar PM de verdade tem que meter tapa e saco plástico na mulher do traficante, querer enfiar cabo de vassoura no c* de vapor ou executar nego com um tiro de dozão na cara.
É, os caras fazem isso pra eu e você dormirmos em paz.
Será? Um dia, o fogo cruzado vai chegar até aí na sua porta. Se é que já não tá.
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Eu fui no lançamento do Elite da Tropa aqui em Belo Horizonte. Os caras falaram por alguns minutos de como foi escrever o livro e da experiência de servir no BOPE. Um deles, por sinal o que saiu, não acredita mais na PM do Rio e acha que ela tem que ser extinta.
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“Essa é da boa. Safra Roche® legítima de 1998.”
Usuário financia o tráfico, é fato. Então galera eu tenho a solução perfeita pra consciência de vocês e é mais tranquila do que legalizar, como sugere o Bressane: financiem a indústria farmacêutica. Ao invés de irem ao morro buscar um pó ou um brau, corram na farmácia e peçam uma tarja vermelha ou preta. Vai de ritalina? Vai de diazepam? Codeína? Benflogin? Se você for da paz tem um prozac esperto também. E se quiser efedrina é só dar um pulinho na loja de suplemento pra maromba. Qualquer uma te vende um potão por cinquentinha.
As drogas estão por aí desde os primórdios, e não vão sumir nem quando matarem todos os traficantes. O ser humano precisa delas. Lícitas ou ilícitas. Medicinais ou recreativas. A proibição é cultural, é política, é uma desculpa pra cambada ganhar votos prometendo o que não pode cumprir e ignorar o problema monumental de saúde causado pela dependência química – sejam da farmácia ou do morro. Em tempo: o Brasil já lidera o ranking no consumo de anfetaminas. Antes isso, ao menos todo mundo vai ficar magrinho.
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Em tempo a idéia do o título saiu daqui.
Cachorrão
agosto 29, 2007
Nos últimos anos tem sido difícil comer bem nos interiores da vida. Cidades que possuem ótimos pratos típicos e regiões com uma culinária fantástica já não são qualquer garantia de uma boa refeição. Por todo lado têm se servido a mesma coisa: cachorro quente, hamburger e pizza.
Por ocasião da Festa de São João das Missões em 2005 e 2007 havia algumas duas barracas que serviam peixe frito, tropeiro e receitas com ingredientes da região. As outras se limitavam vender a versão tupiniquim da culinária gringa. Em Jequitinhonha tentei sair pra comer um petisco de boteco, umas iscas de peixe ou algo assim, não havia nada do tipo fora do hotel onde eu estava hospedado. Novamente, embora nem fosse dia de festa, abundavam trailers e lanchonetes onde era possível se entupir de junk-food por R$ 5.
Sempre me pego imaginando porque as pessoas abandonam uma culinária tão rica e gostosa pra comer receitas que levam apenas ingredientes industrializados. Como é que o McDonald’s existe na Itália, na China ou aqui? Fora algumas raras exceções, a comida deles é bem ruim se comparada a um bom PF de botequim. Fui a um McDonald’s pela primeira vez quando tinha 8 anos, na ocasião me disseram que era chique. No mesmo dia descobri que era alérgico a alguma coisa que eles usam no sanduíche, e nunca consegui comer um sem passar mal.
O fato é que, as grandes redes de lanchonetes (ainda) não chegaram nos interiores que eu visito a trabalho, mas o que elas servem já está lá. As pessoas não comem pizza ou cachorro-quente no dia-dia, é um tipo de comida com algum status. Virou refeição de dia de festa, de exposição agropecuária, de carnaval, de sexta à noite. É como se tivesse um poder qualquer de inserir aqueles lugares e pessoas no mundo: de repente, no meio do sertão bravo, você está comendo a mesma coisa que alguém em NY. A comida do mocinho no filme da Sessão da Tarde.
Prato típico só em lugar pra turista, e a preço alto.
O Trabalho Mata
julho 31, 2007

O trabalho liberta
Ainda não consegui decidir se odeio ou adoro trabalhar, mas com certeza não consigo ser indiferente. Minha precária administração do tempo, que frequentemente resulta fins de semana e e noites varados pra cumprir prazos, não me permite ter um relacionamento normal com o trabalho e assim ele se torna onipresente.
Duas coisas são deliciosas quando se trata de trabalhar: ver terminada alguma coisa da qual você se orgulha e ter reconhecimento pelo que se fez (o que obviamente inclui o dinheiro). O resto, especialmente a rotina, é um pé no saco.
Mas particularmente acho que a definição atual de trabalho é muito restrita. Quem faz alguma atividade sem patrão e/ou remuneração geralmente se define como “artista” – é sempre bom usar o charme da pobreza boêmia – ou “ativista” – melhor nem comentar. Pelo menos pra mim, esse esquema de fazer trampinho ou organizar protesto é uma forma de trabalho sim – entre outras atividades possíveis dentro das duas categorias descritas acima, só que talvez menos destrutivo e alienante que a maneira “tradicional” de trabalhar. Claro, se você for um comuna da UNE do Partidão ou similares, vai estar tão alienado quanto uma criancinha que monta tênis Nike na Indonésia.
Na verdade o engraçado é que o capitalismo se alia com a democracia e produz uma idéia de que é totalmente laico em sua ética e valores, pelo menos é o que os teóricos da economia neoclássica adoram defender, apesar do Weber. Mas não é. Ganhar o pão com o suor do teu rosto é a máxima cristã. Claro, talvez esse versículo só quisesse dizer que nada vem sem esforço, mas a noção reproduzida por ele foi outra: o trabalho dignifica o homem, frase construída pra justificar a servidão medieval que até hoje é entendida como verdade absoluta. Mas hoje ao invés de apenas comer o pão, devemos tomar o vinho californiano junto e comprar o carro alemão – e se forem frutos do seu trabalho eles provam que você é digno de verdade. De resto, você é um fracassado.
O trabalho liberta é o que estava escrito nos portões de Auschwitz. Talvez naquela época os cartões de crédito, compras online e horas extra e metas ainda não tivessem sido inventados. Num mundo onde, apesar do conforto absurdo, se trabalha cada vez mais pra consumir e o lixo é produzido em toneladas por pessoa/ano talvez o digno seja não trabalhar – especialmente quando já foram diagnosticadas mortes por excesso de trabalho. Por enquanto vamos seguindo, sempre rumo ao sucesso, vivendo dentro de uma propaganda de banco. Os juros só vão ser cobrados daqui a muitos anos.
(Post gêmeo do que eu fiz pro Corona)
Um laptop por criança
julho 25, 2007
XO-1, o brinquedinho de US$ 100
“Inclusão digital” é a expressão do momento, filantropia (?) pra não deixar ninguém fora da internet. Por um lado acho muito bacana já que vivo plugado na frente do computador por trabalho e por diversão. O que é curioso nessa história é a idéia de que os computadores vão melhorar a vida das pessoas quando o mais correto seria dizer que podem fazê-lo.
Um dos maiores projetos desse tipo é o One Laptop per Child (ou OLPC), dirigido por Nicholas Negroponte do MIT, que tem por objetivo produzir computadores baratos para serem usados como ferramentas de ensino nos países “em desenvolvimento”. O laptop base do OLPC, chamado de XO-1, é o mais próximo de um computador popular que de que já tive notícia. Com objetivo de custar cerca de US$100, por enquanto ele sai a US$ 176, ele possui uma configuração modesta mas foi projetado de maneira extremamente funcional. Vejamos:
A idéia é fazer uma máquina compacta, sem grandes peças de hardware, o que também deve favorecer a economia de energia – drives de CD/DVD, impressoras e outros periféricos podem ser conectados via USB. Ao invés de um HD temos uma memória flash de 1GB , com possibilidade de expansão da memória através de periféricos na USB ou cartões SD. O processador é um AMD 433 MHz que devido ao baixo poder de processamento não possui cooler (não vou discutir com eles, são do MIT, mas acho que AMD esquenta muito aqui ao sul do Equador), o laptop também conta com 256 SDRAM.

O display é um LCD de baixo custo que, entre outras funções, pode ser colocado em modo monocromático tornando-a legível mesmo sob a luz do sol. O sistema operacional é baseado em Linux e foi desenvolvido pela Red Hat, ocupa cerca de 130MB contra os 1,5GB do Windows XP. Seus programas incluem um browser baseado no Firefox, uma ferramenta de texto (capaz de trabalhar até em formatos da Microsoft!), um leitor de PDF, um mídia player, uma ferramenta de criação de música, programas e desenho e alguns joguinhos. Além disso o XO-1 se comunica com outros via wireless, mesma maneira que acessa a internet, e também possui uma câmera integrada.
O teclado é emborrachado, o console é muito resistente a quedas e – isso eu realmente achei fantástico – pode ser recarregado usando uma bobina própria, desenvolvida para sua aplicação em comunidades onde ainda não existe eletricidade. Ou seja: em termos de funcionalidade a OLPC parece ter cumprido a meta. O XO-1 parece bastante confiável em termos de desempenho e durabilidade, um passo gigantesco na inclusão digital.
O que me intriga olhando daqui é o seguinte: o que garante que esses aparelhos vão ser úteis como ferramentas de ensino quando muitas vezes nem os próprios professores estão capacitados a usá-los efetivamente, quanto menos ensinar com eles? Bem, isso é um assunto de cada país que aderir ao projeto – o Brasil incluso – e não é uma pergunta fácil de ser respondida, pelo menos nessa fase inicial.
Os críticos do projeto argumentam, entre outras coisas, que o dinheiro dos laptops poderia ser usado na construção de bibliotecas e escolas – que proporcionalmente custariam bem menos e beneficiariam mais comunidades – e que a os idealizadores da OLPC estariam usando a mentalidade americana pra resolver problemas que são diversos e complexos em outras partes do mundo. Além disso em menos de 5 anos essas pecinhas serão nada mais do que lixo. E eu também tenho que admitir que já espero o desvio de várias dessas maquininhas pro mercado paralelo aqui no Brasil…
Por mais “contras” que o projeto possua ele vai causar um grande impacto em termos de inclusão digital. As crianças que fizerem uso dele – mesmo que seja para chat, Orkut e outras bobagens – vão criar um monte de noções importantes para se trabalhar em computadores. Vão saber o que é um duplo clique, como se edita um texto, o que são ícones, como se navega pela internet (ainda que seja pra jogar ou ver mulher pelada), etc. Se já estamos assistindo uma inclusão digital massiva através das lan-houses, resta esperar pra ver como isso vai andar junto com o projeto da OLPC.
(Agradecimentos ao Pristina, por me lembrar que isso existe.)
Patrimônio Público e o Espírito de Porco!
fevereiro 14, 2007
O mais natural é ir ao Instituto de Geociências lá da UFMG procurar os mapas, já que lá tem uma mapoteca bacana. Uma funcionária me auxilia, mas quando procuramos onde os mapas deveriam estar, uma surpresinha: foram roubados. Ok, eu vi o mural bizarro lá na Faculdade de Educação onde expuseram capas de livros arrancadas por alunos (ou talvez um só) para burlar a fiscalização eletrônica da biblioteca. Sim, pra roubar oras…
Liguei no Instituto de Geociências Aplicadas, órgão do governo estadual. A secretária falou que tem os mapas mas não me emprestaria nem por uma hora pra eu pedir uma reprodução na gráfica. Por quê? Porque vários deles “sumiram” de lá ou foram levados por pessoas que não os devolvem. Foram roubados.
A solução final é ir até o Departamento Nacional de Produção Mineral, o órgão responsável pela elaboração e publicação do Radam há algumas décadas atrás. Já era sexta à tarde, então marquei com a bibliotecária de passar lá na segunda. Chego. Ela afirma que tem os mapas e vai pegar. Fico feliz, mas desconfiando, no íntimo, que vou acabar saindo de lá de mãos abanando. Minha intuição, que quase nunca falha, estava certíssima. Algum grandissíssimo filho da puta havia carregado os mapas de lá também.
Ok. “Não entremos em pânico” vou pensando. Começo a disparar perguntas. “O IBGE tem esses mapas?” Não. “Vocês não teriam como pedir mais mapas?” Não. “O material do Projeto Radam é republicado?” Não. Uau, estava mesmo cheio de opções. Felizmente ela fala que os mapas podem estar disponíveis no CPRM – também chamado Serviço Geológico do Brasil. Liguei pra lá. Me pediram pra mandar um e-mail reservando e disseram que vão me emprestar os mapas durante duas horas pra eu poder reproduzi-los numa gráfica.
Ótimo. Resolvido o problema com dias de atraso porque uns otários curtem roubar bibliotecas. Isso pra mim não faz qualquer sentido, porque de uma certa maneira você acaba roubando uma coisa que já estava à sua disposição, arquivada e cuidada de acordo. Claro, à sua disposição e à disposição de milhões de pessoas, mas sempre tem quem não quer dividir nada.
Bibliotecas são, pelo menos pra mim, uma das formas mais espertas de gestão de um patrimônio comum, passando pela mão do Estado ou não. Acho que devíamos ter mais coisas, além de livros, organizadas nesse esquema: filmes, bicicletas, ferramentas, etc. E, sim, eu sei que enquanto você está lendo isso pensa que é impossível. E é mesmo. Graças ao supremo e inigualável Espírito de Porco.
P.S.: Eu sempre fui um dos que não aceitam a Lei de Gerson como uma instituição da cultura brasileira. Claro, quando você vê Brasília pela televisão fica difícil pensar o contrário, mas já vi exemplos de trabalho conjunto bem interessantes pra dar isso como verdade. O que me mata de raiva é que, um cara que rouba um mapa desses ou convenientemente “esquece de devolver”, é alguém que tem noção do valor dele. Penso em um fulano com curso universitário, concluído ou em andamento, membro da classe média, pesquisando ali pra um trabalho de fim de curso ou pós-graduação – se bobear em uma instituição pública.
Heh.
A pena pra furto em bibliotecas deveria ser de 100 chibatadas.
A Próxima Crise
outubro 24, 2006
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Um colunista do Exile, Gary Bretcher, disse na ultima edição “(…) when you think about it, because from Tijuana on south, every Latino is born knowing two things: how to lower a Chevy and that the Gringos are always to blame. “
Fazendo uma mea culpa, acho que dá pra dizer que muitas vezes culpamos nossos colegas do norte um pouco mais do que merecem. Mas, ligando alguns fatos do passado aos últimos acontecimentos, acho que podemos culpá-los um pouquinho mais. Não amiguinhos, não estou falando da colisão do Legacy e do Boeing, estou me referindo a nossa mais nova crise nuclear – que andam na moda ultimamente.
Era uma vez um governo despótico, que prosseguia feliz produzindo um dos estados mais vigiados do mundo, com cercas de arame militar nas praias para impedir que as pessoas fujam a nado, com seu líder carismático(?), polícia ideológica e campesinato miserável. Mais uma grande prisão bizarra forjada por outra revolução “comunista”. O governo ia então, fazendo essas coisas típicas de qualquer pesadelo orwelliano. Tudo isso no cantinho deles, inclusive propondo uma possível reunificação.
O problema é que, após o evento-que-virou-justificativa-pra-tudo, o pequeno pesadelo orwelliano foi colocado junto de um monte de países junto da descrição paranóica de “Eixo-do-Mal”. Se o Grande Irmão de lá usa Ray-Ban, pode ter certeza de que ele não é o idiota típico com o qual os gringos acham que podem brincar. Alguns acham que Bush acertou realmente havia um plano maligno em andamento. Eu acho que não, a merda está indo em direção ao ventilador porque o Grande Irmão de Ray-Ban traçou seu plano de ultima hora, e está pouco se fudendo pras consequências.
Sim, porque a Coréia do Norte pode ter o Grande Irmão, mas a Família está ali do ladinho, gigantesca e ganhando cada vez mais destaque no cenário internacional. A Republica Popular da China vende armas e mais armas para o exército norte-coreano, e não ia ficar necessariamente feliz com uma intervenção militar ali, bem no quintal. E agora, a diplomacia cowboy, presa em duas guerras lamacentas não sabe como agir. Atacou dois países que não tinham armas de destruição em massa e não representavam perigo e agora está na fogueira da opinião popular se buscar uma terceira.
Não que a Coréia do Norte realmente tenha qualquer chance de produzir um míssil capaz de burlar os sistemas de defesa dos gringos. Acho que eles estão blefando, fazendo pressão e chantagem pra conseguir vantagens. Ou mesmo se fazendo de ameaçadores para garantir que não haja uma invasão norte-americana. Ué, você acha que se o Iraque realmente tivesse armas de destruição em massa os gringos iam invadir naquela patética frente única? Eles iam que nem na primeira Guerra do Golfo: ataques localizados e rápidos, usando bombardeios como suporte.
Enfim, se a Coréia do Norte causar uma explosão nuclear devido a uma invasão norte-americana, as conseqüências no plano político internacional serão caóticas. O Grande Irmão de Ray-Ban é pirado o suficiente pra mandar um míssil em qualquer um, acho que ninguém duvida disso. Mas, nem comecei a escrever esse artigo pra falar apenas sobre a Coréia do Norte. Vamos começar uma enquete: de quem vocês acham que eles conseguiram a tecnologia para o enriquecimento de urânio? China? Muito óbvio! Rússia? Também. A resposta certa é um bem menos chamativa.
O Dr. Abdul Qadeer Khan, um dos fundadores do programa de armas nucleares do Paquistão, admitiu ter contrabandeado hiper-centrífugas e um bocadinho de urânio para os amigos norte-coreanos em troca da tecnologia de mísseis deles. Paquistão, o país onde ficam as escolas islâmicas em que o Taleban se formou. Os gringos sabiam dessa treta do Dr. Abdul e, no entanto, logo quando decidiram jogar suas bombas nos camponeses afegães, deram uma ajudinha de alguns milhões de dólares para o Paquistão, em troca do uso das bases aéreas deles.
Sim, talvez o presidente Musharraf realmente não esteja aliado aos extremistas – tanto é que andaram “descobrindo” algumas centenas de comandantes da Al Qaeda e enviando pra Washington em troca de milhões de dólares em recompensas – mas pode ser que amanhã, um outro governo menos discreto ou ponderado assuma. Talvez eles tenham a tecnologia de mísseis intercontinentais mais avançada e a vontade de se vingarem do Ocidente por causa da Guerra do Afeganistão.
Mas, os cowboys de Washington talvez não sejam tão ingênuos quanto se imagina. Citando Eric Margolis, correspondente gringo no Paquistão:
Leaked cabinet documents from 10 Downing Street show three months before invading Iraq in 2003, President Bush told British PM Tony Blair that once he finished off Iraq, he planned to “go after” Pakistan and Saudi Arabia. Pakistan was in America’s cross hairs.
E quando será isso? No terceiro ou quarto mandato dos republicanos? Porque até agora eu não vejo qualquer chance de uma nova guerra. E o Paquistão não é que nem o Iraque depois de uma década de embargo, nem o Afeganistão depois de anos lutando contra a invasão dos soviéticos. O exército é bem armado e treinado – já que foi concebido para lutar com a Índia, um adversário bem maior – além de contar com o suporte tecnológico moderado, cedido pelos gringos no passado.
Depois causarem uma grande e irreversível instabilidade no mundo islâmico, os norte-americanos ainda brincam com um possível adversário que pode adicionar muita pimenta no caldo quente que o Oriente se tornou. Alguém tem idéia de qual será a próxima crise nuclear?
Dessa vez, infelizmente, as bombas não serão de festim.
1, 2, 3… testando.
outubro 9, 2006
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A Nova Realidade
Internet à cabo é uma coisa novíssima pra mim, não paguei nem a terceira mensalidade ainda. Conexão baratinha, de 200 kbps, velocidade baixa para dos padrões de hoje. Não precisar gastar telefone pra olhar e-mail, conversar no MSN, navegar e fazer downloads. Legais ou ilegais, os descarregamentos de arquivos são o assunto mais debatido quando se fala do impacto da internet na indústria do entretenimento. No entanto seria bobagem julgar que eles são os maiores responsáveis pelas mudanças que o cyberespaço vem orquestrando no ramo.
Tal impacto já alcança bem além do mercado de CDs, já que ultimamente é possível ter acesso, com relativa facilidade, a mídias de toda espécie: filmes, seriados, quadrinhos, livros, etc. Quer o filme novo do Super-Homem? Você acha. Quer os episódios completos da ultima temporada de uma sitcom qualquer? Está lá, é só ir baixando. Nunca leu a graphic novel V de Vingança? Nem precisa comprar, porque além de dar download nela você ainda vai ter acesso a um programa especial para se ler quadrinhos no PC.
Em resumo, a internet é uma prateleira de onde você pode pegar tudo, tudinho do bom e do melhor que a indústria do entretenimento oferece. Algumas vezes, você vai pegar escondido, enfiar debaixo da camisa e sair correndo, enfim: praticar pirataria, bom e velho crime. Outras vezes você vai ter acesso a músicas, documentários e até mesmo filmes inteiros que foram disponibilizados de graça – a febre do Youtube que o diga.
Se eu quero ler bons contos, comentários, tirinhas e notícias basta visitar um bocado de blogs em seqüência – muitos jornalistas, quadrinistas e escritores têm o seu. Se eu quero assitir videos curtos, dou um pulo no Youtube, se procuro documentários ou videos mais longos, lá está o Googlevideo. E qual artista que não deixa uma musiquinha ou outra pra você ouvir ou baixar no site dele?
De uma forma ou de outra, o que interessa é que a internet proporciona uma infinidade de formas de entretenimento gratuito. Se antes todas essas possibilidades estavam sujeitas a pagamento, agora a realidade não é essa. No entanto, o maior potencial e intensidade dessa revolução não estão no ato de piratear, mas na quantidade absurda de bom conteúdo que a internet oferece e que pode ser adquirido a custo zero e de forma legal.
É certo que o crescente acesso às novas tecnologias (para gravrar vídeos, tirar fotos, diagramar e fazer música) tende a descentralizar o entreitenimento das mãos de grandes empresas (estúdios, editoras, gravadoras ou redes de televisão). Vai haver cada vez mais acesso direto entre o artista e o consumidor.
Hoje eu percebo que sou entretido muitas vezes por pessoas tão “profissionais” do ramo do entreitenimento quanto qualquer um. A maioria não ganha a vida com isso, mas estão aí produzindo mídias que, se não são da melhor qualidade, pelo menos trazem ótimas idéias. Outros, mais conhecidos e competentes, disponibilizam muito do que produzem na rede, como o jornalista e DJ Alexandre Matias e o quadrinista André Dahmer, e nem por isso deixam de atuar profissionalemente.
A tendência promovida pela internet é a de fragmentar a atenção, de tirar muito da audiência das redes de TV e rádios comerciais – uma vez que o acesso tende a aumentar. Cada seleto grupo de consumidores e artistas terão seu espaço, sua comunidade: de apreciadores de música caipira até (os improváveis) especialistas em mixar folk com composições medievais.
Mas e a indústria do entretenimento? Como grandes e pequenas empresas vão ficar?
Eu não faço a mínima idéia. Mas vou arriscar uns achismos em um próximo artigo.
Sem fim
agosto 11, 2006
Israel tem o direito de responder aos ataques do Hezbollah? Sim, mas está indo muito além disso. A impressão que eu tenho quando leio as notícias daqui é a de que, além de parar os mísseis do grupo radical, há a clara intenção de “dar o recado” ao Líbano destruindo o país. Fazer o governo e todos os cidadãos pagarem o preço de não terem contido o “Partido de Deus”. Em uma certa coletiva foi dito que “Israel está lutando agora para não ter que lutar uma luta ainda maior daqui a dez anos”. A boa e velha falácia da guerra preventiva é a regra do cenário atual, e não há outra coisa a se esperar de uma nação tão militarizada quanto Israel.
No entanto acho que essa pretensa destruição do Hezbollah não vai dar paz a Israel nem em 10 e nem em 100 anos. Vou tentar explicar meu ponto de vista.
A maioria dos grupos radicais e movimentos de resistência islâmicos opera com uma infraestrutura bem precária em termos militares, mas com pequenas brigadas ou células que buscam causar atentados simples que não demandam um grande aparato bélico. A idéia de um atentado é quase sempre a de chamar atenção, de causar o terror na população local. Matar civis num café em Tel-Aviv não muda nada, é terrorismo, é expressão de um ódio. Para fazer isso, o maior bem que os grupos radicais dispõem são seus militantes.
O Hezbollah não age da mesma forma. Trata-se de um partido constituído durante a guerra civil no Líbano, buscando instaurar naquele país uma revolução islâmica nos moldes da iraniana. É um grupo bem armado, que combate com a ajuda financeira da Síria e do Irã. Sim, olhando por esse ponto a declaração do porta-voz israelense de “lutar agora para não lutar depois” faz muito sentido.
No entanto, com a situação de paz no Líbano o “Partido de Deus” estava sob a provação e o questionamento da população local, que já não esparava nenhuma revolução islâmica e via o país crescer de novo depois da devastadora guerra civil. E foi para “mostrar serviço” que o Hezbollah sequestrou os soldados israelenses no posto da fronteira. Agora, mesmo diante dessa guerra causada pela falta de dimensão e responsabilidade do Hezbollah, o ódio a Israel tende a crescer. A ação arbitrária e desproporcional do Exército Israelense vai alimentar a idéia de que os judeus realmente querem matar todos os muçulmanos. E é essa idéia (que não deixa de ser um valor simbólico do ódio) que legitimou grande parte da resistência e do terrorismo palestinos, que torna possível que indivíduos se voluntariem como homens-bomba, que levou o Hamas e o Hezbollah ao poder político. [1] [2]
O panorama atual deve muito às ações de Israel no passado, de guerras e ataques que deveriam garantir a paz. No futuro em que eu vejo, depois dessa destruição orquestrada do Líbano, teremos mais ódio, mais militantes radicais, mais ajuda externa do mundo árabe aos grupos extremistas locais. O Hezbollah pode sumir, mas não é a ele que os cidadãos libaneses vão creditar o sofrimento e a destruição do seu país. [3]
[1] Ao se tornarem partidos políticos, esses movimentos passam a ser cobrados de forma diferenciada pela população. Não basta desfilar com fuzis AK e mísseis para conquistar o respeito do povo, nem tampouco atacar Israel. Eles precisam agir com responsabilidade, além de garantir boas condições de vida e infraestrutura para suas comunidades. O Hezbollah, não foi capaz de assegurar melhoria nas condições de vida da população xiita libanesa (socialmente excluída naquele país) e justamente por isso estava sendo questionado.
[2] Nobert Elias, um dos mais notáveis sociólogos dos século XX, tece uma análise interesante a respeito do terrorismo alemão nas décadas de 60 e 70. Grupos como a RAF, o SPK e as Células Terroristas se baseavam na crença de que o Estado Alemão Ocidental era facista (por seu apoio à guerra do Vietnã, entre outros motivos) e que por isso deveria ser combatido. Muito pode ser argumentado em torno disso, mas não é possível dizer que a Alemanha Ocidental era fascista. No entanto, à medida que restringia os direitos dos cidadãos, trocava leis, assassinava presos políticos e tomava medidas drásticas na luta contra o terrorismo, a Alemanha Ocidental se aproximava cada vez mais da idéia de um Estado Fascista. Isso proporcionava a legitimidade necessária aos grupos terroristas e fazia com que eles conseguissem respaldo junto à população (especialmente entre os estudantes). Dessa forma os grupos sempre tinham novos militantes e recursos. Mas à medida que cresciam, o governo apertava o cerco ainda mais alimentando um ciclo vicioso. Tal ciclo só foi quebrado à partir das mudanças no Bloco Soviético e a subsequente queda do comunismo. Quando penso no terrorismo islâmico, faço uma análise um pouco similar a essa (com muitas ressalvas, claro).
[3] Há quem diga que a população islâmica possui um ethos guerreiro, fundado nas escrituras do Corão. Como nunca li o Corão, não posso argumentar contra isso. No entanto, penso que um país muito militarizado, como é o caso de Israel também tenderá a procurar o conflito como maneira de resolver suas questões.
Teoria do Egoísmo
junho 9, 2006
A perspectiva de Stirner clama que o mundo moderno reproduziu, ao invés de abolir, os modos religiosos de pensamento. Partindo desse ponto ele ataca muitos de seus contemporâneos da esquerda hegeliana, em particular Ludwig Feuerbach, por falharem em superar a subordinação do indivíduo ao espírito.
Stirner é julgado por niilista, devido a sua rejeição explícita pela moralidade. Moral, na sua concepção, envolve o estabelecimento de obrigações para se comportar de determinadas maneiras. Dessa forma, Stirner rejeita a moralidade como incompatível com o egoísmo propriamente entendido. Todavia sua rejeição da moralidade não é suportada pela rejeição de valores em si, mas pela afirmação do que ele chama de “bens não-morais”.[1] Stirner entende que há ações e desejos, ainda que não morais em senso (por não envolverem obrigações para com terceiros) seriam positivos, certos tipos de indivíduos e ações deveriam ser valorizados acima de todos. Sua concepção de moralidade é, a esse respeito, muito estreita, e sua rejeição da legitimidade da moral não deve ser confundida com a extinção de todo julgamento normativo. Uma ambigüidade se presentifica em Stirner, quando ele faz um uso explícito de um vocabulário valorativo, como, por exemplo, quando ele glorifica o egoísta por ter a coragem de mentir, ou condena a fraqueza de um indivíduo que sucumbe a uma pressão de sua família.[2]
Dois pontos do pensamento de Stirner emergem como fundamentais. Primeiro ele valoriza a “propriedade de si” não como a melhor de todas as beneces, mas como a única benesse possível. Segundo, ele adota a noção de self-mastery que é incompatível com a existência de quaisquer deveres legítimos para com terceiros, até aqueles que um indivíduo voluntariamente acolheu.
Seria o egoísta de Stirner um senhor de Nietzsche? Certamente não, mas não podemos deixar de perceber que ambos interagem de forma bastante similar. O senhor em Nietzsche é um indivíduo centrado em si, ao passo que o escravo faz de outro o centro de suas atenções – o escravo não é o ponto de referência do senhor, o senhor é diferente unicamente por sua singularidade – também dotado de um pathos distanciamento. O senhor de Nietzsche é um ser grato pela vida, ativo, ascendente, movido pelo prazer. Mas seria o senhor um desviante? Presente em um mundo permeado pela moral escrava, criador de uma nominação própria. Quem viverá de acordo com o que o senhor criou? Tanto quanto o egoísta de Stirner, o senhor de Nietzsche preza por uma afirmação de si, por uma escolha da vida.
A perspectiva de que os fracos se apoderaram da linguagem e assumiram o ponto de vista da fraqueza (i.e. cristianismo, igualdade) trás a idéia de um mundo dominado pelos espíritos submetidos.
A idéia nietzscheana união como uma atitude essencialmente escrava marca um ponto de polêmica entre os pensadores. Stirner acredita que uma sociedade dos egoístas consistiria não apenas por indivíduos isolados, mas também de relações de “união”, ou seja, conexões impermanentes entre os indivíduos – estes permaneceriam independentes e auto-determinantes. A idéia centra de uma união de egoístas é que ela jamais envolverá a subordinação dos indivíduos. A união é tida por Stirner como uma colaboradora da autonomia, pois seria capaz de unir os homens sem que fosse necessário “juramento a uma bandeira”. Seria essa união temporária considerada por Nietzsche como um sinal do gregarismo típico a uma moral escrava? Talvez seu caráter de impermanência e insubordinação salvasse essa idéia da implacável espada de Nietzsche.
(O velho Nietzsche ainda é o meu preferido. O texto integral pode ser conferido aqui.)
[1] A filosofia nietzschiana, igualmente acusada de niilista, não prega o abandono dos valores – na verdade sua pretensão é a de criar valores.
[2]Claro, o egoísmo celebrado por Stirner nada tem a ver com uma busca pessoal por riqueza. Antes disso, é na verdade uma espécie de autonomia radical, de auto-governo. O que ele define como a “propriedade de si” (na falta de uma tradução melhor para o termo owness) é um tipo de autonomia incompatível com qualquer suspensão, voluntária ou forçada, do julgamento individualista. Como ele mesmo proclama I am my own, only when I am master of myself, instead of being mastered… by anything else.






